31 Março 2007

Da Música

É dos livros: a música é a mais universal das artes. Universal porque é susceptível de ser percepcionada por todos, porque basta saber assobiar para criá-la, porque consegue expressar todos os matizes do espírito humano, porque não conhece fronteiras, línguas ou religiões. A música é, igualmente, individual. Uma mesma música é interpretada de maneira diferente de indivíduo para indivíduo, e cada um desses indivíduos pode dar diferentes exegeses à mesma música, normalmente por variações do tempo, do espaço e do estado de espírito, conduzindo a que aconteça um movimento curioso: uma canção é universal, por aquilo que atrás se aduziu. Quando é apropriada por uma pessoa, torna-se individual. Já «dentro» dessa pessoa, ela volta a tornar-se universal na medida em que pode tomar uma pluralidade de interpretações, não pela subjectividade óbvia de cada indivíduo, mas porque para um mesmo indivíduo, a mesmíssima música pode despertar uma miríade de emoções, no limite contrárias, devido às circunstâncias em que é escutada: a arte é a mais universal das músicas.

A música está para mim como as «madalenas» estavam para Marcel Proust. Cada vez que meto um disco a tocar, é uma viagem no tempo que faço. Recordo nitidamente situações, pessoas, momentos. As canções são cábulas da história da minha vida.
Ao longo da Festa Música (FM), fui falando daqueles que estão no topo da pirâmide dos meus gostos. Hoje, trago-vos aqui os que estão na base. A base da pirâmide é sempre mais larga. Como tal, tratarei de deixar apenas links, e dentro destes algumas dedicatórias a quem teve a amabilidade fazer referência à FM.
Para finalizar quero corrigir aqui uma injustiça que os dicionários de sinónimos cometem: música significa, essencialmente, amizade. E é com essa amizade que dedico este post n.º 3000 (e respectivo vídeo) do Geração Rasca ao André, à Cristina, à Nancy e à Leonor.
Pink Floyd, R E M, Radiohead, Manic Street Preachers, Oasis, Mão Morta, Andrew Bird, The White Stripes, The Killers, Interpol, Muse, Therapy?, Suede, Tchaikovsky, Within Temptation, Sisters of Mercy, Dead Can Dance, Dave Matthews, Patrick Wolf, The Animals, Placebo, The Who, Megadeth, David Bowie, e muitos muitos outros, entre os quais estes senhores que esta noite vão actuar exclusivamente para os meus colegas do GR:


29 Março 2007

Escolas 2.0

Mãe: Filho, porque estás triste?
Filho: Na escola, mãe, ninguém me linka.

Carlos Malmoro

All we need is love

Li no Público de ontem que o PM finlandês ganhou popularidade e eleições depois de ter passado por um escândalo: a antiga companheira publicou um livro com pormenores sobre a relação que mantiveram. Enfim, um pouco como a nossa Carolininha... Ao pronunciarem-se sobre este resultado, os analistas políticos chegaram à conclusão que a melhoria da imagem do PM se deveu ao facto de os finlandeses, após a publicação do livro, terem começado a olhar o primeiro deles como uma pessoa mais humana em vez da imagem de homem cinzento que tinham.

Assim, a opinião pública ficou a saber que o PM mandava uma mensagem todas as noites à sua ex a dizer «boa noite. o chefe do executivo» e também que após um beijo lhe terá dito que os mesmo «sabia melhor que batatas assadas no forno» (a comida que o PM mais gosta).

Eu acho isto tudo muito bonito, o amor é a coisa mai linda do mundo e por vezes faz-nos dizer coisas um pouco tontinhas. Mas uma coisa eu sei: se eu enviasse uma SMS de boas-noites à minha mais-que-tudo a desejar-lhe apenas «boa noite», seguido do cargo profissional que desempenho, que por acaso também a palavra "executivo" na designação, ou se comparasse os beijos dela a batatas assadas no forno, o mínimo que me acontecia era no outro dia ter as malas à porta de casa. E, diga-se em abono da verdade, merecidamente.

Estes finlandeses são um povo realmente muito apaixonado.

