24 Agosto 2006

Grass (ii)

Se descobrisse que Fernando Pessoa tinha sido um violento criminoso, não mudava uma vírgula à opinião que tenho dele: o maior poeta do século XX.

Carlos Malmoro

Tudo o que importa saber

...sobre Günter Grass: escreveu 'O Tambor', 'A Ratazana', 'Mau Agoiro' e 'O Meu Século'.

Carlos Malmoro

Procura-se

Escritor, jornalista ou cronista que no Verão não me venha dizer onde se comem os melhores carapaus de escabeche, nem que tipo de vinho é o melhor para acompanhar a carne barrosã, nem que me venha revelar a receita secreta da avozinha para assar a sardinha.
Alvíssaras: compra da obra completa do autor e elogiá-lo como nenhum outro foi elogiado neste estaminé.

Carlos Malmoro

22 Agosto 2006

Como Iniciar uma História

A fim de contentar e sossegar um casal de crianças de umas visitas que tive neste fim-de-semana, contei-lhes uma história inventada na hora. A minha condição genética para contar histórias vem do meu avô paterno, que as iniciava com um «antigamente», e foi reforçada pelo meu pai, que as inicia com o tradicional «Era uma vez». Eu faço questão do «Há muito, muito tempo», de preferência reforçado por «numa terra muito, muito distante...».

Pensava eu que isto era alguma novidade e uma forma eficiente de conseguir que as crianças, logo às primeiras palavras, desligassem da realidade e a imaginação entrasse imediatamente em velocidade cruzeiro. Mas aconteceu que quem entrou em velocidade cruzeiro foi a minha memória que foi buscar as raízes – e o plágio descarado, diga-se em verdade – desta expressão.

Há duas décadas atrás, mais ano menos ano, passava uma série televisiva de contos nórdicos que iniciava, invariavelmente, com essa enunciação. Eram episódios de cerca de vinte minutos, em que uma narradora portuguesa contava a história, que se desenrolava no ecrã, sem qualquer tipo de diálogos, e sem a portuguesíssima moral da história no fim de cada conto.

Talvez por esta ausência de moral da história, do aspecto das personagens (todas louras, olho claro, de metro e oitenta para cima), por mulheres esculpidas por deus montarem cavalos belíssimos, em bosques verdejantes trespassados por finos fios de sol, com riachos feitos de prata e de imaginação que eu apreciava mais essas histórias do que as da tradição portuguesa ou as da Disney.

Bem (retornando ao ponto que nos trouxe aqui), no final da história, os miúdos disseram que gostaram muito do conto. Cinco minutos passados, estavam de novo a correr à volta da mesa, a saírem para o jardim, a fazer o diabo a sete, até que começou mais um episódio de Floribella. Aí sim, os pais puderam ter dois dedos de conversa comigo em condições civilizadas.

Moral da história: um conto infantil já não prende a atenção das crianças, nem as sossega mais do que cinco minutos. Isso foi há muito, muito tempo, numa terra muito, muito distante.
Carlos Malmoro

18 Agosto 2006

Modos de Vida (viii)

Há muitos modos de vida, mas nenhum em que a vida não doa.
Carlos Malmoro

Raízes

Chove, faz frio e troveja lá fora. Acho que sim. Que me posso considerar um bicho da chuva, do frio, do vento e da trovoada. São muitos pais para uma só carcaça, mas depois de ter sido adoptado pelo sol que quase me derreteu, regresso cabisbaixo ao conforto dos meus criadores, e, envergonhado, peço licença para entrar na minha própria casa. Chove a certeza de que os meus verdadeiros pais são estes.
Carlos Malmoro

O que falta

Um perfume com aroma a terra molhada.

