25 Outubro 2006

Do optimismo

Dia a dia, vivem num fingimento completo. Ao acordar, fingem que a discussão da noite passada está ultrapassada, quando mais não está do que guardada para servir de arma de arremesso na próxima. Na casa de banho, colocam todas as mistelas necessárias à ocultação da fealdade do odor e do aspecto corporais. Entram no carro com os filhos e, enquanto falam enlevadamente com eles, transformam-se em sicários na estrada. Chegam ao trabalho a sorrir para fingir o contentamento com aquele emprego. Ao almoço, comem uma asséptica pasta com um nome estrangeirado, bebem uma zurrapa de pé, caro, regozijam-se pela sorte de ter meia hora de almoço e por nunca terem comido uma mixórdia tão parecida com um manjar dos deuses. Chegam a casa cansados, derrotados e fingem interessar-se pelos problemas da/o companheira/o e pelas notas dos filhos. Na cama, enquanto fazem amor, ele finge pensar nela, enquanto ela finge um orgasmo. Ambos se apercebem, mas como já houve discussão ontem, fingem que foi o melhor de sexo toda a vida. Dormem, acordam e repetem.
Carlos Malmoro

24 Outubro 2006

Atrasadas Felicitações

Parabéns ao blogue que tem no leme uma grande milher.

Carlos Malmoro

21 Outubro 2006

Non Sense Bar

- O que vai tomar, Sr. Carlos?
- O costume, para variar...

Carlos Malmoro

19 Outubro 2006

Nota Informativa

Hoje, pelo meio-dia, vinha a conduzir e ouvi nas notícias que um grupo artístico iria apresentar uma peça/documentário intitulada vinte e um gramas. Depois, em conversa com um outro locutor, disse: «...vinte e um gramas, um título certamente inspirado no filme com o mesmo nome.»
Eu não penso que saiba mais do que alguém, nem quero ser petulante, mas devo informar a sr.ª locutora que essa expressão já vem um bocadinho (cof cof) mais de trás. Mais exactamente da Grécia Antiga.
Carlos Malmoro

18 Outubro 2006

Comunicado da Gerência

A partir de hoje, faço parte da equipa que escreve o «Geração Rasca». O «Caixa Pandora» continua dentro de momentos.

Carlos Malmoro

17 Outubro 2006

Perspectiva (um pouco altiva)

No comentário anterior, ao 'cruzar-se' com a Pitucha, André Carvalho disse que «o mundo é pequeno». Em circunstâncias idênticas, eu prefiro pensar que sou eu e a outra pessoa é que somos grandes. Mai' nada.
Carlos Malmoro

16 Outubro 2006

Prémio

Não sei qual é a originalidade de Marcelo Rebelo de Sousa fazer um blogue no jornal «Sol». Caso não se recordem, o melhor blogue português foi escrito ainda não existia internet. Aliás, não chegou a ser publicado na net. Os posts dele são, de longe, de muito longe mesmo, superiores a qualquer um que anda por aí. Caixa Pandora, incluída. Como se chama o blogue? O Livro do Desassossego.

Carlos Malmoro

13 Outubro 2006

Burocracia Poética

Menino Carlitos, dê um exemplo de linguagem poética e outro, com o mesmo significado, de linguagem não poética.
- Linguagem poética:"Comissão Eventual de Inquérito Parlamentar ao Processamento, Disponibilização e Divulgação de Registos de Chamadas Telefónicas Protegidas Pela Obrigação de Confidencialidade".
Linguagem prosaica: Caso do Envelope Nove.

Carlos Malmoro

12 Outubro 2006

Ponto da Situação

They think they know who I am...

Carlos Malmoro

10 Outubro 2006



Carlos Malmoro

09 Outubro 2006

Há que assumi-lo com frontalidade:

se o meu carro fosse um descapotável, era considerado uma lixeira a céu aberto.

Carlos Malmoro

06 Outubro 2006

Inspiração da Grelha da TVI

José Eduardo Moniz à revista NS:

«Tenho um caderninho na casa de banho para apontar ideias.»