Carlos Malmoro

28 Março 2007

Optimismo, Prudência e Pessimismo

Como aqui muito bem se refere, é de um optimismo ingénuo realizar os concertos que visavam celebrar o 50º aniversário do Tratado de Roma ao ar livre na diluviana Bruxelas. Já os dirigentes europeus, preferiram não embandeirar em arco e fazer discursos mais prudentes quanto ao futuro da UE. Agora só não entendo as escolhas das bandas que actuaram nos referidos concertos: decretar os Scorpions e as Las Ketchup como embaixadores da música alemã e espanhola é, no mínimo, de um atroz e paralisante pessimismo.
Carlos Malmoro

27 Março 2007

Porta Entreaberta

Os meus sinceros parabéns ao primeiro ano do Porta Entreaberta. Um blogue que tem um tempo e um estilo muito próprios de respirar (postar). Os meus votos de um segundo ano igualmente brilhante. E, se a autora mo permitir, o pedido de uma postagem mais assídua. Felicidades.
Carlos Malmoro

Psicoterapia

«Quanto é? 3,00€. E está aqui este folheto para ficar com o cartão da nossa loja….dá-lhe descontos, e pode pagar a crédito…» «Quanto devo? 5,00€. Já lhe falei nas vantagens do nosso cartão?...» «Quanto custa? 10,00€, e sabia que se tivesse o nosso cartão ficava-lhe em apenas 9,98€?» «Quanto? 7,00. Se tiver o nosso cartão fica em 6,95€, mas os cinco cêntimos só podem ser descontados em compras na nossa superfície se o valor das mesmas exceder 100,00€.»

É esta a vida de quem paga. Além de pagar, leva sempre com a oferta do cartão. Sinceramente, eu sei que as senhoras da caixa não devem ler este blogue, e também sei que estar a oferecer o cartão da casa a todos os clientes deve ser para as senhoras um aborrecimento que faz parte dos ossos do vosso ofício. Mas eu gostava de saber o que tenho de fazer para que não me oferecessem mais cartões. Embora digam o contrário, e volto a frisar que tenho plena consciência que faz parte das vossas obrigações, eu não iria enriquecer com esse dinheiro, nem seria ele que num futuro hipotético me livraria de ficar economicamente debilitado. Aliás, os vossos cartões que proporcionam crédito, têm uma taxa anual efectiva global (TAEG, gostaram do preciosismo?...) a TAEG dos vossos cartões, dizia eu, é tão alta que me conduziria rapidamente, não à debilidade económica, mas à mais completa miséria. (eu sei, estou a hiperbolizar, tal como vocês costumam fazer com um desconto de cinco cêntimos…)

Para finalizar, quero dizer que existe um cartão ao qual me vou render. É ao do hipermercado. Os descontos e o crédito são tão miseráveis, os primeiros, e tão alto, o segundo, como em todas as outras lojas. Mas é que eu, pura e simplesmente, já não suporto ouvir a pergunta: tem cartão? Eu passo lá todos os dias, e a paciência tem limites. Assim, depois de ter o cartão, antes de chegar a minha vez de fazer o pagamento, eu vou atirar logo com o cartão para cima das empregadas da caixa. Evitar-se-á a pergunta. E espero que não tomem este acto como agressivo. É antes em defesa, legítima, da minha sanidade mental e do vosso património: é que aos loucos dá-se sempre um desconto e é sempre bem maior que o do vosso cartão.
Carlos Malmoro

26 Março 2007

E o vencedor do concurso

...«Grandes Portugueses» foi, obviamente, «O Gajo de Alfama».

Carlos Malmoro

25 Março 2007

O melhor português de sempre

Eu acho que sim. Que Salazar deve ganhar. O maior português de sempre. Através da sua polícia política prendeu o meu pai durante uma tarde, só porque ele, desprevenidamente, estava a dizer ao sócio que era impossível abrir um outro negócio em Lisboa. Foi apanhado a afirmar que «a situação era má, que as pessoas viviam na miséria, que não havia dinheiro». Enfim, verdades. O génio das finanças, mas que detestava que os portugueses crescessem e economicamente, e o salvador da pátria que nos livrou da 2ª guerra mundial, para enviar o meu pai para a Índia, onde era frequente dizer-se que «bastava que os indianos mijassem no mar para morrerem todos afogados». E que aproveitou também para enviar outros tantos milhares, que vieram de lá em caixões, com mazelas físicas e psíquicas para o resto da vida. Acho que sim. Que Salazar deve ganhar. Um filho da puta, o maior português de sempre.
Carlos Malmoro
Ps: isto foi escrito enquanto decorria o programa. A quem me visita regularmente, sabe que não gosto de escrever com linguagem pesada. Neste caso, abro a excepção. As minhas desculpas a leitores/as mais sensíveis.

