29 Junho 2004

A Falência

O artigo 35 do Código das Sociedades Comerciais estipula que, a partir de 2005, as empresas que completem dois exercícios consecutivos com capitais próprios inferiores a metade do seu capital social sejam obrigadas a encerrar.
Segundo um estudo da Dun & Brastreet, se esse critério fosse aplicado no presente ano, 2820 empresas portuguesas teriam de fechar portas. Por outros números, de um universo de 21253 de empresas que já entregaram as suas contas, 13% teriam de abrir o processo de falência.
Fazendo uma extrapolação, e se aplicássemos o mesmo critério aos estados, Portugal teria de abrir falência, uma vez que o correspondente aos capitais próprios das empresas, a Dívida Pública, ultrapassa os sessenta por cento do PIB (o mesmo que os capitais próprios das empresas). A única consolação é que não estaria sozinho: todos os países do mundo abririam falência, com a excepção dos países nórdicos.
Não há por aí uns marcianos que queiram comprar isto?
Carlos Malmoro

26 Junho 2004

Os Historiadores e os Jornalistas

O erro no Exame Nacional de História, que atribuía a autoria de um texto de Ramalho Eanes a Costa Gomes, foi explorado pelas televisões com um certo snobismo intelectual, de tipo populista, daquele que afirma, chocado, que até os professores de História de Portugal não sabem a História do nosso país.
O pior foi o rodapé da SIC que, em relação ao mesmo assunto, afirmava que: «Costa Gomes trocado por Ramalho Eanes!». Como se pode ver pelo título, se temos historiadores que não sabem a nossa História, também temos jornalistas que não sabem a nossa gramática, porque, como é de fácil depreensão, a ideia que o título contém faz passar a informação contrária ao acontecimento. Correctamente, o título deveria ser: «Ramalho Eanes trocado por Costa Gomes!»
Uma última nota: reparem no ponto de exclamação para melhor projectar o escândalo. Deixo uma sugestão: coloquem dois pontos de exclamação: um para a argolada dos historiadores que não sabem História e outro para os jornalistas que não sabem escrever uma frase com seis palavras.
Carlos Malmoro

11 Junho 2004

Pianadas

Num primeiro momento, existiu um filme com o nome «O Piano». Foi aclamado um pouco por todo o mundo. Depois, estreou-se «A Pianista», um filme premiado em Cannes, e também ele um sucesso. No ano passado, o filme «O Pianista», de Roman Polanski arrebatou o Oscar para Melhor Filme. Agora, aqui na nossa vizinha Espanha, um dos best-sellers do momento denomina-se «El Afinador de Pianos».
Será que os autores já esgotaram o seu imaginário musical sobre este instrumento de cordas ou ainda vamos ter que assistir à Première do filme “«O Afinador de Pianos» que Pianou «A Pianista» n’«O Piano» d’«O Pianista»”.
Carlos Malmoro

Prof. Sousa Franco

No país do «prontos», do consumismo desenfreado, do atropelar tudo e todos para se alcançar os objectivos, das quatro horas diárias de tele-lixo por habitante, da elevação de centros comerciais a santuários de peregrinação dominical e dos estádios a catedrais de catarse colectiva, dos carros comprados em 120 prestações e dos telemóveis sempre a tocar, do viver acima das possibilidades, no país com a mais alta taxa de abandono escolar e com os mais baixos níveis de leitura da Europa, no país dos sorrisos pela frente e das críticas pelas costas, no país em que se atropelam convicções para conquistar remunerações; para um país como este, é mais indispensável para o seu destino a existência de pessoas como o Dr. António Sousa Franco do que a realização de três ou quatro Euro’s.
Carlos Malmoro