Carlos Malmoro

12 Agosto 2006

Obikwelu (2)

Obikwelu nem parece um português. Não é pela sua cor de pele, nem pelo seu físico de 1,95 de altura, nem pela sua pronúncia do português, nem pela ausência de barriguinha que eu afirmo isto.
Obikwelu nem parece um português porque nunca desistiu dos seus sonhos. Porque teve de se sujeitar a todas as contrariedades, porque trabalhou nas obras e continuou a acreditar, porque quando fica em segundo ou terceiro não vem dizer que há um conluio universal contra ele e que o adversário está feito com os árbitros, porque para chegar onde chega tem de trabalhar seis dias por semana, em disciplina rigorosa, para depois tudo se consumar em dez segundos, e porque está agradecido a Portugal pela oportunidade que lhe deu, em vez de andar constantemente nos jornais a declamar litanias sobre os apoios que lhe faltam. E é por não se parecer nada com um atleta português e ter muito pouco do tiques das elites portuguesas , que eu tenho orgulho no atleta excepcional e no cidadão português exemplar que Obikwelu é.
Carlos Malmoro
PS: Contraponto: Maria João Pires e Selecção Nacional de Futebol.

Obikwelu (1)

A diferença entre um Obikwelu e muitos dos famosos portugueses é que o primeiro tem espírito de sacrifício, enquanto os segundos sacrificam o espírito.

Carlos Malmoro

Uma grande,

grande letra:



Fosse ciganos a levantar poeira
A misturar nas patas
Terras de outras terras, ares de outras matas
Eu, bandoleiro, no meu cavalo alado
Na mão direita o fado
Jogando sementes nos campos da mente
E se falasses magia, sonho e fantasia
E se falasses encanto, quebranto e condão
Não te enganarias, não te enganarias
Não te enganarias, não!
Fosse ciganos a levantar poeira
A misturar nas patas
Terras de outras terras, ares de outras matas
Eu, bandoleiro, no meu cavalo alado
Na mão direita o fado
Jogando sementes nos campos da mente
E se falasses magia, sonho e fantasia
E se falasses encanto, quebranto e condão
Feitiço, transe, viagem, alucinação

Bandoleiro
Ney Matogrosso

Carlos Malmoro

08 Agosto 2006

À Nova Geração de

...'Músicos', que gostam de compor baladas sentidas, que puxam à lágrima, ao amor profundo e à profundidade do sentimento - sim, que profundidade é convosco-, deixo-vos dois exemplos de como ainda estão longe, muito longe mesmo, de compor uma canção de amor.

Para além do palminho de cara que sei de fonte segura que V/Ex.as têm, e que, embora não acreditem, não interessa muito neste assunto, é preciso ser dono de um vozeirão como o deste senhor, mas num estilo diferente. Caso contrário, perde-se essa coisa estranha para vós que dá pelo nome de originalidade.
Depois, é preciso que as letras não se esgotem em lugares comuns, e que tenham tiradas de génio.
Exemplificando:

O we will know, won't we?
The stars will explode in the sky
O but they don't, do they?
Stars have their moment and then they die


Ou seja, a letra de uma canção de amor será tanto melhor quanto mais se aproximar da majestade da Poesia. Sabendo a dificuladade que V/ Ex.as têm no Português, o melhor é mesmo pedir a alguém que faça o trabalhinho por vós. Mas certifiquem-se da qualidade da coisa. Não quero que comprem gato por lebre.

Têm também, e eu sei que já estou a pedir muito, de saber tocar e compor num instrumento. De preferência, piano ou guitarra. Agora, têm de coordenar tudo por forma a atingir uma coisa infinitamente parecida com uma genial canção de amor. Que exemplifico:


Finalmente, os concertos. Para além de seguirem os passos acima descritos, para poderem apresentar uma canção de amor ao público tendo presença em palco (que vocês garantem até à exaustão como sendo nata de V/ Ex.as), incube-me informar que existem algumas matérias a rever.
Neste género de canção, quanto mais simples for a performance, mais autêntica ela se torna - e a qualidade de uma canção de amor gravita em torno da sua autenticidade. Para tal efeito, existem comportamentos de riscos a evitar. A saber: pede-se encarecidamente que se abstenham de gritinhos histéricos, coros de cinco vozes todas muito certinhas e no mesmo tom, piscares de olho à primeira fila, cenografias em cores berrantes e coreografias epilépticas em canções que, como muito bem sabemos, têm quase sempre andamentos lentos.
Sei que acabo de vos pedir uma utopia. Mas eu, olhando ao meu sentido de dever patriótico, e o estaminé onde escrevo, fazendo justiça ao seu sentido de serviço público, decidimos por comum acordo apresentar-vos uma lição prática de como se deve tocar uma canção de amor em público. Ei-la:

