29 Julho 2008

Cinco anos mais perto

A 29 de Julho de 2003, lá decidi publicar aquilo. O texto já estava escrito. Naquela altura o pudor em mostrar o que escrevia era tanto que primeiro alinhavava as ideias no papel, depois passava no Word e finalmente é que copiava o texto para o blogger. Mais tarde, passei a escrever só no processador de texto e depois publicava o post. Causava-me calafrios a ideia de a gramática ser atropelada por causa da pressa. Com o hábito, comecei a escrever e publicar directamente no blogger. E admito que com essa nova e mais apressada forma de postar o Português tenha sofrido.
Há 5 anos a blogosfera em Portugal dava os primeiros passos. Quem começou por essa altura, sabe que o blogger não permitia caixas de comentários, sabe que quase era necessário ser programador para colocar imagens e que só um técnico especializado em templates sabia fazer um link ou uma barra lateral com as preferências [blog roll]. No entanto, eu já apanhei a vaga de crescimento do blogger: em menos de um ano tornou-se fácil fazer tudo isso. Consequentemente, a aparência dos blogs uniformizou-se.
Os media tradicionais reagiram com desconfiança ao advento da blogosfera. Pedro Rolo Duarte dizia ser contra os colunistas, como por exemplo Pedro Mexia que na altura mantinha o Dicionário do Diabo, que tinham espaços na imprensa escrita e que abriam blogs, retirando «audiência» às outras vozes que não tinham acesso aos jornais como autores. Essa foi uma das maiores polémicas da blogosfera, sendo que não tinha nenhum motivo para sê-lo, uma vez que PRD não disse mal da blogosfera em si. Mais tarde foi a vez de Vasco Pulido Valente escrever uma crónica sobre blogs. Primeiro, ao seu estilo, ou seja, que éramos todos uns miseráveis, mais tarde a enamorar-se pelo encanto destes bichinhos até abrir um estaminé. A tendência foi sendo cada vez mais esta: a aceitação de um fenómeno que veio para ficar, sendo que aqui a democratização do espaço não significou a possibilidade de acesso dos menos ouvidos ao blogger, mas antes a crescente apetência que os opinion-makers, políticos e gente com mais poder público mostraram por criar um espaço destes.
Cinco anos depois sei apenas alguma coisa sobre blogs: a principal razão para alguém carregar no botão «publicar» pela primeira vez é criar algo diferente. Esta á para mim a maior das virtudes dos blogs. Se é verdade que os blogs também ajudam a manter hábitos de escrita regulares, o tentar fazer diferente preside a todas as motivações. Outra coisa que os blogs proporcionam é um conhecimento cultural mais vasto: já comprei discos de bandas que o André meteu no videopost a rodar, já li livros de autores que não conhecia até, por exemplo, a Leonor e a Vera terem copiado excertos deles aqui para o GR. Sei mais sobre música, livros, quadros, filmes hoje do que sabia há cinco anos, não só, mas também por causa da blogosfera. E acima de tudo as pessoas.
A blogosfera faz-nos ficar mais perto das pessoas. Travamos conhecimentos, entramos e polémicas, fazemos jantares, desburocratizamos relações, mandamos vir livros de uma cidade que um amigo vai visitar, o gestor fala com o filósofo, o cronista com a professora. Até agora foram cinco anos a escrever. Foram cinco anos a ficar mais perto das pessoas.
A quem me acompanha na viagem, o meu sentido obrigado pela companhia. Bem-hajam.

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22 Julho 2008

Muito para além da música

Como sou confesso e orgulhoso fã de cada palavra que Cohen escreve e canta, pensava que era uma subjectividade própria de admirador ter achado que o que viu, e essencialmente o que viveu, no sábado passado não tenha termo de comparação com nada do que até então assistiu. Para tirar tais dúvidas e também para não fazer um balanço em que me limitasse a debitar elogios ao senhor, convoquei os jornais para me ajudarem a ser mais objectivo.
No IOL Diário, dizem que foi "um espectáculo tão inesquecível para quem assistiu como, pelas suas palavras, para o próprio Cohen: «Thank you for this memorable evening!»" . O Diário de Notícias da Madeira afirma que "Cohen cantou "Bird on the wire" como se fosse uma oração, embalou o público com "Take this waltz", recordou "Hallelujah" e "Suzanne" em momentos de fazer arrepiar os mais distraídos." O JN não se poupa: "A partir daí é um abuso de deslumbre: "Suzanne", "The gipsy wife", "Hallelujah", "I'm your man", "Take this waltz", "Firts we take Manhattan", "Sisters of Mercy" ou "I tried to leave you". Há encores pelo meio, o público esmagado pela magnificência desta música enorme. Leonard Cohen não mais deverá cá voltar. Felizardos são aqueles que testemunharam tudo isto." O DN, para esclarecer o leitor ao que vai, abre a sua notícia desta forma: "Cantou, dançou, tocou, falou, disse poemas em tom de oração e outros num registo de protesto, elogiou a música portuguesa, sorriu muito e no fim agradeceu uma "noite memorável". Quem o viu - e foram cerca de nove mil - não vai esquecer aquele que foi um dos melhores concertos dos últimos tempos em Lisboa." E o Destak conclui que "For he's touched your perfect body, with his mind. As palavras, sussurradas por 10 mil pessoas, em Suzanne, transmitiam na perfeição o sentimento que tomou conta, sábado, de uma plateia rendida e avassalada, ao ar livre em Algés, numa noite de Verão que superou qualquer expectativa."
Após este pequeno apanhado de notícias, sou levado a crer numa de três coisas: ou o senhor nos enganou a todos muito bem, ou as redacções dos jornais estão cheias de fãs incondicionais de Cohen, ou aquilo que se passou em Algés no Sábado passado foi mesmo muito especial. Não me restam dúvidas em qual acreditar.
Carlos Malmoro

19 Julho 2008

É hoje, é hoje

Musicalmente falando, hoje talvez seja um dos dias mais importantes da minha vida. Vou assitir ao concerto de Leonard Cohen. O cantor canadiano desloca-se a Portugal para um concerto único a ter lugar no Passeio Marítimo de Algés.

