À Vossa Consideração
Hoje, no supermercado, ao lado da «Caixa Rápida - menos de dez artigos», observo a seguinte cena:
Fila sem ninguém; a empregada de «caixa rápida» analisa minunciosamente o estado das unhas. Entra um homem com dois carrinhos cheios de compras. Cumprimentos mútuos de circunstância. Entretanto, chegam mais uma senhora com dois artigos, um homem com três e uma jovem também com coisa pouca. Os três olham para aquela montanha de produtos que vão sendo rapidamente colocados no tapete. Não dizem uma palavra, mas se o olhar matasse...O homem sai apressado porque se esqueceu de algo. Resmunganço entre os três: «- Não há direito. - Isto é para menos de dez artigos. - É uma pouca vergonha. - Assim é que havemos de ir longe. - Este país não tem emenda. - É por estas e por outras...» Chega o homem, pede desculpa e é recebido com silêncio e com três simpáticos sorrisos.
Há três meses, na Feira do Livro do Porto. Debate: «O que é a Poesia?». Convidados: Pedro Mexia, Manuel António Pina e outros dois autores que neste momento não me recordo (confesso: fui lá para ouvir os dois). Falava o Pedro Mexia e uma voz atrás de mim: «Quem é que esse gajo pensa que é para escrever sobre autores consagrados?» Voltava a falar o Pedro Mexia, e «E que poeta é ele para dizer mal dos romances do Saramago?; E as crónicas que ele escreve? Um puto com o nono ano escreve melhor do que ele.» Pedro Mexia é informado pelo moderador para tecer as considerações finais. Nas minhas costas, silêncio. PM diz a última palavra, afasta o microfone e recebe uma salva de palmas, incluindo do senhor que esteve o tempo todo atrás de mim a elogiá-lo.
Carlos Malmoro

8 comentários:
Mais palavras para quê? Ando desiludida e farta.
Inspira, fundo, fundo, relaxa, relaxa...
Bora mudar de país? É que não vai mudar. Pelo menos não para melhor.
Beijinhos de bom fim de semana
Pois, está bem , mas se em vez de sorrirem mandarem o gajo ir levar nas nalgas e pegar nas coisinha e ir para a caixa apropriada, somos má onda, explosivas e tudo vai olha-nos com cara de issoeraprefeitamenteevitável!
Se somos civilizadas, ninguém nos respeita! Por isso, já não sei se é bom ser cinica se não , o que sei é que já me irrita esta falta de tomates tão portuguesa de não falarmos pela frente,ser frontal será assim tão mau? Porque nos faz a critica assim tanta mossa?
Um abraço
Ana
Imaginemos um ermita.Se chegassemos perto deste e lhe dissesmos que ele deveria montar a barraca de outra forma, ele, nao habituado a ver ou comunicar com ninguém, iria reagir mal.A mentalidade social do povo português é ermita, e só aceitamos observações críticas de quem nos é próximo, e mesmo assim...
Por outro lado, a capacidade inata de criticar nao frontalmente, penso que está directamente relacionada com a falta de auto-análise.E para existir auto-análise é necessário abrir horizontes ao relacionamento com outros seres humanos.
Sem dúvida que esses simples episódios são dois afluentes do enorme e estagnado rio podre, no qual navega Portugal.
Cada um de nós tem o poder de diferenciar.Façam-no.
Abraço,
Rui Rodrigues.
a isto chamo cobardia!!
Uma vez escutei atrás de mim, numa dessas cxs prioritárias para gravidas e pessoas com crianças ao colo, uma senhora que refilava em surdina que aquela era uma cx prioritaria e que por isso aquelas pessoas (eu incluida) não deviam de estar ali. Virei-me para trás para perceber que fundamento tinha aquela observação, era uma senhora com um carrinho de bebé e uma outra criança pela mão.Apesar de ainda estar um senhor entre mim e a sra, levantei a voz para a sra dizendo cordialmente que se quisesse podia passar à minha frente, o que significava ser logo atendida... não quis, ainda ficou com ar de ofendida por eu ter ouvido a conversa dela e ter respondido... é caso para dizer Dá dEUS dentes a quem não tem nozes!! tss
tss
(Para ser cantarolado):
Tudo isto existe, tudo isto é triste, tudo isto é fado!
:)
Beijola.
Palavras para quê? Estas cenas que descreve são tão comuns... Eu nem sempre me calo; há ocasiões que não consigo e, por vezes, quem fica mal vista sou eu... claro.
Há uns tempos, estava eu na fila dum supermercado e veio uma senhora que se foi aproximando de mansinho... de mansinho... e se não fosse o meu olhar e a minha atitude, ela passava-me à frente. E teria sido tão simples: um sorriso, um pedido e eu deixava que ela fosse primeiro...
Porque a coragem de certas pessoas é uma ervilha pequenina que eles observam carinhosamente com uma lupa e que logo metem no bolso quando percebem que alguém está a olhar...
Beijos
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