Recebam esta última dica: não faz mal nenhum dedicar a canção de amor a alguém. Eu, por exemplo, já que estou aqui e que me fizeram suar as estopinhas, dedico estas duas canções a quem de direito.
Carlos Malmoro

Quando a mais genial

composição para piano que conheço (Para Elisa, Beethoven), é-me apresentada num sintetizador rasca, e servida como banda sonora de uma espera telefónica de momentos que se prolonga por horas, os meus índices de agressividade passam de um ténue verde a um esdrúxulo vermelho.
Carlos Malmoro

06 Agosto 2006

Hiroshima


Hiroshima: 61 anos depois, ainda se sentem os efeitos da radioactividade. Olhando para o estado da Humanidade, 61 anos depois, ainda se sentem os efeitos da estupidez das guerras.
Carlos Malmoro
PS: Se bem que eu acredite que, como dizia T.S. Elliot, o Mundo não irá acabar num grande e rápido big-bang, mas sim num lento agonizar [Cito de cor].

03 Agosto 2006

Modos de Vida (vii)

Vivia em modo de leitura, bloqueado para edição.

Carlos Malmoro

Acerca da hospitalização

da personagem principal de Floribella...
Cabeçalho da notícia:
«Luciana Abreu retoma o trabalho na segunda-feira. A cantora-actriz está em casa a repousar e à folga, já prevista, de hoje, soma-se um dia de descanso concedido pela Teresa Guilherme Produções (TGP).»
Corpo:
«Flor’, que há seis meses contraiu um traumatismo na zona cervical, não necessita de ser medicada, passando as recomendações médicas, exclusivamente, pelo repouso e utilização do colar. Segunda-feira regressa ao trabalho (...) a actriz retirará o aparelho para gravar as suas cenas»
«Detalhes
GINÁSIO A TGP acordou, há dias, um protocolo com um ginásio para utilização dos seus actores. Luciana terá, assim, onde fazer ginástica de manutenção.
SEGURO Luciana, que tem seguro, segundo a assessora da TGP, foi transportada para um hospital público por decisão dos Bombeiros Voluntários de Bucelas.
MENSAGEM:Cristina Cavalinhos, a ‘Helga’ da novela, leu, ontem, após o ‘Jornal da Noite’ uma mensagem de Luciana a tranquilizar os fãs. “Fiquem com Deus”, escreveu.»
Sendo assim, temos uma entidade patronal que é uma mãos largas na atenção que dá à sua principal protagonista, cometendo a loucura de lhe conceder um dia de folga extra depois de hospitalização da mesma; temos uma equipa médica a recomendar repouso e a utilização de um colar cervical e, no mesmo parágrafo, informam-nos que a trabalhadora retomará a sua actividade normal na segunda-feira e irá retirar o colar sempre que gravar; temos uns 'detalhes' a dizer que a trabalhadora está legal, porque tem seguro, e que já tem onde fazer manutenção física; e temos uma 'mensagem' escrita pela própria e lida após o Telejornal, como fazem o Presidente e o Primeiro-Ministro.
A bem do que eu julgo ser o bom senso e o equilíbrio mental, só peço que alguém me garanta que isto é mentira.
Carlos Malmoro

02 Agosto 2006

Modos de vida (vi)

O rocker supunha-se genial: achava que as suas actuações ao vivo eram momentos sublimes e épicos. Desejou ter o dom da ubiquidade para assistir como espectador a um concerto seu. Foi-lhe concedido o desejo. Quando se viu a actuar, desistiu da carreira.

Carlos Malmoro