31 Janeiro 2007

Notas nas margens dos livros*

Por mais político que seja o tema do ensaio, um livro de Eduardo Lourenço é, antes de mais, uma singular obra de arte. A forma como ele pega nos assuntos e vai por ali fora, quase divagando, fazendo-nos crer, a determinada altura, que já nada do que nos é proposto tem realmente qualquer tipo de ligação com o objecto do ensaio; as voltas que dá, levando-nos a pensar que está a centrar-se no acessório e a fugir do fulcral; a demonstração que nos faz que também o lateral e o acessório devem ser apreendidos quando se pretende analisar um universo, e a suprema mestria de fazer tudo confluir para a ideia que nos quer transmitir, são particularidades que só estão ao alcance de raras penas.
*[adaptadas]
Carlos Malmoro

29 Janeiro 2007

Ele mete "dedos" a falar e democracias a funcionar

Este homem teve a iniciativa, não de protestar, mas de querer mudar o que lhe parecia mal. Este homem não fez uma birrinha: escreveu, orientou e foi primeiro assinante da petição que tentava alterar aquilo que ele achava incorrecto. Depois, pediu-nos que assinássemos. Eu, que nunca tinha assinado uma petição, fi-lo pela primeira vez (passe a redundância). As razões: era uma causa em que acreditava; a petição estava bem fundamentada; e, finalmente, e desculpem lá a falta de rodeios, a TLEBS era má demais para ser verdade.
Deixo-vos expresso neste mail, que o Zé me enviou na Quinta-feira passada, e que os problemas informáticos da semana passada impediram que fosse mais cedo publicado, o resultado de tamanha empreitada:
A petição contra a experiência TLEBS foi hoje entregue ao dr. Jaime Gama, Presidente da AR, à Dra Suzana Toscano, assessora para a Educação da Casa Civil do Presidente da República , à recepcionista da Residência Oficial do Senhor Primeiro-ministro (não estava ninguém disponível para receber a petição...) e ao Senhor Secretário de Estado Adjunto e da Educação, Dr. Jorge Pedreira.

Versão Beta

Vou agora mudar este estaminé para a versão Beta. Durante algumas horas ele estará inacessível. Espero que volte direitinho.

Carlos Malmoro

28 Janeiro 2007

Os computadores não são máquinas

A partir de segunda-feira passada, o meu computador começou a fazer um ruído estranho. Terça-Feira, além do ruído, uma lentidão de fazer perder a paciência a um monge. Quarta-feira, telefono, logo de manhã a quem percebe mais da poda do que este curioso. Diz-me ele: «O disco, Carlos, o disco está a entregar a alma ao criador.» [não foi com estas palavras, mas, enfim, há que alindar um pouco o texto dando-lhe um certo dramatismo.] Quarta-feira à noite, o computador pura e simplesmente não arranca.

Estou perdido, pensei. Afinal, dezenas de trabalhos, textos, programas, aplicações e, acima de tudo, meia-dúzia de trabalhos não concluídos, daqueles extensos, mas particamente prontos, estavam no disco agonizante. Quinta-feira, visita-me o técnico para dar a extrema-unção ao dito cujo. Ligo e computador, e ele arranca normalmente. Com a mesma rapidez de outrora, o meu disco toshibazinho tinha voltado do Além.
Em quarenta minutos, faço cópias de segurança de tudo o que de mais importante tinha lá guardado. Acabo de fazer as cópias, começa o ruído, a lentidão, e, kaput. Foi-se. Desta vez definitivamente. O técnico ainda brincou com a situação, dizendo que a mesma se assemelhava àqueles filmes que antes do herói morrer, diz não sei quantas frases, ainda tem tempo para matar três vilões e dar um beijo à heroína. Eu não me ri. Afinal, o meu toshibazinho tinha, mais uma vez em três anos, salvo o que de mais importante o meu trabalho produz.
Hoje, domingo à noite, ele está aqui mesmo à minha frente. Dentro do computador, já está um outro irmão dele. Mais novo, mais viçoso, mais rápido e mais potente. Esperemos que igualmente fiel.
Carlos Malmoro

