28 Fevereiro 2006

Van Gohg

Da Licenciosidade

«Contém Material Sexualmente Explícito». Foi esta a explicação que a NBC deu para não transmitir a canção Start Me Up dos Rolling Stones. A banda tocou dois temas durante o intervalo da final do Super Bowl. Curiosamente, transmitiram a canção «(I can’t get no) Satisfaction», do mesmo grupo. Chama-se a isto licenciosidade relativa.

David Irving, o historiador negacionista do Holocausto, foi condenado por um tribunal austríaco a cumprir uma pena efectiva de prisão. Está mal. Se existem cartoonistas ridículos a quem defendo a sua licenciosidade, também não o poderia deixar de fazer para este «historiador» de estorietas. A licenciosidade tem de ser absoluta.

Dicionário de sinónimos do Word para o verbo «fazer»: defecar, evacuar, obrar, conceber...E para o adjectivo «licencioso»: depravado, devasso, indecoroso, libidinoso, sensual,… A licenciosidade chegou à informática.

Carlos Malmoro

27 Fevereiro 2006

Falta de rede

Ao telemóvel, ele pergunta:

- Gostas de mim?
- P+*x_ enzzztz, não. GSM Service your call…


Ele ainda está a matutar nas três hipóteses:
1) Será que ela disse, «Por enquanto, não»? Será que é um problema temporal?
2) Será que ela disse, «Por encanto, não»? Ou seja, não há amor à primeira vista, mas pode haver a possibilidade de uma relação construída.
3) Ou será que ela usou a velha táctica das mulheres do «pronto-amor-toma-lá-uma-festinha-para-preparar-o-sítio-antes-de-te-dar-uma-paulada», dizendo «Puro encanto, não.»

Passados 20 segundos de profunda reflexão, em que pensou a sério em todas as hipóteses, e em que maldisse a mania das mulheres do não que significa sim e do não que significa não, telefonou a outra.
Afinal, a resposta foi não. E há que ser homenzinho e reconhecer que uma tampa é sempre uma tampa.
Carlos Malmoro

25 Fevereiro 2006

Deixar de fumar

Antigamente, fumar era um sinal de afirmação. Hoje, deixar de fumar é um sinal afirmação.

O meu médico, sempre preocupado com a minha afirmação pessoal (e penso que com uma doença que o meu criador padece a que fico mais exposto por fumar, mas isso é o menos), disse que estava na altura de incrementar a minha auto-estima largando o vício.
Depois do choque, analisemos.
Historial:
Começo a fumar cigarros roubados ao criador aos 9 anos. Vou fumá-los para a cave da casa com uma amiga. Um dia, além dos cigarros, fiz-lhe uma cama muito bonita na cave. Olhou-me terna e longamente, sorriu, passou a língua entre os lábios e sussurrou como um regato límpido estas palavras de veludo: «Carlos, vai à fava!». Adiante.
Comecei a fumar «a sério» aos dezassete. A partir daí, e até aos vinte e quatro foi sem parar e em crescendo. No dia dezanove de Novembro de 1999, deixei de fumar. Sem reduções. De um dia para o outro, deu-me para isso. Durante quinze dias, perdi doze amigos e fiz dezoito novos inimigos. E nem foi necessário recorrer ao mau feitio intrínseco: a falta de nicotina realizou a proeza. Deve ser por isso que agora tenho um blogue: falta de amigos.

Recomecei a fumar aos 26 anos. Porquê? Como é que dizia o Einstein? «Só conheço duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. E quanto ao Universo, não tenho a certeza.» Exacto, recomecei a fumar porque o Einstein não tinha a certeza se o Universo é infinito.
Hoje, estou com 31 anos e 30 cigarros por dia.
Possibilidades:
1) Continuar a fumar (é mau para a minha afirmação, segundo o meu médico);
2) Parar de fumar de um dia para o outro, como fiz no passado (esta opção levanta um problema: se perco mais amigos, fico sem contactos…a não ser que crie mais um blogue);
3) Reduzir, força de vontade e pensos de nicotina (não quero adoptar esta opção: sempre pensei que um problema se resolvia com uma solução e não com três. Isso dos sistemas é na matemática);
4) Picada na orelha (é uma escolha que dizem que resulta em mais de 90% dos casos. Porém, (tem de haver sempre um porém, um mas, um contudo, não é?...) é dispendiosa.

