Não tenho medo de andar de avião. Acho até uma grande chatice. Melhor, a palavra correcta é irritação. Como irrequieto que sou, a ideia de estar dentro de um galinheiro pressurizado, sentadinho e sossegadinho, sem me poder mexer mais do que dez centímetros para não invadir o espaço do vizinho, a ouvir uma voz distorcida anunciar os «novos e exclusivos menus Iberia», sendo que "novos" significa colas, sandes e donuts e "exclusivos" significa para todo o maralhal que estiver disposto a dar três euros por uma garrafa de água, não podendo ler ou dizer frases perceptíveis, porque não há concentração que resista a um joelho espetado nas costas, ao ruído de dois motores de centenas de cavalos a menos de uma dezena de metros de mim e aos constantes ataques de tosse que assaltam todos os passageiros - deve ser da altitude -, esta ideia, dizia, deixa-me sem grandes entusiasmos aéreos. Aliás, não consigo perceber como é que há pessoas que entendem que voar dá uma sensação de liberdade. É que tenho para mim que é o mais parecido com uma prisão de alta segurança - uma viagem de avião goza de proporcionalidade directa: um voo pequeno é um desconforto, um voo médio é um desconsolo, um voo grande um martírio.
Há, no entanto, três momentos que considero excelentes: a descolagem, a aterragem e a vigia. A descolagem pela sensação de potência e de velocidade, que nos cola ao banco, seguida daquela fantástica sensação na barriga quando o avião deixa a terra e entra no ar. A aterragem: acho admirável como se consegue parar um gigante de aço, lançado a duzentos ou trezentos quilómetros hora numa pista de dois mil metros. Olhar pela vigia, ver o quanto pequenos somos, de certa forma, relativiza-nos a importância, ajuda-nos a perceber o magnífico planeta que temos e dá para tirar fotos como esta:
Carlos Malmoro