29 junho 2006

«Nome: Refugiado»

Sempre apreciei a poesia de Manuel António Pina. Agora, desde que vivo no Norte, degusto as suas pequenas grandes crónicas juntamente com o pequeno-almoço. Na última página do JN, lá está diariamente o olhar atento sobre a sociedade, um pormenor que se torna pormaior depois de ler a sua prosa ou a doce ironia de quem já leva muitos anos de vida e muitos mais de escrita. Porque nem todos conseguem transformar um dia mundial num murro no estômago que nos deixa sem ar. A saber:
«Os números significam pouca coisa. 8,4 milhões de refugiados em todo o Mundo é um número grande de mais para tocar a pequenez do nosso coração e da nossa razão, e corre o risco de banalizar o mal e justificar a nossa resignação Mas, de repente, descobrimos alguns dos rostos humanos, demasiadamente humanos, que se diluem na desmesura dos números e sobressaltamo-nos. Ontem, Dia Mundial do Refugiado, vi um homem ler na sua língua natal um poema de Ismail Kadare intitulado "Saudades da Albânia" e romper em lágrimas, imediatamente reprimidas. Falou durante alguns poucos segundos dos filhos distantes e repetiu inconvictamente a palavra "esperança". Quando regressou ao seu lugar, no Auditório do Museu Soares dos Reis (onde a Universidade do Porto evocou a tragédia dos refugiados), parecia mais só do que nunca. Por um momento, foi, diante de nós, um ser humano como cada um de nós, e teve uma existência concreta, um passado, uma memória, e medo, e esperança, e lágrimas, antes de perder-se de novo na escuridão dos números. Provavelmente nunca saberei o seu nome, mas há-de ter um nome. Um nome por que o chamam os amigos, um nome que talvez ele próprio já tenha, quem sabe?, esquecido. Um nome, porque ninguém se chama "refugiado". »
Carlos Malmoro

3 comentários:

Pitucha disse...

É um mundo lixado este em que vivemos!
Beijos

125_azul disse...

Sensação mais triste... algo parecido senti quando África me deixou... Beijinho

Leonor disse...

Gosto de "pormaior"