Um «H» pode significar antítese

Um é entretenimento em estado puro. O outro é prostração. Um é discípulo de George Michael e Freddy Mercury. O outro tem influências de blues, Waits, Cohen. O primeiro é o talento da competência, o segundo é a competência do talento. Um tem uma voz luminosa, no outro a voz brota da sombra de uma caverna. A perfomance do primeiro é exuberante, a do segundo é esfíngica. Um chama-se Mika, o outro Micah. Acho interessante o primeiro; acho excelente o segundo.



[Micah P. Hinson - Beneath the Rose]

Carlos Malmoro

24 Março 2007

E que tal dois por semana?

Saem uns raios de sol à rua, e a televisão, jornais, rádios são inundados de nutricionistas. Ontem, durante o almoço, assisto ao sermão de uma: muita água, poucos fritos, muita carne branca, pouca vermelha, ou seja a cantilena do costume, e acaba a dizer esta monstruosidade: muita fruta e doces «só uma vez por semana». Comecei então a reparar na senhora: um rosto magro, demasiado magro, e uma tez pálida, esmaecida, amarela, enfim, aquilo que aqui no norte se costuma chamar «uma cara sem cor», que a maquilhagem não conseguia disfarçar. E pensei que a senhora, se me consultasse, e mesmo não sendo nutricionista, recomendar-lhe-ia que comesse um bife do tamanho de um prato, amansado por um bom vinho, na sobremesa uns profitteroles bem regados de chocolate, fazer isto umas três a quatro vezes por semana, e em coisa de quinze dias teria de novamente as faces rosadas. E só então, só nesse dia, poderíamos acreditar nos conselhos que a senhora dá. Enquanto tal não acontecer, ninguém vai «comprar» o que uma pessoa com cara de doente diz.
Carlos Malmoro

Mais um do meu segundo pintor favorito*



W. Turner, «The Grand Canal, Venice»

*dedicado à Leonor.

Carlos Malmoro

Máxima

Ter «pena» é decretar uma pena de morte sem tirar a vida.

Carlos Malmoro

21 Março 2007

Lei da Compensação

Neste momento estou a ler Jean Guitton, «Últimas Palavras» [filosofia]; Fernando Rosas, «Portugal Século XX (1890-1976) - Pensamento e Acção Política» e Vasco Pulido Valente, «O Poder e o Povo - A Revolução de 1910», o primeiro com uma visão de esquerda e o segundo com uma visão de direita [história](não imaginam as diferenças que podem existir entre a mesma história contada à esquerda e à direita...). Finalmente, estou no início de «Serviço Público - Interesses Privados», António-Pedro Vasconcelos [comunicação]. Nesta relação, o que importa reter não é a qualidade ou quantidade de livros citados, mas as temáticas: todos eles são livros científicos. Mais precisamente, de Ciências Sociais, mas científicos.
Hoje, durante o almoço, alguém chegado chama-me à atenção para o facto de estar a escrever muitos post's com carácter intimista, melancólico, enfim, e passe o exagero da expressão utilizada por ele, «poético». O raciocínio foi imediato: uma vez que por estas bandas não estou a ler nem romances nem poesia, descarrego no blogue post´s com a matriz contrária ao que leio. E se o raciocínio foi imediato, a conclusão foi óbvia: muitas vezes, os blogues servem de compensação às faltas da vida.
Carlos Malmoro

20 Março 2007

Closest Thing to Crazy

Há dias em que nos sentimos derrotados. Sofremos disso naqueles dias em que a vida corre depressa demais para a nossa breve passada. Apercebemo-nos que não há muito mais a fazer do que ficar sentado a olhar a voragem das rotinas a fazer o trabalho de nos tornar velhos. As palavras, como disse o poeta, estão gastas mas, nesses dias, sentimos que, para além das palavras, também os gestos, as emoções, as vontades, os sonhos estão acabados e achamo-nos sem coragem para nos levantar. Nesses dias, estamos mais distantes de nós mesmos; nesses dias, somos uma renúncia da nossa origem; nesses dias, encontramo-nos mais perto da loucura. A mudança ocorre estimulada por um acontecimento feliz, por um reencontro há muito aguardado, por um conselho amigo ou então, e muito simplesmente, a mudança dá-se quando escutamos alguém a declarar, mostrando que nos compreende, numa voz serena sobre um piano aquilo que lhe fez estar mais próximo da loucura.




