29 Julho 2007

Quatro Anos de Caixa Pandora



Muito obrigado por ajudarem a torná-los mais compensadores.

Beijos.

Abraços.

Em 29/07/2007,

Carlos Malmoro

28 Julho 2007

Drive

Numa época em que o avião é preferido para as viagens, sempre que posso e a distância não é proibitiva, utilizo o automóvel. Com o conforto actual dos ditos, faz-se uma viagem com centenas de quilómetros sem ficar com o corpo todo moído e tem-se a enorme liberdade de ir visitando pequenas vilas, aldeias, gentes e paisagens que de outro modo não poderíamos conhecer.
Uma boa viagem de automóvel inicia-se sempre com três rituais: a constatação de que não houve tempo para fazer uma revisão ao carro; a inspecção das malas, para saber se não nos esquecemos de nada, sabendo nós que ao quilómetro cento e cinquenta da viagem vamos lembrarmo-nos que ficou para trás a única coisa que não podia nos podia faltar; e a quebra da promessa que às nove da manhã, em ponto, engrenaríamos a primeira velocidade: são dez e ainda as malas não estão fechadas.
O percurso até à primeira paragem é sempre feito em auto-estrada. Estamos frescos, suportamos melhor a concentração que uma maior velocidade exige e, de qualquer forma, escapamos mais rapidamente da paisagem que quotidianamente, para mal dos pecados, nos cerca. Quando a fome começa a apertar, decidimos mandar às malvas o que o viamichellin nos sugere, sai-se da auto-estrada e entramos dentro de Santiago de Compostela: onde já se viu comer uma tarte de Santiago numa estação de serviço? Come-se numa esplanada, situada nas labirínticas ruas da cidade velha e aprecia-se uma cena inolvidável: um artista de rua faz equilibrismo com umas bolas transparentes. Uma rodava na cabeça, outra nos braços, passa uma do ombro direito para o ombro esquerdo. E estamos nisto, quando sai disparado do meio da esplanada um cão que provocou o descer do pano do acto com uma praça cheia de bolas transparentes a rolar no chão em todas as direcções e igualmente preenchida pelos sorrisos de quem assistia a tão peculiar cena. E uma esplanada repleta de sorrisos é o melhor sinal de que estamos de férias.

O “mal” está feito e a responsabilidade assumida: sem viamichellin, estamos por nossa conta e risco. Aliás, por conta e risco do melhor GPS do mundo: perguntar às pessoas como se vai para. Mas não pensem que é só em Portugal que quando se pergunta uma direcção recebe-se quatro opiniões diferentes de duas pessoas. Isso é uma epidemia mundial. A partir daí segue-se para Lugo. São cerca de cem quilómetros até mais uma das imensas cidades dentro de muralhas romanas que existem no noroeste ibérico e, também como Santiago, com uma majestosa catedral. No entanto, aquilo que mais me recordo de Lugo é de uma rua que era tão simples e tão, perdoem o regionalismo, castiça, que achei que todas as ruas deveriam ser assim. A um canto um saxofonista arrancava um What a Wonderful World, do outro lado, uma vendedora de recuerdos pescava os olhos dos transeuntes para os caçar, as pessoas caminhavam ao ritmo da música e as cores das lojas pareciam ter sido escolhidas por um pintor, tal o efeito de harmonia que o conjunto proporcionava. Fora das muralhas, o pior de Lugo: o trânsito. Ou melhor, as indicações de trânsito: penso que nunca demorei tanto tempo para sair de uma cidade como nesta.
Sai-se de Lugo e entramos na maratona. Vão ser quatro horas de viagem até Gijon. Troca-se de CD, porque, como é sabido, não há uma única estação de rádio em toda a Espanha que não passe a Ágata lá do sítio, e, embora Pessoa tenha contrariado aquilo que Amiel disse, “a paisagem é um estado de alma”, colocando-a nos termos de que um estado de alma é que é uma paisagem, não há poetas nem estados de alma que contestem a percepção de que a paisagem começa a mudar.


Não perca o emocionante epílogo desta blogonovela de viagens
Carlos Malmoro

23 Julho 2007

Sempre ajuda a escrever uns posts

Este blogue já teve três ou quatro contadores de visitas. As minhas obras no estaminé fizeram com que uns fossem substituídos por outros. Recomeçando sempre do zero. Isto para já não falar do tempo, cerca de dois anos, em que não havia contadores para ninguém. De qualquer forma, é sempre de assinalar quando se passa a barreira dos cinco mil visitantes. Como acaba de acontecer agora. Mas fica prometido: daqui a uns meses, mais umas obras e um contador novinho em folha a contar do zero. Carlos Malmoro

Closing Time

Leonard Cohen não tem só músicas melancólicas. Aqui fica uma canção para bater o pezinho. Quanto à letra, bem, a letra é um poema na mais alta acepção da palavra.