Um contra Todos

Numa destas noites, entrei num bar e estava a dar aquele concurso de cultura geral, «Um Contra Todos». A pergunta que se fazia era: “Em que ano Thomas Mann venceu o Prémio Nobel da Literatura?”. Eu não sei. Li quatro livros dele dos quais posso fazer um resumo dos temas tratados e do estilo de escrita, sei minimamente a sua biografia e em que corrente estética se insere o autor, consigo ter uma visão global da Obra e as influências que se notam, mas – oh ignomínia – não sei em que ano o senhor ganhou o prémio Nobel. Portanto, aos olhos desta sociedade que valoriza o decorar do ano em que um autor é premiado à compreensão da sua Obra, sou um inculto sem remissão e um abjecto ignorante.
E curiosamente, sinto-me o derradeiro sábio com esta minha suprema ignorância.
Carlos Malmoro

Quando eu pensava que uma

carta para um/jornal revista poderia mudar algo:

1) MAIS LEITORES:
«Quando a rubrica «Gosto Não Gosto» começou no DNA, houve logo leitores que se apressaram a tomar conta da ideia e transformaram as suas opiniões sobre este suplemento em listas de amores e desamores. Gostámos da «apropriação» e publicámos quase todas que nos chegaram. Depois a secção entrou na rotina do costume, e deixaram de chegar esses manifestos que nos fazem pensar e nos obrigam tantas vezes a mudar. Agora, repentinamente, eis de volta à caixa do correio cartas sob a forma de «Gosto Não Gosto». O editor dispensa a sua carta para mais uma destas formas de estar connosco, mesmo quando se critica e lamenta…Aí está, então, o que vai na alma de Carlos (…), de Ponte de Lima:»


«Gosto da escrita directa (Palavras a Cores) e mágica (As Sombras da Liberdade) da Sónia Morais Santos. Onde estão as Palavras a Cores? Não sei do que se pode não gostar na escrita de SMS. Gosto dos Editoriais melancólicos e chuvosos, que pedem «Murder Ballads», de Pedro Rolo Duarte. Não gosto que PRD se atormente com políticos e políticas – se eles dizem que «a guerra é importante demais para ser deixada nas mãos de militares», então a cultura é demasiadamente vital para ser discutida com e por políticos. Ou seja, por quem faz realmente a guerra. Não gosto nem desgosto dos textos da Camila Coelho por não terem gosto. Gosto das críticas de P. Mexia à «Novíssima» poesia. Não gosto que o PM tenha feito a crítica, no DNA, a um livro de José Mário Silva, por este último ser Editor-Adjunto do DNA, nem gosto quando o PM se perde – e perde-nos – em efabulações conceptualistas, e tem de escrever entre parêntesis se o que está a afirmar é um elogio ou uma crítica ao livro. Gosto do humor nas crónicas de Miguel Esteves Cardoso e de Carlos Quevedo, que escondem aquilo de que não gosto nas suas crónicas: amargura azeda e generalizações simplistas. Gosto das histórias de escritores de Nelson de Matos. Não gosto da litania «Coitadinhos Dos Editores Que Não Recebem Subsídios» de Nelson de Matos. Gosto dos textos de Eduardo Barroso que falam de homens que salvam homens. Não gosto de textos políticos no «Sem Receita». Gosto do ritmo dos textos de José Mário Silva. Não gosto de certos textos de JMS que mostram a insuportável arrogância de uma pretensa superioridade intelectual. Já vos disse que gosto da escrita adulta da Sónia Morais Santos, mas é só para o texto ter estrutura circular. Gosto do gosto do DNA.»

