29 Julho 2008

Cinco anos mais perto

A 29 de Julho de 2003, lá decidi publicar aquilo. O texto já estava escrito. Naquela altura o pudor em mostrar o que escrevia era tanto que primeiro alinhavava as ideias no papel, depois passava no Word e finalmente é que copiava o texto para o blogger. Mais tarde, passei a escrever só no processador de texto e depois publicava o post. Causava-me calafrios a ideia de a gramática ser atropelada por causa da pressa. Com o hábito, comecei a escrever e publicar directamente no blogger. E admito que com essa nova e mais apressada forma de postar o Português tenha sofrido.
Há 5 anos a blogosfera em Portugal dava os primeiros passos. Quem começou por essa altura, sabe que o blogger não permitia caixas de comentários, sabe que quase era necessário ser programador para colocar imagens e que só um técnico especializado em templates sabia fazer um link ou uma barra lateral com as preferências [blog roll]. No entanto, eu já apanhei a vaga de crescimento do blogger: em menos de um ano tornou-se fácil fazer tudo isso. Consequentemente, a aparência dos blogs uniformizou-se.
Os media tradicionais reagiram com desconfiança ao advento da blogosfera. Pedro Rolo Duarte dizia ser contra os colunistas, como por exemplo Pedro Mexia que na altura mantinha o Dicionário do Diabo, que tinham espaços na imprensa escrita e que abriam blogs, retirando «audiência» às outras vozes que não tinham acesso aos jornais como autores. Essa foi uma das maiores polémicas da blogosfera, sendo que não tinha nenhum motivo para sê-lo, uma vez que PRD não disse mal da blogosfera em si. Mais tarde foi a vez de Vasco Pulido Valente escrever uma crónica sobre blogs. Primeiro, ao seu estilo, ou seja, que éramos todos uns miseráveis, mais tarde a enamorar-se pelo encanto destes bichinhos até abrir um estaminé. A tendência foi sendo cada vez mais esta: a aceitação de um fenómeno que veio para ficar, sendo que aqui a democratização do espaço não significou a possibilidade de acesso dos menos ouvidos ao blogger, mas antes a crescente apetência que os opinion-makers, políticos e gente com mais poder público mostraram por criar um espaço destes.
Cinco anos depois sei apenas alguma coisa sobre blogs: a principal razão para alguém carregar no botão «publicar» pela primeira vez é criar algo diferente. Esta á para mim a maior das virtudes dos blogs. Se é verdade que os blogs também ajudam a manter hábitos de escrita regulares, o tentar fazer diferente preside a todas as motivações. Outra coisa que os blogs proporcionam é um conhecimento cultural mais vasto: já comprei discos de bandas que o André meteu no videopost a rodar, já li livros de autores que não conhecia até, por exemplo, a Leonor e a Vera terem copiado excertos deles aqui para o GR. Sei mais sobre música, livros, quadros, filmes hoje do que sabia há cinco anos, não só, mas também por causa da blogosfera. E acima de tudo as pessoas.
A blogosfera faz-nos ficar mais perto das pessoas. Travamos conhecimentos, entramos e polémicas, fazemos jantares, desburocratizamos relações, mandamos vir livros de uma cidade que um amigo vai visitar, o gestor fala com o filósofo, o cronista com a professora. Até agora foram cinco anos a escrever. Foram cinco anos a ficar mais perto das pessoas.
A quem me acompanha na viagem, o meu sentido obrigado pela companhia. Bem-hajam.

