05 Fevereiro 2009

Façam-me um favor

Roubaram-me o computador portátil. O toshibazinho. Mais do que censurar quem o roubou estou há cinco horas a insultar-me a mim mesmo: tinha lá trabalhos de centenas de páginas, fotos íntimas de sítios, situações e pessoas, músicas que dificilmente terei a oportunidade de voltar a reaver. Dava dois computadores novos melhores do que aquele a quem mo roubou só por ter a oportunidade de fazer uma cópia do disco. É impressionante a quantidade de vida que deixamos num chip. Façam um favor a vós mesmos: vão fazer uma cópia de segurança ao vosso disco.

24 Dezembro 2008

Boas Festas

«E se o velho descesse da carroça para espairecer, e olhasse para o sítio onde havia uma bomba de água, que os soldados tinham feito explodir, sem que nada ficasse de pé, e lamentasse perguntando: Como vamos resolver o problema da água?, ele, Michael, tiraria da algibeira uma colher de chá e um fio muito comprido, limparia o cascalho à volta do orifício, formaria uma argola com o cabo da colher, atando-lhe um fio, faria descer a colher até às profundidades da terra e, quando a puxasse para cima, a colher traria água. E diria: É quanto basta para se viver. »(J.M. Cotzee, A Vida e o Tempo de Michael K.)

Feliz Natal.

Boas Festas.

22 Novembro 2008

Sugestões para fugir à crise

A Carlota escreve no Geração Rasca que utliza intermediários, como o easycar, para alugar carros quando se desloca a Portugal, uma vez que poupa uns bons euros do que se optasse por negociar directamente com as companhias.
Ora como a crise aperta e, em meu entender, não devemos deixar de fazer as coisas que gostamos apenas por ter uns euros a menos no bolso, a solução é fazer o mesmo gastando menos. Apresento-vos, portanto, também uma solução idêntica para os hotéis: a Hotels Combined. Esta agência consegue ter preços mais baixos cerca de 20 a 30% do que aquilo que eu pensava que era o melhor fornecedor online de hotéis: o booking.com. Este intermediário agrega os melhores preços do mercado para o mesmo hotel e compara-os. São cerca de trinta agências e podem consultar neste post algumas delas, sendo que a referência é aqui feita porque foi lá que descobri esta solução. O seu a seu dono.

Ironias

«quatro post´s em três dias: estás doente ou foste despedido?»

21 Novembro 2008

Toscânia

Ciprestes, Chianti (vinhas e vinho) e Florença. Inesquecíveis.
(Verão/2008 - cheio de vontade lá voltar)


Carlos Malmoro

18 Novembro 2008

Injustiças

Quando comecei a bloggar, não havia contadores de visitas e era injusto não poder aferir o eco que o blogue provocava. Depois apareceram em força, e rapidamente me senti injustiçado com tais bichinhos, porque me diziam que um blogue que era alimentado quase dia sim dia sim, com a minha melhor verve, tinha 4, 5, ou em dias especiais, seis visitas. Hoje em dia, que não posto nada há dois meses, tem uma média de 17 visitas diárias. Uma injustiça, igualmente. E o que vem esta gente procurar aqui: guias para terroristas, como decorar caixas, artigos sobre concorrência monopolista, imagens da Baviera, frases finais, artigos sobre proporcionalidade inversa ou um lamiré sobre o maior pão do mundo. Enfim, injustiças que o Google praticou contra quem queria saber mais sobre estes nobres assuntos e perdeu o seu tempo vindo até aqui. Excepto, claro, no caso do guia prático para terroristas: se lerem o blogue da frente para trás e de baixo para cima está cá tudo.
Carlos Malmoro

23 Setembro 2008

Brandi Carlile

Uma rapariga sem história, que não sabe onde esteve nem como chegou onde está.

«All of these lines across my face
Tell you the story of who I am
So many stories of where I've been
And how I got to where I am.»(...)

foto

19 Agosto 2008

Enjoy the Silence

Há um mês atrás, no dia 19 de Julho de 2008, conduzi novecentos quilómetros. Na manhã desse sábado tive de cumprir um compromisso inadiável e no Domingo seguinte teria de acorrer a uma situação mais complicada. Restou-me então ir e regressar a Lisboa no mesmo dia. Alguns amigos e outros conhecidos perguntaram-me se não teria sido louco pelo dispêndio de tempo, de energia e, em última análise, de dinheiro. Mas o meu tempo a minha energia e o meu dinheiro servem única e exclusivamente para me proporcionarem momentos como aquele minuto. Aquele minuto em que questionei o meu agnosticismo e me rendi à transcendência. Aquele minuto em que uma voz calou dez mil. Aquele minuto pelo qual faria quantos novecentos quilómetros fossem necessários. Aquele minuto que recompensou cada um dos minutos das nove horas que passei dentro do automóvel. Aquele minuto, aquele minuto inicial de if it be your will. Aquele minuto num concerto de música em que não houve música. Aquele minuto em que se falou, melhor, em que se declamou o poema, melhor, a oração que nos permite enfrentar as agruras da vida. Naquele minuto houve uma voz que falou para todos os nossos minutos e que disse:

«If it be your will
That I speak no more
And my voice be still
As it was before
I will speak no more
I shall abide until
I am spoken for
If it be your will
If it be your will
That a voice be true
From this broken hill
I will sing to you
From this broken hill
All your praises they shall ring
If it be your will
To let me sing
From this broken hill
All your praises they shall ring
If it be your will
To let me sing»(...)

29 Julho 2008

Cinco anos mais perto

A 29 de Julho de 2003, lá decidi publicar aquilo. O texto já estava escrito. Naquela altura o pudor em mostrar o que escrevia era tanto que primeiro alinhavava as ideias no papel, depois passava no Word e finalmente é que copiava o texto para o blogger. Mais tarde, passei a escrever só no processador de texto e depois publicava o post. Causava-me calafrios a ideia de a gramática ser atropelada por causa da pressa. Com o hábito, comecei a escrever e publicar directamente no blogger. E admito que com essa nova e mais apressada forma de postar o Português tenha sofrido.
Há 5 anos a blogosfera em Portugal dava os primeiros passos. Quem começou por essa altura, sabe que o blogger não permitia caixas de comentários, sabe que quase era necessário ser programador para colocar imagens e que só um técnico especializado em templates sabia fazer um link ou uma barra lateral com as preferências [blog roll]. No entanto, eu já apanhei a vaga de crescimento do blogger: em menos de um ano tornou-se fácil fazer tudo isso. Consequentemente, a aparência dos blogs uniformizou-se.
Os media tradicionais reagiram com desconfiança ao advento da blogosfera. Pedro Rolo Duarte dizia ser contra os colunistas, como por exemplo Pedro Mexia que na altura mantinha o Dicionário do Diabo, que tinham espaços na imprensa escrita e que abriam blogs, retirando «audiência» às outras vozes que não tinham acesso aos jornais como autores. Essa foi uma das maiores polémicas da blogosfera, sendo que não tinha nenhum motivo para sê-lo, uma vez que PRD não disse mal da blogosfera em si. Mais tarde foi a vez de Vasco Pulido Valente escrever uma crónica sobre blogs. Primeiro, ao seu estilo, ou seja, que éramos todos uns miseráveis, mais tarde a enamorar-se pelo encanto destes bichinhos até abrir um estaminé. A tendência foi sendo cada vez mais esta: a aceitação de um fenómeno que veio para ficar, sendo que aqui a democratização do espaço não significou a possibilidade de acesso dos menos ouvidos ao blogger, mas antes a crescente apetência que os opinion-makers, políticos e gente com mais poder público mostraram por criar um espaço destes.
Cinco anos depois sei apenas alguma coisa sobre blogs: a principal razão para alguém carregar no botão «publicar» pela primeira vez é criar algo diferente. Esta á para mim a maior das virtudes dos blogs. Se é verdade que os blogs também ajudam a manter hábitos de escrita regulares, o tentar fazer diferente preside a todas as motivações. Outra coisa que os blogs proporcionam é um conhecimento cultural mais vasto: já comprei discos de bandas que o André meteu no videopost a rodar, já li livros de autores que não conhecia até, por exemplo, a Leonor e a Vera terem copiado excertos deles aqui para o GR. Sei mais sobre música, livros, quadros, filmes hoje do que sabia há cinco anos, não só, mas também por causa da blogosfera. E acima de tudo as pessoas.
A blogosfera faz-nos ficar mais perto das pessoas. Travamos conhecimentos, entramos e polémicas, fazemos jantares, desburocratizamos relações, mandamos vir livros de uma cidade que um amigo vai visitar, o gestor fala com o filósofo, o cronista com a professora. Até agora foram cinco anos a escrever. Foram cinco anos a ficar mais perto das pessoas.
A quem me acompanha na viagem, o meu sentido obrigado pela companhia. Bem-hajam.

22 Julho 2008

Muito para além da música

Como sou confesso e orgulhoso fã de cada palavra que Cohen escreve e canta, pensava que era uma subjectividade própria de admirador ter achado que o que viu, e essencialmente o que viveu, no sábado passado não tenha termo de comparação com nada do que até então assistiu. Para tirar tais dúvidas e também para não fazer um balanço em que me limitasse a debitar elogios ao senhor, convoquei os jornais para me ajudarem a ser mais objectivo.
No IOL Diário, dizem que foi "um espectáculo tão inesquecível para quem assistiu como, pelas suas palavras, para o próprio Cohen: «Thank you for this memorable evening!»" . O Diário de Notícias da Madeira afirma que "Cohen cantou "Bird on the wire" como se fosse uma oração, embalou o público com "Take this waltz", recordou "Hallelujah" e "Suzanne" em momentos de fazer arrepiar os mais distraídos." O JN não se poupa: "A partir daí é um abuso de deslumbre: "Suzanne", "The gipsy wife", "Hallelujah", "I'm your man", "Take this waltz", "Firts we take Manhattan", "Sisters of Mercy" ou "I tried to leave you". Há encores pelo meio, o público esmagado pela magnificência desta música enorme. Leonard Cohen não mais deverá cá voltar. Felizardos são aqueles que testemunharam tudo isto." O DN, para esclarecer o leitor ao que vai, abre a sua notícia desta forma: "Cantou, dançou, tocou, falou, disse poemas em tom de oração e outros num registo de protesto, elogiou a música portuguesa, sorriu muito e no fim agradeceu uma "noite memorável". Quem o viu - e foram cerca de nove mil - não vai esquecer aquele que foi um dos melhores concertos dos últimos tempos em Lisboa." E o Destak conclui que "For he's touched your perfect body, with his mind. As palavras, sussurradas por 10 mil pessoas, em Suzanne, transmitiam na perfeição o sentimento que tomou conta, sábado, de uma plateia rendida e avassalada, ao ar livre em Algés, numa noite de Verão que superou qualquer expectativa."
Após este pequeno apanhado de notícias, sou levado a crer numa de três coisas: ou o senhor nos enganou a todos muito bem, ou as redacções dos jornais estão cheias de fãs incondicionais de Cohen, ou aquilo que se passou em Algés no Sábado passado foi mesmo muito especial. Não me restam dúvidas em qual acreditar.
Carlos Malmoro

19 Julho 2008

É hoje, é hoje

Musicalmente falando, hoje talvez seja um dos dias mais importantes da minha vida. Vou assitir ao concerto de Leonard Cohen. O cantor canadiano desloca-se a Portugal para um concerto único a ter lugar no Passeio Marítimo de Algés.

Se procuram em Cohen uma voz certa, límpida, com técnicas vocais de sobe e desce nas escalas ou um utilizador exímio de graves e agudos, esqueçam-no de vez. Nada em Cohen é agudo. Tudo é grave. A voz de Leonard Cohen não tem nada de musical. Tem apenas toda a alma do mundo lá dentro.

Se procuram na música de Leonard Cohen ritmos exuberantes, guitarras com tecnicismos dos brinca-na-areia ou um músico que se limita a fazer bem um estilo, esqueçam-no. A música de Cohen não se compadece com tais perfeições. A música dele é imperfeita. Como a vida.

As letras de Cohen não são letras. São poemas dos mais perfeitos alguma vez feitos. Falam de amor, de morte, de política, de depressão, de alegria, da crença, de ser. Mais do que falar, os poemas de Cohen são tudo isso. E tudo isso é apenas a vida no que de mais profundo tem para oferecer ao ser humano.

Bem-vindo, Mr Cohen. Obrigado por esta última oportunidade. E, logo à noite, vamos deixar a sua Sabedoria entrar nas nossas almas. Uma vez mais.



PS: Parece que por aqui quiseram fazer uma "guerra" ou um "derby" entre o que era melhor: Lou Reed ou Cohen. Como se não fossem os dois gigantes. Como se fossem Sporting e Benfica. Vejam-nos aí em cima, na cerimónia de entrada do cantor canadiano para o Rock and Roll Hall of Fame. Cohen a dizer que é fã de Reed desde sempre e Reed a dizer que é uma sorte estar vivo ao mesmo tempo que Cohen. Por vezes somos mesmo muito pequenos.

18 Julho 2008

1 ("there´s not enough soul left in the world to write another song like this")



Para S.



