Da saudade
Toda a gente que não é saudosista, nas quais me incluo, tem de ter uma boa dose de saudade. Assim, tenho saudades do sr. Manuel fazer a conta dos meus chocolates com o lápis que tinha atrás da orelha. Tenho saudades da minha mãe chamar por mim para o lanche – primeiro, por Carlos, depois por Carlos Manuel, finalmente, já em desespero de causa, pelo nome completo. Tenho saudades de defender um penalti marcado pelo matulão da escola. Tenho saudades de comer o meu «Dedo» da Olá. Tenho saudades de ver os desenhos animados enquanto lanchava. Tenho saudades de fazer o TPC na hora de iniciar a aula.
Tenho saudades de, contrariando a minha natureza tímida, levantar-me em frente da turma toda e perguntar à senhora professora porque é que a Sandra, minha colega de carteira e de coração, não passava para a terceira classe como eu. E, perante a resposta de que ela não estaria preparada para o fazer, ter oferecido os meus préstimos para a ajudar a ensiná-la melhor. Recebi um sorriso como resposta.
Tenho saudades do meu saco de berlindes. Tenho saudades de jogar ao «Mata». Tenho saudades de responder à minha mãe que as boas notas que tirava podiam muito bem aparecer sem estudar. Tenho saudades de construir um carrinho de rolamentos para depois o desfazer – a ele e a mim – na primeira descida. Tenho saudades de ir de mão dada com a minha mãe para a escola. Tenho saudades de não ter completado as minhas colecções de cromos dos recordes do Guiness (faltava o homem com as unhas mais compridas) e das estrelas de música (faltava a Olivia Newton-John).
Tenho saudades de me declarar com um bilhetinho a dizer «Gosto de ti. E tu, gostas de mim? Sim_ Não_». Tenho saudades de ter três meses de férias. Tenho saudades de Magoito, Praia Grande, Ericeira, Praia das Maças, Azenhas, de Sintra. Tenho saudades da minha bicla de ciclista com 10 mudanças. Tenho saudades de tomar banho à meia-noite completamente nu na praia de Magoito com o resto da pandilha. Tenho saudades do bolo de bolacha da minha mãe. Tenho saudades das minhas turmas da primária. Tenho saudades de aprender pelas emissões da tele-escola. Tenho saudades de nadar no rio. Tenho saudades de ir aos caracóis. Tenho saudades de não ter computador. Tenho saudades de ler «Os cinco» e de perguntar à minha mãe como é que se podia comer tanto num só lanche.
Tenho saudades de subir a uma árvore. Tenho saudades de ir à chinchada. Tenho saudades do Pão-por-Deus. Tenho saudades de ir com a minha mãe, pelo Natal, ao circo no Coliseu. Tenho saudades do Austin do meu pai. Tenho saudades de ouvir os discos da Comandita «Hey Vicky Hey / Levanta bem a vela» e de cantarolar: «D'artacão D'artacão / e os três moscãoteiros longe vão chegar», e de tentar construir uma casa numa árvore como o Tom Sawyer. Tenho saudades dos desfechos alternativos que a minha mãe arranjava para as histórias clássicas infantis.
Tenho saudades de ir com uma namorada fumar para a cave da casa. Tenho saudades de receber postais ilustrados de todo o mundo (fazia colecção). Tenho saudades de andar à pêra, tenho saudades dos «Rambo's», da «Força Delta» e d' «Os Deuses Devem Estar Loucos». Tenho saudades de ver a série Verão Azul e de assobiar a canção do genérico. Tenho saudades de não pensar nas respostas que dava nem nas perguntas que fazia.
Tenho saudades disto tudo. Saudades que não saudades. São antes pequenas memórias. Saudades, muitas e dolorosas, são as que tenho de uma senhora que, se hoje fosse viva, completaria sessenta anos. Como viveste, vives e viverás sempre em mim, aqui ficam os meus parabéns, madrecita.
Carlos Malmoro

2 comentários:
Não é preciso ser-se saudosista para termos saudades. Essas dos nossos pais são constantes e há alturas que doem tanto que chega até a ser físico. Embora não seja particularmente religiosa, acredito que também a tua mãe estará contigo onde estiver. Um beijo grande.
bigado, pelas palavras.
Carlos
PS: Não sei de facto o que dizer mais...
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