[Post dedicado a quem me ofereceu este CD e me tenta mostrar, com uma inesgotável paciência, paisagens sonoras mais calmas do que eu, habitualmente, costumo escutar. Para além, obviamente, do senhor Leonardo Cohen e do Nickinhas Cave.]

Carlos Malmoro

19 Março 2007

Gosto de prosas...

assim:


Sem margens para comentários. Uma pequena vénia, talvez.

Carlos Malmoro

O Hino

Numa das últimas edições do NME (New Musical Express), era apresentado da seguinte forma: quarenta anos, continua a fazer os outros milionários, morto. Falava-se da celebração do quadragésimo aniversário de Kurt Cobain. Mais do que esses artifícios, que não passam de constatações do óbvio com uma leitura moralista digna dos tablóides, importa esclarecer o seguinte: os Nirvana foram, desde há muito, a única banda que concretizou o presságio de «the next big thing» Eram uma banda, mas acima de tudo era Kurt, um exímio escritor de canções, deprimido, com uma rara capacidade musical. As canções eram escritas com uma simplicidade desarmante: três ou quatro acordes sobre uns versos repetidos até à exaustão. Uns arranjos ora despidos na crueza do acústico, ora vestidos com distorção. E nisto da arte, principalmente da arte pop/rock, simplicidade quer quase sempre dizer génio: a crítica rendeu-se, o público, idem. O que, convenhamos, é raro. O sucesso imenso da banda apanhou um Kurt demasiadamente adicto e desprevenido para lidar com ele. O resto é história. E é história, principalmente, o legado musical que nos deixou. Fiquem então com uma excelente cover de Bowie (The man who sold the world), e aquele que, sem grande margem de erro, será lembrado como o hino da "geração rasca" (não do blogue, obviamente): Smells Like Teen Spirit.




Carlos Malmoro

18 Março 2007

Post Camiliano

Numa recente visita à Casa-Museu de Camilo Castelo Branco, em S. Miguel de Ceide, informou-me a guia que no exemplar de «A Relíquia» de Eça de Queiroz que existe na biblioteca da casa, lê-se como anotação final que «este livro divide-se em duas distintas partes: a primeira é entediante, a segunda é maçadora e de um completo mau gosto». Pensando depois no assunto, lembrei-me de uma boa dezena de aspectos da sociedade portuguesa a que este juízo assentaria que nem uma luva. Mesmo não concordando com ele quando aplicado à «Relíquia» queiroziana.
Carlos Malmoro

17 Março 2007

Rotinas #2

Na garagem, os carros ficam apertados. Quando faço a delicada manobra de estacionamento, por instinto, desço o volume do rádio. Duas de uma: ou inconscientemente penso que por a audição ficar liberta do som consigo ver melhor, ou então estou mortinho por escutar a belíssima melodia de um carro a bater no outro.
Carlos Malmoro

15 Março 2007

No Dia Internacional

da Defesa do Consumidor, telefonam-me do banco «para informarem-me» que tenho um «crédito pessoal pré-aprovado de 20.000,00€», com «taxa de juro bonificada» (13%/ano) e pagamento em 84 prestações (vá lá, não disseram «suaves prestações»). Contas feitas, iria pagar quase tanto de juros como de capital. O mais interessante disto tudo é que eu não pedi nada, não estou interessado em nenhum crédito pessoal, muito menos nestas condições. A pergunta que se coloca: não haveria uma forma do banco celebrar o Dia do Consumidor sem me demonstrar, uma vez mais, a sua patética (e ilegal) sede de vender «produtos financeiros de alta rentabilidade»? (meu deus, como odeio esta expressão...)
Não, não vou dizer qual foi o banco. Só vou levantar um pouco a ponta do véu:




Carlos Malmoro

Por favor, não leia este texto

Imaginem que este texto não existe. Imaginem que este vídeo não existe. Imaginem um espaço em branco e, mesmo que impossível, um absoluto silêncio. Imaginem, ainda, um homem de idade que já tudo disse o que sobre o amor havia para se dizer. Imaginem que este homem além de o dizer, também o cantava. Descansem a imaginação, por favor.