Dance me to your beauty with a burning violin
Dance me through the panic 'til I'm gathered safely in
Lift me like an olive branch and be my homeward dove
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love
Oh let me see your beauty when the witnesses are gone
Let me feel you moving like they do in Babylon
Show me slowly what I only know the limits of
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love

Dance me to the wedding now, dance me on and on
Dance me very tenderly and dance me very long
We're both of us beneath our love, we're both of us above
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love

Dance me to the children who are asking to be born
Dance me through the curtains that our kisses have outworn
Raise a tent of shelter now, though every thread is torn
Dance me to the end of love

Dance me to your beauty with a burning violin
Dance me through the panic till I'm gathered safely in
Touch me with your naked hand or touch me with your glove
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love

17 Julho 2008

2



If you want a lover
Ill do anything you ask me to
And if you want another kind of love
Ill wear a mask for you
If you want a partner
Take my hand
Or if you want to strike me down in anger
Here I stand
Im your man

If you want a boxer
I will step into the ring for you
And if you want a doctor
Ill examine every inch of you
If you want a driver
Climb inside
Or if you want to take me for a ride
You know you can
Im your man

Ah, the moons too bright
The chains too tight
The beast wont go to sleep
Ive been running through these promises to you
That I made and I could not keep
Ah but a man never got a woman back
Not by begging on his knees
Or Id crawl to you baby
And Id fall at your feet
And Id howl at your beauty
Like a dog in heat
And Id claw at your heart
And Id tear at your sheet
Id say please, please
Im your man

(...)

Carlos Malmoro

16 Julho 2008

3




Well my friends are gone and my hair is grey
I ache in the places where I used to play
And Im crazy for love but Im not coming on
Im just paying my rent every day
Oh in the tower of song

I said to hank williams: how lonely does it get?
Hank williams hasnt answered yet
But I hear him coughing all night long
A hundred floors above me
In the tower of song

I was born like this, I had no choice
I was born with the gift of a golden voice
And twenty-seven angels from the great beyond
They tied me to this table right here
In the tower of song

So you can stick your little pins in that voodoo doll
Im very sorry, baby, doesnt look like me at all
Im standing by the window where the light is strong
Ah they dont let a woman kill you
Not in the tower of song

Now you can say that Ive grown bitter but of this you may be sure
The rich have got their channels in the bedrooms of the poor
And theres a mighty judgement coming, but I may be wrong
You see, you hear these funny voices
In the tower of song

(...)

Carlos Malmoro

4



Everybody knows that the dice are loaded
Everybody rolls with their fingers crossed
Everybody knows that the war is over
Everybody knows the good guys lost
Everybody knows the fight was fixed
The poor stay poor, the rich get rich
That's how it goes
Everybody knows
Everybody knows that the boat is leaking
Everybody knows that the captain lied
Everybody got this broken feeling
Like their father or their dog just died

Everybody talking to their pockets
Everybody wants a box of chocolates
And a long stem rose
Everybody knows

Everybody knows that you love me baby
Everybody knows that you really do
Everybody knows that you've been faithful
Ah give or take a night or two
Everybody knows you've been discreet
But there were so many people you just had to meet
Without your clothes
And everybody knows

Everybody knows, everybody knows
That's how it goes
Everybody knows

....

Carlos Malmoro


14 Julho 2008

5

The birds they sang

at the break of day

Start again

I heard them say

Don't dwell on what has passed away

or what is yet to be.

Ah the wars they will be fought again

The holy dove She will be caught again

bought and sold and bought again

the dove is never free.

Ring the bells that still can ring

Forget your perfect offering

There is a crack in everything

That's how the light gets in.

We asked for signs the signs were sent:

the birth betrayed the marriage spent

Yeah the widowhood of every government -

- signs for all to see.

I can't run no more with that lawless crowd

while the killers in high places say their prayers out loud.

But they've summoned, they've summoned up a thundercloud

and they're going to hear from me.

Ring the bells that still can ring ...

You can add up the parts but you won't have the sum

You can strike up the march, there is no drum

Every heart, every heart to love will come

but like a refugee.

Carlos Malmoro

13 Julho 2008

6



Baby, I've been waiting,
I've been waiting night and day.
I didn't see the time,
I waited half my life away.
There were lots of invitations
and I know you sent me some,
but I was waiting for the miracle,
for the miracle to come.

I know you really loved me.
but, you see, my hands were tied.
I know it must have hurt you,
it must have hurt your pride
to have to stand beneath my window
with your bugle and your drum,
and me I'm up there waiting for the miracle, for the miracle to come.

Ah I don't believe you'd like it,
You wouldn't like it here.
There ain't no entertainment
and the judgements are severe.
The Maestro says it's Mozart
but it sounds like bubble gum
when you're waiting for the miracle, for the miracle to come.

Carlos Malmoro

24 Junho 2008

Ao que isto chegou

Anda um homem atrás de uma pen que julga perdida.
Anda um homem de 34 anos, já com idade para manter uma certa compostura, a examinar todos os cantos da casa.
Anda um homem com idade para digno, de rabo para o ar, em busca de uma peça informática.
Um homem com estudos, aliás, que estuda ainda, com um emprego a sério, cheio de reuniões na agenda, e tal, respeitado na «praça» e tudo, e anda este homem de cócoras, a humilhar-se por causa de uns pingos de solda a que deram o nome de circuito integrado e que é suposto guardar mais informação que o seu cérebro.
E é assim que se passa uma vida: sem compostura, de rabo para o ar, indigno e humilhado por causa de um bocado de plástico azul.

26 Abril 2008

Noites certas para certas canções

disarm you with a smile

...

send this smile over you


....


25 Abril 2008

Marketing

Foi nos anos oitenta, como por aqui já se disse, que a música, e podemos mesmo dizer a arte em geral, começou a viver muito da imagem. Mas não foi só o meio artístico que começou a olhar para a imagem como uma necessidade. Se é certo que os videoclips eram obrigatórios, as capas dos livros e dos discos eram cada vez mais pensadas para serem apresentadas como obras de arte, também os políticos perceberam que para além da ideologia fazia falta uma imagem e um conceito que passasse bem nos media (a eleição de um actor de Hollywood para presidente dos EUA é um bom exemplo). Ou seja, o marketing entrou nas mais diversas áreas da vida pública.
Não se pense, porém, que associar marketing a livros, discos, candidaturas ou eventos desportivos é um mal em si mesmo. Para os puristas que vêem no marketing uma deturpação da verdade que eles e só eles conhecem talvez seja. Mas é bom não esquecer que até os críticos da economia de mercado rendem-se a ele - um conceito do marketing puro e duro (a diferenciação do produto) está presente em todas as obras saramaguianas: a capa é sempre amarela e o título vai buscar a inspiração aos diversos tipos de documentos escritos (manual, ensaio, memorial, história, etc). Na política, penso que Portugal teria perdido um bom primeiro-ministro como Cavaco, se este não tivesse uma boa máquina de marketing por trás. Digo isto porque considero que enquanto pessoa, Cavaco Silva é reservado demais para o tipo de político que os cidadãos da altura exigiam. E, em meu entender, isso ter-lhe-ia sido fatal.
Em suma, a utilização do marketing para melhorar e apresentar como mais apelativa uma ideia ou produto é sempre vantajosa para estes. O que realmente é preocupante é quando o marketing tenta obviar a má qualidade do produto ou ocultar a inexistência da ideia. Mas aí nem o melhor marketing do mundo consegue tal proeza.
Carlos Malmoro

18 Abril 2008

Ele falava. Ele saltava. Ele voava. Ele atirava piropos a viaturas mais bonitas. Ele tinha "emoções". Ele tinha um inimigo de estimação. Ele deitava lume. Ele era "o homem que não existia". Ele podia deslocar-se sem fazer ruído. Ele espalhava óleo na estrada. E eu, na minha inocência, esperava pelas 19 horas de domingo para ver na RTP 1 um carro com estas características, que servia de parceiro a um tipo que dizia estar numa cruzada para proteger os oprimidos e os indefesos dos criminosos que actuam à margem da lei.
Mesmo para quem tinha doze anos, há coisas embaraçosas de se confessar.



PS: parece que ele vai voltar

Carlos Malmoro

02 Abril 2008

A Ronda da Hora do Almoço

  • Parabéns muito, mas mesmo muito, atrasados à Pitucha por mais um aniversário do magnífico "No Cinzento de Bruxelas". Ficar-lhe-ei sempre grato o facto de ter ajudado este blogue que mantenho há quase meia década (com falhas, eu sei, com falhas) a entrar no sistema. Sinceros votos de felicidades à autora e entrego aqui e agora o requerimento para que continue com o excelente trabalho. Peço deferimento.
  • O Mike, outro aniversariante, com o seu blogue quase perfeito, completou um ano de vida blogosférica e pediu-me que escrevesse um texto sobre "Um país quase perfeito". Parabéns pelo excelente trabalho que tem realizado e fica aqui um cheirinho do texto que lhe enviei:

«A Perfeição não existe. Embora seja esta uma verdade universal, penso que é aqui que começa o mal-estar dos portugueses com Portugal – exigem uma nação perfeita. Não exigem que a companheira seja perfeita, até porque dá um certo charme aquele defeitozinho, não exigem que a família seja perfeita, porque todos temos os nossos dias menos bons, e as discussões são sinais de preocupação, e uma palavra em excesso que por vezes escapa é sinal que somos humanos, não exigimos amigos perfeitos, porque uma das provas da amizade é justamente apontar ao amigo as suas imperfeições. E é justamente esta multidão de gente imperfeita, a que eu darei o nome de portugueses, que exige um Portugal perfeito.» (...)

Carlos Malmoro

Nunca digas Nunca

Ora bem, parece que o homem vem mesmo a Portugal e a Espanha no Verão, pelo que, parece, ainda são só suposições, tenho a maior frustação musical da minha vida a poucos meses de ser resolvida - assistir a um concerto de Leonard Cohen. Agora, enquanto se deliciam com o video aí em baixo, eu gostava de deixar esta pergunta no ar: quem teve a infeliz ideia de promover um concerto do senhor Cohen ao ar livre?



Carlos Malmoro

24 Março 2008

How many special people change?

How many lives are living strange?

Carlos Malmoro

21 Março 2008

A Política também pode ser Poesia

Angela Merkel é a governante internacional que mais admiro. Várias são as razões para tal eleição, mas desde logo a mistura de pragmatismo com humanismo, de saber muito bem o que é acessório e o que é essencial, e aquela imagem de uma liderança serena que transmite resultam na minha preferência.

Entre outras coisas, Portugal ficará a dever-lhe muito do Tratado de Lisboa. Sem a sua força negocial Sócrates não tinha «peso» para obrigar a cedências dos eurocépticos e o tratado teria hoje o nome de uma outra cidade.

Mas o que hoje aqui me traz é um outro assunto: Merkel tornou-se na primeira Chanceler a discursar no Knesset (Parlamento Israelita). Simbolicamente vestida de preto, fez o discurso em alemão e agradeceu a honra de o deixarem fazê-lo na língua materna. Mas abriu e fechou em hebraico – no final a proferir um significativo “Shalom” (Paz). Disse coisas tão fortes como esta: «A nós, alemães, a Shoah cobre-nos de vergonha. Inclino-me diante de suas vítimas, dos seus sobreviventes e daqueles que os ajudaram a sobreviver.» Foi calorosamente aplaudida pela sala. A Extrema-Direita israelita e o Hamas condenaram a iniciativa, o que me leva a aprová-la à priori. Merkel, mais uma vez, fez aquilo que deveria ser feito: não pediu perdão por uma monstruosidade imperdoável – disse é a nossa vergonha; não tentou branquear o passado - assumiu-o. E são atitudes como esta, quer do lado alemão quer do lado israelita, que dão alguma esperança ao futuro da Humanidade. Porque o que se passou na terça-feira no Knesset não foi política. Foi a escrita de mais um verso do «Poema da Esperança».

Carlos Malmoro

19 Março 2008

Pai

Deveria eu ter quatro ou cinco anos quando o meu pai me levou a casa de um amigo. O amigo era advogado, tinha uma biblioteca exemplarmente encadernada e a razão da visita prendia-se com uma oferta de livros. Melhor, o amigo precisava de se ver livre de uns quantos livros. A casa ia encolher, a mulher para um lado, ele para o outro e se não os oferecesse, iriam directamente para o lixo. Enfim, bookcrossing nos anos 70. O meu pai pôs-lhe uma condição: assim como ele nunca lhe oferecera nenhum livro de farmácia, também tu não me vais oferecer nenhum livro de Direito. A condição, uma daquelas tricas que a amizade permite, lá foi aceite.

Entrámos em casa do jurista e eles começaram a falar. Eu já aqui disse que tinha uma predilecção por estantes até ao tecto. Aquelas não chegavam tão alto, mas a encadernação sumptuosa dos livros transformavam aquela pequena sala numa grandiosa biblioteca. A escolha dos livros foi feita e o meu pai e o amigo encheram dois ou três caixotes com livros e levaram-nos até ao carro. Via-se na cara dele que ele estava a fazer aquilo por obrigação: o desconsolo era o seu rosto. Antes de se despedirem, o meu pai teve uma daquelas tiradas meio cinematográficas, mas que ilustram bem o que é a amizade: -Quero que saibas que estes livros serão sempre teus; estarão na minha casa apenas por empréstimo.

Para quebrar este momento solene e extraordinário, entra um puto na sala, eu, com ares de senhorio, a dizer «ó pai, eu também quero um», com a habitual chantagem lacrimal. Riem-se com bonomia e oferecem-me um livro. E já viram algum miúdo de quatro ou cinco anos ficar satisfeito com a primeira coisa que lhe dão? Exacto, «mas eu quero aquele e não este.» «Este ou nenhum» deve o meu pai ter dito. E eu lá fui para casa com “o” livro.