Texto publicado na carta semanal que Pedro Rolo Duarte dirigia aos leitores. A parte a itálico é de sua lavra. Publicado em 10/05/2003, no caderno DNA
2) «O Governador do Banco de Portugal, Vítor Constâncio, disse recentemente que se a economia portuguesa não sofrer um sobressalto estará condenada a um crescimento medíocre nos próximos anos. Eu penso que não é só a Economia. De facto, se analisarmos a situação apenas nos sectores mais relevantes da vida portuguesa, – a Justiça, a Saúde, a Educação, e a Administração Pública - a conclusão é óbvia: o marasmo, a mediocridade, o deixa andar e um tédio que parece endógeno à vida pública portuguesa, existe em todos eles. Os dias são queimados sem se esperar já grande coisa dos políticos, a sociedade civil está dividida entre os afilhados e os remediados, num fosso que se alarga quotidianamente, a Justiça parece fazer questão em demorar séculos para resolver o mais simples dos processos, enquanto as classes que a integram andam mais preocupadas em lutas de poder; a Saúde ainda não tem os serviços de saúde básicos que possam atenuar a afluência às Urgências, os jovens necessitam de ser génios para entrar numa faculdade de medicina e os genéricos só saíram mais baratos ao Estado, uma vez que a factura dos Utentes é maior; um dia, a Educação, conseguirá fazer um concurso de colocação de professores capaz e exigir um mínimo de conhecimentos aos alunos nas passagens de ano e a Administração Pública sofre de proporcionalidade inversa: quanto mais pesa no bolso dos contribuintes, menos eficaz se torna.

Dito isto e para terminar, lembro aqueles dois versos de T.S. Elliot que diziam que o fim do mundo não chegará num big-bang mas num moroso e contínuo desvanecimento (cito de cor). Também em Portugal assim o é: isto não acabará num qualquer sobressalto. Antes num agonizar lento e entediante da vontade de lutar por um país melhor. Basta olhar para as escolhas que temos ao nosso dispor em vinte de Fevereiro.»

Carta publicada na Grande Reportagem, há aproximadamente três anos
3)A emigração portuguesa que hoje existe é mais castradora para o futuro de Portugal do que aquela que existiu nos anos 60 e 70. De facto, enquanto nesses anos o fenómeno recrutava os seus elementos nas franjas da população mais desfavorecidas economicamente, e que assim almejavam a desejada estabilidade económica regressavam a Portugal, actualmente a emigração faz-se a expensas da «nata» dos portugueses.
Sem qualquer juízo de valor para com a necessidade e legitimidade que levou – e leva – uns e outros a tomarem tal opção de vida, é assaz preocupante que numa sociedade tecnológica, do conhecimento científico e da informação, e num país que padece de tantas carências a estes níveis, os melhores cientistas, investigadores e académicos tenham de procurar oportunidades no estrangeiro. Por que razão não o conseguem em Portugal?
Mas temos de compreender quem toma esta decisão, quase sempre com bastante sofrimento a nível pessoal e familiar. Se nos anos 60 e 70 fugia-se da miséria e da fome, hoje, quem emigra, procura evitar a estagnação das suas carreiras, uma vez que as universidades e centros tecnológicos portugueses não conseguem, nem de perto nem de longe, competir com os meios dos congéneres franceses, britânicos ou norte-americanos. (Em tempo: no OE para 2004, as verbas para Ciência e Tecnologia diminuem 3,8%.Para quem prometeu um forte investimento em ID&T, estamos conversados…)
Publicado na rubrica «Cartas dos Leitores», do Diário de Notícias, de 22/10/2003
...pois, estamos conversados: deixei de enviar cartas para o jornal, criei um blogue.
Carlos Malmoro

Dos espelhos

A imagem reflectida no espelho, não é a nossa, mas a simétrica à nossa. E simetria significa, na sua acepção, geométrica/matemática – e é esta que interessa visto estar a escrever sobre distribuição de objectos no espaço –, objectos ou algarismos idênticos com a posição ou valor oposto. E nós, conscientes disso, só saímos de casa quando a reflexão que dá um valor oposto ao da nossa verdadeira imagem está perfeita.
Carlos Malmoro

Pensamento do Dia

Fazer crítica literária à poesia assemelha-se a pedir análises clínicas à alma.
Carlos Malmoro