Pedido de calor a uma guitarra eléctrica distorcida

Eu sei que os blues necessitam de chuva para serem escutados. Mas para esta regra ser válida, deverá existir uma excepção. Que assim seja: fica aqui Chris Rea com «Road To Hell». Para que a chuva venha e o frio desapareça.
Carlos Malmoro

22 Janeiro 2007

Perseguir até ao fim achar o mar

Estava firmemente decidido a organizar este milhar e meio de livros a que chamo «biblioteca». Quem fez a contagem foi um amigo de nove anos. Perguntei-lhe porque os contava, respondeu-me que quantos mais livros se tem mais esperto se é. Disse-lhe que se não tivesse lido nenhum deles não era esperto; era vaidoso. Ele respondeu-me que se gastava tanto dinheiro em livros, de certeza que os lia. Pensei para comigo: já cá faltava a inexorável e desarmente perspicácia infantil.
Adiante: organização, é isso que se procurava: portugueses para um lado, estrangeiros para outro. Poesia para cima, romances ao centro, ensaio em baixo. Livros escolares, de referência e didácticos noutra estante. Ao melhor espírito burocrata. Se calhar até não ficava mal uma numeração, com uma base de dados e tal...mas eu conheço-me.
Conheço-me o suficiente para saber que ao arrumar um livro vou ler os sublinhados, ver se era naquele livro que estava a tal frase, se era aquele com o pior começo ou com a melhor epígrafe. Enfim, um livro por meia hora.
Exemplificando: ao arrumar o livro «Até ao Fim», de Vergílio Ferreira, recordei-me logo da entrevista que tinha lido dele em que dizia que o título do livro tinha saído de um verso de António Ramos Rosa. Diz em epígrafe (o tal verso): «perseguir até ao fim achar o mar». E pus-me a pensar que ele não tinha necessidade nenhuma de colocar um verso que tem uma expressão 'corriqueira': quantas vezes por dia não se diz: «faz isso até ao fim»; «vai até ao fim da estrada»? Mas ele, um grande escritor, e pelos vistos um grande carácter, colocou-a lá para nos dizer isto: a ideia veio daqui. E este escrúpulo levou-me ao interior do livro onde ainda ando «perdido». E foi também este escrúpulo que me fez firmemente decidir desorganizar o que da biblioteca já havia organizado.
Carlos Malmoro

19 Janeiro 2007

Literalmente

Há trinta anos, a minha mãe disse-me: «Agora que já és um homem, passas a dormir sozinho.» Tenho tentado corresponder.

Carlos Malmoro

18 Janeiro 2007

Parece-me que o mês de Janeiro já devia ter acabado há 12 dias.

Carlos Malmoro

16 Janeiro 2007

Os textos e a sua construção

O processo de construção do texto é tão ou mais cativante do que o próprio texto. Reformulo: a construção de qualquer obra é tão ou mais empolgante do que a obra. Tomando à priori um exemplo de um texto genial, é sempre com assombro que se desvenda, por exemplo, numa versão fac-similada, os processos com que este foi conseguido. Assombro, não pela genialidade do texto; antes pela fragilidade/humanidade com que, exemplifiquemos, um exímio poema foi construído. Aquela sensação de que estamos muito distantes do génio, desaparece no exacto momento em que os processos que foram utilizados para o criar são os mesmíssimos que utilizamos quotidianamente para escrever uma carta de reclamação ao servidor de net: escrever, rasurar, complementar, organizar as ideias, etc.

Ou seja, passa a existir um acontecimento de identificação. E esta identificação entre uma carta profissional e um poema, não tem um efeito banalizador sobre a tal obra de arte, afastando-a por efeito de menosprezo da sua qualidade. Promove uma aproximação entre o leitor e o poeta na medida exacta em que o último deixa de ser uma semi-divindade para o primeiro e passa a ser um homem comum. E, convenhamos, os homens preferem conviver com homens do que com deuses.
Carlos Malmoro.

15 Janeiro 2007

Leonard Cohen

«Pergunto-me quanta gente nesta cidade
vive em quartos mobilados.
Tarde na noite quando olho os edifícios
juro que vejo um rosto em cada janela
olhando-me a mim,
e quando me volto
pergunto-me quantos regressam às suas mesas
e escrevem isto.»