Se procuram em Cohen uma voz certa, límpida, com técnicas vocais de sobe e desce nas escalas ou um utilizador exímio de graves e agudos, esqueçam-no de vez. Nada em Cohen é agudo. Tudo é grave. A voz de Leonard Cohen não tem nada de musical. Tem apenas toda a alma do mundo lá dentro.

Se procuram na música de Leonard Cohen ritmos exuberantes, guitarras com tecnicismos dos brinca-na-areia ou um músico que se limita a fazer bem um estilo, esqueçam-no. A música de Cohen não se compadece com tais perfeições. A música dele é imperfeita. Como a vida.

As letras de Cohen não são letras. São poemas dos mais perfeitos alguma vez feitos. Falam de amor, de morte, de política, de depressão, de alegria, da crença, de ser. Mais do que falar, os poemas de Cohen são tudo isso. E tudo isso é apenas a vida no que de mais profundo tem para oferecer ao ser humano.

Bem-vindo, Mr Cohen. Obrigado por esta última oportunidade. E, logo à noite, vamos deixar a sua Sabedoria entrar nas nossas almas. Uma vez mais.



PS: Parece que por aqui quiseram fazer uma "guerra" ou um "derby" entre o que era melhor: Lou Reed ou Cohen. Como se não fossem os dois gigantes. Como se fossem Sporting e Benfica. Vejam-nos aí em cima, na cerimónia de entrada do cantor canadiano para o Rock and Roll Hall of Fame. Cohen a dizer que é fã de Reed desde sempre e Reed a dizer que é uma sorte estar vivo ao mesmo tempo que Cohen. Por vezes somos mesmo muito pequenos.

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18 Julho 2008

1 ("there´s not enough soul left in the world to write another song like this")



Para S.



Dance me to your beauty with a burning violin
Dance me through the panic 'til I'm gathered safely in
Lift me like an olive branch and be my homeward dove
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love
Oh let me see your beauty when the witnesses are gone
Let me feel you moving like they do in Babylon
Show me slowly what I only know the limits of
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love

Dance me to the wedding now, dance me on and on
Dance me very tenderly and dance me very long
We're both of us beneath our love, we're both of us above
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love

Dance me to the children who are asking to be born
Dance me through the curtains that our kisses have outworn
Raise a tent of shelter now, though every thread is torn
Dance me to the end of love

Dance me to your beauty with a burning violin
Dance me through the panic till I'm gathered safely in
Touch me with your naked hand or touch me with your glove
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love

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17 Julho 2008

2



If you want a lover
Ill do anything you ask me to
And if you want another kind of love
Ill wear a mask for you
If you want a partner
Take my hand
Or if you want to strike me down in anger
Here I stand
Im your man

If you want a boxer
I will step into the ring for you
And if you want a doctor
Ill examine every inch of you
If you want a driver
Climb inside
Or if you want to take me for a ride
You know you can
Im your man

Ah, the moons too bright
The chains too tight
The beast wont go to sleep
Ive been running through these promises to you
That I made and I could not keep
Ah but a man never got a woman back
Not by begging on his knees
Or Id crawl to you baby
And Id fall at your feet
And Id howl at your beauty
Like a dog in heat
And Id claw at your heart
And Id tear at your sheet
Id say please, please
Im your man

(...)

Carlos Malmoro

16 Julho 2008

3




Well my friends are gone and my hair is grey
I ache in the places where I used to play
And Im crazy for love but Im not coming on
Im just paying my rent every day
Oh in the tower of song

I said to hank williams: how lonely does it get?
Hank williams hasnt answered yet
But I hear him coughing all night long
A hundred floors above me
In the tower of song

I was born like this, I had no choice
I was born with the gift of a golden voice
And twenty-seven angels from the great beyond
They tied me to this table right here
In the tower of song

So you can stick your little pins in that voodoo doll
Im very sorry, baby, doesnt look like me at all
Im standing by the window where the light is strong
Ah they dont let a woman kill you
Not in the tower of song

Now you can say that Ive grown bitter but of this you may be sure
The rich have got their channels in the bedrooms of the poor
And theres a mighty judgement coming, but I may be wrong
You see, you hear these funny voices
In the tower of song

(...)

Carlos Malmoro

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4



Everybody knows that the dice are loaded
Everybody rolls with their fingers crossed
Everybody knows that the war is over
Everybody knows the good guys lost
Everybody knows the fight was fixed
The poor stay poor, the rich get rich
That's how it goes
Everybody knows
Everybody knows that the boat is leaking
Everybody knows that the captain lied
Everybody got this broken feeling
Like their father or their dog just died

Everybody talking to their pockets
Everybody wants a box of chocolates
And a long stem rose
Everybody knows

Everybody knows that you love me baby
Everybody knows that you really do
Everybody knows that you've been faithful
Ah give or take a night or two
Everybody knows you've been discreet
But there were so many people you just had to meet
Without your clothes
And everybody knows

Everybody knows, everybody knows
That's how it goes
Everybody knows

....

Carlos Malmoro


14 Julho 2008

5

The birds they sang

at the break of day

Start again

I heard them say

Don't dwell on what has passed away

or what is yet to be.

Ah the wars they will be fought again

The holy dove She will be caught again

bought and sold and bought again

the dove is never free.

