26 março 2006

Por vezes, as «invejas» são boas


«Quando for grande quero ter umas estantes assim altas, com todos os livros lá dentro.» Deve ter sido este o meu primeiro pensamento quando visitei pela primeira vez a casa do geógrafo Orlando Ribeiro, em Vale de Lobos.
O meu pai dava-lhe assistência médica e, um dia, tinha eu sete anos, proporcionou-se que eu o acompanhasse nessa visita. Quando entrei na casa do geógrafo (para quem não sabe quem ele foi, consulte os livros de Geografia do secundário: a maior parte dos textos são dele) e fui para a sala, fiquei completamente fascinado com aquelas estantes, altas, até ao tecto, por todo lado, a forrarem literalmente as paredes com livros e mapas, mais livros do que alguma vez imaginara, planisférios enrolados naquele espaço entre o final das lombadas e o madeira da próxima prateleira e cartografias abertas sobre a mesa de trabalho. Eu também tinha de ter aquilo.
O meu pai e o professor Ribeiro lá iam falando das condições de saúde deste último. Eu continuava de boca aberta. Repararam em mim. O professor, com carinho, perguntou-me se eu queria levar algum emprestado. Não lhe respondi perguntando se já tinha lido aqueles livros todos. Ele replicou que a maior parte sim, mas que outros eram só de consulta. Voltou a perguntar se eu queria levar algum. Eu perguntei se me emprestava todos só por um dia. Os dois sorriram. Eu voltei a pensar: «um dia hei-de ter umas estantes assim. Com todos os livros lá dentro.» E jurei a mim mesmo lê-los de uma ponta a outra. Até os de consulta.



Hoje tenho algumas estantes com livros. Muitos livros. Não dão para forrar as paredes de casa na sua totalidade nem vão até ao tecto. Mas já vão estorvando e tirando rendimento mensal. Não cumpri a minha promessa de lê-los a todos. Alguns porque são de consulta, outros porque, muito honestamente, desiludiram-me. Mas ainda tenho trinta e um anos, e a possibilidade de ler e ter tantos livros como o Professor ainda não se pode dar como perdida. Já não digo o mesmo em relação à sua sabedoria. Mas não podemos ter tudo, não é?

Carlos Malmoro

3 comentários:

Anónimo disse...

Pois, o viciozinho! Te entendo um pouco mais. Bj

Anónimo disse...

Também adoro livros, livrarias, estantes com livros! Compreendo-te!

Anónimo disse...

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