Ah we're drinking and we're dancing
and the band is really happening
and the Johnny Walker wisdom running high
And my very sweet companion
she's the Angel of Compassion
she's rubbing half the world against her thigh
And every drinker every dancer
lifts a happy face to thank her
the fiddler fiddles something so sublime
all the women tear their blouses off
and the men they dance on the polka-dots
and it's partner found, it's partner lost
and it's hell to pay when the fiddler stops:
it's CLOSING TIME
Yeah the women tear their blouses off
and the men they dance on the polka-dots
and it's partner found, it's partner lost
and it's hell to pay when the fiddler stops:
it's CLOSING TIME

Ah we're lonely, we're romantic
and the cider's laced with acid
and the Holy Spirit's crying, "Where's the beef?"
And the moon is swimming naked
and the summer night is fragrant
with a mighty expectation of relief

So we struggle and we stagger
down the snakes and up the ladder
to the tower where the blessed hours chime
and I swear it happened just like this:
a sigh, a cry, a hungry kiss
the Gates of Love they budged an inch
I can't say much has happened since
but CLOSING TIME

I swear it happened just like this:
a sigh, a cry, a hungry kiss
the Gates of Love they budged an inch
I can't say much has happened since
CLOSING TIME

I loved you for your beauty
but that doesn't make a fool of me:
you were in it for your beauty too
and I loved you for your body
there's a voice that sounds like God to me
declaring, declaring, declaring that your body's really you
And I loved you when our love was blessed
and I love you now there's nothing left
but sorrow and a sense of overtime
and I missed you since the place got wrecked
And I just don't care what happens next
looks like freedom but it feels like death
it's something in between, I guess
it's CLOSING TIME

Yeah I missed you since the place got wrecked
By the winds of change and the weeds of sex
looks like freedom but it feels like death
it's something in between, I guess
it's CLOSING TIME

Yeah we're drinking and we're dancing
but there's nothing really happening
and the place is dead as Heaven on a Saturday night
And my very close companion
gets me fumbling gets me laughing
she's a hundred but she's wearing
something tight
and I lift my glass to the Awful Truth
which you can't reveal to the Ears of Youth
except to say it isn't worth a dime
And the whole damn place goes crazy twice
and it's once for the devil and once for Christ
but the Boss don't like these dizzy heights
we're busted in the blinding lights,
busted in the blinding lights
of CLOSING TIME

The whole damn place goes crazy twice
and it's once for the devil and once for Christ
but the Boss don't like these dizzy heights
we're busted in the blinding lights,
busted in the blinding lights
of CLOSING TIME

Oh the women tear their blouses off
and the men they dance on the polka-dots
It's CLOSING TIME
And it's partner found, it's partner lost
and it's hell to pay when the fiddler stops
It's CLOSING TIME
I swear it happened just like this:
a sigh, a cry, a hungry kiss
It's CLOSING TIME
The Gates of Love they budged an inch
I can't say much has happened since
But CLOSING TIME
I loved you when our love was blessed
I love you now there's nothing left
But CLOSING TIME
I miss you since the place got wrecked
By the winds of change and the weeds of sex
Negrito meu
Carlos Malmoro

21 Julho 2007

Aos meus professores

Do saber e da vida:

«No final,
Só vamos conservar aquilo que amarmos
Só vamos amar aquilo que compreendermos
Só vamos compreender aquilo que nos ensinaram.»

Baba Dioum (Conservacionista Senegalês)

20 Julho 2007

Abstenção

Mais um recorde batido na abstenção. Os analistas afirmam que tal é resultado da [baixa] qualidade dos políticos, dos [fracos] hábitos de democracia dos portugueses, do enorme desfasamento que há entre a quantidade de queixas que os cidadãos fazem e a sua participação efectiva em escrutínios que validem tais reclamações. Embora subscrevendo em parte, tenho para mim que tanta abstenção resulta mais de um sistema que prende o cidadão à sua freguesia se quiser votar. Democracia deve ter como sinónimo liberdade, mas no dia de eleições, o dia maior das democracias, um cidadão tem de ficar «preso» durante dez minutos na sua freguesia. É impensável que em pleno século XXI eu não possa exercer o meu direito de voto no Algarve, em Vila Real ou no estrangeiro.
Um paralelismo interessante de estabelecer é com o meio financeiro: eu posso transferir todo o meu dinheiro, aqui e agora, para quem me aprouver. Mas se fosse dia de eleições e estivesse fora da minha freguesia, seria mais um a engrossar os números da abstenção. Actualmente, há meios electrónicos e informáticos seguríssimos, capazes de asseverar que a máxima «um Homem um voto» é respeitada e até melhor preparados para a detecção de fraudes eleitorais do que pelo tradicional caderninho. Como este é um Governo tão embeiçado pelas novas tecnologias, acho que o que de mais importante poderia fazer pela democracia era dotá-la de uma logística que garantisse que todos os cidadãos que quisessem votar o fariam. Porque uma democracia que exista para servir os cidadãos será sempre mais participada e mais legítima do que uma que se serve deles.
Ou será que não querem uma democracia forte?...
Carlos Malmoro

