24 outubro 2003

Absolutamente enojado

Caminhava na avenida paralela ao Rio Lima, em Ponte de Lima. Eram 13:05. Do rio evanescia uma neblina a anunciar que aquele era, de facto, o 1º dia de Inverno. A neblina não tocava no leito do rio: deixava um interstício ténue de claridade. Era hora do almoço. Nas tasquinhas, nos restaurantes, nas pizzarias, as televisões mostravam as notícias. Numa primeira casa ouvi a voz do Procurador Geral da República. Uns passos á frente, ouvi o Pedro Namora, ando mais um pouco, e ouço a voz de Ferro Rodrigues, depois do advogado de «Bibi», e á medida que caminhava, a voz de João Nabais, depois a do Bastonário dos advogados, depois de António Costa, depois de Adelino Granja e, novamente, Souto Moura... E as declarações estavam repletas das expressões «Casa Pia», «abuso sexual de menores», «pedofilia», «violação do Segredo de Justiça», «escutas ilegais», e dos nomes próprios «Rui Teixeira», «João Guerra», «Carlos Cruz»..., e ainda escutei vozes iluminadas a comentar este pântano, como se fosse possível ver o interior de um manicómio, através dos seus vidros martelados...
Olhei para o Rio Lima, e pensei que bom seria se eu pudesse pegar nas mãos de todos aqueles de quem eu gosto, e conduzi-los àquele mundo de luminosidade, que tem por terra a água do rio e por céu aqueles breves fios de bruma.
Desconsoladamente, sei-o impossível.
Carlos Malmoro

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