A LUMINAR CLASSE
Apesar dos argumentos para a mudança do regime de permissões das escutas telefónicas aos mais altos representantes da Nação ( PR, PM, PAR e Ministros), em certa medida, serem válidos; apesar de não fazer sentido, num sistema judicial que se pretende moderno, o absurdo de tempo que se pode ficar detido sem acusação formada, e apesar do segredo de Justiça, de "segredo" só ter o nome, a verdade é que a Justiça teve de bater à porta da classe política, para esta se propor a fazer mais do que discursos niilistas, visitas às cadeias em época natalícia eoutros expedientes inconsequentes a que esta luminar classe já habituou o comum dos cidadãos.
Há um ano, alguém falava destas situações que, verdade seja dita, roçam o domínio do kafkiano? Há um ano, alguém publicava "Apelos" no Diário de Notícias, comparando a Justiça actual à do Estado Novo - curiosamente, como fez o advogado da "Fatinha" Felgueiras? Há um ano, algum político ficava consternado, mais do que cinco minutos, com os relatórios das Organizações Internacionais de Justiça e Direitos Humanos que alertavam e pediam rápida resolução destes mesmos problemas, ano após ano? As respostas são não, não e não.
Ironicamente, quem hoje pretende mudar a Legislação são exactamente os mesmos que a fizeram e aprovaram, mas, agora que a Justiça lhes bate à porta de olhos vendados, a primeira reacção corporativista que a classe política teve foi a de tentar retirar-lhe a venda. Na data em que escrevo isto, ela ainda continua
de olhos vendados. Até quando?
Carlos Malmoro