16 Julho 2007

Não é só na eleição para a Câmara


Carlos Malmoro

15 Julho 2007

É muito, bué mesmo, complicado

Ontem, sexta-feira, no jornal da tarde de uma qualquer TV, enquanto almoçava, era apresentada uma reportagem acerca das filas enormes que se juntaram para apresentar as candidaturas ao ensino superior. Portanto, pela amostra, os portugueses de amanhã, serão iguais aos de ontem e de hoje: deixam tudo para a última hora. Mas o mais trágico não é isto. O mais desesperante é que perguntaram a alguns alunos porque fizeram o processo de candidatura pelas vias normais e não pela internet e três deles disseram que assim poderiam ter quem os ajudasse a preencher a ficha porque esta "era complicada".
Eu tive acesso à ficha. A mesma era composta por um cabeçalho onde se pedia nome, morada e BI, um corpo para os códigos dos estabelecimentos/curso onde iam concorrer e um rodapé para perguntar se havia pré-requisitos para o curso e para assinarem. Desdobrando isto, no cabeçalho não havia dificuldade nenhuma. Para preencher o corpo bastava consultar os códigos que vinham no livro que acompanhava a ficha de candidatura e no rodapé bastava assinar e dizer se tinham concorrido a cursos que exigissem pré-requisitos, informação que também constava no tal livrinho.
Se um aluno que estudou 12 anos, fosse em que área fosse, não tem capacidade para preencher uma ficha destas, não merece entrar num curso superior. Mesmo com média de vinte, o preenchimento daquela ficha é tão primário que não se percebe como um aluno consegue acabar o secundário com positiva. E não estou a ser elitista em relação ao ensino superior, bem pelo contrário, estou a pedir o mínimo dos mínimos. Para finalizar quero apenas dizer que desta vez a culpa não é da ministra, nem do ministério, nem dos professores, nem dos pais, nem dos alunos. A culpa não é de ninguém e é de todos. Portanto, sendo Portugal o país que mais dinheiro investe na Educação em percentagem do PIB na UE, mais vale desistirem de tentar educar ou formar quem quer que seja e dedicarem-se todos, alegramente, à plantação de beterraba.
Carlos Malmoro

13 Julho 2007

Circum-navegar as rosas

Adoro a noite. Não as discotecas, nem os bares, nem grandes programas. Claro que faço isso, mas pontualmente. Adoro estar aqui por casa, ler umas páginas de um livro, ouvir uma música, pensar em coisas vãs, vaguear da sala para o quarto e do quarto para a sala. Adoro este silêncio acompanhado do trabalhar do frigorífico, estes breves momentos antes de me deitar, o teclar compassado, a escrita em folha branca com caneta preta. Sonho poder estar mais tempo por aqui. A esta hora. A escrita flui lisa, o pensamento caminha sereno, as emoções flutuam íntimas. Não há nada que não seja possível à noite. Na minha noite, posso imaginar-me como guarda nocturno ou dizer uma palavra com catorze letras num dialecto estranho. Na minha noite, posso imaginar que «circum-navegar as rosas» daria um excelente verso em qualquer poema. Na minha noite, posso imaginar que as «rosas» são quem simpática e despretensiosamente me diz coisas destas. Escrever um post à noite, dedicá-lo a quem muito o merece e, por um perpétuo momento, ter a mais inabalável certeza de que o virtual é real. É por isto que adoro a noite.
Carlos Malmoro

11 Julho 2007

Munich

Escrever sobre um lugar que não se conhece é sempre mais estimulante que escrever acerca de um sítio que já se visitou. Por vezes, o conhecimento coarcta a imaginação. Somos tentados a descrever em vez de escrever, e para isso já existem os guias de viagem. Não conhecendo eu o Neuschwanstein, não tive dificuldade nenhuma em “defendê-lo”. Fiz a pesquisa que achei necessária para não cair em nenhum erro factual, e para melhor sustentar aquilo que já dele sabia. O castelo está implementado na região da Baviera, que visitarei pela primeira vez em Setembro, aquando de uma viagem a Munique.