Voltem a imaginar esse homem que tudo sabe sobre o amor. Imaginem que o concerto da minha vida será aquele que nunca irá acontecer – o homem que tudo sabe sobre o amor já não dá espectáculos. Imaginem que esse homem escreve letras que são poesias e também escreve poemas que por vezes são letras. Imaginem que esse homem teve como crítica ao seu primeiro livro seu «Depois de o ler, tive de fazer uma lavagem cerebral». Imaginem que esse homem continuou por mais 50 anos a escrever livros e canções. Imaginem que essa Obra foi candidata ao Prémio Nobel da Literatura pelo seu país. Parem de imaginar para construírem uma imagem do que foi pedido.

Imaginem uma voz. Uma voz simples e complexa, rouca e terna, quente para o amor e implacável com o mundo. Imaginem uma voz que é capaz de nos esclarecer o significado de uma palavra só por dizê-la, e imaginem ainda que, pronunciando a mesmíssima palavra, é capaz de nos dizer exactamente o seu contrário. Imaginem uma voz com as cordas vocais no coração. Imaginem que este texto não existe, imaginem que este vídeo não existe, mas não deixem nunca de saber que «A Voz» existe. E imaginem o absoluto silêncio para a escutarem: Senhoras e Senhores, Mr. Leonard Cohen


13 Março 2007

Mnemonizável

Pensas um minuto em silêncio. Passas as mãos pelos braços, como se sentisses calafrios. Reparo na expressividade das tuas mãos: igual à de todas as palavras jamais ditas. Acendes um cigarro

- Lisonjeada, mas não aceito. – tu
- Posso perguntar porquê? – eu
- Nunca saberia se me fazes essa proposta por ainda me amares, ou por não suportares que, nesta cidade que tanto odeias, viva a pessoa que tu amas. – tu, e reparo no timbre aveludado da tua voz.
- Acabas de te contradizer, mas percebo-te. Adeus – eu
- Adeus – tu

e o fumo começa a vaguear pela sala. Tal como a minha raiva àquela cidade; tal como o desconsolo da minha alma.
Dirijo-me ao aeroporto. Volto a passar por todas as rotundas e todos os semáforos. O semáforo da emigrante arruinada está fechado. Medito

- Quer viver comigo numa ilha cheia de sol? – eu
- Não ser puta! - ela
- Eu sei. Dou-lhe trabalho no escritório e metade da casa para si e para a sua filha.
- Aceitar. - diz ela, com o seu olhar mnemonizável.

e arrisco. Abro a porta e entram as duas. Vou à companhia de rent-a-car entregar o carro: só desejo sair o mais rapidamente possível da Cidade das Três Colinas.
Acordo. Dirijo-me ao aeroporto da Ilha. Na ilha não existem cães que passeiam os donos, não existem rádios que não toquem as cinco mais, não existem aves que rasguem rios e mares em dias de chuva, não existem nuvens hesitantes em céus plúmbeos, não existem paraísos perdidos, não existem emigrantes com um olhar mnemonizável. Talvez exista um sonho, um sonho com cinco sentidos: um sonho mnemonizável. Tal como na Cidade das Três Colinas; tal como na vida.
Regressamos a casa depois de te ir buscar. Entramos em casa em silêncio. Ajudo-te a trazer as malas e a transportar os caixotes de todos os livros, com todas as palavras. Antes de começares a desfazer as malas, abres o estojo do violino. Afinas e preparas o violino. Pela janela, contemplas o azul transparente das águas do Pacífico. Dás arco e começas a tocar uma música melancólica, melancolicamente.
Carlos Malmoro

12 Março 2007

Kontrastes 2.0

Aos dois anos de vida na blogosfera e para os seus inúmeros projectos, aqui ficam os votos de felicidades ao meu antigo colega e exímio prosador João Ferreira Dias.
Carlos Malmoro