Ring the bells that still can ring

Forget your perfect offering

There is a crack in everything

That's how the light gets in.

We asked for signs the signs were sent:

the birth betrayed the marriage spent

Yeah the widowhood of every government -

- signs for all to see.

I can't run no more with that lawless crowd

while the killers in high places say their prayers out loud.

But they've summoned, they've summoned up a thundercloud

and they're going to hear from me.

Ring the bells that still can ring ...

You can add up the parts but you won't have the sum

You can strike up the march, there is no drum

Every heart, every heart to love will come

but like a refugee.

Carlos Malmoro

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13 Julho 2008

6



Baby, I've been waiting,
I've been waiting night and day.
I didn't see the time,
I waited half my life away.
There were lots of invitations
and I know you sent me some,
but I was waiting for the miracle,
for the miracle to come.

I know you really loved me.
but, you see, my hands were tied.
I know it must have hurt you,
it must have hurt your pride
to have to stand beneath my window
with your bugle and your drum,
and me I'm up there waiting for the miracle, for the miracle to come.

Ah I don't believe you'd like it,
You wouldn't like it here.
There ain't no entertainment
and the judgements are severe.
The Maestro says it's Mozart
but it sounds like bubble gum
when you're waiting for the miracle, for the miracle to come.

Carlos Malmoro

24 Junho 2008

Ao que isto chegou

Anda um homem atrás de uma pen que julga perdida.
Anda um homem de 34 anos, já com idade para manter uma certa compostura, a examinar todos os cantos da casa.
Anda um homem com idade para digno, de rabo para o ar, em busca de uma peça informática.
Um homem com estudos, aliás, que estuda ainda, com um emprego a sério, cheio de reuniões na agenda, e tal, respeitado na «praça» e tudo, e anda este homem de cócoras, a humilhar-se por causa de uns pingos de solda a que deram o nome de circuito integrado e que é suposto guardar mais informação que o seu cérebro.
E é assim que se passa uma vida: sem compostura, de rabo para o ar, indigno e humilhado por causa de um bocado de plástico azul.

26 Abril 2008

Noites certas para certas canções

disarm you with a smile

...

send this smile over you


....


25 Abril 2008

Marketing

Foi nos anos oitenta, como por aqui já se disse, que a música, e podemos mesmo dizer a arte em geral, começou a viver muito da imagem. Mas não foi só o meio artístico que começou a olhar para a imagem como uma necessidade. Se é certo que os videoclips eram obrigatórios, as capas dos livros e dos discos eram cada vez mais pensadas para serem apresentadas como obras de arte, também os políticos perceberam que para além da ideologia fazia falta uma imagem e um conceito que passasse bem nos media (a eleição de um actor de Hollywood para presidente dos EUA é um bom exemplo). Ou seja, o marketing entrou nas mais diversas áreas da vida pública.
Não se pense, porém, que associar marketing a livros, discos, candidaturas ou eventos desportivos é um mal em si mesmo. Para os puristas que vêem no marketing uma deturpação da verdade que eles e só eles conhecem talvez seja. Mas é bom não esquecer que até os críticos da economia de mercado rendem-se a ele - um conceito do marketing puro e duro (a diferenciação do produto) está presente em todas as obras saramaguianas: a capa é sempre amarela e o título vai buscar a inspiração aos diversos tipos de documentos escritos (manual, ensaio, memorial, história, etc). Na política, penso que Portugal teria perdido um bom primeiro-ministro como Cavaco, se este não tivesse uma boa máquina de marketing por trás. Digo isto porque considero que enquanto pessoa, Cavaco Silva é reservado demais para o tipo de político que os cidadãos da altura exigiam. E, em meu entender, isso ter-lhe-ia sido fatal.
Em suma, a utilização do marketing para melhorar e apresentar como mais apelativa uma ideia ou produto é sempre vantajosa para estes. O que realmente é preocupante é quando o marketing tenta obviar a má qualidade do produto ou ocultar a inexistência da ideia. Mas aí nem o melhor marketing do mundo consegue tal proeza.
Carlos Malmoro

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18 Abril 2008

Ele falava. Ele saltava. Ele voava. Ele atirava piropos a viaturas mais bonitas. Ele tinha "emoções". Ele tinha um inimigo de estimação. Ele deitava lume. Ele era "o homem que não existia". Ele podia deslocar-se sem fazer ruído. Ele espalhava óleo na estrada. E eu, na minha inocência, esperava pelas 19 horas de domingo para ver na RTP 1 um carro com estas características, que servia de parceiro a um tipo que dizia estar numa cruzada para proteger os oprimidos e os indefesos dos criminosos que actuam à margem da lei.
Mesmo para quem tinha doze anos, há coisas embaraçosas de se confessar.



PS: parece que ele vai voltar

Carlos Malmoro

02 Abril 2008

A Ronda da Hora do Almoço

  • Parabéns muito, mas mesmo muito, atrasados à Pitucha por mais um aniversário do magnífico "No Cinzento de Bruxelas". Ficar-lhe-ei sempre grato o facto de ter ajudado este blogue que mantenho há quase meia década (com falhas, eu sei, com falhas) a entrar no sistema. Sinceros votos de felicidades à autora e entrego aqui e agora o requerimento para que continue com o excelente trabalho. Peço deferimento.
  • O Mike, outro aniversariante, com o seu blogue quase perfeito, completou um ano de vida blogosférica e pediu-me que escrevesse um texto sobre "Um país quase perfeito". Parabéns pelo excelente trabalho que tem realizado e fica aqui um cheirinho do texto que lhe enviei:

«A Perfeição não existe. Embora seja esta uma verdade universal, penso que é aqui que começa o mal-estar dos portugueses com Portugal – exigem uma nação perfeita. Não exigem que a companheira seja perfeita, até porque dá um certo charme aquele defeitozinho, não exigem que a família seja perfeita, porque todos temos os nossos dias menos bons, e as discussões são sinais de preocupação, e uma palavra em excesso que por vezes escapa é sinal que somos humanos, não exigimos amigos perfeitos, porque uma das provas da amizade é justamente apontar ao amigo as suas imperfeições. E é justamente esta multidão de gente imperfeita, a que eu darei o nome de portugueses, que exige um Portugal perfeito.» (...)

