Como Iniciar uma História
A fim de contentar e sossegar um casal de crianças de umas visitas que tive neste fim-de-semana, contei-lhes uma história inventada na hora. A minha condição genética para contar histórias vem do meu avô paterno, que as iniciava com um «antigamente», e foi reforçada pelo meu pai, que as inicia com o tradicional «Era uma vez». Eu faço questão do «Há muito, muito tempo», de preferência reforçado por «numa terra muito, muito distante...».
Pensava eu que isto era alguma novidade e uma forma eficiente de conseguir que as crianças, logo às primeiras palavras, desligassem da realidade e a imaginação entrasse imediatamente em velocidade cruzeiro. Mas aconteceu que quem entrou em velocidade cruzeiro foi a minha memória que foi buscar as raízes – e o plágio descarado, diga-se em verdade – desta expressão.
Há duas décadas atrás, mais ano menos ano, passava uma série televisiva de contos nórdicos que iniciava, invariavelmente, com essa enunciação. Eram episódios de cerca de vinte minutos, em que uma narradora portuguesa contava a história, que se desenrolava no ecrã, sem qualquer tipo de diálogos, e sem a portuguesíssima moral da história no fim de cada conto.
Talvez por esta ausência de moral da história, do aspecto das personagens (todas louras, olho claro, de metro e oitenta para cima), por mulheres esculpidas por deus montarem cavalos belíssimos, em bosques verdejantes trespassados por finos fios de sol, com riachos feitos de prata e de imaginação que eu apreciava mais essas histórias do que as da tradição portuguesa ou as da Disney.
Bem (retornando ao ponto que nos trouxe aqui), no final da história, os miúdos disseram que gostaram muito do conto. Cinco minutos passados, estavam de novo a correr à volta da mesa, a saírem para o jardim, a fazer o diabo a sete, até que começou mais um episódio de Floribella. Aí sim, os pais puderam ter dois dedos de conversa comigo em condições civilizadas.
Moral da história: um conto infantil já não prende a atenção das crianças, nem as sossega mais do que cinco minutos. Isso foi há muito, muito tempo, numa terra muito, muito distante.
Pensava eu que isto era alguma novidade e uma forma eficiente de conseguir que as crianças, logo às primeiras palavras, desligassem da realidade e a imaginação entrasse imediatamente em velocidade cruzeiro. Mas aconteceu que quem entrou em velocidade cruzeiro foi a minha memória que foi buscar as raízes – e o plágio descarado, diga-se em verdade – desta expressão.
Há duas décadas atrás, mais ano menos ano, passava uma série televisiva de contos nórdicos que iniciava, invariavelmente, com essa enunciação. Eram episódios de cerca de vinte minutos, em que uma narradora portuguesa contava a história, que se desenrolava no ecrã, sem qualquer tipo de diálogos, e sem a portuguesíssima moral da história no fim de cada conto.
Talvez por esta ausência de moral da história, do aspecto das personagens (todas louras, olho claro, de metro e oitenta para cima), por mulheres esculpidas por deus montarem cavalos belíssimos, em bosques verdejantes trespassados por finos fios de sol, com riachos feitos de prata e de imaginação que eu apreciava mais essas histórias do que as da tradição portuguesa ou as da Disney.
Bem (retornando ao ponto que nos trouxe aqui), no final da história, os miúdos disseram que gostaram muito do conto. Cinco minutos passados, estavam de novo a correr à volta da mesa, a saírem para o jardim, a fazer o diabo a sete, até que começou mais um episódio de Floribella. Aí sim, os pais puderam ter dois dedos de conversa comigo em condições civilizadas.
Moral da história: um conto infantil já não prende a atenção das crianças, nem as sossega mais do que cinco minutos. Isso foi há muito, muito tempo, numa terra muito, muito distante.
Carlos Malmoro

1 comentário:
E quando foi que o há muito muito tempo passou e nos fez permitir que enchessem as nossas crianças de lixo? Tenho a certeza que o teu há muito muito tempo voltará ao imaginário delas: apróxima vez que te virem, agarram-se às tuas pernas a pedir "tio, conta uma história"! Se assim não for, desiste delas...Talvez melhorem lá para adultícia, mas duvido...
Beijinho, ganhamos nós com a tua tentativa...
Enviar um comentário