Da certeza
Uma luminosidade ténue ia subjugando o silêncio do negrume da noite e revelava o espírito robusto das paredes da abadia. A aurora nascia pelos interstícios dos claustros espalhando uma luz límpida contra os blocos pardos da muralha conventual, enquanto os cantos gregorianos, que não se sabia muito bem se vinham das paredes ou dos homens, tal o abalo místico que estes propagavam, ecoavam na vastidão da nave principal da igreja. A missa primeira do dia terminava e era chegado o momento da primeira refeição. Entre pão de centeio, compotas, doces conventuais e leite com cevada, o monge alimentou pela primeira vez o corpo naquele dia.
Depois das graças pelos alimentos recebidos, o monge retirou-se para a sua cela para preparar a sua meditação diária. Hoje, tinha decidido pensar nas certezas humanas: na véspera, um noviço perguntara-lhe como poderia ter ele a certeza que, passados 20 anos, como o senhor monge, não estaria arrependido da opção que tomara. A resposta fundamentou-a em Deus: «Se tiveres sempre fé, Deus indicar-te-á o caminho».
A regularidade quotidiana com que se dedicava a estes períodos de reflexão, doutrinou-o a atentar, primeiro, no todo, e depois, na parte. Consequentemente, dividiria a sua meditação numa primeira parte relacionada com a humanidade no seu todo, e uma última com o sítio onde vivia, porque, em sua opinião, só assim poderia evitar o logro das generalizações simplistas e por vezes insidiosas.
«Meu Deus, a Humanidade precisa de mais certezas. Não basta saber que esta vida é finita e passageira, para os que têm fé, que Deus existe ou que a assumpção da incerteza da vida encerra, em si mesmo, uma certeza. Não; a Humanidade necessita de saber que é amada, que é respeitada, que os actos que a norteiam encaminham-na para um futuro melhor, enfim, que o trajecto que perfilhou, embora tumultuoso, a conduzirá a uma salvação. Ou melhor, nem é necessário tanto, meu Deus, a Humanidade precisa de saber, pelo menos, que a senda que está a trilhar fará brilhar uma luz ao fundo túnel, que é uma metáfora para Vos dizer e pedir que mostrai à Humanidade que há esperança. Ainda e sempre. Será por essa intenção que hoje rezarei.
» Meu Deus, nesta cidade a certeza é algo de exótico. As palavras mais escutadas são: presumível, putativo, possível, suposto, provável, alegado, candidato, aspirante ou pretendente, os verbos são todos conjugados no condicional e verbos como o ser, o ter, o ir, o estar, o querer e outros são sempre precedidos pelo futuro condicional do verbo poder.
»Nos meios de comunicação social, os réus são prováveis culpados e, segundo a Justiça desta cidade, os arguidos são presumíveis inocentes, mas que já sofrem a privação da liberdade nas penas preventivas como qualquer criminoso. Os candidatos a qualquer eleição já foram candidatos a candidatos e já são putativos detentores desse cargo, se as sondagens, com as suas margens de erro certeiras, assim o determinarem. Eu sei, meu Deus, que a expressão «margem de erro certeira» pode parecer um paradoxo ou laracha, mas não é: isto acontece mesmo. E é fiável…
Os governos desta cidade poderão querer distribuir de uma melhor forma os rendimentos dos impostos, poderão estar prontos construir uma nova linha de metro, poderão ser os impulsionadores de uma reforma que vai beneficiar as famílias mais carenciadas, poderão ter um projecto de desenvolvimento ecológico, … Perdão, Deus meu, que já estou a abusar dos exemplos rasteiros para Te transmitir uma coisa que Tu, com as Tuas infinitas sabedoria e vigilância já Te apercebeste, mas compreende que olhar esta cidade de fora para dentro, é, passe a hipérbole, como tentar ver o interior de um manicómio através dos seus vidros martelados: não há nada claro, nítido ou certo.
Peço-Te, pois, que faças jus ao nome que a cidade tem e Lhe reveles alguma luz. Deus meu, esta cidade precisa de uma certeza. Também por isso vou orar hoje.»
Carlos Malmoro

3 comentários:
Oremos então. Esta cidade também precisa de luz. Abraço, bom fim de semana
Bigado pelo abraço e pelos votos de bom fim de semana. quanto ao oremos, deixo para quem realmente acredita em Deus. Bjs
Gostei do cenario conventual (e das tuas palavras).
Bj
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