Pasto, neste momento estou a pastar. Consiste em estar deitado no sofá de barriga para cima, com umas revistas e uns livros colocados estrategicamente no chão para que o meu braço chegue a eles sem me mexer muito. O raciocínio no mínimo que me permita escrever em português para alinhavar o arrazoado, e, com menos raciocínio ainda, ler e dissertar sobre essa gota de água no deserto editorial português que dá pelo nome de Tvmais.
Abrimos essa miragem e, na página quatro dedicada ao correio dos leitores, a Sandra, em boa hora, dá-nos a saber que o grupo «Aztros» já lançou o seu segundo álbum, que se intitula “Raios de Tempestade». A reter.
Por outro lado, a Rita indigna-se porque a TVI continua com o programa «Fiel ou Infiel». Segundo ela, o programa não tem qualidade. Ritinha, deixa-me dizer-te uma coisa: a mira técnica da TVI tem mais qualidade do que todos os seus programas juntos. Sim, “Morangos” incluídos.
Finalmente, a Carta do Mês, de um conterrâneo homónimo, ganhou um livro e passo-a a transcrever na íntegra (pode ser penoso ler a carta em toda a sua extensão, mas desde cedo aprendi que uma obra-prima não deve ser sintetizada).
«Furacão em Palco – Assistir a um espectáculo da Adelaide Ferreira é ter a confirmação daquilo que é escrito a seu respeito: é um tornado. – Carlos Sousa – Ponte de Lima.»
Viramos a página: publicidade. Viramos de novo. De novo publicidade. Adiante. Encontramos então a Elsa Raposo e umas fotografias em que se desvendam os dolorosos passos que teve de passar para retirar a tatuagem com o nome do antigo namorado. Elsinha não desesperes. Vê as coisas pelo lado positivo. Ele chamava-se Gonçalo. Poderia chamar-se Hermenegildo.
A secção «História de Capa» desvenda-nos que a Beatriz vai ser assassinada. Duas perguntas: então sabe-se e ninguém faz nada?; Beatriz, como é que se sente sabendo que não tem mais do que sete dias de vida? (esta última com o alto patrocínio da escola de jornalismo TVI).
Depois temos um momento alto da revista: a «Crónica do Marco», também conhecido por alcançar a fama como pontapeador de ventres femininos. Há gostos para todos os animais, que se há-de fazer? Pela enorme quantidade de pontos de exclamação em três frases, uma das quais em que o verbo está conjugado no singular e o sujeito no plural, pressente-se que o Marco é um tipo que se indigna – muita indignação tem esta luminosa publicação hebdomadária –, e com razão, com a falta de visibilidade que as modalidades amadoras do desporto têm. Importa é apreender isto: o Marco é um tipo que se indigna e tem razão. Permite-me que te trate por tu, sem qualquer tipo de pontapés, para te dizer, pá, que te indignas com razão e que há razões para a tua indignação.
Finalmente, o momento mais alto da revista. Aquele que tornou este momento no mais frutífero «pastar» que eu alguma vez realizei. Não, não foi Deus quem a descobriu. E não, não foi nenhum filósofo que a alcançou. E não, também não foi nenhum historiador, vidente, cientista ou alienígena que a deslindou. Pois acabo de saber que quem descobriu a Verdade foi a Isilda. Zizi, para os amigos.
Carlos Malmoro