“O” livro está aqui ao meu lado. Foi publicado em 1957, é da «Editora Fundo de Cultura», do Brasil, tem como director editorial Mário de Moura e como autor John M. Keynes e chama-se «Teoria Geral do Emprego, do Juro e do Dinheiro». É, para quem é leigo nestas matérias, a Bíblia da Macroeconomia (Economia dos Estados). Está aqui ao meu lado, porque ainda ontem precisei de o consultar para a tese, assim como o consultei pela primeira vez no nono ano, aquando dos meus primeiros estudos de economia.
Neste dia do Pai, para além dos desejos habituais de saúde e felicidade, tenho um outro pedido: que a prenda que hoje lhe ofereci se revele tão acertada e tão necessária para a vida dele como este livro tem sido para a minha.
Carlos Malmoro

02 Março 2008

Correntes

Caríssima Carlota,
o meu pouco tempo deve-se à tese que ando a escrever e que defende que os Estados devem apostar em empresas com a qualidade da Audi, propõe que as empresas devem desenvolver produtos com a mais-valia do Audi A4, mas infelizmente não encontra soluções para que o autor de tal teoria compre um Audi A4. E agora que ponho as coisas nestes termos, vejo que há algo de muito errado na tese que ando a escrever. Adiante, e respondendo de imediato ao desafio, aqui vão cinco coisas que não têm importância nenhuma sobre mim:
1 - Conduzir com música é um prazer, sem música é um sacrifício;
2 - Se retirarmos fatos de cerimónia, visto as peças de roupa que compro mal sequem da primeira lavagem que levam após chegarem da loja;
3 - Sou generoso nos adjectivos que substanciam o meu gosto por pessoas ou coisas;
4 - Pago sempre as facturas no último dia, nunca dou autorizações de débitos directos às empresas de serviços e exijo sempre facturas em papel;
5 - Escrevo os posts sempre acompanhado de um papelinho que mantenho religiosamente ao lado do computador. Tem cerca de uma centena palavras que gosto especialmente, e que me permitirão responder de imediato à Leonor:
Caríssima Leonor,
O papel acima referido está escrito à mão. Nele aparecem palavras que copio de livros. Nenhuma delas está lá pelo seu significado ou pela sua dificuldade lexical. Fica então uma escolha aleatória de doze delas:
Devastação, mnemónica, istmo, falésia, candil, sussurro, crepúsculo, timbre, sirga, palavra, ímpeto ou candelabro, são algumas das palavras contidas nesta cábula.
Voltando à corrente da Carlota, aqui ficam as Leis:
1. Colocar o link para a pessoa que nos "marcou".
2. Colocar as regras no blog.
3. Partilhar 6 coisas sem importância sobre nós.
4. Marcar mais 6 pessoas no final.
5. Avisar estas pessoas deixando um comentário nos seus blogs.
Convido então a 125_azul, a Ouvinte, o Mike, o Luís, a Monalisa e a Rafaela a continuarem com as correntes.

Carlos Malmoro

27 Fevereiro 2008

Postais de Felicitações

Parabéns atrasados, mas sentidos, por mais um anito de vida do excelente Postais de Bruxelas. Que agora não são de Bruxelas, são de Nova Iorque, mas que por mudarem de cidade ganharam uma mais-valia que não sei se a própria autora se apecebeu dela. Um dia espero desenvolver esta teoria.
Longa vida para o blogue e felicidades à autora.
Carlos Malmoro

07 Fevereiro 2008

Coisas da vida

Mão amiga ofereceu-me o CD de estreia dos Novembro, À Deriva. Quando mo entregou disse qualquer coisa como isto: assim, enquanto o ouves, não falas deles. Foi dito em termos irónicos e com uma boa gargalhada à mistura para não dar azo a uma possível interpretação de aborrecimento pelos meus elogiosos comentários ao grupo. Mas a mim não me enganam: é lógico que estava ali a ser dado um toque. Esta primeira parte do post é exactamente isso - a resposta à provocação: pois bem, estou a ouvir agora mesmo o CD e aqueles tipos são fantásticos, sabem compôr uma música, têm letras inspiradíssimas e duvido que as rádios portuguesas lhes passem cartão - são demasiado sofisticados para o estado geral de mediocridade que os discos que são editados em Portugal têm. Talvez daqui a dez anitos. Como pedi autorização para utilizar isto num post ao meu amigo, suponho que quando ele ler isto me vá pedir o CD de volta. Mas o que tu falaste, R, foi em falar enquanto ouvia, não em escrever enquanto ouvia. E agora, fora de brincadeiras, e para quem me lê: eu nem falo/escrevo assim tanto deles, pois não?...
Voz amiga, quer dizer como foi um mail penso que deverá utilizar-se também a forma de «mão amiga», ou não?, adiante, Voz/Mão amiga fez-me chegar uma mensagem em que dizia mais ou menos isto: tirando post's de economia, música e citações de outros bloggers ou escritores, tu agora só escreves sobre carros e de dois em dois meses. Para quando um texto a sério sobre a problemática do tunning? (smiley). Agora a sério, para quando um post sobre as tuas memórias, as tuas leituras, com aquela verve determinada de dizer tudo sem medo às palavras e nem às emoções, e que me fazia perguntar-te «que andas tu a fazer a estudar económicas?». Depois de pedir autorização à autora para utilizar publicamente o que privada e amistosamente escreveu, serve esta segunda parte do post para responder à altura: queres memórias? queres infância? queres boas recordações? Fica então com o senhor aí em baixo: só ele faz o pleno.

06 Fevereiro 2008

I Have a Dream

...que custa 43.000€.

03 Fevereiro 2008

A Ronda da Noite

  • A Pitucha está deslumbrada com «Crime e Castigo» de Dostoievski. Não é para menos: para falar a sério sobre o livro eu necessitaria sempre de 718 elogiosas páginas para o caracterizar, o mesmo que a versão que cá por casa anda tem. Como não me vou meter nessa aventura, diria que se se queimasse todos os livros, e com bastante pena minha de tantos outros, talvez fosse este que eu pediria para deixar intacto;
  • A Carlota, agora minha colega no GR, faz uma observação na mouche: o barulho do computador parece-se muitíssimo com o som dos motores de um avião. Neste momento, o toshibazinho cá de casa está a fazer-se à pista: «Fala-vos o capitão Malmoro e sugiro que apertem os cintos - mas se entenderem por bem não o fazer eu não obrigo. Já agora pede-se aos senhores passageiros que decidam qual o destino do Boeing que eu ainda não sei para onde ir. Obrigado»
  • A Leonor gosta das palavras despojos e espargos. Eu também gosto da palavra despojos, mas nunca cogitei sobre espargos para lhe atribuir um gosto que não fosse aquele que eles têm no prato. Acho que o gosto por uma palavra está menos relacionado com o que ela significa, no dicionário ou para as nossas vidas, e mais com o som que emite. Eu adoro a palavra devastação. Ela não significa nada de bom, bem pelo contrário. Mas se se pode encontrar um denominador comum com as outras duas já aqui analisadas é que todas elas têm corpo, isto é, não são palavras magras têm por onde se lhe pegar;
  • O Hélder Franco, actualmente também meu colega no GR, teve a feliz iniciativa de fundar um blog sobre o metal. Recomendo para quem como eu gosta deste género de música e, para aqueles que pensam diferente de mim, é um óptimo sítio para desmistificar certos preconceitos em relação ao género rei do rock. O escriba deste arrazoado aguarda com expectativa textos sobre os Metallica, Megadeth ou Sepultura.

Carlos Malmoro

02 Fevereiro 2008

Lisbon after Dark

Balanços & Balancetes

Jornais:
P2
Público
Televisão:
Portugal - Um Retrato Social
Rádio:
Ressurgimento do Rádio Clube Português
Música:
O melhor:
Jorge Palma (português) Arcade Fire (internacional)
O pior:
Concursos televisivos para construir boys bands (já não há que cheguem?...)
Melhor perspectiva:
Novembro
Cinema:
Cartas de Iwo Jima (Clint Eastwood); Promessas Perigosas (David Cronenberg);
Livros:
Cemitério de Pianos (José Luís Peixoto), Todo-o-Mundo (Philip Roth);
Político:
O melhor:
José Sócrates (português); Angela Merkel (internacional)
O pior:
José Sócrates (português); Sarkozy (internacional)
Gestor:
O melhor:
Luis Pallha da Silva (Jerónimo Martins)
O pior:
Todos os que tiveram responsabilidades no BCP
Acções:
A melhor:
GALP
A "nem carne nem peixe":
REN
A Pior:
BCP
Melhor Perspectiva:
Jerónimo Martins e Sonae Capital
(disclaimer: as opiniões sobre as acções expressas acima são análises pessoais e nunca deverão ser levadas em linha de conta em futuras decisões de compra ou de venda das mesmas)

Novembro

A característica mais difícil de conseguir quando se compõe música de fusão é a coerência. Não se pode estar a ouvir uma canção neste estilo e ouvir distintamente cada um dos géneros: tem de ter um só corpo - por isso se chama de fusão. Estas composições têm o cariz de aproximar os modernos da música tradicional e os conservadores da música liberal (não, não estamos a falar de política). Quando a coerência não se alcança, parece que estamos a ouvir uma banda com graves problemas psicológicos ao nível da dupla personalidade ou, eufemisticamente, os instrumentos parecem estar colados com cuspo à canção.

Os «Novembro» são um novo grupo de fusão de música portuguesa com a pop/rock. Apadrinhados por Rodrigo Leão, vão lançar o seu álbum de estreia em Janeiro e, pelo single que se vai ouvindo aí pelas rádios, Solidão a Dois, parecem ser um dos projectos mais arrojados, bem feitos e prometedores para 2008. O cantar cheio de melancolia, os trinados da guitarra portuguesa e a bateria que vai buscar o ritmo à percussão lusa, formam um magnífico par com as guitarras acústicas em distorção, os samples e a estrutura pop do tema. E, claro, como acima disse, neste género musical, a coerência e a consistência do som é a prova da qualidade ou não do trabalho. E, em relação aos «Novembro», só posso dizer que tudo aquilo faz sentido.

24 Dezembro 2007

Boas Festas

«E se o velho descesse da carroça para espairecer, e olhasse para o sítio onde havia uma bomba de água, que os soldados tinham feito explodir, sem que nada ficasse de pé, e lamentasse perguntando: Como vamos resolver o problema da água?, ele, Michael, tiraria da algibeira uma colher de chá e um fio muito comprido, limparia o cascalho à volta do orifício, formaria uma argola com o cabo da colher, atando-lhe um fio, faria descer a colher até às profundidades da terra e, quando a puxasse para cima, a colher traria água. E diria: É quanto basta para se viver. »(J.M. Cotzee, A Vida e o Tempo de Michael K.)
Boas Festas e um Feliz Natal.

Carlos Malmoro

18 Novembro 2007

Olhó carro fresquinho




BMW Welt (Mundo BMW), em Munique, é o nome que tem esta brilhante construção e, simultaneamente todo o conjunto de edifícios (ver foto primeira) da marca bávara. A saber: a torre, que serve de sede mundial da empresa; o museu, que tem aquela forma de círculo cortado a meio junto à torre; a fábrica de Munique, não visível nas fotos, mas uma fábrica como outra qualquer, do lado esquerdo da torre, e este novíssimo BMW Welt, que serve para conferências, reuniões e entregas de automóveis aos clientes. Mas não é uma entrega qualquer: o novo proprietário marca um dia e uma hora. Através de um túnel que atravessa a estrada, o carro sai da fábrica, dirige-se para o BMW Welt e é elevado até ao ponto onde o cliente se encontra. Aí chegado, o elevador abre-se e aparece o carro a rodar numa plataforma, iluminado por vários projectores, como se estivesse em exposição num qualquer salão automóvel. É entregue a chave e o novo proprietário acelera dali para fora. Enfim, é a aplicação do conceito da lota de «peixe fresco, pescado no dia» ao mundo automóvel.
Carlos Malmoro

17 Novembro 2007

Retoma dos Trabalhos

Este post demorou tanto a fazer como você leva a lê-lo.


Carlos Malmoro

PS: com um obrigado aos publicitários que fizeram o slogan para o novo BMW M3

22 Outubro 2007

Olha para ele


aqui, através daqui
Carlos Malmoro

21 Outubro 2007

A Ronda da Noite

  • Se não fosse uma voz amiga, não tinha dado por ela. No post com o mesmo nome deste, ali em baixo, referindo-me a este texto do Mike, disse que estava cento e dez por cento de acordo com a terceira parte. Errado; com a segunda parte era o que eu queria dizer. Até considero que o autor se excedeu no retrato das mulheres obesas: chamá-las de boneco da michelin é atroz. Adiante. A moda, era disso que eu queria falar. De facto, considero que há três tipos de pessoas a vestirem-se: as que vestem calças boca de sino porque ainda pensam que está na moda; as que vestem calças boca de sino porque pensam que será a moda da próxima estação e as que vestem calças boca de sino porque se sentem bem com elas. Estas últimas, são as que eu considero que verdadeiramente «estão na moda». [Não vás dormir não, Carlos];
  • Completei um ano de Geração Rasca. Para além do óbvio agradecimento ao André por me ter convidado e a todo o grupo por me ter aturado durante este ano - eu por vezes sou chatinho/mau feitio -, quero aqui fazer um pequeno balanço. O mais positivo que tiro deste ano é a constatação que é possível escrever num sítio colectivo sem perder a individualidade da escrita. Lógico é que os temas abordados são diferentes. Mas como a liberdade criativa é total, basta apenas um pouco de bom senso para que não se fuja ou se entre em choque com o livro de estilo do blogue. Pensava que na escrita isso não era possível, mas felizmente enganei-me.

