29 Setembro 2006

Canção

Silfos ou gnomos tocam?...
Roçam nos pinheirais
Sombras e bafos leves
De ritmos musicais.

Ondulam como em voltas
De estradas não sei onde
Ou como alguém que entre árvores
Ora se mostra ora se esconde.

Forma longínqua e incerta
Do que eu nunca terei...
Mal ouço e quase choro.
Por que choro não sei.

Tão ténue melodia
Que mal sei se ela existe
Ou se é só o crepúsculo,
Os pinhais e eu estar triste.

Mas cessa, como uma brisa
Esquece a forma aos seus ais;
E agora não há mais música
Do que a dos pinheirais.

Fernando Pessoa

21 Setembro 2006

À Vossa Consideração

Hoje, no supermercado, ao lado da «Caixa Rápida - menos de dez artigos», observo a seguinte cena:
Fila sem ninguém; a empregada de «caixa rápida» analisa minunciosamente o estado das unhas. Entra um homem com dois carrinhos cheios de compras. Cumprimentos mútuos de circunstância. Entretanto, chegam mais uma senhora com dois artigos, um homem com três e uma jovem também com coisa pouca. Os três olham para aquela montanha de produtos que vão sendo rapidamente colocados no tapete. Não dizem uma palavra, mas se o olhar matasse...O homem sai apressado porque se esqueceu de algo. Resmunganço entre os três: «- Não há direito. - Isto é para menos de dez artigos. - É uma pouca vergonha. - Assim é que havemos de ir longe. - Este país não tem emenda. - É por estas e por outras...» Chega o homem, pede desculpa e é recebido com silêncio e com três simpáticos sorrisos.
Há três meses, na Feira do Livro do Porto. Debate: «O que é a Poesia?». Convidados: Pedro Mexia, Manuel António Pina e outros dois autores que neste momento não me recordo (confesso: fui lá para ouvir os dois). Falava o Pedro Mexia e uma voz atrás de mim: «Quem é que esse gajo pensa que é para escrever sobre autores consagrados?» Voltava a falar o Pedro Mexia, e «E que poeta é ele para dizer mal dos romances do Saramago?; E as crónicas que ele escreve? Um puto com o nono ano escreve melhor do que ele.» Pedro Mexia é informado pelo moderador para tecer as considerações finais. Nas minhas costas, silêncio. PM diz a última palavra, afasta o microfone e recebe uma salva de palmas, incluindo do senhor que esteve o tempo todo atrás de mim a elogiá-lo.
Carlos Malmoro

Menos dez por cento

Existem dois grupos que todos os anos vendem menos dez por cento. São os comerciantes em época natalícia e os livreiros/editores nas feiras do livro de Lisboa e Porto. O que me faz muita confusão: ouço estas litanias há quase três décadas. Portanto, - como diria o Eng.º Guterres «é só fazer as contas» - e facilmente se deduz que no último Natal se vendeu um par de meias e que este ano houve um livrinho vendido em ambas as feiras do livro. Em relação ao último, ainda falta apurar se foi um livro ou uma revista Nova Gente.
Carlos Malmoro

Dia Mundial da Doença de Alzheimer

Há cem anos, o médico Alois Alzheimer, «deu» o seu nome a uma conjugação desconhecida de sintomas que observou numa mulher. Há dez anos, celebrou-se o primeiro Dia Mundial da Doença. Há quase dois anos (faltam oito horas), uma mulher engrossou a lista de vítimas mortais doença, por consequências directas da maleita. Essa mulher era minha mãe. Sei que ela gostaria que fizessem uma visitinha aqui: Dia Mundial da Doença de Alzheimer. Para que, como a própria me aconselhava, «Não te saia a fava em bolo que não é Rei.».
Carlos Malmoro

Confissão

Eu, adicto, me confesso: estou viciado no Youtube. Um sítio onde se podem encontrar viciozinhos como este:

Carlos Malmoro

19 Setembro 2006

Ir para velho

Para além do ridículo pêlo branco que insiste em aparecer no meio da barba e para além da teimosia da barriga que faz questão de mostrar todo o seu lípido potencial sempre que se passa uma semana sem natação ou quando o dono se atira aos profiterolles de anis como se não houvesse amanhã, a melhor forma de notarmos que estamos a ir para velhos, é visitar os sítios onde já vivemos e reparar que as visitas aos cemitérios se tornam cada vez mais frequentes.

