23 Agosto 2007

Your Love Alone

A 1 de Fevereiro de 1995, Richey James Edwards desapareceu do Embassy Hotel. Dias mais tarde, o seu carro foi encontrado abandonado junto a uma ponte, ganhando força a tese de suicídio, apoiada no passado de excesso de drogas e de problemas psiquiátricos que ele padecia. Nunca mais se soube do seu paradeiro. Era guitarrista, letrista e responsável pelo design dos Manic Street Preachers. A banda estava determinada a pôr um ponto final na sua breve carreira, mas a pedido da família de Richey continuou. E continuou muito bem: "Everything Must Go", o álbum que se seguiu, é uma homenagem a Edwards, ainda com cinco letras deste, e é talvez um dos melhores álbuns conceptuais do rock. Editou ainda o magnifico "This Is My Truth Tell Me Yours", "Know Your Enemy" e "Lifeblood". A sua vertente mais punk foi ficando para trás e começaram a construir uma excelente colectânea de canções pop-rock. Este ano lançaram "Send Away The Tigers" que tem no single de avanço um dueto com a vocalista dos Cardigans, Nina Persson, que fica aí em baixo para ouvir e apreciar o excelente vídeo/duelo. Uma última curiosidade: a banda continua a depositar um quarto dos direitos de autor na conta de Edwards, segundo eles, «para que um dia que Edwards volte…»


22 Agosto 2007

Agosto

Há coisas que já são típicas do mês de Agosto português. Por mais que os governos mudem, que o tempo pregue partidas ou que a conjuntura seja adversa, o país será sempre invadido por turistas e emigrantes, os jornais publicarão os seus questionários e as fotos dos políticos a banhos em calção - o que era bem dispensável -, as cidades apresentam-se desertas e as praias cheias, as televisões transmitem os seus programas à beira-mar com artistas de gosto duvidoso, a blogosfera publica meio post por dia, os cronistas dizem mal da silly season porque esta não lhes dá temas fracturantes para opinar, há sempre uma banda de um país estranho que lança o hit de Verão e que nunca mais se ouve falar dela, as livrarias começam a preparar o regresso às aulas e, mais certo do que eu me chamar Carlos, em Agosto, o Sporting ganha a Supertaça. Há coisas que nunca mudam.
Carlos Malmoro

06 Agosto 2007

Drive

A paisagem começa a mudar. Continuamos no noroeste da Península, mas este já é o norte das montanhas e não dos montes, este é o Norte de um verde diferente do que se pode admirar pelo Minho e Galiza, este é um norte dos picos cónicos que imitam as formas dos seus cedros, assim como, quinhentos quilómetros atrás, os montes em meia lua retratavam as copas dos pinheiros.
A condução começa a fazer mossa. Já não há o mesmo discernimento e as estradas são exigentes. São exigentes e recompensadoras: à nossa direita alta, os “Picos da Europa”, à nossa esquerda baixa, o mar. Ao longo de uma estrada serpenteante esculpida na pedra da montanha, começa-se a sentir o conforto da viagem finalizada, embora ainda faltem cerca de meia centena de quilómetros para o destino. Aproveita-se o cansaço para uma última paragem, descendo até uma arriba. Estacionamos, entramos num café e nem é preciso abrir a boca para notarem que somos estrangeiros. Quando é feito o pedido, as línguas colidem: o meu castelhano não permite uma dicção tão cerrada quanto a dos asturianos. Um pouco de maleabilidade linguística de ambos os lados, o entendimento surge e o pedido é satisfeito. Caminha-se um pouco para se desentorpecer as pernas e a concentração. Abeiramo-nos do fim da falésia para espreitar o mar e ele surpreende-nos: embora esteja lá em baixo, a vinte metros de altura, é com tal violência que as ondas embatem nas rochas, que, ao longo dos séculos abriram fendas nas escarpas, fazendo com que a sua respiração venha desaguar a nossos pés, transformando o chão que pisamos num sem fim de pequenos géisers e nascentes de água – chamam-lhe bufones.


São oito da tarde, quando se chega finalmente a Covadonga com o sentimento de dever cumprido e de prazer anunciado. Algum cansaço que possa existir desvanece-se perante tal paisagem. Não vou chamar para aqui de novo os poetas para dirimirem sobre paisagens e estados de alma. Digo apenas que depois de dez horas de condução tão cansativas quanto deslumbrantes, uma fabada regada com sidra é a única paisagem que reconforta o estado da alma.

Carlos Malmoro