Carlos Malmoro

Nunca digas Nunca

Ora bem, parece que o homem vem mesmo a Portugal e a Espanha no Verão, pelo que, parece, ainda são só suposições, tenho a maior frustação musical da minha vida a poucos meses de ser resolvida - assistir a um concerto de Leonard Cohen. Agora, enquanto se deliciam com o video aí em baixo, eu gostava de deixar esta pergunta no ar: quem teve a infeliz ideia de promover um concerto do senhor Cohen ao ar livre?



Carlos Malmoro

24 Março 2008

How many special people change?

How many lives are living strange?

Carlos Malmoro

21 Março 2008

A Política também pode ser Poesia

Angela Merkel é a governante internacional que mais admiro. Várias são as razões para tal eleição, mas desde logo a mistura de pragmatismo com humanismo, de saber muito bem o que é acessório e o que é essencial, e aquela imagem de uma liderança serena que transmite resultam na minha preferência.

Entre outras coisas, Portugal ficará a dever-lhe muito do Tratado de Lisboa. Sem a sua força negocial Sócrates não tinha «peso» para obrigar a cedências dos eurocépticos e o tratado teria hoje o nome de uma outra cidade.

Mas o que hoje aqui me traz é um outro assunto: Merkel tornou-se na primeira Chanceler a discursar no Knesset (Parlamento Israelita). Simbolicamente vestida de preto, fez o discurso em alemão e agradeceu a honra de o deixarem fazê-lo na língua materna. Mas abriu e fechou em hebraico – no final a proferir um significativo “Shalom” (Paz). Disse coisas tão fortes como esta: «A nós, alemães, a Shoah cobre-nos de vergonha. Inclino-me diante de suas vítimas, dos seus sobreviventes e daqueles que os ajudaram a sobreviver.» Foi calorosamente aplaudida pela sala. A Extrema-Direita israelita e o Hamas condenaram a iniciativa, o que me leva a aprová-la à priori. Merkel, mais uma vez, fez aquilo que deveria ser feito: não pediu perdão por uma monstruosidade imperdoável – disse é a nossa vergonha; não tentou branquear o passado - assumiu-o. E são atitudes como esta, quer do lado alemão quer do lado israelita, que dão alguma esperança ao futuro da Humanidade. Porque o que se passou na terça-feira no Knesset não foi política. Foi a escrita de mais um verso do «Poema da Esperança».

Carlos Malmoro

19 Março 2008

Pai

Deveria eu ter quatro ou cinco anos quando o meu pai me levou a casa de um amigo. O amigo era advogado, tinha uma biblioteca exemplarmente encadernada e a razão da visita prendia-se com uma oferta de livros. Melhor, o amigo precisava de se ver livre de uns quantos livros. A casa ia encolher, a mulher para um lado, ele para o outro e se não os oferecesse, iriam directamente para o lixo. Enfim, bookcrossing nos anos 70. O meu pai pôs-lhe uma condição: assim como ele nunca lhe oferecera nenhum livro de farmácia, também tu não me vais oferecer nenhum livro de Direito. A condição, uma daquelas tricas que a amizade permite, lá foi aceite.

Entrámos em casa do jurista e eles começaram a falar. Eu já aqui disse que tinha uma predilecção por estantes até ao tecto. Aquelas não chegavam tão alto, mas a encadernação sumptuosa dos livros transformavam aquela pequena sala numa grandiosa biblioteca. A escolha dos livros foi feita e o meu pai e o amigo encheram dois ou três caixotes com livros e levaram-nos até ao carro. Via-se na cara dele que ele estava a fazer aquilo por obrigação: o desconsolo era o seu rosto. Antes de se despedirem, o meu pai teve uma daquelas tiradas meio cinematográficas, mas que ilustram bem o que é a amizade: -Quero que saibas que estes livros serão sempre teus; estarão na minha casa apenas por empréstimo.

Para quebrar este momento solene e extraordinário, entra um puto na sala, eu, com ares de senhorio, a dizer «ó pai, eu também quero um», com a habitual chantagem lacrimal. Riem-se com bonomia e oferecem-me um livro. E já viram algum miúdo de quatro ou cinco anos ficar satisfeito com a primeira coisa que lhe dão? Exacto, «mas eu quero aquele e não este.» «Este ou nenhum» deve o meu pai ter dito. E eu lá fui para casa com “o” livro.