Carlos Malmoro

A verdadeira tese

No início existia o Criacionismo que advogava que Deus era o criador do mundo. Depois foi a vez do Evolucionismo, defendido por Darwin no seu tratado «A Evolução das Espécies», um título que só por si já diz tudo, tal e qual o «Snakes on a Plane». Muito se escreveu, debateu e lutou pela apologia quer de uma quer de outra tese. Há porém uma outra teoria, muito pouco divulgada, e pela qual eu desde já me constituo como fiel adepto e defensor: o Simismo, aclarado por Clarice Lispector nessa esplêndida abertura do romance que dá pelo nome de «A Hora da Estrela»:
«Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. (...)»

Carlos Malmoro

18 Setembro 2006

Computadores, esses bicharocos estranhos

Na porta da Conservatória, lê-se isto:
«Informamos os nossos utentes que poderão surgir atrasos no atendimento devido a esta Conservatória estar informatizada.»
Carlos Malmoro

Gosto de prosas

Carlos Malmoro

17 Setembro 2006

Da fama e do proveito

"My reputation as a ladies man was a joke...it caused me to laugh bitterly at the 10000 nights I spent alone." - Leonard Cohen
Tradução possível: «A minha fama de mulherengo foi uma anedota...da qual me ri amargamente nas 10000 noites que passei sozinho.»
Carlos Malmoro

15 Setembro 2006

Por aqui

o que se lê:



o que se ouve:



Susanna & the Magical Orchestra (podem ouvir aí ao lado carregando duas vezes no play)

O que se vê:



O que se pretende ler:



O que se pretende ouvir:



Banda Sonora do Documentário I'm Your Man

O que se pretende ver:




O que se pretende escrever:



Carlos Malmoro

14 Setembro 2006

Modos de Vida (ix)

Tomava as opções conforme o sítio para onde estivesse virada a sua sombra. Um dia não teve sombra e decidiu à sorte. Acertou. Noutro, teve de se decidir exactamente quando passava por um candeeiro com quatro lâmpadas. Ao ver quatro sombras, enlouqueceu.

Carlos Malmoro

13 Setembro 2006

Decorar

O decorar que aqui se tratará é o sinónimo de memorizar. Não tenham ilusões quanto a ter uma lição de alindamento de interiores em vinte minutos. Existirão blogs e sites com muito mais validade e propriedade para o fazer. Embora algumas das propostas apresentadas nesses sítios, me levem a fazer, a mim, um ateu confesso, um religioso sinal da cruz. Adiante.

Sempre tive muita dificuldade em decorar. Ou os saberes me eram explicados, ou então, primeiro que entrassem nesta cabeça dura, era necessário que a mesma fosse cirurgicamente «aberta» e despejados para dentro os seus conteúdos. Assim, foi-me mais simples perceber que dois mais dois eram quatro, quando me foi demonstrado que duas laranjas mais duas laranjas são quatro laranjas. Ainda se tornou mais simples quando descobri, através de equações, que quatro menos dois resultava em dois.

Porém, se é relativamente fácil em ciências exactas haver uma demonstração, já nas línguas a coisa pia mais fino. Existem regras e, depois, cada regra tinha a sua excepção. Ora eu, com notas globalmente boas nas línguas, tentava fugir das excepções como o diabo da cruz (isto hoje está muito religioso). É que essas tinham de ser decoradas. Porque eram essas, invariavelmente, que surgiam nos exames. Dito de forma a perceberem a injustiça: as regras aplicavam-se em milhares de situações, as excepções em duas ou três, mas essas é que, para aqueles masoquistas, eram imprescindíveis aos alunos dominar.