Conclusões:
Telefonar à menina que me mandou «à fava» a convidá-la para fumar um cigarro comigo. A meias, como nos bons velhos tempos.
Carlos Malmoro

Acerca de «Munique»

Munique não é um grande filme. É um bom filme.
É um filme poderoso no argumento, imprevisível na narrativa e belo enquanto objecto estético (notável fotografia). É ainda um filme com uma excelente produção e com uma sonoplastia muito bem cuidada. Então o que lhe falta para ser um grande filme? Os pormenores. Erros de palmatória ao nível dos pormenores. A saber:

  • é minimamente plausível que membros de elite da mais reputada e organizada polícia secreta do mundo – a Mossad - possam parecer-se com aquele bandos de rapazolas que, inadvertidamente, dão informações top-secret a um completo desconhecido numa esplanada de Roma, ou que o membro indicado para a construção das bombas seja apenas um curioso, pois o seu verdadeiro trabalho é desmontá-las ou , finalmente, que caiam na mais velha armadilha do mundo da espionagem: uma apetecível senhora no bar de um hotel a implorar que façam amor com ela? A mim não me parece verosímil.

  • Também não me parece lá muito verosímil que exista uma pessoa em Paris que saiba todos os nomes e todas as movimentações dos espiões de todo o mundo.

  • Finalmente, é um filme com uma montagem muito fraquita, com flashbacks constantes e cenas que parecem descontínuas. As interpretações, não sendo fracas, não enchem o olho


Para rematar o filme, está a verdade que ainda hoje constatamos: no fim disto não haverá vencedores nem vencidos. Apenas as mortes não terão fim. De um lado e do outro.
Um bom filme, sem dúvida.

Carlos Malmoro



22 Fevereiro 2006

Um cartoon licensioso

Lost In Translation

«Só pra dizer que te amo,
Nem sempre encontro o melhor termo,
Nem sempre escolho o melhor modo.

Devia ser como no cinema,
A língua inglesa fica sempre bem
E nunca atraiçoa ninguém.»

Esta letra de Sérgio Godinho para a canção «Problema de Expressão» dos Clã, só erra num verso: onde está «E nunca atraiçoa ninguém», deveria estar, em meu entender, «E nunca apaixona ninguém» (ou «E não apaixona niguém»). Dizer «I love You» não provoca calafrios, mas dizer «Amo-te», aí sim, é necessária coragem e, mais importante, Amor.
O primeiro termo é uma expressão; o segundo é uma declaração.

Carlos Malmoro

20 Fevereiro 2006

Turner: Snowstorm

17 Fevereiro 2006

No mail...

N., enviou-me um mail com um pensamento e uma anedota.

«O atraso do nosso país resulta de um problema agrícola: excesso de nabos e falta de tomates.»

«Um homem chega a casa, vira-se para a mulher e diz:
- Querida, recebi uma intimação das finanças a respeito do atraso da entrega da declaração do IRS! Achas que devo comparecer na repartição de jeans ou de fato e gravata?
- Bem, querido... Digo-te a mesma coisa que a minha mãe me disse quando lhe perguntei se, na noite de núpcias, eu devia usar uma cuequinha de rendas ou uma cuequinha de seda!
- E o que foi que a tua mãe te disse?
- Tanto faz. Ele vai foder-te na mesma!»

Deixo aqui o agradecimento ao N. Só falta descobrir qual dos textos é o pensamento e qual é a anedota...

Carlos Malmoro

13 Fevereiro 2006

O tino e o desatino

O desatino:
«-Quem têm sido os maiores agressores nos últimos tempos? Somos nós!» (Freitas do Amaral, antes de sugerir que um campeonato euro-árabe de futebol aproximaria os povos…)

O tino:
Em resposta à questão “Como reage às caricaturas a temáticas cristãs?”:
- O facto de estarmos num ambiente de liberdade de expressão significa que eu não me indigno com isso, mas quando acontece magoa-me. A liberdade de expressão tem desses riscos: eu sei que, às vezes, magoo os outros. A grande diferença entre o horizonte ocidental e o horizonte que estamos a assistir nos muçulmanos é que eu manifesto a minha indignação de outra maneira, não vou pôr bombas nas embaixadas, nem bater nas pessoas na rua". E conclui: "tenho visto comentadores a tentar pôr isto no âmbito do diálogo e do respeito inter-religioso, mas penso que, por trás disto há mais estratégias políticas que questões religiosas". (Cardeal Patriarca de Lisboa)

Começa-se a perceber por que razão Freitas do Amaral era um candidato a PR com metade do país com ele e agora é um Ministro dos Negócios Estrangeiros.
Da mesma forma, começa-se a perceber por que razão o Cardeal Patriarca era um dos possíveis sucessores de João Paulo II.
Carlos Malmoro

Um dia...