Os dólares da morte

O relatório do Instituto Internacional de Pesquisa sobre a Paz de Estocolmo (Sipri) revela que, em 2003, foram gastos 956 mil milhões de dólares na compra de material bélico em todo o mundo. E que este valor representa um acréscimo de 11% relativamente ao ano anterior.
O mesmo documento denuncia que o maior gastador são os EUA com 47% do bolo total (cerca de 450 mil milhões de dólares), e que o maior importador, e o segundo do ranking dos gastadores, é a China com um total de 13% das importações (aproximadamente 125 mil milhões de dólares) seguido do Japão com 5% dos gastos(48 mil milhões de dólares). O relatório denuncia ainda que 5 países ricos foram responsáveis por 75% dos gastos militares.
Se compararmos estes números com o total de ajuda concedida para o desenvolvimento mundial, chegamos à pragmática conclusão que os países mais ricos investem cerca de dez vezes mais nos seus arsenais bélicos do que no apoio aos países subdesenvolvidos.
Porém, a questão ainda se torna mais vergonhosa quando países que ainda não têm um desenvolvimento económico minimamente consolidado, como a China, gastam o seu orçamento a comprarem armas em vez de o canalizarem para programas de desenvolvimento interno sustentado, infra-estruturas de apoio social, etc.: é preciso não esqucer que a pneumonia atípica surgiu na China por falta de condições de salubridade.
Carlos Malmoro

O Apócrifo Combate

Pelo menos quarenta navios mercantes em circulação são controlados por Ussama Ben Laden. Esta revelação é feita pelo repórter William Langeviesche, colaborador da revista «Atlantic Monthly», no seu mais recente livro «The Outlaw Sea». Nele, o autor descreve como através do registo de uma embarcação nos off-shores, ela ganha direito à bandeira de «conveniência» desse mesmo país, normalmente pequenos arquipélagos perdidos no meio dos oceanos. Para quem não o saiba, como eu não o sabia, um barco com uma bandeira do país A que está atracado num porto do país B, só pode ser revistado mediante autorização do país A, e o seu interior é considerado território do país A.
Assim sendo, não é difícil de adivinhar de onde vem o dinheiro para sustentar a Al-Qaeda e, assim sendo, se um dia um barco entrar por um porto ocidental dentro, cheio de explosivos, e marcar mais uma data do nosso calendário a sangue, os senhores que nos governam que não nos venham dizer, uma vez mais, que tudo fazem para combater o terrorismo.
Combatem-no quando não existem interesses económicos: a passagem do presidente da Líbia, M. Kadhafi, de terrorista responsável pelo atentado que mais vítimas mortais provocou na Europa, o atentado contra o Boeing da Lockerbie que fez mais de 250 mortos, a democrata, prova-o plenamente. É que esta mudança repentina só aconteceu por uma de duas razões: ou porque o petróleo está muito caro e convém encontrar «aliados» que o forneçam a bom preço, ou porque a Líbia está a desenvolver-se rapidamente e existem contratos de biliões de dólares que não podem ser perdidos. Embora eu me incline para a junção dos dois motivos…
Em qualquer dos casos, as pessoas inocentes, ainda e sempre pessoas inocentes, que morreram naquele dia, jamais verão a sua morte minimamente justiçada, nem que fosse com o simples julgamento desse senhor num qualquer tribunal internacional dos direitos humanos.
Carlos Malmoro

Paradoxo

Um belíssimo livro de Ana Marques Gastão, chamado Nós / Nudos, publicado pela Gótica, contém 25 poemas sobre 25 obras de Paula Rego. É um excelente tratado de como as palavras podem complementar as imagens, neste caso com as pinturas da nossa mais internacional artista plástica.
Agora que está feito o elogio da obra, que aconselho, uma coisa não entendo na autora. Aquando do seu lançamento, há cerca de um mês, numa entrevista ao Diário de Notícias, Ana Marques Gastão referia que nunca desejou que os seus poemas «tocassem» as imagens de Paula Rego, mas antes que caminhassem paralelas. Até aqui tudo bem: é uma perspectiva como todas as outras. O que já é mais estranho é que a mesma autora, nesse mesmo dia, tenha dito no programa «Magazine», sobre o mesmo livro, que pretendeu que os poemas encontrassem as pinturas de Paula Rego como que se de intercepções se tratassem. Afinal, em que é que ficamos: paralelismos ou intercepções?...
Talvez seja este um daqueles casos em que se prova que a pior pessoa para falar acerca de uma determinada obra é o seu criador.
Carlos Malmoro

