«Partida»-I
Sobre enormes espaços de luz
naufragava Neruda
Naufragava...
Sobre o vinho e o mel dos segredos
Sobre a órbita do coração do povo!
Parte da ida
As imagens lúcidas tornam-se estímulos para a partida
Percorrem todo o corpo beijando a nossa água.
Percorrem todo o nosso ciclo em ápice de luva.
No veludo espesso
da ruga na solidão.
Cada um. Ou quase, tem um gémeo preso
nas teias do encontro
Ama a vida do cais. Parte em muitos barcos. E sente
música nos passageiros mudando
O sono invade a paisagem desfeita de dia
Sinto a noite e é dia
O coral assombra porque é claro.
Isso não que as cores serem ausência mesmo cores.
Trapos coloridos que não se vêm. Só o preto e branco
da instabilidade
Fulcro mecânico do cinzento jorrando o óleo
- E a falta A FALTA DO COMEÇO DO POEMA E A PARTIDA
O avanço infantil da Partida.
A inconsciência hipnotizada da partida
O choro certo de alegria na Partida
A falta de adeua certíssimo na Partida
a Partida
a partida...
a Parti...
a Par..
a P...
A ...
...
Onde estão os tempos
em que tudo era simples
por não ser nacessário outra coisa
senão um abrigo frágil de luar?
Onde estão os violinos dentro das gotas
As montanhas ainda sem cimento corpos e confusão?
Onde estão os amigos de infância
que olhavam o Tejo
das gaivotas e rostos sadios?
Onde estão nesta tempestade?
Quem perdeu as asas dentro da cidade?
Que espíritos são estes adormecidos em tédio,
que despem todos os dias a pele nas ruas
e trazem nos olhos a dureza
da morte adiada?
Quem bebeu a última vaga de esperança
e ficou com a apatia na fundo
das veias a ser naufrágio?
Onde estão os animais que lambiam
as mãos das crianças?
Onde estão as aves
que viram no tempo claro
a última sensação de alegria?
Quem sabe da última folha beijada
pelo potro na planície?
Onde estão os caminhos desta cascata congelada?
Outono de maré cheia
Gravidez esquecida
de muitos silêncios num só corpo
Voo até ao infinito
desta necessidade de fuga como um raio
que nada toca pela ausência
Arvore esquecida no pântano
perto de um piano de cristal em melodia
Mundo autêntico que existe
além deste fastio de horas
sem nexo!
Eduardo Nascimento «Pedaços do meu Tempo»

2 comentários:
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