Mnemonizável

Entro em tua casa. As cores claras da mobília dão um ar fresco, leve e simples à casa, paradoxalmente à Cidade das Três Colinas, cinzenta, suja. Trágica. Para ti reservas uma imagem mais sóbria:
mais sóbria no cabelo longo, ondulando em voltas, escuro, como os sombreados que te contornam os olhos castanhos, escolhos tamanhos, em confronto com a candura da tua tez;
mais sóbria no vestido preto, com decote pouco profundo, mas que não oculta a rigidez dos teus seios, colinas dessa outra cidade que és tu.
Cumprimentamo-nos,

- Tudo bem? – eu
- Tudo bem; vai-se vivendo, vai-se sofrendo. E tu? – tu
- Igualmente. Vai-se vivendo, vai-se morrendo – eu.

e reparo no teu perfume: aquele que te ofereci, aquele que nos esculpia o olfacto nas noites de luxúria: se não sabias que vinha, porque o usas?, que boas ... te recorda?. Ofereces café e uísque. Enquanto vais à cozinha, reparo nas estantes dos livros: são maiores, são novas e já estão inchadas: sempre procuraste nos livros uma outra alma dentro da tua própria alma. A estante da partitura está vazia: sempre procuraste na música a seiva dessa outra alma. O violino repousa numa cadeira. Voltas da cozinha com as drogas da sociedade. Peço-te para tocares um pouco. Aceitas. Tocas um trecho de Bach. Puro.Único, como todo o amor. O amor que tento recuperar. Pedes-me que experimente. Tomo o derradeiro trago de uísque e acedo. O uísque é dos bons: não faz arder as gustativas. Pego no instrumento e colocas-te por detrás de mim. Envolves-me o tronco no teu amplexo, para me auxiliares na colocação das mãos. Fazes com que incline a cabeça sobre o violino. Ao sentir as tuas mãos a tocarem na minha pele, a tua pele na minha pele, sinto o apelo inexorável que sentia há quatro anos. O instrumento, que nas tuas mãos tinha vida absoluta, nas minhas, metamorfoseou-se em quatro arames que gritam, que relincham, à passagem das crinas de cavalo. Sorris com prazer. Abres as cortinas de par em par, e sentamo-nos lado a lado. Lá fora, na praça, ante o rio, as pessoas caminham frenéticas: não estão certas da sua demanda e, simultaneamente, atribuem grave importância a cada um dos seus passos. No rio uma ave faz voo oblíquo, com uma asa a rasgar a água, a outra a tocar o céu. Faço-te a minha proposta,

- Queres vir viver comigo? – interrogo
- Tenho trabalho, tenho casa, tenho tudo aqui...- tu
- Não tens amor. - ataco.

olhas-me incrédula, com a face enrugada. Faço-te uma carícia , alivias o semblante e tento convencer-te:
convencer-te de que a ilha em que vivo, perdida no meio do Pacífico, com apenas dois mil habitantes – mil vezes menos que esta cidade - , em termos de qualidade de vida é um paraíso perdido;
convencer-te de que não existe maior coragem que abandonar os portos do conforto e navegar nos mares do momento;
convencer-te de que o passado, presente e futuro não existem nos sentimentos e que, exactamente devido a essa condição humana, amo-te hoje como te amava no passado; amar-te-ei amanhã como hoje te amo;
convencer-te de que, no amor, o tempo é um mito

11 Março 2007

11 de Março de 2004 - Madrid





imagens 1, 2, 3
Carlos Malmoro

Gosto de prosas...

assim: absolutas, sem margens para grandes comentários, apenas deixando espaço para uma leve vénia.
Carlos Malmoro