Assim, e sem outras possibilidades de recurso, comecei por analisar o porquê de apenas a letra «p» e «b» serem antecedidas da letra «m», enquanto as restantes consoantes da letra «n». Cheguei a esta fantástica conclusão: ao dizer as letras «p», «b» e «m» os lábios tocam um no outro. Em nenhuma outra letra isso acontece. Eu sei que isso deve ter um nome em fonética. Não sei qual é, mas também não me importa saber: é que tenho a certeza que teria de o decorar.

Outra situação: por que razão estas formas verbais se escrevem de forma diferente: «decorasse» e «decora-se». Porque são dois tempos distintos do verbo «decorar».Até aí j´´a eu descobrira. Mas o que me ‘atormentava’ era saber quando tinha de escrever uma ou outra. Mais um esquema - malandro, diga-se em abono da verdade - encontrado: colocava a frase no negativo: «não decorasse» e «não se decora». Assim que o «se» saltava para trás do verbo, já sabia que a forma correcta de o escrever era «com tracinho».

Um último exemplo: os acentos. Era prática usual nos testes de português colocar vinte palavras, daquelas que nunca eu tinha ouvido na vida, e pedir «Coloque, de forma correcta, os acentos nas palavras.» Para esse caso, desenvolvi um sistema que me punha muitas vezes a fazer uma figura um pouco ridícula, mesmo de urso, nos dias de teste. Consistia em «chamar a palavra». Assim, e imaginando que a palavra a acentuar era «hermeneutica», e não pensem que a dificuldade do exemplo anda muito longe do que era exigido, dizia para mim mesmo, e como se estivesse a chamar alguém que tivesse o azar dos pais lhe terem dado esse nome «ó hermenêutica». A sílaba que se chama com mais força, é a sílaba a acentuar. Muito rebuscado, mas eficaz.

O mais importante destes esquemas não era, na altura, a sua eficácia comprovada pelas notas. Era conseguir menos marranço e principalmente menos decoranço. E isso resultava em mais tempo a fazer coisas realmente úteis: levantar saias a meninas, jogar ao bem me quer mal me quer, à bola e, para terminar com uma palavra que acabando em «s» não é plural, uma excepção que não foi necessário decorar, jogar ao guelas.
Carlos Malmoro

E um novo Homem nasceu

Neste momento, não sou ninguém. Assim dita o prazo de validade do Bilhete de Identidade. Não pertenço a nenhum país, não nasci em nenhuma cidade, não tenho nome, altura ou idade. Não tenho pais, residência, estado civil ou assinatura. Melhor de tudo: não tenho número identificativo. Sou, portanto, um selvagem. E não é que estou a gostar?

Carlos Malmoro

Um retrato possível de Portugal

Há um mês fechou a maternidade de Barcelos. Há um ano foi inaugurado um novo estádio do Gil Vicente, comparticipado em 35% por dinheiros públicos. Se ambos dão prejuízo, penso que seria de bom senso manter aquela valência que garantia uma saúde pública de proximidade. Assim não decidiram as pessoas inteligentes.

Concedo que se possa chamar ao raciocínio acima descrito de maniqueísta, no limite, de intelectualmente desonesto. A quem tenha veleidades de o fazer, desde já o convido a visitar as infra-estruturas desportivas destinadas ao desporto escolar, onde reina a ferrugem, onde as balizas ainda não foram fixadas ao chão, tornando-as em potenciais assassinas (recordam-se?), e onde os pavilhões multi-usos carecem de tanta atenção como o ego do Presidente do Gil Vicente.