14 Janeiro 2007

Homem, Dr.

Tem a idade da sabedoria. A fina ironia encontra a máxima expressão nas suas hebdomadárias crónicas.

Crónicas com verve. Uma escrita de fundo. Que precisa de tempo e espaço para viver.

Viver e escrever: a causa e a consequência. É o cronista que escreve com mais classe em Portugal. Escreve-nos de Moledo. Chama-se António Sousa Homem. Diz não ter «email», mas tem blogue. Tem a sabedoria da idade.




«Por mim, tenho resistido à exigência de possuir um telemóvel no bolso. A idade não mo aconselha, vou dizendo. Nos bolsos, uso apenas um lenço, o relógio que pertenceu ao meu avô (que o recebeu de um inglês do Douro a quem administrava as vinhas) e a pequena caixa que contém a dose diária dos comprimidos que cuidam das pobres coronárias. A minha sobrinha Maria Luísa, que tem dois telemóveis, tentou informar-me das vantagens de comprar um; parece que a principal delas é poder falar com quem queremos, onde quisermos, além de podermos ser contactados em qualquer lugar, coisa que não me seduz muito. Bem vistas as coisas, o único estranho que me contacta sempre à mesma hora é um senhor da rádio que, logo de manhã, me esclarece que chove em Lisboa ou anuncia que vai trovejar no Porto ou nas Beiras. Aguardo pacientemente que me informe sobre a queda das folhas da meia dúzia de plátanos ao fundo da rua, ou sobre a hora a que chega o correio ao portão de casa. Ele mantém-se renitente. Teimamos, cada um por seu lado. É isto a vida.» in Revista Notícias Sábado – 2 Dezembro 2006
[imagem retirada daqui]
Carlos Malmoro

13 Janeiro 2007

Pensamento da Noite

Ansiedade controlada é desejo.

Carlos Malmoro

12 Janeiro 2007

As Sete Maravilhas de Portugal

Mais um concurso. Como é impossível votar nestas maravilhas, aqui ficam as minhas sugestões:






  1. Os Lusíadas: porque ainda hoje é o melhor auto-retrato de Portugal e dos portugueses;
  2. Livro do Desassossego: porque é o melhor blogue que alguma vez foi criado;
  3. Os Maias: porque vale por trinta anos de leituras de crónicas de jornal;
  4. Violino - Amadeo de Souza Cardoso: porque ainda se considera prematura uma obra com quase cem anos;
  5. Auto da Barca do Inferno: porque Woody Allen é um Gil Vicente do séc. XX/XXI;
  6. Verdes Anos - Carlos Paredes: porque o hino português deveria ser o instrumental que dá nome ao EP;
  7. Painéis de S. Vicente de Fora: porque antes de seis excelentes frescos, de seis excelentes representações ou de seis excelentes técnicas, é uma excelente ideia.

E estas maravilhas e não as outras, porque o melhor de Portugal não está no seu património arquitectónico mas no artístico.

[imagens: capas dos livros retiradas da loja online fnac.pt; capa do EP de Carlos Paredes, obtida por scanning; pintura "Violino", scanning meu do livro : Pintores Portugueses (Edições INAPA); Painéis S. Vicente de Fora, via sapo.pt.]

11 Janeiro 2007

Contra a TLEBS (ii)

esta petição, promovida pelo José Nunes, já ultrapassou as quatro mil assinaturas. Trocado por miúdos, isto ignifica que já tem legitimidade legal para ser requerido o respectivo debate parlamentar. Ao José Nunes deixo aqui um abraço de agradecimento por ter feito todo o trabalho que permitiu que uma causa em que acredito [a necessidade da suspensão imediata da TLEBS], possa ser tratada em local apropriado. Para confirmar cientificamente a tese, no mail que me enviou, o José remete-me para um artigo do Professor Catedátrico de Linguística João Andrade Peres, que demontra as inúmeras falhas técnicas de que TLEBS padece.
Nunca é demais agradecer, e, portanto, um grande abraço ao Zé pela tarefa gigantesca em que se aventurou.
Carlos Malmoro