Mnemonizável

O boneco começa a piscar. Uma última pessoa que atravessa a passadeira, é passeada por um Serra da Estrela e por um S. Bernardo. Pelo ar satisfeito e o pelo pêlo brilhante dos animais, concluo que estão melhor alimentados e tiveram melhor higiene hoje do que a emigrante e a criança na última semana. Cidade hospitaleira. Recordo o motivo que me fez sair da Cidade das Três Colinas: não nos concede um pouco de eutimia. Finalmente o sinal abre.
Decifro o labirinto de cruzamentos, entroncamentos, rotundas, faixas de aceleração e desaceleração, sentidos proibidos e obrigatórios e, por fim, consigo estacionar o carro em frente do prédio de Rita. Vivera trinta anos na Cidade das Três Colinas, só hoje me apercebo que o trânsito desta cidade não tem uma direcção definida: anda às voltas. Interminavelmente. Como um gigantesco carrossel. Como o remoinho que observara do cimo da colina. Saio do carro. Reparo no céu que volta a fechar-se em nuvens de chumbo. Descaio um pouco o olhar e detenho-o no castelo, que fica no cume de uma outra colina. Onde um dia, no lusco-fusco de um crepúsculo primaveril, eu tornei Rita mulher e ela fez-me homem.
Desço definitivamente o olhar para o segundo esquerdo. Há luz. Toco a campainha e, depois dos ruídos do intercomunicador e do diálogo identificativo
- Quem é? - Rita
- Sou o David – eu
- Olá, que boa surpresa. Sobe – Rita.

a porta abre-se. Empurro-a e entro novamente na tua vida.

10 Março 2007

A propósito...

...está a decorrer no GR, durante este mês, a Festa da Música. Os artistas de topo cancelaram as suas agendas para actuarem no nosso palco. Considerem este post como um convite personalizado. Como está dito, as entradas são grátes e podem levar par. Pensámos originalmente numa festa da cerveja, mas a logística era complicada.

Carlos Malmoro

One

Sob um impiedoso estio, eu e mais dois amigos, rumámos no dia 16 de Junho de 1993 ao antigo Estádio de Alvalade. Canções na ponta da língua, cabelo pelo meio das costas, preto como uniforme. A razão que nos levou a enfrentar quarenta graus, 60 mil pessoas em delírio e uma revista mais apertada à entrada para o recinto, foi a presença pela primeira vez em Portugal daquela que eu considero «a» banda.

«A» banda tinha editado um álbum duplo há dois anos atrás, um enorme sucesso, multiplatinado, que chegou a fazer com que alguns dos seus fãs mais antigos – era uma banda de culto – a acusassem de se terem vendido ao mainstream. Esse disco ficou mais tarde conhecido como «The Black Album».

Acontece que «a» banda, por onde passava, devastava tudo à sua volta. A sua perfomance vertiginosa, empolgante, intensa, épica e poderosa não deixava ninguém indiferente. Naquela noite deram um concerto inolvidável - tenho-o como o concerto da minha vida.

Assim sendo, para quem precisar de apreender o conceito de vertigem sem ir ao dicionário, para quem quiser relembrar o concerto de 93 ou para quem queira somente escutar uma peculiar definição de Democracia, deixo-vos com o primeiro teledisco que os Metallica gravaram: «One».


07 Março 2007

Mnemonizável

Melancólico, melancolicamente avisto o ruído da cidade onde nasci. Do alto da colina, contemplo o fluir do trânsito em remoinhos. Os jardins de Outubro despem-se do verde vigoroso e vestem o amarelo dourado. As árvores despem as penas áureas e as ruas vestem-se com passadeiras de desencanto. A terra já emana o perfume supremo: acabara de chover. Os espíritos ensimesmados revelam-se no olhar mortiço das pessoas e o céu plúmbeo absorve a réstia de esperança das almas: até os pássaros fogem para o Sul.
Desço a colina de carro. Procuro uma rádio que não me massacre com as “cinco mais” do top que as editoras mais ricas manipulam. Encontro e festejo com um sorriso. Acompanho os primeiros acordes com um assobio. Escuto a letra e penso:
penso no significado que o poeta quis imprimir àquelas palavras, no recanto íntimo onde as escreveu, no tempo em que as viveu ou imaginou, nas cambiantes que as matizaram;
penso em R., no modo como me irá receber passado tanto, tanto tempo, no modo como estará vestida, penteada, maquilhada, em que sítio estará empregada, no modo com irá reagir ao meu propósito de a levar para a ilha onde vivo e, a partir daí, recuperarmos o nosso tempo;
penso em R. e nesta busca do tempo perdido.
Entro na cidade. O sol irrompe no interstício de duas nuvens hesitantes. A cidade sai à rua. O piso molhado, com o bater do sol, torna-se tão incandescente que não sei se é a estrada que reflecte o sol ou o sol que reflecte a estrada. Paro no semáforo. Uma emigrante, com ar miserável, pede esmola

