01 setembro 2006

Pastar

Pasto, neste momento estou a pastar. Consiste em estar deitado no sofá de barriga para cima, com umas revistas e uns livros colocados estrategicamente no chão para que o meu braço chegue a eles sem me mexer muito. O raciocínio no mínimo que me permita escrever em português para alinhavar o arrazoado, e, com menos raciocínio ainda, ler e dissertar sobre essa gota de água no deserto editorial português que dá pelo nome de Tvmais.

Abrimos essa miragem e, na página quatro dedicada ao correio dos leitores, a Sandra, em boa hora, dá-nos a saber que o grupo «Aztros» já lançou o seu segundo álbum, que se intitula “Raios de Tempestade». A reter.
Por outro lado, a Rita indigna-se porque a TVI continua com o programa «Fiel ou Infiel». Segundo ela, o programa não tem qualidade. Ritinha, deixa-me dizer-te uma coisa: a mira técnica da TVI tem mais qualidade do que todos os seus programas juntos. Sim, “Morangos” incluídos.
Finalmente, a Carta do Mês, de um conterrâneo homónimo, ganhou um livro e passo-a a transcrever na íntegra (pode ser penoso ler a carta em toda a sua extensão, mas desde cedo aprendi que uma obra-prima não deve ser sintetizada).
«Furacão em Palco – Assistir a um espectáculo da Adelaide Ferreira é ter a confirmação daquilo que é escrito a seu respeito: é um tornado. – Carlos Sousa – Ponte de Lima.»
Viramos a página: publicidade. Viramos de novo. De novo publicidade. Adiante. Encontramos então a Elsa Raposo e umas fotografias em que se desvendam os dolorosos passos que teve de passar para retirar a tatuagem com o nome do antigo namorado. Elsinha não desesperes. Vê as coisas pelo lado positivo. Ele chamava-se Gonçalo. Poderia chamar-se Hermenegildo.

A secção «História de Capa» desvenda-nos que a Beatriz vai ser assassinada. Duas perguntas: então sabe-se e ninguém faz nada?; Beatriz, como é que se sente sabendo que não tem mais do que sete dias de vida? (esta última com o alto patrocínio da escola de jornalismo TVI).
Depois temos um momento alto da revista: a «Crónica do Marco», também conhecido por alcançar a fama como pontapeador de ventres femininos. Há gostos para todos os animais, que se há-de fazer? Pela enorme quantidade de pontos de exclamação em três frases, uma das quais em que o verbo está conjugado no singular e o sujeito no plural, pressente-se que o Marco é um tipo que se indigna – muita indignação tem esta luminosa publicação hebdomadária –, e com razão, com a falta de visibilidade que as modalidades amadoras do desporto têm. Importa é apreender isto: o Marco é um tipo que se indigna e tem razão. Permite-me que te trate por tu, sem qualquer tipo de pontapés, para te dizer, pá, que te indignas com razão e que há razões para a tua indignação.

Finalmente, o momento mais alto da revista. Aquele que tornou este momento no mais frutífero «pastar» que eu alguma vez realizei. Não, não foi Deus quem a descobriu. E não, não foi nenhum filósofo que a alcançou. E não, também não foi nenhum historiador, vidente, cientista ou alienígena que a deslindou. Pois acabo de saber que quem descobriu a Verdade foi a Isilda. Zizi, para os amigos.

Carlos Malmoro

3 comentários:

Carlota disse...

Excelente!
Há sempre tanto a dizer sobre a TV Mais, não há?
É uma das minhas favoritas, mas na primeira semana de Agosto não consegui comprá-la porque estava esgotada lá no tasco algarvio onde compro o pão e os jornais todas as manhãs...
Mas fiz o gosto ao dedo, ou pastei, como tu, nas duas últimas semanas de Agosto(*). É uma das revistas cor-de-rosa mais gordinhas, com disparates em quantidade suficiente para alimentar um blog durante um mês!
Beijola.


(*) Na segunda semana de Agosto passei por um período de abstinência de revistas cor-de-rosa porque a dose da primeira semana deu-me azia.

125_azul disse...

Eu com a net avariada, a abobrar e sem saber que é possível pastar com tal qualidade! A falta que me fazes. Nunca li essa coisa, mas agora estou desesperada com a minha falta de cultura. Quem é a Zizi e qual foi a Verdade? Pelo menos diz em que nº saiu essa pérola (a barbaridade que fizeram para remover a tatoo da outra já tinha visto noutra pérola, Caras, acho eu), também quero descobrir a Verdade. Vá lá, partilha (não ponho mais pontos de exclamação para não me comparares com o que dá pontapés, tenho vergonha).

Beijinhos, Setembro feliz.

Carlos Malmoro disse...

Carlota:
tens razão: aquilo alimentava um blog humorístico durante um mês e nem era preciso muita imaginação: bastava «copiar» o que lá vinha escrito. Bjokas

125_azul:
sempre solidário com a avaria na tua net- eu também tenho uma no meu computador-, posso dizer-te que o que vinha escrito num dos títulos de resumos de novelas (não sei qual) era que «Isilda descobre a Verdade». E perante isto temos de nos remeter à nossa insignificância;) Bjokas