Estarei por lá numa altura em que se realizará a Oktoberfest, talvez a maior festa de cerveja do mundo, que, como se sabe, é a oitava maravilha da Humanidade. O desejo deste destino e não de outro surgiu na minha infância. Comecei muito cedo a ouvir falar da Baviera, por ser o importador oficial dos BMW’s, passe a publicidade, e de Munique, por causa da equipa de futebol lá do sítio. Um dia, o meu pai já cansado de me ouvir perguntar onde ficava essa região e, mais insistentemente, a pedir-lhe para ver o lugar, lá me ofereceu um livro sobre a Alemanha. Aquilo que, talvez para a paciência de santo do meu pai, foi a forma de acabar com a minha curiosidade, para mim foi o alimento ideal para o bichinho.


No entanto, os anos foram passando, a memória esmorecendo e a oportunidade adiada. Até que, recentemente, dois «eventos» culturais tiraram do sótão da memória a curiosidade esquecida: um filme e uma música. O filme chama-se, naturalmente, Munich, é de Steven Spielberg, e que, talvez por não mostrar grandes planos da cidade me fez imaginar como ela seria. Mas é à música que cabe grande parte da culpa de ter reavivado um sonho de infância: primeiro, porque surgiu antes do filme e, portanto, quem primeiramente reanimou a memória desse tal desejo; depois, porque gosto da banda e da forma como a interpreta, e estas afinidades podem sempre levar a fazer algo mais por uma canção do que simplesmente comprar o disco; finalmente, porque a canção tem dois versos e uma verdade que me fariam ir ao fim do mundo para conhecer o objecto de inspiração deles:

People are fragile things, you should know by now
Be careful what you put them through
Munich - Editors



imagens 1, 2
Carlos Malmoro

10 Julho 2007

Tragam de lá essa cerveja

Perdão, esse copinho de leite.



Carlos Malmoro

09 Julho 2007

Uma definição que se pode aplicar a muitas coisas, principalmente ao amor

A certeza de tudo se ter feito para dissipar a dúvida e a dúvida se tudo se fez para firmar a certeza.
Carlos Malmoro

Neuschwanstein

Imagino que não deverá ser fácil pronunciar-se uma palavra com catorze letras sendo que nove delas são consoantes. Se para uma pessoa que não entende alemão, como é o caso, aquela palavra parece ser o insulto mais grave que se pode proferir contra alguém, já para um entendido em germânicas, Neuschwanstein significa «Novo Cisne de Pedra».


Foi construído por um homem, o rei Ludwig II, que tinha o vício de construir castelos. Nesta sua paragem, decidiu arquitectar um castelo que homenageasse as óperas de Wagner, com formas de castelo de cavaleiros, vulgo, conto de fadas, e que fosse uma obra com o máximo conforto, tendo para isso recorrido a algumas inovações para a época onde se incluíam telefone, elevador ou aquecimento central, ressalvando, obviamente, o significado que se podem atribuir a esses conceitos numa construção do século XIX. Porém, como tantos outros vícios em tantos outros homens, também este levou à ruína do adicto. Ludwig II apareceu morto num lago, não se sabendo ainda hoje se foi morto ou se suicidou quando compreendeu que estava arruinado. Deixou uma obra a todos os níveis admirável quer pela sua beleza, é o símbolo máximo do conceito de castelo de fadas, tendo servido de inspiração à Walt Disney para conceber o seu logotipo, quer pela inteligência utilizada para inovar no seu conforto.


O que me leva a terminar este arrazoado com uma pequena observação. Na caixa de comentários do post sobre a lista das minhas sete maravilhas favoritas, um leitor chamava-me à atenção para o facto de o Castelo de Neuschwanstein ser, digamos, pouco representativo para ser considerado uma delas. Permita-me que discorde. Entendo, aliás, que é aí que reside grande parte do meu interesse pela obra: não foi construído para representar nada, não tem nenhum significado escondido, não teve utilidade porque foi edificado, como diz a apresentação no site das sete maravilhas, numa época em que já não se utilizavam os castelos como meio de defesa de uma cidade. Foi feito apenas pelo sonho e imaginação de um homem alienado que quis erigir e deixar como legado algo que ele entendia como belo. E se a capacidade de conceber algo formalmente belo é exclusiva do ser humano, mais humana ainda é a capacidade de o apreciar. E isto também é válido para os mamarrachos.


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Carlos Malmoro

03 Julho 2007

As minhas sete maravilhas

Se votasse, seriam estas a minhas escolhas:

Estátua da Liberdade, EUA, a evocar a Liberdade e a Generosidade;

Taj Mahal, Índia, em representação da Memória e do Amor;

Castelo Neuschwanstein, Alemanha, perpetuando o Sonho e a Imaginação;

Ópera de Sydney, Austrália, um memorial do Futuro e da Música;

Acrópole de Atenas, Grécia, em tributo à Democracia e ao Saber;

Pirâmides de Gizé, Egipto, um símbolo da Fé/Esperança e de Engenho, e

Grande Muralha, China, uma prova de que só pelo Esforço se pode chegar à Grandiosidade.

Carlos Malmoro