22 Julho 2008

Muito para além da música

Como sou confesso e orgulhoso fã de cada palavra que Cohen escreve e canta, pensava que era uma subjectividade própria de admirador ter achado que o que viu, e essencialmente o que viveu, no sábado passado não tenha termo de comparação com nada do que até então assistiu. Para tirar tais dúvidas e também para não fazer um balanço em que me limitasse a debitar elogios ao senhor, convoquei os jornais para me ajudarem a ser mais objectivo.
No IOL Diário, dizem que foi "um espectáculo tão inesquecível para quem assistiu como, pelas suas palavras, para o próprio Cohen: «Thank you for this memorable evening!»" . O Diário de Notícias da Madeira afirma que "Cohen cantou "Bird on the wire" como se fosse uma oração, embalou o público com "Take this waltz", recordou "Hallelujah" e "Suzanne" em momentos de fazer arrepiar os mais distraídos." O JN não se poupa: "A partir daí é um abuso de deslumbre: "Suzanne", "The gipsy wife", "Hallelujah", "I'm your man", "Take this waltz", "Firts we take Manhattan", "Sisters of Mercy" ou "I tried to leave you". Há encores pelo meio, o público esmagado pela magnificência desta música enorme. Leonard Cohen não mais deverá cá voltar. Felizardos são aqueles que testemunharam tudo isto." O DN, para esclarecer o leitor ao que vai, abre a sua notícia desta forma: "Cantou, dançou, tocou, falou, disse poemas em tom de oração e outros num registo de protesto, elogiou a música portuguesa, sorriu muito e no fim agradeceu uma "noite memorável". Quem o viu - e foram cerca de nove mil - não vai esquecer aquele que foi um dos melhores concertos dos últimos tempos em Lisboa." E o Destak conclui que "For he's touched your perfect body, with his mind. As palavras, sussurradas por 10 mil pessoas, em Suzanne, transmitiam na perfeição o sentimento que tomou conta, sábado, de uma plateia rendida e avassalada, ao ar livre em Algés, numa noite de Verão que superou qualquer expectativa."
Após este pequeno apanhado de notícias, sou levado a crer numa de três coisas: ou o senhor nos enganou a todos muito bem, ou as redacções dos jornais estão cheias de fãs incondicionais de Cohen, ou aquilo que se passou em Algés no Sábado passado foi mesmo muito especial. Não me restam dúvidas em qual acreditar.
Carlos Malmoro

19 Julho 2008

É hoje, é hoje

Musicalmente falando, hoje talvez seja um dos dias mais importantes da minha vida. Vou assitir ao concerto de Leonard Cohen. O cantor canadiano desloca-se a Portugal para um concerto único a ter lugar no Passeio Marítimo de Algés.

Se procuram em Cohen uma voz certa, límpida, com técnicas vocais de sobe e desce nas escalas ou um utilizador exímio de graves e agudos, esqueçam-no de vez. Nada em Cohen é agudo. Tudo é grave. A voz de Leonard Cohen não tem nada de musical. Tem apenas toda a alma do mundo lá dentro.

Se procuram na música de Leonard Cohen ritmos exuberantes, guitarras com tecnicismos dos brinca-na-areia ou um músico que se limita a fazer bem um estilo, esqueçam-no. A música de Cohen não se compadece com tais perfeições. A música dele é imperfeita. Como a vida.

As letras de Cohen não são letras. São poemas dos mais perfeitos alguma vez feitos. Falam de amor, de morte, de política, de depressão, de alegria, da crença, de ser. Mais do que falar, os poemas de Cohen são tudo isso. E tudo isso é apenas a vida no que de mais profundo tem para oferecer ao ser humano.

Bem-vindo, Mr Cohen. Obrigado por esta última oportunidade. E, logo à noite, vamos deixar a sua Sabedoria entrar nas nossas almas. Uma vez mais.



PS: Parece que por aqui quiseram fazer uma "guerra" ou um "derby" entre o que era melhor: Lou Reed ou Cohen. Como se não fossem os dois gigantes. Como se fossem Sporting e Benfica. Vejam-nos aí em cima, na cerimónia de entrada do cantor canadiano para o Rock and Roll Hall of Fame. Cohen a dizer que é fã de Reed desde sempre e Reed a dizer que é uma sorte estar vivo ao mesmo tempo que Cohen. Por vezes somos mesmo muito pequenos.

18 Julho 2008

1 ("there´s not enough soul left in the world to write another song like this")



Para S.