Carlos Malmoro

02 Setembro 2006

Pastar II

Neste meu supremo e supimpo pastanço, pergunto-me porque é que a nossa audição consegue ouvir através de paredes e a nossa visão não? Eu sei que era chato ver coisas que não queríamos, mas acho injusto esta desigualdade de tratamento entre sentidos. E, neste momento, é tudo quanto me ocorre dizer sobre o assunto.
Carlos Malmoro

01 Setembro 2006

Pastar

Pasto, neste momento estou a pastar. Consiste em estar deitado no sofá de barriga para cima, com umas revistas e uns livros colocados estrategicamente no chão para que o meu braço chegue a eles sem me mexer muito. O raciocínio no mínimo que me permita escrever em português para alinhavar o arrazoado, e, com menos raciocínio ainda, ler e dissertar sobre essa gota de água no deserto editorial português que dá pelo nome de Tvmais.

Abrimos essa miragem e, na página quatro dedicada ao correio dos leitores, a Sandra, em boa hora, dá-nos a saber que o grupo «Aztros» já lançou o seu segundo álbum, que se intitula “Raios de Tempestade». A reter.
Por outro lado, a Rita indigna-se porque a TVI continua com o programa «Fiel ou Infiel». Segundo ela, o programa não tem qualidade. Ritinha, deixa-me dizer-te uma coisa: a mira técnica da TVI tem mais qualidade do que todos os seus programas juntos. Sim, “Morangos” incluídos.
Finalmente, a Carta do Mês, de um conterrâneo homónimo, ganhou um livro e passo-a a transcrever na íntegra (pode ser penoso ler a carta em toda a sua extensão, mas desde cedo aprendi que uma obra-prima não deve ser sintetizada).
«Furacão em Palco – Assistir a um espectáculo da Adelaide Ferreira é ter a confirmação daquilo que é escrito a seu respeito: é um tornado. – Carlos Sousa – Ponte de Lima.»
Viramos a página: publicidade. Viramos de novo. De novo publicidade. Adiante. Encontramos então a Elsa Raposo e umas fotografias em que se desvendam os dolorosos passos que teve de passar para retirar a tatuagem com o nome do antigo namorado. Elsinha não desesperes. Vê as coisas pelo lado positivo. Ele chamava-se Gonçalo. Poderia chamar-se Hermenegildo.

A secção «História de Capa» desvenda-nos que a Beatriz vai ser assassinada. Duas perguntas: então sabe-se e ninguém faz nada?; Beatriz, como é que se sente sabendo que não tem mais do que sete dias de vida? (esta última com o alto patrocínio da escola de jornalismo TVI).
Depois temos um momento alto da revista: a «Crónica do Marco», também conhecido por alcançar a fama como pontapeador de ventres femininos. Há gostos para todos os animais, que se há-de fazer? Pela enorme quantidade de pontos de exclamação em três frases, uma das quais em que o verbo está conjugado no singular e o sujeito no plural, pressente-se que o Marco é um tipo que se indigna – muita indignação tem esta luminosa publicação hebdomadária –, e com razão, com a falta de visibilidade que as modalidades amadoras do desporto têm. Importa é apreender isto: o Marco é um tipo que se indigna e tem razão. Permite-me que te trate por tu, sem qualquer tipo de pontapés, para te dizer, pá, que te indignas com razão e que há razões para a tua indignação.

Finalmente, o momento mais alto da revista. Aquele que tornou este momento no mais frutífero «pastar» que eu alguma vez realizei. Não, não foi Deus quem a descobriu. E não, não foi nenhum filósofo que a alcançou. E não, também não foi nenhum historiador, vidente, cientista ou alienígena que a deslindou. Pois acabo de saber que quem descobriu a Verdade foi a Isilda. Zizi, para os amigos.

Carlos Malmoro

Arquétipo

Tenho muita pena, mas esse arquétipo já está vendido. É como lhe digo, minha senhora, arquétipos verdadeiros só na nossa loja, mas de momento estão esgotados. Toda a gente quer t(s)er o seu arquetipozinho.

É uma maçada.

Sem dúvida, minha senhora: uma chatice.

Carlos Malmoro