Decorar
O decorar que aqui se tratará é o sinónimo de memorizar. Não tenham ilusões quanto a ter uma lição de alindamento de interiores em vinte minutos. Existirão blogs e sites com muito mais validade e propriedade para o fazer. Embora algumas das propostas apresentadas nesses sítios, me levem a fazer, a mim, um ateu confesso, um religioso sinal da cruz. Adiante.
Sempre tive muita dificuldade em decorar. Ou os saberes me eram explicados, ou então, primeiro que entrassem nesta cabeça dura, era necessário que a mesma fosse cirurgicamente «aberta» e despejados para dentro os seus conteúdos. Assim, foi-me mais simples perceber que dois mais dois eram quatro, quando me foi demonstrado que duas laranjas mais duas laranjas são quatro laranjas. Ainda se tornou mais simples quando descobri, através de equações, que quatro menos dois resultava em dois.
Porém, se é relativamente fácil em ciências exactas haver uma demonstração, já nas línguas a coisa pia mais fino. Existem regras e, depois, cada regra tinha a sua excepção. Ora eu, com notas globalmente boas nas línguas, tentava fugir das excepções como o diabo da cruz (isto hoje está muito religioso). É que essas tinham de ser decoradas. Porque eram essas, invariavelmente, que surgiam nos exames. Dito de forma a perceberem a injustiça: as regras aplicavam-se em milhares de situações, as excepções em duas ou três, mas essas é que, para aqueles masoquistas, eram imprescindíveis aos alunos dominar.
Assim, e sem outras possibilidades de recurso, comecei por analisar o porquê de apenas a letra «p» e «b» serem antecedidas da letra «m», enquanto as restantes consoantes da letra «n». Cheguei a esta fantástica conclusão: ao dizer as letras «p», «b» e «m» os lábios tocam um no outro. Em nenhuma outra letra isso acontece. Eu sei que isso deve ter um nome em fonética. Não sei qual é, mas também não me importa saber: é que tenho a certeza que teria de o decorar.
Sempre tive muita dificuldade em decorar. Ou os saberes me eram explicados, ou então, primeiro que entrassem nesta cabeça dura, era necessário que a mesma fosse cirurgicamente «aberta» e despejados para dentro os seus conteúdos. Assim, foi-me mais simples perceber que dois mais dois eram quatro, quando me foi demonstrado que duas laranjas mais duas laranjas são quatro laranjas. Ainda se tornou mais simples quando descobri, através de equações, que quatro menos dois resultava em dois.
Porém, se é relativamente fácil em ciências exactas haver uma demonstração, já nas línguas a coisa pia mais fino. Existem regras e, depois, cada regra tinha a sua excepção. Ora eu, com notas globalmente boas nas línguas, tentava fugir das excepções como o diabo da cruz (isto hoje está muito religioso). É que essas tinham de ser decoradas. Porque eram essas, invariavelmente, que surgiam nos exames. Dito de forma a perceberem a injustiça: as regras aplicavam-se em milhares de situações, as excepções em duas ou três, mas essas é que, para aqueles masoquistas, eram imprescindíveis aos alunos dominar.
Assim, e sem outras possibilidades de recurso, comecei por analisar o porquê de apenas a letra «p» e «b» serem antecedidas da letra «m», enquanto as restantes consoantes da letra «n». Cheguei a esta fantástica conclusão: ao dizer as letras «p», «b» e «m» os lábios tocam um no outro. Em nenhuma outra letra isso acontece. Eu sei que isso deve ter um nome em fonética. Não sei qual é, mas também não me importa saber: é que tenho a certeza que teria de o decorar.
Outra situação: por que razão estas formas verbais se escrevem de forma diferente: «decorasse» e «decora-se». Porque são dois tempos distintos do verbo «decorar».Até aí j´´a eu descobrira. Mas o que me ‘atormentava’ era saber quando tinha de escrever uma ou outra. Mais um esquema - malandro, diga-se em abono da verdade - encontrado: colocava a frase no negativo: «não decorasse» e «não se decora». Assim que o «se» saltava para trás do verbo, já sabia que a forma correcta de o escrever era «com tracinho».
Um último exemplo: os acentos. Era prática usual nos testes de português colocar vinte palavras, daquelas que nunca eu tinha ouvido na vida, e pedir «Coloque, de forma correcta, os acentos nas palavras.» Para esse caso, desenvolvi um sistema que me punha muitas vezes a fazer uma figura um pouco ridícula, mesmo de urso, nos dias de teste. Consistia em «chamar a palavra». Assim, e imaginando que a palavra a acentuar era «hermeneutica», e não pensem que a dificuldade do exemplo anda muito longe do que era exigido, dizia para mim mesmo, e como se estivesse a chamar alguém que tivesse o azar dos pais lhe terem dado esse nome «ó hermenêutica». A sílaba que se chama com mais força, é a sílaba a acentuar. Muito rebuscado, mas eficaz.
O mais importante destes esquemas não era, na altura, a sua eficácia comprovada pelas notas. Era conseguir menos marranço e principalmente menos decoranço. E isso resultava em mais tempo a fazer coisas realmente úteis: levantar saias a meninas, jogar ao bem me quer mal me quer, à bola e, para terminar com uma palavra que acabando em «s» não é plural, uma excepção que não foi necessário decorar, jogar ao guelas.
Carlos Malmoro

6 comentários:
As coisas difíceis que tu sabes! E que armadilhas intelectuais arranjaste para não decorar...
Beijinhos
Usei alguns dos teus truques.Mas o meu maior problema sempre foi decorar números de telefone. E agora, com tudo gravadinho nos télélés, nem os meus sei! Uma vergonha.
Beijos
Guelas? Não conheço... Como é? Eu também "chamo" as palavras. :)
Gostei imenso de ler este teu post.
Nunca tinha reparado que as letras p e b são as únicas (para além do m) que fazem os lábios tocar-se quando são ditas. Mas gostei de ficar a sabê-lo.
Eu também usava (e por vezes ainda uso) o truque de chamar as palavras. Funciona sempre!
Acho que fizeste execelente uso do tempo que este truques te pouparam, tirando talvez a parte de andar a levantar a saia às moças, coitadas! :)
Beijola.
Essa de chamar as palavras é deliciosa.
Quanto ao m, b e p são bilabiais. Chama-se a isso o ponto de articulação, acho... Há anos que não me lembrava de tal coisa ;)
Só para dizer que mudei o nome ao blogue. A partir de agora chama-se A Curva da Estrada. Bjs
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