“O” livro está aqui ao meu lado. Foi publicado em 1957, é da «Editora Fundo de Cultura», do Brasil, tem como director editorial Mário de Moura e como autor John M. Keynes e chama-se «Teoria Geral do Emprego, do Juro e do Dinheiro». É, para quem é leigo nestas matérias, a Bíblia da Macroeconomia (Economia dos Estados). Está aqui ao meu lado, porque ainda ontem precisei de o consultar para a tese, assim como o consultei pela primeira vez no nono ano, aquando dos meus primeiros estudos de economia.
Neste dia do Pai, para além dos desejos habituais de saúde e felicidade, tenho um outro pedido: que a prenda que hoje lhe ofereci se revele tão acertada e tão necessária para a vida dele como este livro tem sido para a minha.
Carlos Malmoro

02 Março 2008

Correntes

Caríssima Carlota,
o meu pouco tempo deve-se à tese que ando a escrever e que defende que os Estados devem apostar em empresas com a qualidade da Audi, propõe que as empresas devem desenvolver produtos com a mais-valia do Audi A4, mas infelizmente não encontra soluções para que o autor de tal teoria compre um Audi A4. E agora que ponho as coisas nestes termos, vejo que há algo de muito errado na tese que ando a escrever. Adiante, e respondendo de imediato ao desafio, aqui vão cinco coisas que não têm importância nenhuma sobre mim:
1 - Conduzir com música é um prazer, sem música é um sacrifício;
2 - Se retirarmos fatos de cerimónia, visto as peças de roupa que compro mal sequem da primeira lavagem que levam após chegarem da loja;
3 - Sou generoso nos adjectivos que substanciam o meu gosto por pessoas ou coisas;
4 - Pago sempre as facturas no último dia, nunca dou autorizações de débitos directos às empresas de serviços e exijo sempre facturas em papel;
5 - Escrevo os posts sempre acompanhado de um papelinho que mantenho religiosamente ao lado do computador. Tem cerca de uma centena palavras que gosto especialmente, e que me permitirão responder de imediato à Leonor:
Caríssima Leonor,
O papel acima referido está escrito à mão. Nele aparecem palavras que copio de livros. Nenhuma delas está lá pelo seu significado ou pela sua dificuldade lexical. Fica então uma escolha aleatória de doze delas:
Devastação, mnemónica, istmo, falésia, candil, sussurro, crepúsculo, timbre, sirga, palavra, ímpeto ou candelabro, são algumas das palavras contidas nesta cábula.
Voltando à corrente da Carlota, aqui ficam as Leis:
1. Colocar o link para a pessoa que nos "marcou".
2. Colocar as regras no blog.
3. Partilhar 6 coisas sem importância sobre nós.
4. Marcar mais 6 pessoas no final.
5. Avisar estas pessoas deixando um comentário nos seus blogs.
Convido então a 125_azul, a Ouvinte, o Mike, o Luís, a Monalisa e a Rafaela a continuarem com as correntes.

Carlos Malmoro

27 Fevereiro 2008

Postais de Felicitações

Parabéns atrasados, mas sentidos, por mais um anito de vida do excelente Postais de Bruxelas. Que agora não são de Bruxelas, são de Nova Iorque, mas que por mudarem de cidade ganharam uma mais-valia que não sei se a própria autora se apecebeu dela. Um dia espero desenvolver esta teoria.
Longa vida para o blogue e felicidades à autora.
Carlos Malmoro

07 Fevereiro 2008

Coisas da vida

Mão amiga ofereceu-me o CD de estreia dos Novembro, À Deriva. Quando mo entregou disse qualquer coisa como isto: assim, enquanto o ouves, não falas deles. Foi dito em termos irónicos e com uma boa gargalhada à mistura para não dar azo a uma possível interpretação de aborrecimento pelos meus elogiosos comentários ao grupo. Mas a mim não me enganam: é lógico que estava ali a ser dado um toque. Esta primeira parte do post é exactamente isso - a resposta à provocação: pois bem, estou a ouvir agora mesmo o CD e aqueles tipos são fantásticos, sabem compôr uma música, têm letras inspiradíssimas e duvido que as rádios portuguesas lhes passem cartão - são demasiado sofisticados para o estado geral de mediocridade que os discos que são editados em Portugal têm. Talvez daqui a dez anitos. Como pedi autorização para utilizar isto num post ao meu amigo, suponho que quando ele ler isto me vá pedir o CD de volta. Mas o que tu falaste, R, foi em falar enquanto ouvia, não em escrever enquanto ouvia. E agora, fora de brincadeiras, e para quem me lê: eu nem falo/escrevo assim tanto deles, pois não?...
Voz amiga, quer dizer como foi um mail penso que deverá utilizar-se também a forma de «mão amiga», ou não?, adiante, Voz/Mão amiga fez-me chegar uma mensagem em que dizia mais ou menos isto: tirando post's de economia, música e citações de outros bloggers ou escritores, tu agora só escreves sobre carros e de dois em dois meses. Para quando um texto a sério sobre a problemática do tunning? (smiley). Agora a sério, para quando um post sobre as tuas memórias, as tuas leituras, com aquela verve determinada de dizer tudo sem medo às palavras e nem às emoções, e que me fazia perguntar-te «que andas tu a fazer a estudar económicas?». Depois de pedir autorização à autora para utilizar publicamente o que privada e amistosamente escreveu, serve esta segunda parte do post para responder à altura: queres memórias? queres infância? queres boas recordações? Fica então com o senhor aí em baixo: só ele faz o pleno.