Carlos Malmoro

16 Outubro 2007

Mudar de página

Levantar às seis e trinta. Cerca de duzentos quilómetros por dia. Um telemóvel com menos de um ano e com mais de cento e cinquenta horas de conversação. Ter dentro da cabeça uma empresa com dois mil clientes, saber manter um contacto profissional que, a despeito de estarmos no melhor ou no pior dos nossos dias, tem de ser cordial, sóbrio e atenciososo. Gerir a relação de setenta empregados. Sair com os miolos feitos em água e dirigir-me para a universidade. Deu-me a pancada da tese. Entrar em casa às onze e meia da noite. Tentar gerir a casa e os afectos. Antes de ir para cama, escrevo este texto a pergunto-me se tudo isto vale a pena, se não estou a esquecer-me das coisas mais importantes da vida, se vale a pena escrever este texto, se faz sentido um caos deste tipo, para ficar sem tempo para grande parte das minhas devoções e das minhas paixões, se vale a pena esta dor de cabeça que tenho, se vale a pena ter estudado para ter como recompensa um telefone com doze chamadas por responder, se vale a pena. Suponho que a vossa vida seja parecida com isto, mas nunca vos perguntais se vale a pena. Tenho que ir dormir. E tenho que mudar de página.


Versão original de Bob Seger aqui; Versão original do video aqui
Carlos Malmoro

14 Outubro 2007

LoLemos todos

A blogosfera vista pelo Herman. Quem escreve um texto deste calibre, ainda não está arrumado e merece, definitivamente, um post.

Carlos Malmoro

08 Outubro 2007

A Ronda da Noite

  • A Curva da Estrada sopra duas velas. Excelentes textos que se esperam que continuem por muitos e largos anos. Claro que ainda se tem paciência. Felicidades à autora "colega";
  • E ao décimo terceiro post da série «É que não posso», discordo da autora. Um post é mais do que «uma agradável conversa de café». Primeiro, porque é escrito e a escrita é sempre um acto solitário - as reacções só virão mais tarde. Depois porque dá para reflectir naquilo que se escreve, apagar, reescrever. Finalmente, porque eu já escrevi aqui textos que nunca levaria para uma conversa de café, por serem demasiado profundos, formais ou por tratarem de temas que só a mim me interessam. Estamos de acordo que os post´s não devem ser teses de doutoramento, mas entre uma tese e uma conversa de café há um enorme hiato que se pode percorrer escrevendo despretensiosos e excelentes textos, como aqueles a que Pitucha já nos habituou;
  • Cara Maria, essa exposição foi mesmo a brincar, não foi? Só pode. Ou então perdeu-se todo o respeito por quem consome cultura. (Já falei do assunto aqui);
  • O Mike fez trinta anos, está a escrever melhor que nunca (ver este texto ou este, onde estou cento e dez por cento de acordo com a terceira parte da trilogia ) e ainda tem tempo para «meter na linha» os senhores do Jumbo num texto que é um mimo.

Carlos Malmoro

06 Outubro 2007

Os "oitenta"

Advertência: este post só será inteiramente entendido pelo grupo etário 30/45
Se há uma característica genérica da música dos anos 80 é que ela tinha sempre algo de muito bom e algo de muito mau. Comecemos pelo mau. O excessivo uso de sintetizadores/electrónica: havia grupos que tinham guitarras eléctricas, normais, mas que faziam questão de pôr os sintetizadores, normalmente com dois ou três pisos, alinhados em L, a fazer os sons da mesma guitarra. E depois, já se sabe, vinha aquele som que parecia que o amplificador da guitarra estava abafado dentro de água aos soluços. Os telediscos eram inundados por um êxtase cromático, berrante, no limiar da alucinação, as mulheres usavam sempre franjinha e dançavam de forma estranha, para não dizer mesmo muito mal, e os homens cantavam em falsete e muito mal dançavam. Ambos vestiam-se como, vamos ser meiguinhos, broncos: homens com jeans apertados a realçarem rabos e genitais (meu deus, que traumas), mulheres com blusões de couro sobre blusas brancas com os necessários botões desapertados para se vislumbrar uma centelha das mamocas (meu deus, que fantasias).
Depois a parte boa. A música, a despeito da electrónica, era sempre baseada numa linha melódica forte, que entrava facilmente no ouvido, e tinha bons beats, que dava para a pista de dança. Aliás, esta característica, a presença de um beat forte que dê para a disco, está a ser recuperada pelas bandas de pop/rock emergentes, de onde destaco os Bloc Party, para tornearem a dificuldade que o instrumento rei do rock, a guitarra, tem em conseguir um bom ritmo. Mas voltemos aos 80's. As letras: gostava, e gosto, de muitas das letras dessa época. Têm um travo agridoce, uma melancolia suave e uma nostalgia assumida que as tornam inesquecíveis. Exemplifico com o "Forever Young" dos Alphaville, o "Hunting High and Low", dos Ah-a, "True Faith", dos New Order (no video abaixo, uma das minhas favoritas).
Se retirarmos algum kitsch, a encenação com demasiado pathos ou o modo como certos arranjos eram feitos, com mais tecnologia do que uma central nuclear, e nos basearmos no essencial da música - a melodia, o ritmo e a letra - os anos oitenta foram excelentes. Basta ter ouvido para escutar para além do sintetizador.
Carlos Malmoro
PS: Uma confissão: este post foi feito muito "por culpa" de um senhor chamado "Tarzanboy", que mantém um blog, com a bonita idade de quatro anos, onde se dedica a saber por onde andam hoje os heróis musicais dos anos oitenta. É muito bem escrito, actualizado com bastante regularidade, e tem aquela pontinha de humor que cai bem em qualquer texto. Convido-vos a visitá-lo no dear 80's.

04 Outubro 2007

Menezes

Deixemos para trás o que no pretérito jaz. Para Menezes ganhar as eleições legislativas tem duas semanas para estabilizar o PSD e dois anos para conquistar o país. Para tal, tem, a meu ver, de fazer três coisas essenciais:
  • Estar mais preparado e estudar melhor os dossiers do que Mendes: era confrangedor ver os debates mensais com o PM, onde este era acusado pelo líder da oposição de ser apenas forma sem conteúdo, mas onde Sócrates levava sempre a melhor por um mais profundo conhecimento das matérias. Aliás, nunca percebi porque acusavam Sócrates de populismo, usando como argumento que este passava a semana a preparar os debates semanais com Santana: um bom profissional, se quiser ser promovido, tem de se preparar para os momentos decisivos, assim como um estudante que queira passar tem de estudar para os exames. Sócrates também é populista, mas não o é, certamente, por aplicar o seu tempo a preparar as suas intervenções;

  • Tomar como suas duas ou três causas, evitando, se possível a educação e a saúde: há corporativismo a mais e são zonas de conflito permanente. Sócrates bate-se pelo ambiente e pela desburocratização (que palavra mais burocrática de se dizer/escrever). Um exemplo: sempre que há uma novidade em matéria de ambiente ou de simplificação processual, o mérito vai direitinho para Sócrates. No meu dia a dia, é enorme a quantidade de loas a Sócrates que ouço por parte de empresários, mesmo com ligações ao PSD e ao PP, que conseguiram aquele licenciamento ou resolveram um assunto jurídico em metade do tempo, gastando metade do dinheiro, ou nenhum, porque os serviços necessários já estavam disponíveis online. E, num país afogado em burocracias, isto conta e muito;

  • Respeitar o político Sócrates. Mendes passou o tempo a dizer que Sócrates era populista, que prometia mas não cumpria, que não era sério, que não tinha valores. Desculpem, mas esse tipo de discurso é o que eu ouço no café, é aplicado a todos os políticos e tem um nome: conversa de chacha. O melhor que Menezes tem a fazer é ver onde Sócrates é forte e aparecer ao lado dele nesses assuntos e avaliar onde ele é fraco e apresentar alternativas bastante claras, publicitando-as o mais possível.

É simples: estudar as matérias melhor que o adversário, apadrinhar algumas causas, respeitar Sócrates e em 2009 poderá haver uma surpresa. A pior coisa que um político pode fazer é subestimar o adversário. Mendes fê-lo e perdeu. Que sirva de lição a Menezes.

Carlos Malmoro

28 Setembro 2007

Sinto-me estranho

Estou de acordo com o comentário* e achei acertada e extremamente corajosa uma medida de Santana Lopes.

Via Corta-Fitas


Carlos Malmoro

A propósito

disto:

Qual seria o preço para Portugal?

Carlos Malmoro

20 Setembro 2007

"O que eu não vivi, hei-de inventar contigo"

Este é o regresso do ano. Uma música fantástica, uma letra com palavras simples e gestos do quotidiano. Mas que resulta magnificamente. Os críticos musicais, normalmente, tecem-lhe loas sem regatear. É claro que agora lhe vão chamar popularucho. Mas talvez é isso que mais gosto nele: o estar na vida e na música como quer, independentemente do que os outros dizem. Foi assim quando atravessou uma fase mais sombria da vida, que se reflectia na música que compunha, e continua assim quando essa fase parece estar ultrapassada. E o vídeo reforça mais a ideia de estarmos perante um tema perto da perfeição: as habituais guitarras em treble, importadas dos blues, a voz melancólica, a pose urbano-depressiva, a constratar com a alegria e a descompressão que as amizades e cumplicidades de uma vida sempre nos trazem, transformam este clip num excelente fresco e num verdadeiro hino à Amizade e, não tenhamos medo da palavra, ao Amor.

Carlos Malmoro

13 Setembro 2007

Voar

Não tenho medo de andar de avião. Acho até uma grande chatice. Melhor, a palavra correcta é irritação. Como irrequieto que sou, a ideia de estar dentro de um galinheiro pressurizado, sentadinho e sossegadinho, sem me poder mexer mais do que dez centímetros para não invadir o espaço do vizinho, a ouvir uma voz distorcida anunciar os «novos e exclusivos menus Iberia», sendo que "novos" significa colas, sandes e donuts e "exclusivos" significa para todo o maralhal que estiver disposto a dar três euros por uma garrafa de água, não podendo ler ou dizer frases perceptíveis, porque não há concentração que resista a um joelho espetado nas costas, ao ruído de dois motores de centenas de cavalos a menos de uma dezena de metros de mim e aos constantes ataques de tosse que assaltam todos os passageiros - deve ser da altitude -, esta ideia, dizia, deixa-me sem grandes entusiasmos aéreos. Aliás, não consigo perceber como é que há pessoas que entendem que voar dá uma sensação de liberdade. É que tenho para mim que é o mais parecido com uma prisão de alta segurança - uma viagem de avião goza de proporcionalidade directa: um voo pequeno é um desconforto, um voo médio é um desconsolo, um voo grande um martírio.

Há, no entanto, três momentos que considero excelentes: a descolagem, a aterragem e a vigia. A descolagem pela sensação de potência e de velocidade, que nos cola ao banco, seguida daquela fantástica sensação na barriga quando o avião deixa a terra e entra no ar. A aterragem: acho admirável como se consegue parar um gigante de aço, lançado a duzentos ou trezentos quilómetros hora numa pista de dois mil metros. Olhar pela vigia, ver o quanto pequenos somos, de certa forma, relativiza-nos a importância, ajuda-nos a perceber o magnífico planeta que temos e dá para tirar fotos como esta:


Carlos Malmoro

10 Setembro 2007

Dalai Lama

Chega a ser revoltante tanta cobardia política junta para não se receber o Dalai Lama. Cavaco e Sócrates no presente, Guterres e Sampaio no passado, se bem que este último ainda teve mui "feliz coincidência" e alguma coragem de o encontrar enquanto visitava um museu, vergam-se ao peso da economia chinesa. Não têm coragem de receber uma pessoa que um regime ditatorial e desrespeitador dos mais elementares direitos humanos considera um perigoso separatista, não porque achem verdadeira aquela acusação, mas porque a China em termos económicos é um gigante emergente. A haver coerência, da próxima vez que uma delegação chinesa visitasse o país, não deveria ser recebida ao mais alto nível até que parassem os atropelos aos direitos humanos. Finalmente, ao darem as desculpas hipócritas de «agendas preenchidas» estão a contribuir para que a China se ache no direito de dar raspanetes e lições de democracia, como os célebres "puxões de orelhas" que Sampaio levou por se encontrar com o Dalai Lama no museu. A situação é o expoente máximo dessa coisa obtusa chamada de politicamente correcto, mas é também uma enorme desconsideração pela nossa democracia. Pensam que por serem obedientes aos ditames asiáticos conseguem num futuro próximo mais uns não sei quantos contratos económicos. Mas, na economia como na vida, ninguém respeita nem pensa por um segundo sequer nos fracos de carácter, porque o primeiro passo para os outros nos respeitarem é respeitarmo-nos a nós mesmos.
Carlos Malmoro

23 Agosto 2007

Your Love Alone

A 1 de Fevereiro de 1995, Richey James Edwards desapareceu do Embassy Hotel. Dias mais tarde, o seu carro foi encontrado abandonado junto a uma ponte, ganhando força a tese de suicídio, apoiada no passado de excesso de drogas e de problemas psiquiátricos que ele padecia. Nunca mais se soube do seu paradeiro. Era guitarrista, letrista e responsável pelo design dos Manic Street Preachers. A banda estava determinada a pôr um ponto final na sua breve carreira, mas a pedido da família de Richey continuou. E continuou muito bem: "Everything Must Go", o álbum que se seguiu, é uma homenagem a Edwards, ainda com cinco letras deste, e é talvez um dos melhores álbuns conceptuais do rock. Editou ainda o magnifico "This Is My Truth Tell Me Yours", "Know Your Enemy" e "Lifeblood". A sua vertente mais punk foi ficando para trás e começaram a construir uma excelente colectânea de canções pop-rock. Este ano lançaram "Send Away The Tigers" que tem no single de avanço um dueto com a vocalista dos Cardigans, Nina Persson, que fica aí em baixo para ouvir e apreciar o excelente vídeo/duelo. Uma última curiosidade: a banda continua a depositar um quarto dos direitos de autor na conta de Edwards, segundo eles, «para que um dia que Edwards volte…»