Da liberdade de Imprensa

Um conflito que opôs o director do Público à editora de Política do mesmo jornal originou que fosse retirado um texto que punha em causa a credibilidade da ministra das Finanças do alinhamento do jornal, sabendo-se agora que esse texto já estava paginado, isto é, pronto para entrar nas rotativas.
Já tínhamos tido notícias que dois jornalistas tinham sido «dispensados» por tentarem publicar uma notícia em que punham em causa certos métodos menos transparentes que a Sonae, empresa detentora do referido título de imprensa, praticava nos seus negócios.
Ainda bem que existe liberdade de imprensa para que os jornalistas possam investigar e informar-nos acerca do que acontece no país e no mundo…Mas, claro, desde que não se metam com o poder político ou económico. Era o que mais faltava!
Carlos Malmoro

Desesperança

Em Bnei Brak, um bairro de Telavive, em Israel, um tribunal religioso decretou que homens e mulheres têm de caminhar em passeios separados: os homens têm de caminhar no passeio do lado poente da rua e as mulheres no lado nascente. Esta decisão justifica-se para manter os «bons costumes» na rua onde vive o rabino Moisheh, o guia espiritual da comunidade ortodoxa daquela zona.
Com este tipo de mentalidade não me surpreende que a Paz nunca mais chegue para aquelas bandas. Se é o próprio povo de Israel que sofre na pele os preconceitos religiosos ditados pela comunidade judaica ultra-ortodoxa, e que ainda tem de pagar impostos para que essa comunidade de «iluminados» possa continuar a ter mais privilégios que a população israelita em geral, como se conseguirá chegar a um acordo de Paz com um Estado vizinho que professa uma outra religião?
A resposta é triste mas verdadeira: não se consegue!
Carlos Malmoro

A 200 à hora, a beber vinho e a falar no telele

Durante uma viagem de comboio entre o Coimbra e Faro, Durão Barroso, enaltecendo as vantagens do comboio como meio de transporte rápido e cómodo, perguntava aos jornalistas: «Qual é o meio de transporte em que podemos ir a 200 Km/h e a beber um bom vinho?».
Esta pergunta revela que o Primeiro-ministro não tem um profundo conhecimento do país e do povo que governa, porque, se o tivesse, saberia que os portugueses conseguem-no de carro e a falar ao telele… Era só sair do comboio e dar um pulo à A1 ou à A2. Mas sem batedores…
Carlos Malmoro

Há dias que valem a pena

Há Dias Que Valem a Pena
Eu sei que todos os suspeitos são presumíveis inocentes até trânsito em julgado de uma sentença em sentido contrário. Eu sei que a muita água, isto é, muito barulho na comunicação social, vai “correr” antes de se comprovarem as suspeitas que recaem sobre eles – se é que alguma vez se chegará a provar algo. Eu conheço aquele provérbio inglês que diz que “cem coelhos não fazem um cavalo e cem suspeitas não fazem uma prova”. Mas sabe bem, sabe mesmo muito bem, depois de anos e anos de suspeições lançadas pelos próprios, de acusações cobardes na comunicação social, que posteriormente não tinham o respectivo e indispensável encaminhamento para os Órgãos que administram a Justiça em Portugal, e depois de centenas de incriminações apócrifas, sabe mesmo muito bem chegar a casa, ligar a televisão e constatar que muito peixe graúdo do futebol, da arbitragem e alguns vereadores municipais foram presos. Nem que seja por um só dia ou por umas horas… Há dias que valem a pena e que até se pensa que este país ainda tem emenda…
Carlos Malmoro