06 Fevereiro 2008

I Have a Dream

03 Fevereiro 2008

A Ronda da Noite

  • A Pitucha está deslumbrada com «Crime e Castigo» de Dostoievski. Não é para menos: para falar a sério sobre o livro eu necessitaria sempre de 718 elogiosas páginas para o caracterizar, o mesmo que a versão que cá por casa anda tem. Como não me vou meter nessa aventura, diria que se se queimasse todos os livros, e com bastante pena minha de tantos outros, talvez fosse este que eu pediria para deixar intacto;
  • A Carlota, agora minha colega no GR, faz uma observação na mouche: o barulho do computador parece-se muitíssimo com o som dos motores de um avião. Neste momento, o toshibazinho cá de casa está a fazer-se à pista: «Fala-vos o capitão Malmoro e sugiro que apertem os cintos - mas se entenderem por bem não o fazer eu não obrigo. Já agora pede-se aos senhores passageiros que decidam qual o destino do Boeing que eu ainda não sei para onde ir. Obrigado»
  • A Leonor gosta das palavras despojos e espargos. Eu também gosto da palavra despojos, mas nunca cogitei sobre espargos para lhe atribuir um gosto que não fosse aquele que eles têm no prato. Acho que o gosto por uma palavra está menos relacionado com o que ela significa, no dicionário ou para as nossas vidas, e mais com o som que emite. Eu adoro a palavra devastação. Ela não significa nada de bom, bem pelo contrário. Mas se se pode encontrar um denominador comum com as outras duas já aqui analisadas é que todas elas têm corpo, isto é, não são palavras magras têm por onde se lhe pegar;
  • O Hélder Franco, actualmente também meu colega no GR, teve a feliz iniciativa de fundar um blog sobre o metal. Recomendo para quem como eu gosta deste género de música e, para aqueles que pensam diferente de mim, é um óptimo sítio para desmistificar certos preconceitos em relação ao género rei do rock. O escriba deste arrazoado aguarda com expectativa textos sobre os Metallica, Megadeth ou Sepultura.

Carlos Malmoro

02 Fevereiro 2008

Lisbon after Dark

Balanços & Balancetes

Jornais:
P2
Público
Televisão:
Portugal - Um Retrato Social
Rádio:
Ressurgimento do Rádio Clube Português
Música:
O melhor:
Jorge Palma (português) Arcade Fire (internacional)
O pior:
Concursos televisivos para construir boys bands (já não há que cheguem?...)
Melhor perspectiva:
Novembro
Cinema:
Cartas de Iwo Jima (Clint Eastwood); Promessas Perigosas (David Cronenberg);
Livros:
Cemitério de Pianos (José Luís Peixoto), Todo-o-Mundo (Philip Roth);
Político:
O melhor:
José Sócrates (português); Angela Merkel (internacional)
O pior:
José Sócrates (português); Sarkozy (internacional)
Gestor:
O melhor:
Luis Pallha da Silva (Jerónimo Martins)
O pior:
Todos os que tiveram responsabilidades no BCP
Acções:
A melhor:
GALP
A "nem carne nem peixe":
REN
A Pior:
BCP
Melhor Perspectiva:
Jerónimo Martins e Sonae Capital
(disclaimer: as opiniões sobre as acções expressas acima são análises pessoais e nunca deverão ser levadas em linha de conta em futuras decisões de compra ou de venda das mesmas)

Novembro

A característica mais difícil de conseguir quando se compõe música de fusão é a coerência. Não se pode estar a ouvir uma canção neste estilo e ouvir distintamente cada um dos géneros: tem de ter um só corpo - por isso se chama de fusão. Estas composições têm o cariz de aproximar os modernos da música tradicional e os conservadores da música liberal (não, não estamos a falar de política). Quando a coerência não se alcança, parece que estamos a ouvir uma banda com graves problemas psicológicos ao nível da dupla personalidade ou, eufemisticamente, os instrumentos parecem estar colados com cuspo à canção.

Os «Novembro» são um novo grupo de fusão de música portuguesa com a pop/rock. Apadrinhados por Rodrigo Leão, vão lançar o seu álbum de estreia em Janeiro e, pelo single que se vai ouvindo aí pelas rádios, Solidão a Dois, parecem ser um dos projectos mais arrojados, bem feitos e prometedores para 2008. O cantar cheio de melancolia, os trinados da guitarra portuguesa e a bateria que vai buscar o ritmo à percussão lusa, formam um magnífico par com as guitarras acústicas em distorção, os samples e a estrutura pop do tema. E, claro, como acima disse, neste género musical, a coerência e a consistência do som é a prova da qualidade ou não do trabalho. E, em relação aos «Novembro», só posso dizer que tudo aquilo faz sentido.

24 Dezembro 2007

Boas Festas

«E se o velho descesse da carroça para espairecer, e olhasse para o sítio onde havia uma bomba de água, que os soldados tinham feito explodir, sem que nada ficasse de pé, e lamentasse perguntando: Como vamos resolver o problema da água?, ele, Michael, tiraria da algibeira uma colher de chá e um fio muito comprido, limparia o cascalho à volta do orifício, formaria uma argola com o cabo da colher, atando-lhe um fio, faria descer a colher até às profundidades da terra e, quando a puxasse para cima, a colher traria água. E diria: É quanto basta para se viver. »(J.M. Cotzee, A Vida e o Tempo de Michael K.)
Boas Festas e um Feliz Natal.

Carlos Malmoro

18 Novembro 2007

Olhó carro fresquinho




BMW Welt (Mundo BMW), em Munique, é o nome que tem esta brilhante construção e, simultaneamente todo o conjunto de edifícios (ver foto primeira) da marca bávara. A saber: a torre, que serve de sede mundial da empresa; o museu, que tem aquela forma de círculo cortado a meio junto à torre; a fábrica de Munique, não visível nas fotos, mas uma fábrica como outra qualquer, do lado esquerdo da torre, e este novíssimo BMW Welt, que serve para conferências, reuniões e entregas de automóveis aos clientes. Mas não é uma entrega qualquer: o novo proprietário marca um dia e uma hora. Através de um túnel que atravessa a estrada, o carro sai da fábrica, dirige-se para o BMW Welt e é elevado até ao ponto onde o cliente se encontra. Aí chegado, o elevador abre-se e aparece o carro a rodar numa plataforma, iluminado por vários projectores, como se estivesse em exposição num qualquer salão automóvel. É entregue a chave e o novo proprietário acelera dali para fora. Enfim, é a aplicação do conceito da lota de «peixe fresco, pescado no dia» ao mundo automóvel.
Carlos Malmoro

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17 Novembro 2007

Retoma dos Trabalhos

Este post demorou tanto a fazer como você leva a lê-lo.