22 Agosto 2007

Agosto

Há coisas que já são típicas do mês de Agosto português. Por mais que os governos mudem, que o tempo pregue partidas ou que a conjuntura seja adversa, o país será sempre invadido por turistas e emigrantes, os jornais publicarão os seus questionários e as fotos dos políticos a banhos em calção - o que era bem dispensável -, as cidades apresentam-se desertas e as praias cheias, as televisões transmitem os seus programas à beira-mar com artistas de gosto duvidoso, a blogosfera publica meio post por dia, os cronistas dizem mal da silly season porque esta não lhes dá temas fracturantes para opinar, há sempre uma banda de um país estranho que lança o hit de Verão e que nunca mais se ouve falar dela, as livrarias começam a preparar o regresso às aulas e, mais certo do que eu me chamar Carlos, em Agosto, o Sporting ganha a Supertaça. Há coisas que nunca mudam.
Carlos Malmoro

06 Agosto 2007

Drive

A paisagem começa a mudar. Continuamos no noroeste da Península, mas este já é o norte das montanhas e não dos montes, este é o Norte de um verde diferente do que se pode admirar pelo Minho e Galiza, este é um norte dos picos cónicos que imitam as formas dos seus cedros, assim como, quinhentos quilómetros atrás, os montes em meia lua retratavam as copas dos pinheiros.
A condução começa a fazer mossa. Já não há o mesmo discernimento e as estradas são exigentes. São exigentes e recompensadoras: à nossa direita alta, os “Picos da Europa”, à nossa esquerda baixa, o mar. Ao longo de uma estrada serpenteante esculpida na pedra da montanha, começa-se a sentir o conforto da viagem finalizada, embora ainda faltem cerca de meia centena de quilómetros para o destino. Aproveita-se o cansaço para uma última paragem, descendo até uma arriba. Estacionamos, entramos num café e nem é preciso abrir a boca para notarem que somos estrangeiros. Quando é feito o pedido, as línguas colidem: o meu castelhano não permite uma dicção tão cerrada quanto a dos asturianos. Um pouco de maleabilidade linguística de ambos os lados, o entendimento surge e o pedido é satisfeito. Caminha-se um pouco para se desentorpecer as pernas e a concentração. Abeiramo-nos do fim da falésia para espreitar o mar e ele surpreende-nos: embora esteja lá em baixo, a vinte metros de altura, é com tal violência que as ondas embatem nas rochas, que, ao longo dos séculos abriram fendas nas escarpas, fazendo com que a sua respiração venha desaguar a nossos pés, transformando o chão que pisamos num sem fim de pequenos géisers e nascentes de água – chamam-lhe bufones.


São oito da tarde, quando se chega finalmente a Covadonga com o sentimento de dever cumprido e de prazer anunciado. Algum cansaço que possa existir desvanece-se perante tal paisagem. Não vou chamar para aqui de novo os poetas para dirimirem sobre paisagens e estados de alma. Digo apenas que depois de dez horas de condução tão cansativas quanto deslumbrantes, uma fabada regada com sidra é a única paisagem que reconforta o estado da alma.

Carlos Malmoro

29 Julho 2007

Quatro Anos de Caixa Pandora



Muito obrigado por ajudarem a torná-los mais compensadores.

Beijos.

Abraços.

Em 29/07/2007,

Carlos Malmoro

28 Julho 2007

Drive

Numa época em que o avião é preferido para as viagens, sempre que posso e a distância não é proibitiva, utilizo o automóvel. Com o conforto actual dos ditos, faz-se uma viagem com centenas de quilómetros sem ficar com o corpo todo moído e tem-se a enorme liberdade de ir visitando pequenas vilas, aldeias, gentes e paisagens que de outro modo não poderíamos conhecer.
Uma boa viagem de automóvel inicia-se sempre com três rituais: a constatação de que não houve tempo para fazer uma revisão ao carro; a inspecção das malas, para saber se não nos esquecemos de nada, sabendo nós que ao quilómetro cento e cinquenta da viagem vamos lembrarmo-nos que ficou para trás a única coisa que não podia nos podia faltar; e a quebra da promessa que às nove da manhã, em ponto, engrenaríamos a primeira velocidade: são dez e ainda as malas não estão fechadas.
O percurso até à primeira paragem é sempre feito em auto-estrada. Estamos frescos, suportamos melhor a concentração que uma maior velocidade exige e, de qualquer forma, escapamos mais rapidamente da paisagem que quotidianamente, para mal dos pecados, nos cerca. Quando a fome começa a apertar, decidimos mandar às malvas o que o viamichellin nos sugere, sai-se da auto-estrada e entramos dentro de Santiago de Compostela: onde já se viu comer uma tarte de Santiago numa estação de serviço? Come-se numa esplanada, situada nas labirínticas ruas da cidade velha e aprecia-se uma cena inolvidável: um artista de rua faz equilibrismo com umas bolas transparentes. Uma rodava na cabeça, outra nos braços, passa uma do ombro direito para o ombro esquerdo. E estamos nisto, quando sai disparado do meio da esplanada um cão que provocou o descer do pano do acto com uma praça cheia de bolas transparentes a rolar no chão em todas as direcções e igualmente preenchida pelos sorrisos de quem assistia a tão peculiar cena. E uma esplanada repleta de sorrisos é o melhor sinal de que estamos de férias.

O “mal” está feito e a responsabilidade assumida: sem viamichellin, estamos por nossa conta e risco. Aliás, por conta e risco do melhor GPS do mundo: perguntar às pessoas como se vai para. Mas não pensem que é só em Portugal que quando se pergunta uma direcção recebe-se quatro opiniões diferentes de duas pessoas. Isso é uma epidemia mundial. A partir daí segue-se para Lugo. São cerca de cem quilómetros até mais uma das imensas cidades dentro de muralhas romanas que existem no noroeste ibérico e, também como Santiago, com uma majestosa catedral. No entanto, aquilo que mais me recordo de Lugo é de uma rua que era tão simples e tão, perdoem o regionalismo, castiça, que achei que todas as ruas deveriam ser assim. A um canto um saxofonista arrancava um What a Wonderful World, do outro lado, uma vendedora de recuerdos pescava os olhos dos transeuntes para os caçar, as pessoas caminhavam ao ritmo da música e as cores das lojas pareciam ter sido escolhidas por um pintor, tal o efeito de harmonia que o conjunto proporcionava. Fora das muralhas, o pior de Lugo: o trânsito. Ou melhor, as indicações de trânsito: penso que nunca demorei tanto tempo para sair de uma cidade como nesta.
Sai-se de Lugo e entramos na maratona. Vão ser quatro horas de viagem até Gijon. Troca-se de CD, porque, como é sabido, não há uma única estação de rádio em toda a Espanha que não passe a Ágata lá do sítio, e, embora Pessoa tenha contrariado aquilo que Amiel disse, “a paisagem é um estado de alma”, colocando-a nos termos de que um estado de alma é que é uma paisagem, não há poetas nem estados de alma que contestem a percepção de que a paisagem começa a mudar.


Não perca o emocionante epílogo desta blogonovela de viagens
Carlos Malmoro

23 Julho 2007

Sempre ajuda a escrever uns posts

Este blogue já teve três ou quatro contadores de visitas. As minhas obras no estaminé fizeram com que uns fossem substituídos por outros. Recomeçando sempre do zero. Isto para já não falar do tempo, cerca de dois anos, em que não havia contadores para ninguém. De qualquer forma, é sempre de assinalar quando se passa a barreira dos cinco mil visitantes. Como acaba de acontecer agora. Mas fica prometido: daqui a uns meses, mais umas obras e um contador novinho em folha a contar do zero. Carlos Malmoro

Closing Time

Leonard Cohen não tem só músicas melancólicas. Aqui fica uma canção para bater o pezinho. Quanto à letra, bem, a letra é um poema na mais alta acepção da palavra.



Ah we're drinking and we're dancing
and the band is really happening
and the Johnny Walker wisdom running high
And my very sweet companion
she's the Angel of Compassion
she's rubbing half the world against her thigh
And every drinker every dancer
lifts a happy face to thank her
the fiddler fiddles something so sublime
all the women tear their blouses off
and the men they dance on the polka-dots
and it's partner found, it's partner lost
and it's hell to pay when the fiddler stops:
it's CLOSING TIME
Yeah the women tear their blouses off
and the men they dance on the polka-dots
and it's partner found, it's partner lost
and it's hell to pay when the fiddler stops:
it's CLOSING TIME

Ah we're lonely, we're romantic
and the cider's laced with acid
and the Holy Spirit's crying, "Where's the beef?"
And the moon is swimming naked
and the summer night is fragrant
with a mighty expectation of relief

So we struggle and we stagger
down the snakes and up the ladder
to the tower where the blessed hours chime
and I swear it happened just like this:
a sigh, a cry, a hungry kiss
the Gates of Love they budged an inch
I can't say much has happened since
but CLOSING TIME

I swear it happened just like this:
a sigh, a cry, a hungry kiss
the Gates of Love they budged an inch
I can't say much has happened since
CLOSING TIME

I loved you for your beauty
but that doesn't make a fool of me:
you were in it for your beauty too
and I loved you for your body
there's a voice that sounds like God to me
declaring, declaring, declaring that your body's really you
And I loved you when our love was blessed
and I love you now there's nothing left
but sorrow and a sense of overtime
and I missed you since the place got wrecked
And I just don't care what happens next
looks like freedom but it feels like death
it's something in between, I guess
it's CLOSING TIME

Yeah I missed you since the place got wrecked
By the winds of change and the weeds of sex
looks like freedom but it feels like death
it's something in between, I guess
it's CLOSING TIME

Yeah we're drinking and we're dancing
but there's nothing really happening
and the place is dead as Heaven on a Saturday night
And my very close companion
gets me fumbling gets me laughing
she's a hundred but she's wearing
something tight
and I lift my glass to the Awful Truth
which you can't reveal to the Ears of Youth
except to say it isn't worth a dime
And the whole damn place goes crazy twice
and it's once for the devil and once for Christ
but the Boss don't like these dizzy heights
we're busted in the blinding lights,
busted in the blinding lights
of CLOSING TIME

The whole damn place goes crazy twice
and it's once for the devil and once for Christ
but the Boss don't like these dizzy heights
we're busted in the blinding lights,
busted in the blinding lights
of CLOSING TIME

Oh the women tear their blouses off
and the men they dance on the polka-dots
It's CLOSING TIME
And it's partner found, it's partner lost
and it's hell to pay when the fiddler stops
It's CLOSING TIME
I swear it happened just like this:
a sigh, a cry, a hungry kiss
It's CLOSING TIME
The Gates of Love they budged an inch
I can't say much has happened since
But CLOSING TIME
I loved you when our love was blessed
I love you now there's nothing left
But CLOSING TIME
I miss you since the place got wrecked
By the winds of change and the weeds of sex
Negrito meu
Carlos Malmoro

21 Julho 2007

Aos meus professores

Do saber e da vida:

«No final,
Só vamos conservar aquilo que amarmos
Só vamos amar aquilo que compreendermos
Só vamos compreender aquilo que nos ensinaram.»

Baba Dioum (Conservacionista Senegalês)

20 Julho 2007

Abstenção

Mais um recorde batido na abstenção. Os analistas afirmam que tal é resultado da [baixa] qualidade dos políticos, dos [fracos] hábitos de democracia dos portugueses, do enorme desfasamento que há entre a quantidade de queixas que os cidadãos fazem e a sua participação efectiva em escrutínios que validem tais reclamações. Embora subscrevendo em parte, tenho para mim que tanta abstenção resulta mais de um sistema que prende o cidadão à sua freguesia se quiser votar. Democracia deve ter como sinónimo liberdade, mas no dia de eleições, o dia maior das democracias, um cidadão tem de ficar «preso» durante dez minutos na sua freguesia. É impensável que em pleno século XXI eu não possa exercer o meu direito de voto no Algarve, em Vila Real ou no estrangeiro.
Um paralelismo interessante de estabelecer é com o meio financeiro: eu posso transferir todo o meu dinheiro, aqui e agora, para quem me aprouver. Mas se fosse dia de eleições e estivesse fora da minha freguesia, seria mais um a engrossar os números da abstenção. Actualmente, há meios electrónicos e informáticos seguríssimos, capazes de asseverar que a máxima «um Homem um voto» é respeitada e até melhor preparados para a detecção de fraudes eleitorais do que pelo tradicional caderninho. Como este é um Governo tão embeiçado pelas novas tecnologias, acho que o que de mais importante poderia fazer pela democracia era dotá-la de uma logística que garantisse que todos os cidadãos que quisessem votar o fariam. Porque uma democracia que exista para servir os cidadãos será sempre mais participada e mais legítima do que uma que se serve deles.
Ou será que não querem uma democracia forte?...
Carlos Malmoro