- Dá uma dinheiro para filha comer. – esvazio o bolso das moedas para a minha mão.
- Tome. Boa sorte. - eu e deixo-lhe todas as moedas que tenho.
- Mil obrigado. - agradece-me.

e exibe a filha como prova da ruína. Agradece outra vez, naquele português miscigenado com a língua pátria. Olho o semáforo que continua vermelho. Observo uma vez mais a emigrante e, pela primeira vez, reparo no seu olhar:
um olhar vívido, safírico, de esperança que, a despeito da miséria, continua a resistir e a viver, ao contrário dos olhares das pessoas que atravessam a passadeira que, tendo todos os motivos para serem felizes, lastimam-se no olhar vazio, de quebranto, entediante, de seres que vivem alienados da sua existência;
um olhar de uma beleza tão imensa, de uma expressão tão intensa, que todas estas palavras são vãs para defini-lo e creio que nenhuma obra de arte conseguirá representar, não os olhos (isso até seria simples), mas a expressão, a luminosidade e vibração daquele olhar;
um olhar mnemonizável.

06 Março 2007

O contrário do euromilhões: o difícil é falhar

Cinquenta milhões de blogues vezes centenas de posts na blogosfera, milhares livros por cada país, milhões de letras de canções, uma miríade de jornais diários publicados mundo fora, incontáveis lendas, quase infinitos filmes, vídeos, séries de TV, anúncios publicitários, conferências, exposições que acontecem no planeta,…. Perante esta plêiade de ideias, tem a certeza que a sua é a original?
Carlos Malmoro
PS: Por certo já houve uma ideia igual a esta, mas fica aqui o meu melhor «plágio»

Neon Bible

Geniais, fora-de-série, surpreendentes, magníficos, épicos, religiosos, imortais, soberbos, libertinos, originais, vulgares, extraordinários, espirituais, next big thing, logro,… Já os caracterizaram com todos estes adjectivos. O produtor de J. Cash, L. Cohen e Bob Dylan, após ter trabalhado com eles no último álbum, afirmou que «vão ser mostruosos: compõem melhor que Lennon.» Fora os exageros, e no dia em que lançam o seu segundo álbum, Neon Bible, o adjectivo que penso melhor encaixar aos Arcade Fire é aquele o locutor de rádio utiliza ao introduzir o single de apresentação, Intervention, no “vídeo” que está aí em baixo.


Carlos Malmoro

04 Março 2007

Rotinas #1

Como sempre, ao Sábado, comprei um saco de jornais. E, por gosto, os únicos jornais que não compro são os que vêm dentro de sacos.
Carlos Malmoro

01 Março 2007

Being Carlos Malmoro

- Bom dia
- Bom dia

O pensamento dela tem ordem. Eu passo da bolonhesa para a pós graduação e volto aos Kaiser Chiefs. A propósito: como temia espalharam-se ao comprido. Lição a tirar: só somos verdadeiramente bons num determinado registo. Mas isso a mim não se aplica que sou geminiano. E porque não Bruxelas?. Aliás, e porque não alugar um carro e percorrer a zona central da Europa. Já conheço o Norte e Sul, falta-me o miolo. Não esquecer: segunda, consulta de rotina. Quando fez a observação ao valor do corte, esqueceu-se dessa instituição nacional que é o «cliente habitual»: já deve estar em Bruxelas há muitos anos. Ao fim do dia, passar pelo hiper, pela livraria e pelo centro de análises para levantar os resultados. E seu eu lesse os resultados? Aquilo é fácil.: aparecem valores indicados em forma de intervalo numérico, se o resultado estiver dentro do intervalo, continuo bom para as curvas... Mas a bolonhesa não deve casar muito bem com colesterol. A dela pode até ser melhor... Já quanto à minha omoleta, aquele p… ingrediente secreto… sem palavras de tão divina…Por pensar nisso, ainda não há nada para a janta … Mas uma omoleta?E o colesterol? E os textos e as ideias ainda estão por escrever e já estamos no fim de semana. Chato ser assim indeciso... Logo à noite será omeleta… Ainda sorrio quando penso na resposta dela ao post. É impressionante esta devassa que me obrigam aqui a escrever. Desta vez, não fico só pelos pensamentos:

- Ó minha senhora, para que quer o Estado saber que grupo sanguíneo é o meu num requerimento?!?
Carlos Malmoro