Carlos Malmoro

PS: com um obrigado aos publicitários que fizeram o slogan para o novo BMW M3

22 Outubro 2007

Olha para ele


aqui, através daqui
Carlos Malmoro

21 Outubro 2007

A Ronda da Noite

  • Se não fosse uma voz amiga, não tinha dado por ela. No post com o mesmo nome deste, ali em baixo, referindo-me a este texto do Mike, disse que estava cento e dez por cento de acordo com a terceira parte. Errado; com a segunda parte era o que eu queria dizer. Até considero que o autor se excedeu no retrato das mulheres obesas: chamá-las de boneco da michelin é atroz. Adiante. A moda, era disso que eu queria falar. De facto, considero que há três tipos de pessoas a vestirem-se: as que vestem calças boca de sino porque ainda pensam que está na moda; as que vestem calças boca de sino porque pensam que será a moda da próxima estação e as que vestem calças boca de sino porque se sentem bem com elas. Estas últimas, são as que eu considero que verdadeiramente «estão na moda». [Não vás dormir não, Carlos];
  • Completei um ano de Geração Rasca. Para além do óbvio agradecimento ao André por me ter convidado e a todo o grupo por me ter aturado durante este ano - eu por vezes sou chatinho/mau feitio -, quero aqui fazer um pequeno balanço. O mais positivo que tiro deste ano é a constatação que é possível escrever num sítio colectivo sem perder a individualidade da escrita. Lógico é que os temas abordados são diferentes. Mas como a liberdade criativa é total, basta apenas um pouco de bom senso para que não se fuja ou se entre em choque com o livro de estilo do blogue. Pensava que na escrita isso não era possível, mas felizmente enganei-me.

Carlos Malmoro

16 Outubro 2007

Mudar de página

Levantar às seis e trinta. Cerca de duzentos quilómetros por dia. Um telemóvel com menos de um ano e com mais de cento e cinquenta horas de conversação. Ter dentro da cabeça uma empresa com dois mil clientes, saber manter um contacto profissional que, a despeito de estarmos no melhor ou no pior dos nossos dias, tem de ser cordial, sóbrio e atenciososo. Gerir a relação de setenta empregados. Sair com os miolos feitos em água e dirigir-me para a universidade. Deu-me a pancada da tese. Entrar em casa às onze e meia da noite. Tentar gerir a casa e os afectos. Antes de ir para cama, escrevo este texto a pergunto-me se tudo isto vale a pena, se não estou a esquecer-me das coisas mais importantes da vida, se vale a pena escrever este texto, se faz sentido um caos deste tipo, para ficar sem tempo para grande parte das minhas devoções e das minhas paixões, se vale a pena esta dor de cabeça que tenho, se vale a pena ter estudado para ter como recompensa um telefone com doze chamadas por responder, se vale a pena. Suponho que a vossa vida seja parecida com isto, mas nunca vos perguntais se vale a pena. Tenho que ir dormir. E tenho que mudar de página.


Versão original de Bob Seger aqui; Versão original do video aqui
Carlos Malmoro

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14 Outubro 2007

LoLemos todos

A blogosfera vista pelo Herman. Quem escreve um texto deste calibre, ainda não está arrumado e merece, definitivamente, um post.

Carlos Malmoro

08 Outubro 2007

A Ronda da Noite

  • A Curva da Estrada sopra duas velas. Excelentes textos que se esperam que continuem por muitos e largos anos. Claro que ainda se tem paciência. Felicidades à autora "colega";
  • E ao décimo terceiro post da série «É que não posso», discordo da autora. Um post é mais do que «uma agradável conversa de café». Primeiro, porque é escrito e a escrita é sempre um acto solitário - as reacções só virão mais tarde. Depois porque dá para reflectir naquilo que se escreve, apagar, reescrever. Finalmente, porque eu já escrevi aqui textos que nunca levaria para uma conversa de café, por serem demasiado profundos, formais ou por tratarem de temas que só a mim me interessam. Estamos de acordo que os post´s não devem ser teses de doutoramento, mas entre uma tese e uma conversa de café há um enorme hiato que se pode percorrer escrevendo despretensiosos e excelentes textos, como aqueles a que Pitucha já nos habituou;
  • Cara Maria, essa exposição foi mesmo a brincar, não foi? Só pode. Ou então perdeu-se todo o respeito por quem consome cultura. (Já falei do assunto aqui);
  • O Mike fez trinta anos, está a escrever melhor que nunca (ver este texto ou este, onde estou cento e dez por cento de acordo com a terceira parte da trilogia ) e ainda tem tempo para «meter na linha» os senhores do Jumbo num texto que é um mimo.

Carlos Malmoro

06 Outubro 2007

Os "oitenta"