16 Julho 2007

Não é só na eleição para a Câmara


Carlos Malmoro

15 Julho 2007

É muito, bué mesmo, complicado

Ontem, sexta-feira, no jornal da tarde de uma qualquer TV, enquanto almoçava, era apresentada uma reportagem acerca das filas enormes que se juntaram para apresentar as candidaturas ao ensino superior. Portanto, pela amostra, os portugueses de amanhã, serão iguais aos de ontem e de hoje: deixam tudo para a última hora. Mas o mais trágico não é isto. O mais desesperante é que perguntaram a alguns alunos porque fizeram o processo de candidatura pelas vias normais e não pela internet e três deles disseram que assim poderiam ter quem os ajudasse a preencher a ficha porque esta "era complicada".
Eu tive acesso à ficha. A mesma era composta por um cabeçalho onde se pedia nome, morada e BI, um corpo para os códigos dos estabelecimentos/curso onde iam concorrer e um rodapé para perguntar se havia pré-requisitos para o curso e para assinarem. Desdobrando isto, no cabeçalho não havia dificuldade nenhuma. Para preencher o corpo bastava consultar os códigos que vinham no livro que acompanhava a ficha de candidatura e no rodapé bastava assinar e dizer se tinham concorrido a cursos que exigissem pré-requisitos, informação que também constava no tal livrinho.
Se um aluno que estudou 12 anos, fosse em que área fosse, não tem capacidade para preencher uma ficha destas, não merece entrar num curso superior. Mesmo com média de vinte, o preenchimento daquela ficha é tão primário que não se percebe como um aluno consegue acabar o secundário com positiva. E não estou a ser elitista em relação ao ensino superior, bem pelo contrário, estou a pedir o mínimo dos mínimos. Para finalizar quero apenas dizer que desta vez a culpa não é da ministra, nem do ministério, nem dos professores, nem dos pais, nem dos alunos. A culpa não é de ninguém e é de todos. Portanto, sendo Portugal o país que mais dinheiro investe na Educação em percentagem do PIB na UE, mais vale desistirem de tentar educar ou formar quem quer que seja e dedicarem-se todos, alegramente, à plantação de beterraba.
Carlos Malmoro

13 Julho 2007

Circum-navegar as rosas

Adoro a noite. Não as discotecas, nem os bares, nem grandes programas. Claro que faço isso, mas pontualmente. Adoro estar aqui por casa, ler umas páginas de um livro, ouvir uma música, pensar em coisas vãs, vaguear da sala para o quarto e do quarto para a sala. Adoro este silêncio acompanhado do trabalhar do frigorífico, estes breves momentos antes de me deitar, o teclar compassado, a escrita em folha branca com caneta preta. Sonho poder estar mais tempo por aqui. A esta hora. A escrita flui lisa, o pensamento caminha sereno, as emoções flutuam íntimas. Não há nada que não seja possível à noite. Na minha noite, posso imaginar-me como guarda nocturno ou dizer uma palavra com catorze letras num dialecto estranho. Na minha noite, posso imaginar que «circum-navegar as rosas» daria um excelente verso em qualquer poema. Na minha noite, posso imaginar que as «rosas» são quem simpática e despretensiosamente me diz coisas destas. Escrever um post à noite, dedicá-lo a quem muito o merece e, por um perpétuo momento, ter a mais inabalável certeza de que o virtual é real. É por isto que adoro a noite.
Carlos Malmoro

11 Julho 2007

Munich

Escrever sobre um lugar que não se conhece é sempre mais estimulante que escrever acerca de um sítio que já se visitou. Por vezes, o conhecimento coarcta a imaginação. Somos tentados a descrever em vez de escrever, e para isso já existem os guias de viagem. Não conhecendo eu o Neuschwanstein, não tive dificuldade nenhuma em “defendê-lo”. Fiz a pesquisa que achei necessária para não cair em nenhum erro factual, e para melhor sustentar aquilo que já dele sabia. O castelo está implementado na região da Baviera, que visitarei pela primeira vez em Setembro, aquando de uma viagem a Munique.

Estarei por lá numa altura em que se realizará a Oktoberfest, talvez a maior festa de cerveja do mundo, que, como se sabe, é a oitava maravilha da Humanidade. O desejo deste destino e não de outro surgiu na minha infância. Comecei muito cedo a ouvir falar da Baviera, por ser o importador oficial dos BMW’s, passe a publicidade, e de Munique, por causa da equipa de futebol lá do sítio. Um dia, o meu pai já cansado de me ouvir perguntar onde ficava essa região e, mais insistentemente, a pedir-lhe para ver o lugar, lá me ofereceu um livro sobre a Alemanha. Aquilo que, talvez para a paciência de santo do meu pai, foi a forma de acabar com a minha curiosidade, para mim foi o alimento ideal para o bichinho.


No entanto, os anos foram passando, a memória esmorecendo e a oportunidade adiada. Até que, recentemente, dois «eventos» culturais tiraram do sótão da memória a curiosidade esquecida: um filme e uma música. O filme chama-se, naturalmente, Munich, é de Steven Spielberg, e que, talvez por não mostrar grandes planos da cidade me fez imaginar como ela seria. Mas é à música que cabe grande parte da culpa de ter reavivado um sonho de infância: primeiro, porque surgiu antes do filme e, portanto, quem primeiramente reanimou a memória desse tal desejo; depois, porque gosto da banda e da forma como a interpreta, e estas afinidades podem sempre levar a fazer algo mais por uma canção do que simplesmente comprar o disco; finalmente, porque a canção tem dois versos e uma verdade que me fariam ir ao fim do mundo para conhecer o objecto de inspiração deles:

People are fragile things, you should know by now
Be careful what you put them through
Munich - Editors



imagens 1, 2
Carlos Malmoro

10 Julho 2007

Tragam de lá essa cerveja

Perdão, esse copinho de leite.



Carlos Malmoro

09 Julho 2007

Uma definição que se pode aplicar a muitas coisas, principalmente ao amor

A certeza de tudo se ter feito para dissipar a dúvida e a dúvida se tudo se fez para firmar a certeza.
Carlos Malmoro

Neuschwanstein

Imagino que não deverá ser fácil pronunciar-se uma palavra com catorze letras sendo que nove delas são consoantes. Se para uma pessoa que não entende alemão, como é o caso, aquela palavra parece ser o insulto mais grave que se pode proferir contra alguém, já para um entendido em germânicas, Neuschwanstein significa «Novo Cisne de Pedra».


Foi construído por um homem, o rei Ludwig II, que tinha o vício de construir castelos. Nesta sua paragem, decidiu arquitectar um castelo que homenageasse as óperas de Wagner, com formas de castelo de cavaleiros, vulgo, conto de fadas, e que fosse uma obra com o máximo conforto, tendo para isso recorrido a algumas inovações para a época onde se incluíam telefone, elevador ou aquecimento central, ressalvando, obviamente, o significado que se podem atribuir a esses conceitos numa construção do século XIX. Porém, como tantos outros vícios em tantos outros homens, também este levou à ruína do adicto. Ludwig II apareceu morto num lago, não se sabendo ainda hoje se foi morto ou se suicidou quando compreendeu que estava arruinado. Deixou uma obra a todos os níveis admirável quer pela sua beleza, é o símbolo máximo do conceito de castelo de fadas, tendo servido de inspiração à Walt Disney para conceber o seu logotipo, quer pela inteligência utilizada para inovar no seu conforto.


O que me leva a terminar este arrazoado com uma pequena observação. Na caixa de comentários do post sobre a lista das minhas sete maravilhas favoritas, um leitor chamava-me à atenção para o facto de o Castelo de Neuschwanstein ser, digamos, pouco representativo para ser considerado uma delas. Permita-me que discorde. Entendo, aliás, que é aí que reside grande parte do meu interesse pela obra: não foi construído para representar nada, não tem nenhum significado escondido, não teve utilidade porque foi edificado, como diz a apresentação no site das sete maravilhas, numa época em que já não se utilizavam os castelos como meio de defesa de uma cidade. Foi feito apenas pelo sonho e imaginação de um homem alienado que quis erigir e deixar como legado algo que ele entendia como belo. E se a capacidade de conceber algo formalmente belo é exclusiva do ser humano, mais humana ainda é a capacidade de o apreciar. E isto também é válido para os mamarrachos.


imagem 1, 2
Carlos Malmoro

03 Julho 2007

As minhas sete maravilhas

Se votasse, seriam estas a minhas escolhas:

Estátua da Liberdade, EUA, a evocar a Liberdade e a Generosidade;

Taj Mahal, Índia, em representação da Memória e do Amor;

Castelo Neuschwanstein, Alemanha, perpetuando o Sonho e a Imaginação;

Ópera de Sydney, Austrália, um memorial do Futuro e da Música;

Acrópole de Atenas, Grécia, em tributo à Democracia e ao Saber;

Pirâmides de Gizé, Egipto, um símbolo da Fé/Esperança e de Engenho, e

Grande Muralha, China, uma prova de que só pelo Esforço se pode chegar à Grandiosidade.

Carlos Malmoro

28 Junho 2007

Venceu o pior

O irresponsável perdeu. O responsável, adivinhem, ganhou. O adolescente saiu de cabeça baixa, enquanto o adulto, de cabeça bem erguida, falava com um cliente do Canadá durante uma interminável hora. A gravata levou a melhor sobre a T-shirt. A programação ultrapassou a improvisação. E foi assim que a sala onde escrevo este post se substituiu ao Parque Tejo para presenciar a melhor e maior catarse musical colectiva que poderia assistir neste planeta:




Carlos Malmoro

Isto sim,

isto é publicidade da boa.


Carlos Malmoro

25 Junho 2007

Nostalgia

Os post's acabaram. Agora escrevemos e publicamos mensagens. Para um indivíduo que anda nisto há quatro anos, a mudança lexical do blogger é sentida como uma traição. Não se faz. Já não postamos, mensajamos. No topo esquerdo do ecrã onde estou a escrever este post, perdão, esta mensagem, aparece-me «Envio de mensagens». A quem?
Carlos Malmoro

24 Junho 2007

Listas

A blogger mais insatisfeita com o tempo que eu conheço e que eu começo agora a perceber melhor, muito melhor, teve a amabilidade de me convidar a fazer uma lista dos últimos cinco livros que li. Excluindo os técnicos, aqui fica a colheita:

1 - Poetas Russos - Colectânea - Tradução e Prólogo de Manuel de Seabra;
2 - O Retrato do Sr. W.H. - Oscar Wilde;
3 - Insânia - Hélia Correira;
4 - Peregrinação de Barnabé das Índias - Mário Cláudio;
5 - Em Busca do Tempo Perdido - 6. A Fugitiva - Marcel Proust.

Como é hábito nestas iniciativas, é a minha vez de convidar cinco blogues/bloggers para elaborarem as suas listas:

125_azul
Carlos Malmoro

A minha é assim

A minha Ericeira é uma parte da minha adolescência. O mar da minha Ericeira riu-se de mim quando tentava aprender a surfar e aplaudiu, tenho a certeza, a minha decisão de nunca mais o fazer. A minha Ericeira é frequentar o bar de Ribeira d'Ilhas e perceber que um olhar muito "em cima" pode deitar por terra um "trabalho" de sedução começado há horas, por vezes dias, a uma cachopa. A minha Ericeira é o sítio de descanso no meio do treino de ciclista: Sintra, Lourel, Terrugem, S. Julião, Ericeira, pausa para restabelecer, retomava em direcção a Mafra, Cheleiros, Pero Pinheiro, Terrugem, Lourel e Sintra, de novo, mais morto que vivo, depois deste calvário com cerca de cinquenta quilómetros, tão plano quanto uma montanha russa. A minha Ericeira sabe que já tomei banho nu, à meia noite, no seu mar. A minha Ericeira tem a memória vergonhosa, que guardou em absoluto segredo, como boa amiga que não troça dos seus companheiros, do ataque de tosse provocado pelo primeiro cigarro que tentei travar. A minha Ericeira tem uma extraordinária qualidade: não há nenhuma parte dela que eu possa considerar como não sendo a minha Ericeira.

22 Junho 2007

Breve Tese

Uma pessoa pode gostar do mesmo que @ companheir@. Ou, por aproximações afectivas, pode passar a simpatizar com aquilo que lhe é agradável. Mas deixar de se apreciar uma música, um escritor ou uma cidade por a outra não gostar, isso já não é amor: é subordinação.
Carlos Malmoro

17 Junho 2007

Quando os poemas são letras

«But I remember us riding in my brother's car
Her body tan and wet down at the reservoir
At night on them banks I'd lie awake
And pull her close just to feel each breath she'd take
Now those memories come back to haunt me
They haunt me like a curse
Is a dream a lie if it don't come true
Or is it something worse?»

Bruce Springsteen, The River

Carlos Malmoro

Bonne Chance à Vous

Através deste blogue, tomei conhecimento que o antigo Presidente Francês que, entre outros cargos, também foi responsável pela condução dos trabalhos com vista à criação de uma Constituição Europeia, abriu um blogue que se debruçará sobre os problemas e os desafios da UE. Três coisas interessantes: a primeira, que um político de tamanho prestígio abra um blogue; segundo, que o faça com a bonita idade 81 anos de idade; terceiro, que o referido blogue tenha uma caixa de comentários aberta, sem qualquer tipo filtros ou de pré-visualização dos mesmos - eu confirmei com a frase que dá título a este post - e que um dos últimos posts seja uma resposta a um desses comentários.
Depois lembrei-me da elite blogosférica portuguesa: raramente tem caixa de comentários, e quando a tem, só depois de pre-visualizados os comentários, à boa maneira da censura, são publicados. Para além disso, mesmo os que não a têm, passam a vida a queixar-se de que as caixas de comentários são um antro de escumalha que vai ali ofender-se mutuamente, sem que nada acrescente ao debate das ideias. Em meu entender, o que verdadeiramente acontece é que essa elite não suporta que alguém pense fora da cartilha, que não lhe faça uma vénia e lhe estenda a passadeira vermelha pelo seu brilhantismo, e para alguns, pensar diferente é ofender.
E é assim que aos 81 anos, Valéry Giscard d'Estaing, o senhor em causa, acaba por dar uma bonita lição de liberdade aos presumidos iluminados de meia idade portugueses: não é livre de espírito quem quer mas quem sempre o foi.
Carlos Malmoro

16 Junho 2007

Troco

...o seguinte conjunto de pá e balde, protector solar, toalha e guarda sol,
por um outro que contenha guarda-chuva, um par de galochas, lenços de papel e uma embalagem de um qualquer antigripal.
À melhor oferta.
Carlos Malmoro

15 Junho 2007

"Movimento em Falso"

«Diz-me tu, quanto aguentas sem reagir
Diz-me tu, o que te faz fugir
Agora, se eu te vingar, tua dor estará contida
Tua vida vai significar
Sim, confesso foi um falso movimento
Tudo mereço, meu sentir foi fingimento
Um passo em falso e eu caí por um momento
Tu caíste para sempre
Minha cor foi um repente.Cai! Cai!

