INSENSIBILIDADE E MAU SENSO
1) José Mário Silva, na sua crónica semanal, no DNa de 9/8, escreve, acerca da vaga de incêndios que assolou o país, o seguinte: «Para mim, o choque só se tornou completo quando vi a imagem captada por um satélite NASA». Antes, e nesse mesmo verborreico escrito, admitia que já estava informado que, até ao momento em que escrevia, tinham perdido a vida onze pessoas e que havia incêndios em quinze distritos. Ou seja, como diz o outro o choque, o horror, a tragédia foi a contemplação da imagem NASA e não, como em qualquer pessoa com o mínimo de sensibilidade, as vidas humanas perdidas, os ecossistemas destruídos, que vão demorar décadas a readquirirem os seus equilíbrios, e o desaparecimento material de vidas inteiras de trabalho.
Concluindo de uma forma irónica e depois séria: se o senhor não tiver acesso à Net ou o site da NASA se encontrar "em baixo", certifique-se que a sua casa, roupa ou automóvel não estão a arder: não existiria a Net para lhe dar conta da ocorrência; agora a sério: não nos venha mais com as suas litanias dos afectos e de sentimentos de puxar à lágrima com que povoa amiúde as suas croniquetas: neste texto, o senhor demonstrou tanta sensibilidade como a que tem um paralelo de calçada, sem ofensa para este último.
2)Por outro lado, Guilherme Silva, líder da bancada parlamentar do PSD, afirmou que «o número de vítimas é relativamente restrito». Esta afirmação só mostra o valor que a vida humana tem para o Chefe de Bancada do partido mais votado: são números, apenas números; ou melhor, votos, apenas votos. Será que não percebem que até um ferido ligeiro já é um número demasiado de baixas, para um país que todos os anos se debate com o mesmo flagelo, e todos os anos adia a sua resolução.
3)Para finalizar, um conselho a estes dois senhores, através de Wittgenstein, que aproveito para citar de cor: «A melhor coisa a fazer quando nada se tem a dizer, é ficar calado.»
Carlos Malmoro

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