08 Janeiro 2007

Citações no rodapé da minha agenda

«Não deixes crescer a erva no caminho da amizade» Platão
Variante pessoal:
Por vezes a vida impede-nos de passar no caminho da amizade. A erva cresce. Assim que acabar esse impedimento, o melhor a fazer é convidar imediatamente o amigo para um copo. Como se sabe, tomar um copo/café é o melhor herbicida que se conhece para o caso.
Carlos Malmoro

07 Janeiro 2007

Parabéns

à Luna por andar há dois anos a alimentar este inteligente bicharoco.

Carlos Malmoro

05 Janeiro 2007

GPS 2007

First we take Frisco, then we take Barcelona and Berlim*


[*adequação do título da canção de L.Cohen, «First we take Manhattan, then we take Berlin»]


Carlos Malmoro

04 Janeiro 2007

Citações no rodapé da minha agenda

Quinta Feira, dia 4 de Janeiro de 2006

«O mundo está cheio de pequenas alegrias: a arte da vida consiste em saber distingui-las» (Li Tai Po)

Variante pessoal:

Não há alegria nem tristeza. Há momentos alegres e momentos tristes. A arte da vida está em saborear os primeiros e ultrapassar os segundos.

Carlos Malmoro

02 Janeiro 2007

Micro Causa: Anti-Cheque Prenda [ou um sentido agradecimento a quem me presenteou]

Até ao presente dia, nunca me ofereceram um cheque prenda. O que me leva a pensar que quem me presenteia são pessoas que me conhecem demasiadamente bem, ou são pessoas que partilham desta minha aversão a esse conceito, ou são pessoas que partilham da aversão e conhecem-me tão bem quanto eu me conheço.

Sou contra os cheques prendas por eles representarem a lei do menor esforço em dois sentidos: por um lado, a pessoa compra-os e pode ‘riscar-me’ da lista de prendas; depois porque é menos tempo que se gasta – e eu gosto que se gaste tempo comigo.

Por outro lado, sou também contra o cheque-prenda por eles serem sempre exclusivos ou de uma cadeia de lojas ou de um determinado centro comercial. Ou seja, o tempo que não gastaram comigo a procurar uma coisa que se adequasse, teria eu de gastá-lo numa loja que, provavelmente, até nem seria a da minha preferência. Se não compraram com receio de me ‘desapontar’, a escolha da loja poderia desapontar-me.

Finalmente, acho que a prenda tem de ser pessoal. E nisto sou ultra-conservador. E o cheque prenda é a coisinha mais impessoal que conheço. Porque se há uns anos era inconcebível oferecer um cheque prenda, o mesmo tipo de raciocínio leva-me a concluir que daqui a uns anos receberei um envelope com uma notinha de vinte euros lá dentro.
Carlos Malmoro

01 Janeiro 2007

Para começar o ano

...com o meu segundo pintor favorito:



William Turner "Rheinfall at Schaffhausen"

Carlos Malmoro

Dez promessas para manter tudo na mesma em 2007

  1. Continuar a comer
  2. Continuar a beber
  3. Continuar a fumar
  4. Continuar a ler
  5. Continuar a escrever/'postar'
  6. Continuar a fazer aquilo que vocês tão bem sabem
  7. Continuar a sair / viajar
  8. Continuar a nadar
  9. Continuar a pastar
  10. Continuar a cuidar dos meus

A lista não está alinhada por ordem de prioridades. Daqui a 364 dias, balanço.

Carlos Malmoro

O melhor de 2006

em filmes:
I'm Your Man (documentário)
Uma História de Violência (como aqui já tinha testemunhado)
Capote (não esquecer nunca Catherine Keener)
Entre Inimigos, de Martin Scorsese
Marie Antoinette, de Sofia Coppola
Match Point, de Woody Allen

Conclusão: sendo que três destes filmes já foram vistos em casa no DVD, resta-me fazer uma nota a mim mesmo a dizer: não esquecer nunca que este ano tenho de ir mais ao cinema.

Carlos Malmoro