O Crepúsculo dos Heróis
O advogado João Vieira de Almeida relata, na sua coluna semanal no Diário de Notícias, de 15/11/03, intitulada «Heróis & Aspiradores», uma história no mínimo insólita. Numa dessas visitas de venda ao domicílio de aspiradores que tudo limpam só com o nosso pensamento, uma amiga do supramencionado causídico, não queria acreditar na personagem que tinha diante dos seus olhos, a demonstrar-lhe e a tentar convencê-la das excelência do aparelho: nem mais, nem menos que Carlos Lopes. Justamente esse, o campeão olímpico, detentor do recorde mundial da maratona durante uma década. A senhora teve que confirmar, através de pergunta feita ao próprio. Não a censuro: perante a o surrealismo do episódio, faria exactamente a mesma coisa.
Mas esta história é uma boa metáfora deste nosso país. O homem que em 1984 foi mais rápido, mais forte e mais longe do que o resto do mundo na Maratona, edificando uma marca que só viria a ser batida cerca de dez anos depois, tem de acabar a auferir o seu sustento no porta-a-porta, na venda de electrodomésticos que as lojas consideram de fraca fiabilidade.
Para o homem que recebeu condecorações por feitos desportivos relevantes em favor da sua pátria, não existe uma única porta que se abra para que ele possa desenvolver uma actividade ligada ao desporto que ama: o atletismo (ainda se lembram da triste figura que fizemos nos Campeonatos do Mundo de Paris?);
Para o homem que tanto fez pelo Sporting e por «meter Portugal no mapa», não existe um conjunto de escolas, uma associação de clubes de atletismo que o convidem para falar aos atletas mais novos sobre a necessidade de esforço, dedicação e perseverança que tem de se ter, para se conseguir ser herói por um dia. Exacto, herói, e essa é a diferença entre um herói e um famoso: o primeiro possui o espírito de sacrifício pelo objectivo; o segundo sacrifica o espírito pela fama.
Carlos Malmoro

Sem comentários:
Enviar um comentário