29 outubro 2003

Up Your Ass

O livro «Harry Potter e a Ordem de Fénix» foi lançado no Panteão Nacional, numa grande festa encenando um ambiente de feitiçaria com fumos azuis e brancos, onde supostamente teria lugar uma aula de bruxaria.
O marketing conseguiu assim, desrespeitar a memória de um sítio onde repousam os restos mortais de Almeida Garrett, de Guerra Junqueiro entre outros, e onde existem cenotáfios (túmulos sem conter os restos mortais) de Vasco da Gama, Camões, Infante D. Henrique, entre outra gente de “somenos” importância para a nossa História e Memória Colectivas.
Nunca utilizei linguagem vernácula neste espaço, mas como o ridículo, a estupidez, a boçalidade e a falta de senso têm limites, e neste caso ultrapassaram tudo o que era admissível nesta campanha de marketing, peço encarecidamente aos promotores, aos organizadores, aos membros da editora que não se aperceberam do disparate e, ainda, a quem autorizou tal surrealismo e entregou as chaves, permitindo assim que tal evento se realizasse naquele local, que peguem nas vassouras voadoras e enfiem-nas pelo cu acima!!
Carlos Malmoro

No Comment<

Segundo um estudo realizado por investigadores franceses, da Direcção de Pesquisa e Estatística, às condições de vida dos idosos, em quatro grandes metrópoles – Paris, Londres, Nova Iorque e Tóquio – uma em cada duas pessoas com mais de 85 anos vive na mais completa solidão.
No Comment.
Carlos Malmoro

24 outubro 2003

Absolutamente enojado

Caminhava na avenida paralela ao Rio Lima, em Ponte de Lima. Eram 13:05. Do rio evanescia uma neblina a anunciar que aquele era, de facto, o 1º dia de Inverno. A neblina não tocava no leito do rio: deixava um interstício ténue de claridade. Era hora do almoço. Nas tasquinhas, nos restaurantes, nas pizzarias, as televisões mostravam as notícias. Numa primeira casa ouvi a voz do Procurador Geral da República. Uns passos á frente, ouvi o Pedro Namora, ando mais um pouco, e ouço a voz de Ferro Rodrigues, depois do advogado de «Bibi», e á medida que caminhava, a voz de João Nabais, depois a do Bastonário dos advogados, depois de António Costa, depois de Adelino Granja e, novamente, Souto Moura... E as declarações estavam repletas das expressões «Casa Pia», «abuso sexual de menores», «pedofilia», «violação do Segredo de Justiça», «escutas ilegais», e dos nomes próprios «Rui Teixeira», «João Guerra», «Carlos Cruz»..., e ainda escutei vozes iluminadas a comentar este pântano, como se fosse possível ver o interior de um manicómio, através dos seus vidros martelados...
Olhei para o Rio Lima, e pensei que bom seria se eu pudesse pegar nas mãos de todos aqueles de quem eu gosto, e conduzi-los àquele mundo de luminosidade, que tem por terra a água do rio e por céu aqueles breves fios de bruma.
Desconsoladamente, sei-o impossível.
Carlos Malmoro

O Poeta

G. W. Bush dedicou um «belo» poema à sua mulher. Reza assim: “ The Roses are red / and the violets are blue.”
Reparem bem na relação tranquila entre sujeito poético e a realidade explorada; reparem bem no «pathos» poético excelentemente conseguido; reparem bem na complexidade da construção fraseológica, na utilização conceptual de figuras de estilo. Se o Presidente dos EUA consegue ter uma verve deste jaez, então o mundo está em boas mãos.
Carlos Malmoro
P.S. Não acreditem numa palavra daquilo que está escrito no segundo parágrafo.

