09 outubro 2003

Uma Brilhante ideia

Está nos escaparates um “livro” que tem a seguinte sinopse: « Stella Madison, subdirectora de Marketing de uma grande empresa, esconde um enorme segredo: a cor dos seus olhos, um azul e outro castanho. Até ao dia em que concebe a brilhante ideia de aproveitar o facto de possuir olhos com cores diferentes para criar uma nova linha de cosmética. E quem melhor do que ela para dar rosto à campanha ?».
O tal livro tem 328 páginas: exactamente 328 páginas sobre a “brilhante” ideia, baseada nos olhos de cor diferente, de utilizar ou não o seu olhar na tal campanha. Para além de se impor a dúvida pertinente se a heroína - ou a autora - nunca teria ouvido falar de lentes de contacto coloridas, uma outra questão se impõe: se a autora considera esta uma trama digna de um livro, ou seja, se isto é o melhor enredo que uma autora consegue arrancar à sua verve, para escrever uma obra de arte? Bem, é que se isto é o melhor, imaginem o “assim-assim” ou o pior. Este livro é daqueles que deveria ser considerado literatura light; chamem-lhe o que quiserem, mas aquilo é tudo, mas tudo, menos literatura - chame-se ela pop ou light ou o raio que os parta. E o mais reles disto tudo é que existe uma editora portuguesa que teve o trabalho de traduzir e colocar no mercado uma vigarice destas, que se denomina por «Não me olhes nos olhos», também ele um título bastante rebuscado, e onde se nota a existência de um autêntico êxtase da imaginação para o encontrar.
Deixo-vos aqui um outro Post sobre as literaturas modernas, perdão, mercantis, que tinha escrito há já algum tempo.
SER OU NÃO SER...
Uma sondagem feita pela livraria Amazon, revela que há mais britânicos que se lembram do enredo do primeiro livro do Harry Potter, 66%, do que aqueles que se recordam da trama de «Hamlet», de Shakespeare, 28%.
A Existência humana está a ficar mais fútil: enquanto há uns séculos a premissa existencial era "Ser ou não ser: eis a questão", hoje, ela é: "Ou ser caixa de óculos e comprar uma vassoura voadora que não voa ou não ser cool: eis o marketing.
Carlos Malmoro