...vou contar aos meus netos o seguinte
- Bem no final do século XX, houve a crise dos mísseis, a crise do petróleo, várias crises derivadas da fome extrema em muitas partes do mundo, crises provocadas por tempestades e fenómenos naturais, crises políticas, enfim, uma imensidão de crises que se resolveram de forma positiva algumas vezes…
E eles perguntarão:
- E o século XXI, como foi o seu início?
- Bem, algumas das crises que eu vos enumerei há pouco resolveram-se, outras agravaram-se e surgiram outras novas
-Avô, dá-nos um exemplo de uma crise que tenha surgido.
- A crise dos cartoons.
Depois de me abraçarem, os meus netos dirão:
- É por isso que gostamos tanto do avô: consegue sempre pôr humor mesmo nos assuntos mais sérios.
-Mas...deixem - direi eu, com bonomia
Carlos Malmoro

12 Fevereiro 2006

Easy Money

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11 Fevereiro 2006

Foto do Ano 2005 - World Press Photo


Uma mulher espera, juntamente com o filho, a chegada de
ajuda num centro de emergência alimentar em Tahoua-Níger.
Foto tirada pelo canadiano Finbarr O' Reilly, para a Reuters,
com o fim de retratar a situção de fome extrema no Níger.
Carlos Malmoro

10 Fevereiro 2006

À consideração do interessados:

  • Eu também vou lançar uma OPA sobre a PT. Só para não pagar mais telefone;

  • É um abuso de coscuvilhice (linda palavra, esta) dizer-se que aquelas duas mulheres que se querem casar têm o mesmo sexo;

  • Previsibilidade :

«Daqui a cinco minutos, estou aí» - disseste. Passados seis minutos, encontraste um bilhete na mesa que dizia:

«Há um minuto estava aqui.»

Carlos Malmoro

09 Fevereiro 2006

E agora para algo completamente diferente

Amigos, o que se segue não é nenhum texto humorístico, embora os humoristas de todo o mundo sonhem alcançar este patamar de excelência. É um comunicado do SINTAV - Sindicato Nacional dos Trabalhadores das Telecomunicações e Audivisual, acerca da Oferta Pública de Aquisição da Portugal Telecom pela Sonae. Reza assim:
«NOTICIA DE ÚLTIMA HORA:
“POLVO” ATACA AS TELECOMUNICAÇÕES

(...)Segundo a Comunicação Social, Belmiro de Azevedo, o homem mais rico de Portugal, cuja ganância não tem limites, prepara-se para comprar a PT-C através do lançamento de uma OPA(...) Estas afirmações fundamentam-se no conhecimento concreto que a sociedade tem do indivíduo em causa.(...)
Embora ainda não se conheça muito deste macabro processo desencadeado da noite para o dia, o SINTTAV desde já assume uma posição de total contestação, denunciando tudo o que vier a ser digno disso e mobilizando os trabalhadores e a sociedade para lutar e resistir contra as tentações deste poderoso “Polvo”.»

E, para finalizar em beleza, eis a jóia da coroa:

«NÃO AO RETROCESSO SOCIAL.O FUTURO É DOS TRABALHADORES E DOS POVOS E NÃO DOS “POLVOS” NEM DOS IMPÉRIOS.»
(sublinhados meus)

Eu sei que por mais credibilidade que se possa ter, existem certos acontecimentos que excedem o limite do plausível. Não vos levo a mal. Eu faria o mesmo. Convido-vos a virem aqui e confirmarem que estas preciosidades fazem corar de inveja muitas das rábulas dos Monty Python.

Carlos Malmoro

Assunto encerrado:

08 Fevereiro 2006

Breves

  • Maya, a astróloga, afirma que a sua imagem de marca é o nariz. Grande feito: a de um actor pornográfico é o seu pénis;

  • O unico contacto que tem direito a número de fax na letra «A» da minha agenda pessoal é o sr. A., o profissional que trata dos funerais da família. Nem na série «Sete Palmos de Terra se dá tanta importância aos coveiros;

  • Freitas do Amaral diz que «Portugal lamenta e discorda da publicação de desenhos e/ou caricaturas que ofendem as crenças ou a sensibilidade religiosa dos povos muçulmanos.» E não disse uma palavra sobre a violência islâmica que surgiu como protesto a estes desenhos. Só há um comentário a fazer: Freitas do Amaral adoraria viver numa sociedade sem liberdade de expressão ou que quando esta se manifestasse fosse reprimida violentamente;

  • A TVI vai alojar o «Circo das Celebridades» em Março, diz o DN de hoje. Este programa, pelo menos, tem o mérito de acertar no nome: 'Circo', com os seus elefantes, burros, camelos, macacos, palhaços e fauna afim (peço desculpa se ofendi algum dos géneros atrás citados aos compará-los com os possíveis concorrentes);