Advertência: este post só será inteiramente entendido pelo grupo etário 30/45
Se há uma característica genérica da música dos anos 80 é que ela tinha sempre algo de muito bom e algo de muito mau. Comecemos pelo mau. O excessivo uso de sintetizadores/electrónica: havia grupos que tinham guitarras eléctricas, normais, mas que faziam questão de pôr os sintetizadores, normalmente com dois ou três pisos, alinhados em L, a fazer os sons da mesma guitarra. E depois, já se sabe, vinha aquele som que parecia que o amplificador da guitarra estava abafado dentro de água aos soluços. Os telediscos eram inundados por um êxtase cromático, berrante, no limiar da alucinação, as mulheres usavam sempre franjinha e dançavam de forma estranha, para não dizer mesmo muito mal, e os homens cantavam em falsete e muito mal dançavam. Ambos vestiam-se como, vamos ser meiguinhos, broncos: homens com jeans apertados a realçarem rabos e genitais (meu deus, que traumas), mulheres com blusões de couro sobre blusas brancas com os necessários botões desapertados para se vislumbrar uma centelha das mamocas (meu deus, que fantasias).
Depois a parte boa. A música, a despeito da electrónica, era sempre baseada numa linha melódica forte, que entrava facilmente no ouvido, e tinha bons beats, que dava para a pista de dança. Aliás, esta característica, a presença de um beat forte que dê para a disco, está a ser recuperada pelas bandas de pop/rock emergentes, de onde destaco os Bloc Party, para tornearem a dificuldade que o instrumento rei do rock, a guitarra, tem em conseguir um bom ritmo. Mas voltemos aos 80's. As letras: gostava, e gosto, de muitas das letras dessa época. Têm um travo agridoce, uma melancolia suave e uma nostalgia assumida que as tornam inesquecíveis. Exemplifico com o "Forever Young" dos Alphaville, o "Hunting High and Low", dos Ah-a, "True Faith", dos New Order (no video abaixo, uma das minhas favoritas).
Se retirarmos algum kitsch, a encenação com demasiado pathos ou o modo como certos arranjos eram feitos, com mais tecnologia do que uma central nuclear, e nos basearmos no essencial da música - a melodia, o ritmo e a letra - os anos oitenta foram excelentes. Basta ter ouvido para escutar para além do sintetizador.
Carlos Malmoro
PS: Uma confissão: este post foi feito muito "por culpa" de um senhor chamado "Tarzanboy", que mantém um blog, com a bonita idade de quatro anos, onde se dedica a saber por onde andam hoje os heróis musicais dos anos oitenta. É muito bem escrito, actualizado com bastante regularidade, e tem aquela pontinha de humor que cai bem em qualquer texto. Convido-vos a visitá-lo no dear 80's.

04 Outubro 2007

Menezes

Deixemos para trás o que no pretérito jaz. Para Menezes ganhar as eleições legislativas tem duas semanas para estabilizar o PSD e dois anos para conquistar o país. Para tal, tem, a meu ver, de fazer três coisas essenciais:
  • Estar mais preparado e estudar melhor os dossiers do que Mendes: era confrangedor ver os debates mensais com o PM, onde este era acusado pelo líder da oposição de ser apenas forma sem conteúdo, mas onde Sócrates levava sempre a melhor por um mais profundo conhecimento das matérias. Aliás, nunca percebi porque acusavam Sócrates de populismo, usando como argumento que este passava a semana a preparar os debates semanais com Santana: um bom profissional, se quiser ser promovido, tem de se preparar para os momentos decisivos, assim como um estudante que queira passar tem de estudar para os exames. Sócrates também é populista, mas não o é, certamente, por aplicar o seu tempo a preparar as suas intervenções;

  • Tomar como suas duas ou três causas, evitando, se possível a educação e a saúde: há corporativismo a mais e são zonas de conflito permanente. Sócrates bate-se pelo ambiente e pela desburocratização (que palavra mais burocrática de se dizer/escrever). Um exemplo: sempre que há uma novidade em matéria de ambiente ou de simplificação processual, o mérito vai direitinho para Sócrates. No meu dia a dia, é enorme a quantidade de loas a Sócrates que ouço por parte de empresários, mesmo com ligações ao PSD e ao PP, que conseguiram aquele licenciamento ou resolveram um assunto jurídico em metade do tempo, gastando metade do dinheiro, ou nenhum, porque os serviços necessários já estavam disponíveis online. E, num país afogado em burocracias, isto conta e muito;

  • Respeitar o político Sócrates. Mendes passou o tempo a dizer que Sócrates era populista, que prometia mas não cumpria, que não era sério, que não tinha valores. Desculpem, mas esse tipo de discurso é o que eu ouço no café, é aplicado a todos os políticos e tem um nome: conversa de chacha. O melhor que Menezes tem a fazer é ver onde Sócrates é forte e aparecer ao lado dele nesses assuntos e avaliar onde ele é fraco e apresentar alternativas bastante claras, publicitando-as o mais possível.

É simples: estudar as matérias melhor que o adversário, apadrinhar algumas causas, respeitar Sócrates e em 2009 poderá haver uma surpresa. A pior coisa que um político pode fazer é subestimar o adversário. Mendes fê-lo e perdeu. Que sirva de lição a Menezes.

Carlos Malmoro

28 Setembro 2007

Sinto-me estranho

Estou de acordo com o comentário* e achei acertada e extremamente corajosa uma medida de Santana Lopes.

Via Corta-Fitas


Carlos Malmoro

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A propósito

disto:

Qual seria o preço para Portugal?

Carlos Malmoro

20 Setembro 2007

"O que eu não vivi, hei-de inventar contigo"

Este é o regresso do ano. Uma música fantástica, uma letra com palavras simples e gestos do quotidiano. Mas que resulta magnificamente. Os críticos musicais, normalmente, tecem-lhe loas sem regatear. É claro que agora lhe vão chamar popularucho. Mas talvez é isso que mais gosto nele: o estar na vida e na música como quer, independentemente do que os outros dizem. Foi assim quando atravessou uma fase mais sombria da vida, que se reflectia na música que compunha, e continua assim quando essa fase parece estar ultrapassada. E o vídeo reforça mais a ideia de estarmos perante um tema perto da perfeição: as habituais guitarras em treble, importadas dos blues, a voz melancólica, a pose urbano-depressiva, a constratar com a alegria e a descompressão que as amizades e cumplicidades de uma vida sempre nos trazem, transformam este clip num excelente fresco e num verdadeiro hino à Amizade e, não tenhamos medo da palavra, ao Amor.

Carlos Malmoro