Diz-me tu, porque não estás a reagir
Diz-me tu, que crime tenho que cometer
Grita, que agora vou-te vingar
Perdoa-me mas tenho que o fazer»
Uma letra estranha, de uma estranha banda que responde pelo estranho nome de Bizarra Locomotiva. E, estranhamente ou não, desde a saída de A. Teixeira para formar os Balla, nunca mais soube não estranhar o ruído.
Vocês sabem do que eu estou a falar.
Carlos Malmoro

12 Junho 2007

Vila Real

Talvez o nome «Joelho de Porca» não seja uma designação que augure grande requinte à cozinha de uma cidade. E «Crista de Galo» também não é um nome que proponha uma doçaria atractiva. Porém, a poesia dos menus mostra-se amiúde surpreendente. No bom e no mau sentido. Nestes assuntos, o melhor é seguir o conselho dos comensais para regalo das pupilas gustativas. E nos casos indicados, elas regalam-se bem.
Talvez Vila Real tenha um erro crasso de arquitectura luminosa e um acerto clamoroso da mesma. O primeiro manifesta-se na cobertura do centro comercial Dolce Vita. Imaginem uma grande superfície com uma cobertura trapezoidal que se ilumina massivamente de azul à noite. Exacto, parece que um Ovni aterrou no meio da cidade. Não havia necessidade.
Mais do que a arquitectura do edifício, dos jardins ou da História, quando se fala na Casa de Mateus deve falar-se no clamoroso acerto da sua luz. A que se espraia nas paredes do mesmo, a que reflecte a sua fachada no lago, a que ilumina os seus jardins. Talvez por isso a Casa de Mateus seja, na realidade, um Solar.
Vila Real não tem o Marão. Tem apenas a Serra do Alvão. A Serra do Marão é mais imponente, mais icónica, mais paradigma de paisagem montanhosa. Mas ao caminharmos por lá, não nos apercebemos da sua grandiosidade. É, portanto, necessário subirmos ao Parque Natural do Alvão. E só então, só quando chegamos lá acima ao Pincho, podemos realmente apreciar o Marão na sua magnitude e, de caminho, legitimar Torga quando dizia que as duas únicas coisas realmente grandiosas em Portugal eram o Alentejo e Trás-os-Montes.
Carlos Malmoro

Existe um centro sem trânsito e, à sua volta, existe ainda o centro mas já com trânsito. Depois existe um anel de habitações, escolas, comércio e equipamentos de lazer. As vias-férreas, as circulares que distribuem o trânsito e as entradas/saídas das auto-estradas formam um outro círculo. Finalmente, existe a cintura industrial e estamos de volta à paisagem de montanha, salpicada com pequenas aldeias.


Guimarães é um exemplo de ordenamento do território. Como acima descrevi, as várias componentes da cidade estão organizadas de modo correcto. E a organização de uma cidade influi em muito na qualidade de vida que oferece aos seus cidadãos. E Guimarães prova-o, sendo das cidades portuguesas com mais qualidade de vida. Porque, como é óbvio, não ter uma auto-estrada a atravessar uma zona residencial ou uma fábrica colada a uma escola faz diferença.


Estas observações não foram feitas por nenhum entendido em matéria paisagística. Não o sou. Mas basta subir à Penha – de carro, para os adictos do conforto como eu; a pé ou de bicicleta, para os indefectíveis da Natureza; ou de teleférico, para os aventureiros – mas basta subir à Penha, dizia, para se confirmar, com uma simples olhadela à cidade, que ela prima em se mostrar muito organizada. Se em Guimarães nasceu Portugal, era bom que em Portugal começassem a nascer mais cidades como Guimarães: arrumadas.

Para finalizar, quero esclarecer que não falei na importância cultural do seu centro ou na relevância histórica do seu Castelo por uma razão muito simples: dissertar sobre um Património Cultural da Humanidade ou sobre o Berço de uma Nação não é matéria que se possa explanar num único post. Ficam, por isso, as fotos.
fotos: 1, 2, 3, 4
Carlos Malmoro

03 Junho 2007

E logo agora,

que o ministro compara a margem sul a um deserto, que um juíz decide que uma criança violada por um pedólfilo teve prazer, que a greve geral teve 14% de adesão para o Governo e 80 e muitos para os sindicatos, que Sócrates fechou a Praça Vermelha para o seu jogging diário, que os erros de ortografia são permitidos em provas de português e que volta à agenda a obrigação patética de os pais declararem cada quinhentos euritos que oferecem aos filhos, logo agora, dizia, é que eu tinha de ficar impedido por obrigações académicas, que me levam o tempo todo até à última semana do presente mês, de comentar estas suculentas barbaridades.
Sem desesperos: lá chegados, haverá iguais ou piores.
Carlos Malmoro

30 Maio 2007

Leaving Las Vegas

É um retrato dostoievskiano de Las Vegas e de duas vidas. O contraste entre a ofuscante miríade de neons que saturam as ruas e o desejo de duas almas perdidas, mas dispostas a atingir os seus objectivos. Uma ambiciona beber até morrer. Outra viver a vida de prostituta. Quando se cruzam, prometem não julgar nem interferir com as escolhas de cada uma. Gozam um pouco da vida para desforrar o que pensam que a vida gozou com elas. No final, ambas conseguem alcançar os seus objectivos.
Um filme sombrio, melancólico e nocturno na incandescente, faustosa e nocturna Las Vegas, de Mike Figgis, com excelentes interpretações de Nicholas Cage e de Elisabeth Shue.


Carlos Malmoro

28 Maio 2007

Uma péssima ideia

E só naquele momento, só quando ele começou a acelerar o passo na minha direcção, é que eu me apercebi que talvez, só talvez, tenha sido uma péssima ideia trazer o carro vermelho para um sítio a mais de dois mil e quinhentos metros de altura, servido por estradas estreitas, ladeado de ravinas de centenas de metros e cheio de animais com fobia a essa cor.

Carlos Malmoro

23 Maio 2007

Clint Eastwood

Hoje, se há realizador capaz de fazer brilhantes filmes em série, ele chama-se Clint Eastwood. Há algo no seu mister que transforma tudo aquilo que realiza em monumentos ao cinema. A fórmula parece simples: tem predilecção por cenas simbólicas, épicas, jogos de sombra/luz, os protagonistas não são heróis que salvam meio mundo, mas apenas pessoas, com algumas forças e imensas fragilidades. Embora não representando o estereótipo de herói, existem quase sempre três qualidades nos actores principais: a dignidade de jogar limpo, a honra de saber perder e a fleuma de saber ganhar.

Um dos aspectos que tem vindo a ganhar importância na indústria do cinema é o argumento do filme. Para se ter uma ideia do que afirmo, basta constatar que há algumas décadas o Óscar para Melhor Argumento era entregue ainda a cerimónia ia a meio, no meio dos chamados Óscares técnicos: sonoplastia, efeitos especiais, guarda-roupa, etc. Actualmente, é o antepenúltimo a ser entregue, imediatamente antes da estatueta para Melhor Filme e Melhor Realizador. Além disso, os bons argumentistas são tão disputados como as grandes estrelas ou os bons realizadores.
Clint Eastwood ancora sempre os seus filmes a memoráveis estórias. Argumentos bem engendrados, simples, com aquela moral de que a vida dói sempre, mesmo aos mais audazes. Filma permanentemente com uma aura de melancolia, de pessoas que já viveram os seus quinze minutos de fama, não da fama vã, mas daquele momento único que acontece quando realizamos um sonho. E é isso que Clint Eastwood essencialmente é: um realizador de sonhos.

22 Maio 2007

Predisposição do dia


«Under a pale of grey sky
We shall arise»
*Max Cavalera

Carlos Malmoro

21 Maio 2007

Carta aberta a dois leitores

Mike, caro,

Obrigado por este elogio. Só passado um mês lhe agradeço, porque verifiquei no technorati a sua citação. Ajudou-me a confirmar que os leitores que por aqui andam são muito generosos. Levanta a questão de meu blogue ter menos tráfego do que outros que supostamente só abordam temas sexuais. Sei que hoje em dia há sempre mais audiências se se falar de sexo, e de namoros interrompidos, e de tampas, e de recomeços, e de one-night-stands... Os últimos lançamentos editoriais de blogues provam-no. Acontece que, nessas questões, eu sou o tipo mais aborrecido do país. Amo-a. Ponto. Não há lamechice nem qualquer tipo de altivez moral nesta afirmação. Apenas constato a verdade, a minha verdade. E faço questão de frisar que é a minha verdade porque se trata de um blogue pessoal. E eu, a breves dias de fazer trinta e três, não vou mudar para ter mais audiências. Aliás, se por um passe de magia me oferecessem 3000 leitores diários, eu ficava todo contente. Tinham era de me garantir que os trinta que tenho se mantinham. É que são esses que me vão dando o ânimo, que por vezes esmorece, para continuar ao fim quase quatro anos de blogue. Espero que não entenda este discurso como um «pobrezinho mas honrado», que abomino, mas como a assumpção de que um blogue «recheado de qualidade» faz-se essencialmente pela qualidade dos seus leitores. Como é o seu caso e dos outros vinte e nove diariamente por aqui passam.

Caríssima Papalagui,

Obrigado por esta distinção. Honra-me. Não entrei no jogo porque me pareceu injusto. Primeiro, temos a questão da quantidade, mas essa já foi devidamente abordada nesse teu post. Depois, e o mais importante, porque um bom blogue não é só aquele que me faz pensar, mas também aquele que me diverte, que me emociona, que me distrai, que simplesmente está bem escrito e, por vezes, acho-o um bom blogue porque tem um certo ambiente. Finalmente, porque há uma tendência para se votar em blogues que sejam sérios, do sistema. E nem sempre quem tem audiências de milhares e escreve em jornais é sério ou, por outras palavras, «faz pensar» pelas razões correctas. Desmistifico metaforizando: por altura da polémica sobre Salazar, houve tantos disparates técnicos na abordagem aos assuntos económicos, leviandades de quem não percebe nada do que está a dizer, confusões entre conceitos económicos distintos, mentiras, mesmo, ditos nesses blogues para justificar a «genialidade» económica do homem que fez com que eu deixasse de ler certos opinion-makers. Repara, não se tratava de, perante um copo a meio, afirmar que ele está meio cheio ou meio vazio. Isso é uma questão de perspectiva e nada tem de mal. Era perante um copo vazio, afirmar-se que ele estava cheio. E isso já não é opinião, é desonestidade intelectual.
É certo que no outro blogue onde somos colegas entrei no jogo. Aqueles em que votei foram blogues do «sistema» que eu acho interessantes. Mas também é bom lembrar que estávamos condicionados à partida pelo regulamento interno, caso contrário teria votado, com muito mais propriedade, no teu.
O meu profundo e sincero obrigado aos dois.

Carlos Malmoro

5 Latitudes para 5 estados de espírito (2)











Astúrias - Espanha
Carlos Malmoro

17 Maio 2007

«Pôr uma abaixo»

Há dias, fases, momentos, nadas na vida em que temos de «pôr uma abaixo». Na condução, como muito bem sabemos, «pôr uma abaixo» significa uma redução de caixa, que tem como efeito imediato uma diminuição da velocidade do carro. Continuando a analogia, a vida quotidiana não se compadece com reduções de velocidades. Obriga-nos a andar sempre em quinta a fundo, sem tempo para analisar as curvas, os cruzamentos e todos os sítios de perigo acentuado, a distância ao próximo é reduzida, sempre em risco de colisão com este, e as rectas, aqueles locais onde se poderia desfrutar mais a condução, tentamos ultrapassá-las o mais rapidamente possível.

Mas se a redução de velocidade do veículo como consequência de meter uma abaixo seja o aspecto mais visível, imediato e indesejável desta manobra, ela dá-nos mais segurança, mais força e o carro fica com os pneus mais assentes na estrada. O que se perde em velocidade, ganha-se na segurança para abordar os perigos da vida e da estrada, em mais força para evitar a colisão com o próximo e os pneus colados aos asfalto dão-nos garantias de que podemos usufruir dos momentos prazeirentos da condução e da vida.

Exceptuando os casos em que só se conduz o carro e a vida em primeira velocidade (nesses casos é porque não se sabe guiar nem viver sem medo), sou um apologista que se deve realizar amiúde esta acção. Quando o trabalho sufoca, «meter uma abaixo» significa fazer menos trabalho, mas fazê-lo melhor; quando estamos no limiar de uma discussão sem sentido com a “pessoa”, «pôr uma abaixo» significa trocar um pouco da nossa «razão» pela segurança de continuar a tê-la ao nosso lado; e quando estamos a gozar umas férias, reduzir de velocidade significa trocar a ânsia de ver tudo por reparar nalgumas pequenas mas deliciosas coisas que sejam memoráveis. Faz-nos falta pôr uma abaixo mais vezes. Na condução e na vida.