Carlos Malmoro

Esta boa ideia está n' O Espectro

COMUNICADO
COMUNICADO - CONVITE

Na próxima 5ª feira, 9 de Fevereiro, pelas 15 horas, um grupo de cidadãos portugueses irá manifestar a sua solidariedade para com os cidadãos dinamarqueses (cartoonistas e não-cartoonistas), na Embaixada da Dinamarca, na Rua Castilho nº 14, em Lisboa. Convidamos desde já todos os concidadãos a participarem neste acto cívico em nome de uma pedra basilar da nossa existência: a liberdade de expressão. Não nos move ódio ou ressentimento contra nenhuma religião ou causa. Mas não podemos aceitar que o medo domine a agenda do século XXI. Cidadãos livres, de um país livre que integra uma comunidade de Estados livres chamada União Europeia, publicaram num jornal privado desenhos cómicos. Não discutimos o direito de alguém a considerar esses desenhos de mau gosto. Não discutimos o direito de alguém a sentir-se ofendido. Mas consideramos inaceitável que um suposto ofendido se permita ameaçar, agredir e atentar contra a integridade física e o bom nome de quem apenas o ofendeu com palavras e desenhos num meio de comunicação livre. Não esqueçamos que a sátira – os romanos diziam mesmo "Satura quidem tota nostra est" – é um género particularmente querido a mais de dois milénios de cultura europeia, e que todas as ditaduras começam sempre por censurar os livros "de gosto duvidoso", "má moral", "blasfemos", "ofensivos à moral e aos bons costumes". Apelamos ainda ao governo da república portuguesa para que se solidarize com um país europeu que partilha connosco um projecto de união que, a par do progresso económico, pretende assegurar aos seus membros, Estados e Cidadãos, a liberdade de expressão e os valores democráticos a que sentimos ter direito.
Pela liberdade de expressão, nos subscrevemos
Rui Zink (916919331)
Manuel João Ramos (919258585)
Luísa Jacobetty

06 Fevereiro 2006

O Amor É Um Fogo

O amor é um fogo

Queima-nos a todos

Desfigura-nos a todos
´
É a desculpa do mundo

Para ser tão feio

Leonard Cohen - A Energia dos Escravos - Relógio d´Água

Carlos Malmoro

05 Fevereiro 2006

Temptation

A propósito...

  • Factos:
  • A Agência Internacional de Energia Atómica remeteu para o Conselho de Segurança da ONU a análise do programa nuclear iraniano. Como retaliação, o Irão suspendeu unilateralmente o TNP (Tratado de Não Proliferação). Final da estória: o chefe da AIEA a fazer uma declaração não para explicar o sucedido, mas para justificar-se perante o Irão a opção tomada;

  • Uns cartoonistas dinamarqueses, de um jornal tablóide lá do sítio, publicaram em Setembro umas caricaturas do profeta Maomé. Passados quatro meses, uma onda de protesto assola as virgens ofendidas muçulmanas, com destruição de embaixadas, queima de bandeiras, etc....Final da estória: As autoridades europeias vêm a público defender, não a liberdade de imprensa, mas o direito à indignação dos muçulmanos. (Os mesmos que aquando de Londres e Madrid nos pediram para não confudir o terrorismo islâmico e o islamismo...). Por outro lado, o Grande Ayatollah Ali al-Sistani, o líder do clérigo iraniano, condenou ontem as caricaturas e a «acção horrenda» dos jornais ocidentais. (Nota – este último período foi a concretização de um sonho há muito adiado: ter neste estaminé a presença de um Grande Ayatollah…dá logo outra seriedade à coisa);

  • Conclusões:
  • Ó meus amigos líderes europeus, se quereis ser serventis perante o poder do petróleo, façam muito bom proveito. Agora que eu - e mais uns milhões de gatos e gatas pingados - defendemos que a liberdade de imprensa é um pilar da nossa civilização, e que o Tratado de Não Proliferação Nuclear é uma das (poucas) boas coisas que V.exas se lembraram , é um facto que não podeis negar. Entendido?

  • Ó meus amigos líderes muçulmanos, aprendei de uma vez por todas que eu prefiro – e mais uns milhões de gatos e gatas pingados - que façam uma caricatura do deus que a maioria da Europa segue, do que ter de receber um telefonema a meio de uma manhã qualquer a dizer que um familiar, amigo, colega ou filho ficou esfrangalhado no metro ou no comboio só porque cometeu o pecado capital de ir trabalhar…E nós, também estamos entendidos?

Carlos Malmoro