18 junho 2006

O Monólogo do Silêncio

Quinze mil milhões de anos depois da origem do Universo, três a quatro mil milhões de anos depois do aparecimento das mais rudimentares formas de vida na Terra, quinze milhões de anos depois dos antropóides, cinco a seis milhões de anos depois do vosso mais remoto antepassado vaguear pelas planícies africanas, trezentos mil anos após o Homo Sapiens e cinquenta mil anos posteriormente ao Homo Sapiens-Sapiens ter colonizado a Europa, cerca de cinco mil anos após as primeiras cidades da Mesopotâmia, da invenção da Linguagem e, consequentemente, do terminus da Pré-História e do limiar da História, mais de dois mil anos após o vosso Salvador vos ter visitado, mais de oito séculos depois do vosso país ter sido fundado e mais de um minuto após a abertura mais pedagógica a que um monólogo pode aspirar, eis que decido quebrar-me a mim mesmo, ou seja, para quem ainda não desenvolveu as capacidades do Homo Sapiens-Sapiens ou não souber ler nas entrelinhas, vou romper o silêncio acerca do Silêncio.

Ao longo da peça, alguns de vós vão tossir sem nunca terem fumado um cigarro na vossa vida nem estarem constipados, outros vão murmurar à companheira coisas sem sentido e ela responder-vos-à coisas com menos sentido ainda, alguns vão ao bolso – ou à bolsa – buscar uma caneta, um isqueiro, um batôn e deixá-los-ão cair, e eu perguntar-vos-ei qual a necessidade de uma caneta, de um isqueiro ou de um batôn para que uma peça de teatro seja bem sucedida. Outros vão-se rir do texto, e o texto é trágico, outros vão deixar os telemóveis ligados, não por exibicionismos anacrónicos, é antes por uma ordem do vosso subconsciente para que, durante um segundo, possam desfrutar a paz de espírito que eu, o silêncio, não concedo nunca.


Atentai:
Nunca vos perguntastes por que é que os momentos mais desesperantes de qualquer entrevista são aqueles em que eu fico entre o entrevistado e o entrevistador?
Nunca vos perguntastes por que é que quando se pede alguém em namoro, mais angustiante do que a própria coragem de se dar esse passo, é o silêncio que se instala antes de escutardes a resposta, e que esse ínfimo momento dura horas, e a vossa cabeça só pensa que vamos ouvir uma resposta negativa ou que acabamos de viciar uma bela amizade;
Nunca vos perguntastes por que razão é que quando uma criança nasce em silêncio, o choro e os gritos são entoados pelos pais dessa criança?
Nunca vos perguntastes por que é que quando morre uma pessoa querida, mais doloroso que o acto fúnebre, é o silêncio que se instala no lugar da mesa que essa pessoa ocupava, no silêncio que se abate sobre o quarto onde dormia, é o silêncio que impera onde antes havia apartes, piadas, cumprimentos, onde antes havia pensamentos ditos em vós alta, palavras misturadas com gargalhadas, canções que vós acháveis ridículas e que agora escutais com toda atenção, com toda a saudade e com todo o regozijo que o coração humano pode comportar, enfim, onde antes havia o som da vida existe agora o silêncio da morte?

Se nunca colocastes a vós próprios estas questões, estão a ser levianos e cobardes perante mim; se nunca perguntastes por que é que sendo eu assim um elemento tão apaziguador, tão purificador, tão onírico e tão sagrado sou presença constante nos limites do vosso sofrimento, estão a ser negligentes e mentirosos perante vós próprios; se nunca vos questionastes por que é que sendo eu a fonte de eutimia eterna, o paraíso perdido, a paz, a saúde e a felicidade, em suma, a Vida, mas essa eutimia, esse paraíso, essa paz, essa saúde e essa felicidade são sempre meras consequências derivadas de causas do desassossego de espírito, da guerra, da doença da infelicidade, enfim, da Morte, é porque estão a ser hipócritas com a Humanidade e cegos para com a realidade.

Porque eu sou aquele que vos decifra esse vosso mundo bárbaro; porque eu sou aquele que vos apoquenta a alma; porque eu sou aquele que vos desagrega o amor; porque eu sou aquele que vos dita o destino, eu sou aquele a quem vós chamais de sexto sentido, eu sou aquele a que vós chamais o quinto elemento da Natureza, eu sou aquele que vós confundistes com Deus e eu sou aquele que vos recorda, durante todos e cada um dos momentos da vossa Existência, o absurdo dessa mesma Existência.

E agora que já vistes o poder de inquietação que eu possuo, agora que já sabeis que eu sou um prenúncio de sofrimento profundo, agora que já compreendestes que o ouro que dizem ser a minha essência absoluta, não é mais que a tinta dourada que reveste o Vaso de Pandora que realmente sou, com todos os males prontos a emanar do meu imo, agora que vós entendestes tudo isto, dou-vos um momento de pausa, saindo eu deste palco com a certeza de que, neste instante, já não represento para vós qualquer sublime paz, mas sim uma sumptuosa desolação.

Carlos Malmoro

7 comentários:

125_azul disse...

E ainda no outro dia te interrogavas porque tinhas estudado comunicação social... já te passou, certo? Desejo-te uma semana maravilhosa.

Leonor disse...

Nada mais duro do que o som da vida ser substituído pelo silêncio da morte. Quando a vida deixa de ter som talvez seja preferível o silêncio da morte. Bjs e que esta semana seja luminosa e o som da vida prevaleça sempre.

Pitucha disse...

Este texto é fabuloso! Fabuloso!
Entre o silêncio que nos pesa quando falta o barulho e o barulho que nos incomoda quando falta o silêncio ficou tudo dito.
Parabéns.
Beijos

Maria Miriam disse...

Saíste-te muito bem na pele do Silêncio.
Bj.

Carlos Malmoro disse...

125_azul
eu interrogava.me porque tinha estudado com. social quando? Desculpa esta falta de memória, mas é que eu não estudei Com. social como curso, mas tenho algumas noções 'disso'.

papalagui:
Está a ser. Só faltava estar de férias para a felicidade ser completa.

Pitucha:
Não posso dizer muito mais do que obrigado. Mas julgo ser quanto baste. :)

Maria:
Andas a avaliar-me? :))


Beijo. Beijo. Beijo. Beijo.

Anónimo disse...

"Se nunca colocastes...ESTAIS..."

Carlos Malmoro disse...

Anónimo:

Tens razão. Obrigado pela chamada de atenção
Mas esse erro é fruto de imaginar que algum texto pode sair bem em escrita automática.