16 outubro 2003

Inconstitucionalissimamente

Chamar Constituição àquele texto alinhavado sob a batuta do «gaulês» é, no mínimo, inconstitucional.
Carlos Malmoro

Dúvida

Se "pecado" é um substantivo do género masculino, por que razão os sete pecados mortais são todos substantivos do género feminino? A natureza feminina é assim tão inexorável, tão fatal, tão mortal?
Carlos Malmoro

09 outubro 2003

Vira-casacas

Nas últimas semanas, 126 deputados brasileiros, 25% do total do Parlamento, mudaram de partido. É uma estratégia que eles usam para poderem concorrer às Eleições Municipais, conforme a tendência do eleitorado duma determinada região, afiançando assim maiores possibilidades de sucesso.
Lá, como cá, como em todo o Mundo: o Poder, para além de corromper, é viciante - é sempre necessário mais e, se possível, de melhor qualidade.
Carlos Malmoro

Uma Brilhante ideia

Está nos escaparates um “livro” que tem a seguinte sinopse: « Stella Madison, subdirectora de Marketing de uma grande empresa, esconde um enorme segredo: a cor dos seus olhos, um azul e outro castanho. Até ao dia em que concebe a brilhante ideia de aproveitar o facto de possuir olhos com cores diferentes para criar uma nova linha de cosmética. E quem melhor do que ela para dar rosto à campanha ?».
O tal livro tem 328 páginas: exactamente 328 páginas sobre a “brilhante” ideia, baseada nos olhos de cor diferente, de utilizar ou não o seu olhar na tal campanha. Para além de se impor a dúvida pertinente se a heroína - ou a autora - nunca teria ouvido falar de lentes de contacto coloridas, uma outra questão se impõe: se a autora considera esta uma trama digna de um livro, ou seja, se isto é o melhor enredo que uma autora consegue arrancar à sua verve, para escrever uma obra de arte? Bem, é que se isto é o melhor, imaginem o “assim-assim” ou o pior. Este livro é daqueles que deveria ser considerado literatura light; chamem-lhe o que quiserem, mas aquilo é tudo, mas tudo, menos literatura - chame-se ela pop ou light ou o raio que os parta. E o mais reles disto tudo é que existe uma editora portuguesa que teve o trabalho de traduzir e colocar no mercado uma vigarice destas, que se denomina por «Não me olhes nos olhos», também ele um título bastante rebuscado, e onde se nota a existência de um autêntico êxtase da imaginação para o encontrar.
Deixo-vos aqui um outro Post sobre as literaturas modernas, perdão, mercantis, que tinha escrito há já algum tempo.
SER OU NÃO SER...
Uma sondagem feita pela livraria Amazon, revela que há mais britânicos que se lembram do enredo do primeiro livro do Harry Potter, 66%, do que aqueles que se recordam da trama de «Hamlet», de Shakespeare, 28%.
A Existência humana está a ficar mais fútil: enquanto há uns séculos a premissa existencial era "Ser ou não ser: eis a questão", hoje, ela é: "Ou ser caixa de óculos e comprar uma vassoura voadora que não voa ou não ser cool: eis o marketing.
Carlos Malmoro

07 outubro 2003

Dia Mundial da Arquitectura

Ontem festejou-se o Dia Mundial da Arquitectura. Infelizmente, também se festejou em Portugal. Digo infelizmente, porque um país que tem arquitectos que passam a vida a projectar mamarrachos que invadem a nossa linha do horizonte, onde edifícios como o prédio Coutinho em Viana do Castelo ou as torres de Ofir conseguiram ter um arquitecto que se disponibilizasse a projectá-los, ou se observa a “excelente” qualidade da Arquitectura Paisagística dos nossos Algarves e das nossas cidades do litoral, não se deveria festejar a Arquitectura, mas antes lamentá-la. É que os Siza Veira’s e os Souto Moura’s deste país são apenas as excepções de génio à Arquitectura de pato-bravo que inunda Portugal que confirmam a regra.
Carlos Malmoro