Carlos Malmoro

O livro de reclamações, sff

Na passada semana estiveram uns lindos dias de sol. E no fim-de-semana uns excelentes dias de chuva. Esta semana será diferente: estão uns excelentes dias de sol durante a semana e vão estar uns lindos dias de chuva no fim-de-semana. O que eu pergunto é: onde estão a ASAE e a DECO quando realmente precisamos delas?
Carlos Malmoro
PS: Reclamar do tempo meteorológico num blogue significa o mesmo que numa relação amorosa? Ou seja, que já não há mais nada para se dizer?

15 Maio 2007

Não sei se é o comentário correcto, mas...

Sempre achei curioso que em Portugal existam "mais" professores no Min. da Educação do que a dar aulas, mais funcionários no Min. da Agricultura do que agricultores e mais polícias na secretaria do que a patrulhar as ruas.

Carlos Malmoro

Notas soltas sobre cinema

  • As taglines são expressões que servem de subtítulo ao filme. Estas frases – aqui seria bem mais apropriado o uso da palavra inglesa «sentence» - estas frases, dizia, estão para os filmes como as epígrafes estão para os livros: levantam a ponta do véu, criam ambiente, aguçam a curiosidade. Encontram-se nos anúncios promocionais da estreia do filme ou, já depois de lançados em DVD, nas respectivas capas. Nunca vi um filme que ousasse colocar uma tagline no início do filme, mas penso que isso irá acontecer mais dia, menos dia. Por uma simples razão: imagine-se numa sala escura, pronto para ver o filme, e no ecrã aparecia esta frase: «Tom Stall tinha a vida perfeita… até se tornar um herói.». Diga lá, caro leitor, se não ficava mais empolgado com o início do filme [Uma História de Violência]?
  • Numa indústria/arte de excessos, escândalos, papéis épicos e patéticos, cenas inolvidáveis e menos aconselháveis, representações hilariantes e pejadas de "pathos", sempre vai havendo quem faça do low profile a sua imagem de marca. A actriz Catherine Keener é uma dessas excepções. Representa de uma forma muito objectiva, simples, parece ser fácil fazer aquilo que faz. Vi-a em «Queres ser John Malkovich?», «A Intérprete», «S1mOne» e em «Capote». Em todos eles, mesmo quando o filme era mauzito, vi competência, vi sobriedade, vi excelência sempre em actuações em low-profile. Dá gosto ver e apreciar. Além disso, é uma mulher que não tendo uma beleza transcendental, é simples e pragmaticamente bonita. Que também dá gosto ver e apreciar. Quando lhe perguntaram porque não tinha papéis mais marcantes ou porque não concorria para castings de personagens mais destacados, respondeu, simplesmente, que não tinha nascido para ser estrela. É pena.

foto

14 Maio 2007

5 Latitudes (1)








Terras Altas, Escócia


Carlos Malmoro

Riqueza Linguística

Como é bela a deusa do meu céu
Actriz de ralé
No meu mausoléu de ninfas da maré
Faz dança do véu
Com um sururu de se tirar o chapéu

A feliz garça com o seu girar
Transmuta por dom o meu lupanar
Em casa de bom tom
Angélico altar
Onde o varonil tem gosto em capitular

Bem vindos ao meu bazar
Propõe chás do Sião, pepitas do Brasil, joias da Pérsia
Morfina
Não perdes nada em entrar
Vem ver a actuação,
o exótico pernil,
a doce inércia

A morfina

É tão quente a raça do seu ser
Seu jeito fatal de dar a entrever
O gozo sensual
O mole prazer
Que a carne retêm depois de esmorecer
E sem mais me deixa suspirar
Na maior nudez que venha a rodar
A ter ser minha vez
Os braços no ar
Que me faça vir na graça do seu picar



Adolfo Luxúria Canibal é o autor desta letra e é, igualmente, um dos melhores letristas portugueses, empatado com Carlos Tê (noutro registo).
Carlos Malmoro

13 Maio 2007

França

Há alguns dias, andava eu em deambulações profissionais pelo Porto, quando um casal de turistas franceses abeirou-se de mim para me perguntar onde ficava a estação de metro mais próxima. Eu, como bom português que sou, facilitei-lhe a vida e respondi em francês. Indiquei-lhe o caminho, desejei ao parzinho uma boa estadia (temos de preservar o turismo, mesmo o dos franceses que andam de metro...) e despedi-me. Nisto vejo o homem muito espantado a perguntar se eu sabia falar francês. Um pouco, respondi-lhe eu. Se já tinha sido emigrante foi a pergunta que se seguiu. E eu lá disse que não, que era mesmo francês da escolinha. Agradeceu e desapareceu.

Esta pequena estória serve para legitimar um pouco mais o que eu penso, dos franceses. São um povo que se julga superior, arrogante q.b., que pensa que a Europa é constituída pelas suas Luzes e pelas trevas dos outros, que tentam à saciedade iluminar com a sua cultura infinitamente mais humana, e que entendem que um português é alguém que sabe lavar escadas e nunca alguém capaz de balbuciar onde fica uma estação de metro na melhor língua do mundo: a deles.

Talvez por isso concorde com Vasco Pulido Valente quando diz no Público de sexta-feira que «Apesar da cosmética, ele [Sarko] e Ségolène vivem noutra era e, no fundo, não importa muito qual dos dois se aplicará agora a conservar o “arcaísmo francês”». A França quer criar um directório para a Europa, onde mande ela, claro, pois só ela encarna o espírito europeu; quer criar uma União Mediterrânica, para dominar o Oeste Europeu, quando ainda não se apercebeu que dentro desse Mediterrâneo há um país [Espanha] que já «conta mais» internacionalmente, em alguns aspectos realmente importantes, do que a França, e quer ser amiga dos norte-americanos «porque sim», mas parece esquecer-se que, quer entre homens quer entre países, uma relação de amizade tem por base a confiança e essa não se conquista com palavras doces depois de desconfianças de décadas.

Para a economia, temos a ideia peregrina de um proteccionismo semelhante ao francês (com os resultados brilhantes que se conhecem) aplicado a toda a Europa, e não se fala uma vez que seja dos coitados e miseráveis agricultores gauleses que são os que mais dinheiros recebem desse saco sem fundo chamado PAC.

Não me interpretem mal, sei que a França é um grande país, tenho alguns bons amigos franceses, petulantes para com Portugal, claro, mas bons amigos, gosto de alguma cultura francesa, e há muitos filmes franceses protagonizados pela Mónica Bellucci. Não suporto o som e o gesticular da língua deles, é certo. Mas isso não chega para me considerar francófobo. O problema da França é que não teve ninguém que lhe mostrasse um espelho. Que lhe dissesse que antes de conquistar a admiração do mundo, tem de conquistar a admiração dos franceses e que antes de se tornar um país relevante para os outros, tem de ser o país dos franceses. Enquanto isso não suceder, enquanto não arrumar a casa, será sempre considerada como o vizinho quer administar o prédio sem saber administrar o seu próprio lar.

09 Maio 2007

David Lynch

Talvez inspirado em coisas sem sentido retratadas neste post da Leonor, trago hoje à colação David Lynch. Ressalvo que não sou um fanático das obras dele, e não penso, sequer, que qualquer coisa assinada pelo senhor constitua um novo paradigma da sétima arte. Os filmes recentes de Lynch pouco ou nada me dizem. Não que eu ache que são desmerecedores da «marca» Lynch; penso é que ele trilhou caminhos que não me apetece seguir... Vou falar de três obras dele: dois filmes e uma série.

A série, como já terão percebido, é Twin Peaks. Todas as séries de culto que hoje se idolatram começaram em 1990. O terrível homicídio da jovem Laura Palmer leva a Twin Peaks uma equipa do FBI para investigar o caso. À medida que a investigação avança, e os habitantes são confrontados com alguns resultados da mesma, os sentimentos, os laços familiares, as cumplicidades, enfim, tudo o que aproximava as pessoas naquela pequena cidade de 51201 habitantes, convertem-se em desconfianças, inseguranças, acusações. Um excelente exercício que nos prova que uma sociedade pode estar em guerra sem o uso de armas (físicas). E depois aquela banda sonora: mesmo que não víssemos a série, aquelas quatro notas de baixo com orquestração por trás seriam suficientes para explicar o que se estava ali a passar.

«Um Coração Selvagem». É um filme cheio de agressividade, perseguições, de suspense, uma boa panóplia de assassinos contratados, obsessões por Elvis e pelo «Feiticeiro de Oz». Enfim, aquilo que poderia parecer surreal é apenas um «Romeu e Julieta» dos tempos modernos. Laura Dern, uma filha de uma milionária, apaixona-se por Nicholas Cage. A mãe dela não está pelos ajustes, não pelo facto de ele ser um perdido, mas porque também está deslumbrada por ele. Um filme que aconselho.

Finalmente, o melhor filme de Lynch. Acho que nunca ninguém filmou de forma tão intensa. Vi-o pelo primeira com dez anos e lembro-me de ter chorado como um perdido. É extremamente belo e brutal. É o filme da minha vida. Aquele em que aprendi que nada do que aparenta é. Saímos da sala com uma nova visão do mundo: neste filme, é a vida que representa o cinema. Saímos da sala a perguntar o que é um ser humano. A perguntar o que é ser humano. Foi nomeado para oito óscares, não ganhou nenhum. Como as personagens olharam com desprezo para o protagonista, também a academia olhou com desconfiança para uma obra invulgar. Chama-se «O Homem Elefante».



Carlos Malmoro

07 Maio 2007

Excluindo a hipótese de tirar férias,

alguém me dá uma dica para aguentar as próximas seis semanas sem nenhum feriado pelo meio?

Carlos Malmoro

06 Maio 2007

Propriedade Intelectual

Serve o presente para informar que a patente do melhor humor aqui produzido é propriedade desta senhora.

Carlos Malmoro

PS: Quanto ao pior, bem, falem comigo...

«Mãezinha»

«A terra do meu pai era pequena
e os transportes difíceis.
Não havia comboios, nem automóveis, nem aviões, nem mísseis.
Corria branda a noite e a vida era serena.

Segundo informação, concreta e exacta,
dos boletins oficiais,
viviam lá na terra, a essa data,
3023 mulheres, das quais
45 por cento eram de tenra idade,
chamando tenra idade
à que vai desde o berço até à puberdade.

28 por cento das restantes
eram senhoras, daquelas que só havia dantes.
Umas, viúvas, que nunca mais (oh! Nunca mais) tinham sequer sorrido
desde o dia do extremoso marido;
outras, senhoras casadas, mães de filhos...
(de resto, as senhoras casadas,
pelas suas próprias condições,
não têm que ser consideradas
nestas considerações.)

Das outras, 10 por cento,
eram meninas casadoiras, seriíssimas, discretas,
mas que, por temperamento,
ou por outras razões mais ou menos secretas,
não se inclinavam para o casamento.

Além destas meninas
havia, salvo erro, 32,
que à meiga luz das horas vespertinas
se punham a bordar por detrás das cortinas
espreitando, de revés, quem passava nas ruas.

Dessas havia 9 que moravam
em prédios baixos como então havia,
um aqui, outro além, mas que todos ficavam
no troço habitual que o meu pai percorria,
tranquilamente, no maior sossego,
às horas em que entrava e saía do emprego.

Dessas 9 excelentes raparigas
uma fugiu com o criada da lavoura;
5 morreram novas, de bexigas,
outra, que veio a ser a grande senhora,
teve as suas fraquezas mas casou-se
e foi condessa por real mercê;
outra suicidou-se
não se sabe porquê.

A que sobeja
chamava-se Rosinha.
Foi essa que o meu pai levou à igreja.
Foi a minha mãezinha.»

António Gedeão, «Poemas Escolhidos», págs. 69-71, Edições João Sá da Costa, 1996

03 Maio 2007

Continuar a bater na mesma tecla

Quanto mais leio poesia do século XX, mais me certifico que no mundo não houve poeta melhor do que Pessoa. Para além da escrita, há algo nele com que me identifico. Já pensei que fosse o misticismo, o que é pouco provável por causa do meu ateísmo a religiões e misticismos; a atitude anglófila era possível, mas não acho que gostar de uma mesma cultura seja suficiente para gerar uma tão grande aproximação. E ainda cheguei admitir como hipótese o patriotismo, mas o quotidiano rapidamente me fez desistir da ideia. Até que um dia, sem esperar (estas coisas aparecem sempre quando estamos a escolher a marca de azeite que devemos comprar) encontrei aquilo que procurava: identifico-me com Pessoa porque ele era um tipo igual a nós. De manhã atendia uns telefonemas, à tarde fazia a escrita da empresa e, ao fim do dia, depois de passar pela taberna, escrevia. Pessoa não era mais do que um blogger. Isto é, um tipo igual a mim: de dia escritório, à noite escrita. Porém com duas pequenas diferenças: eu não passo pelo café ao fim do dia e Pessoa, à noite, escrevia coisas como esta:
«Tenho pensamentos que, se pudesse revelá-los e fazê-los viver, acrescentariam nova luminosidade às estrelas, nova beleza ao mundo e maior amor ao coração dos homens.»
ao passo que eu escrevo coisas como a que acabaram de ler. Enfim, pormenores.

Carlos Malmoro

02 Maio 2007

Lamento de um entardecer chuvoso

....ou o (en)canto de um melancólico crepúsculo:




I told him boy
Don't cry
Something will come up way
And the sunrise
Only God believes in
Dad Dad Dad realize
Love will always find
Is where you lie

Carlos Malmoro

Paradoxos

Uma mentira só é desculpável se for honesta.

Carlos Malmoro

01 Maio 2007

Em Maio,

no «GR», é o «Mês do Cinema». Convido-vos, portanto, a assistir a esta longa metragem.


Créditos da foto: André Carvalho

Carlos Malmoro