Dance me to your beauty with a burning violin
Dance me through the panic 'til I'm gathered safely in
Lift me like an olive branch and be my homeward dove
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love
Oh let me see your beauty when the witnesses are gone
Let me feel you moving like they do in Babylon
Show me slowly what I only know the limits of
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love

Dance me to the wedding now, dance me on and on
Dance me very tenderly and dance me very long
We're both of us beneath our love, we're both of us above
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love

Dance me to the children who are asking to be born
Dance me through the curtains that our kisses have outworn
Raise a tent of shelter now, though every thread is torn
Dance me to the end of love

Dance me to your beauty with a burning violin
Dance me through the panic till I'm gathered safely in
Touch me with your naked hand or touch me with your glove
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love

17 Julho 2008

2



If you want a lover
Ill do anything you ask me to
And if you want another kind of love
Ill wear a mask for you
If you want a partner
Take my hand
Or if you want to strike me down in anger
Here I stand
Im your man

If you want a boxer
I will step into the ring for you
And if you want a doctor
Ill examine every inch of you
If you want a driver
Climb inside
Or if you want to take me for a ride
You know you can
Im your man

Ah, the moons too bright
The chains too tight
The beast wont go to sleep
Ive been running through these promises to you
That I made and I could not keep
Ah but a man never got a woman back
Not by begging on his knees
Or Id crawl to you baby
And Id fall at your feet
And Id howl at your beauty
Like a dog in heat
And Id claw at your heart
And Id tear at your sheet
Id say please, please
Im your man

(...)

Carlos Malmoro

16 Julho 2008

3




Well my friends are gone and my hair is grey
I ache in the places where I used to play
And Im crazy for love but Im not coming on
Im just paying my rent every day
Oh in the tower of song

I said to hank williams: how lonely does it get?
Hank williams hasnt answered yet
But I hear him coughing all night long
A hundred floors above me
In the tower of song

I was born like this, I had no choice
I was born with the gift of a golden voice
And twenty-seven angels from the great beyond
They tied me to this table right here
In the tower of song

So you can stick your little pins in that voodoo doll
Im very sorry, baby, doesnt look like me at all
Im standing by the window where the light is strong
Ah they dont let a woman kill you
Not in the tower of song

Now you can say that Ive grown bitter but of this you may be sure
The rich have got their channels in the bedrooms of the poor
And theres a mighty judgement coming, but I may be wrong
You see, you hear these funny voices
In the tower of song

(...)

Carlos Malmoro

4



Everybody knows that the dice are loaded
Everybody rolls with their fingers crossed
Everybody knows that the war is over
Everybody knows the good guys lost
Everybody knows the fight was fixed
The poor stay poor, the rich get rich
That's how it goes
Everybody knows
Everybody knows that the boat is leaking
Everybody knows that the captain lied
Everybody got this broken feeling
Like their father or their dog just died

Everybody talking to their pockets
Everybody wants a box of chocolates
And a long stem rose
Everybody knows

Everybody knows that you love me baby
Everybody knows that you really do
Everybody knows that you've been faithful
Ah give or take a night or two
Everybody knows you've been discreet
But there were so many people you just had to meet
Without your clothes
And everybody knows

Everybody knows, everybody knows
That's how it goes
Everybody knows

....

Carlos Malmoro


14 Julho 2008

5

The birds they sang

at the break of day

Start again

I heard them say

Don't dwell on what has passed away

or what is yet to be.

Ah the wars they will be fought again

The holy dove She will be caught again

bought and sold and bought again

the dove is never free.

Ring the bells that still can ring

Forget your perfect offering

There is a crack in everything

That's how the light gets in.

We asked for signs the signs were sent:

the birth betrayed the marriage spent

Yeah the widowhood of every government -

- signs for all to see.

I can't run no more with that lawless crowd

while the killers in high places say their prayers out loud.

But they've summoned, they've summoned up a thundercloud

and they're going to hear from me.

Ring the bells that still can ring ...

You can add up the parts but you won't have the sum

You can strike up the march, there is no drum

Every heart, every heart to love will come

but like a refugee.

Carlos Malmoro

13 Julho 2008

6



Baby, I've been waiting,
I've been waiting night and day.
I didn't see the time,
I waited half my life away.
There were lots of invitations
and I know you sent me some,
but I was waiting for the miracle,
for the miracle to come.

I know you really loved me.
but, you see, my hands were tied.
I know it must have hurt you,
it must have hurt your pride
to have to stand beneath my window
with your bugle and your drum,
and me I'm up there waiting for the miracle, for the miracle to come.

Ah I don't believe you'd like it,
You wouldn't like it here.
There ain't no entertainment
and the judgements are severe.
The Maestro says it's Mozart
but it sounds like bubble gum
when you're waiting for the miracle, for the miracle to come.

Carlos Malmoro