Pianadas

Num primeiro momento, existiu um filme com o nome «O Piano». Foi aclamado um pouco por todo o mundo. Depois, estreou-se «A Pianista», um filme premiado em Cannes, e também ele um sucesso. No ano passado, o filme «O Pianista», de Roman Polanski arrebatou o Oscar para Melhor Filme. Agora, aqui na nossa vizinha Espanha, um dos best-sellers do momento denomina-se «El Afinador de Pianos».
Será que os autores já esgotaram o seu imaginário musical sobre este instrumento de cordas ou ainda vamos ter que assistir à Première do filme “«O Afinador de Pianos» que Pianou «A Pianista» n’«O Piano» d’«O Pianista»”.
Carlos Malmoro

06 outubro 2003

O Movimento Monárquico

Ontem, dia 5 de Outubro, reuniram-se uma vez mais os monárquicos como forma de reivindicar o regresso da monarquia como sistema organizativo do Estado Português. Para além da aderência maciça dos cidadãos a estes eventos, onde chegam a comparecer 20 pessoas, o mais caricato destas manifestações são aquelas vozinhas de Zés Cabras a entoarem o hino da Maria da Fonte. Defendam lá os vossos ideais, mas não provoquem poluição sonora.
Um pouco mais a sério: uma das principais razões porque eles defendem o regresso da monarquia, é que , segundo eles, não existe maior garante da independência nacional em relação a Espanha que a existência de um Rei de Portugal. Ora, não existe nada de mais errado: como se em visto amiúde por essa Europa fora, as Casas Reais têm por costume cruzarem-se entre elas. Ou seja, possivelmente, daqui a umas gerações, teríamos de aturar um Rei das Casas Reais espanholas, devido aos estragos que um príncipe português poderia fazer na realeza espanhola.
Mais vale que continuemos com um Presidente da República, democraticamente eleito por sufrágio universal, e que, segundo a Constituição Portuguesa, só pode ter como seus progenitores pessoas de cidadania portuguesa.
Carlos Malmoro

02 outubro 2003

Haja Paciência

Os comentadores económicos e os empresários portugueses, quando o Euro vale mais que o Dólar, lamentam-se que a moeda única é um entrave às nossas exportações; quando se verifica o contrário, carpem mágoas que as importações petrolíferas encarecem e, consequentemente, o custo da energia sobe.
Quando existir um único comentador que diga a verdade completa, sem optimismo naif , mas também sem litanias da desgraça, informo-vos. Um só que nos diga que, quando o Euro vale mais que o Dólar, representa uma barreira às nossas exportações, mas também embaratece o custo da energia, pelas razões acima mencionadas, e que quando se verifica contrário dessa preposição, ao mesmo tempo que agrava o custo da energia, dinamiza as exportações para fora da UE. Haja paciência!
Carlos Malmoro

A Mudança de Hora

A mudança de hora, para coincidir com o fuso horário do centro da Europa, não beneficia ninguém: nem empresários, nem empregados, nem estudantes, nem os pais destes, vai provocar o descontrolo do relógio biológico das crianças, crianças estas que, se hoje em dia, já têm de sair para a escola de noite, com a entrada do nova hora, passarão a ir de madrugada, com os compreensíveis estragos no nível de concentração e de apreensão de conhecimentos.
Por que razão existem certas medidas que não beneficiando ninguém insistem em ser adoptadas por governos, quase como masoquismo legislativo?
Por que razão os governos querem fazer-se passar por instituições visionárias que pretendem iluminar estes pobres coitados membros da plebe?
Que manifestem a sua autoridade noutro sítio: não nos embaracem mais as nossas vidinhas; elas já são intrinsecamente complexas.
Carlos Malmoro

01 outubro 2003

Cínzeos comentadores

Pacheco Pereira, Marcelo Rebelo de Sousa, Santana Lopes, Miguel Sousa Tavares e Manuel Maria Carrilho: a todos escutei na semana passada. No meio de tanto comentário, nem uma ideia nova, nem um prisma diferente de apreciar a actualidade, nem uma análise desviada um milímetro da cartilha do Bloco Central. Os comentários destes senhores deveriam ser transmitidos a preto e branco, para condizer adequadamente com o matiz cinzento das suas crónicas politicamente correctas.
Carlos Malmoro