Os textos e a sua construção
O processo de construção do texto é tão ou mais cativante do que o próprio texto. Reformulo: a construção de qualquer obra é tão ou mais empolgante do que a obra. Tomando à priori um exemplo de um texto genial, é sempre com assombro que se desvenda, por exemplo, numa versão fac-similada, os processos com que este foi conseguido. Assombro, não pela genialidade do texto; antes pela fragilidade/humanidade com que, exemplifiquemos, um exímio poema foi construído. Aquela sensação de que estamos muito distantes do génio, desaparece no exacto momento em que os processos que foram utilizados para o criar são os mesmíssimos que utilizamos quotidianamente para escrever uma carta de reclamação ao servidor de net: escrever, rasurar, complementar, organizar as ideias, etc.
Ou seja, passa a existir um acontecimento de identificação. E esta identificação entre uma carta profissional e um poema, não tem um efeito banalizador sobre a tal obra de arte, afastando-a por efeito de menosprezo da sua qualidade. Promove uma aproximação entre o leitor e o poeta na medida exacta em que o último deixa de ser uma semi-divindade para o primeiro e passa a ser um homem comum. E, convenhamos, os homens preferem conviver com homens do que com deuses.
Ou seja, passa a existir um acontecimento de identificação. E esta identificação entre uma carta profissional e um poema, não tem um efeito banalizador sobre a tal obra de arte, afastando-a por efeito de menosprezo da sua qualidade. Promove uma aproximação entre o leitor e o poeta na medida exacta em que o último deixa de ser uma semi-divindade para o primeiro e passa a ser um homem comum. E, convenhamos, os homens preferem conviver com homens do que com deuses.
Carlos Malmoro.

3 comentários:
...pois. Amen. Here ye. E também já deste por ti a ser mais criterioso com as leituras?... de tal modo que colocas 30 livros de lado só porque, de repente, te parece que o estilo ou a narrativa são demasiado básicos ou demasiado enfadonhos? Acontece-me com muita regularidade. "Bons livros", dizem-me, "com histórias fantásticas, finais surpreendentes e tramas estonteantes". Mas, na maior parte dos casos, dou por mim a bocejar e a atirá-los para o lado com um desdenhoso, e quase sempre pouco verdadeiro, pensamento: "uma porcaria destas também eu escrevia". E sinto que cada vez há menos escritores que valha a pena ler. E à medida que evolui o meu critério - fruto desse processo que descreveste no teu post - aumenta a minha angústia por ver diminuir o espectro de "poetas" que ainda me podem surpreender ou ensinar algo de novo.
Um homem prefere conviver com homens comuns... mas sem as semi-divindades, não tem ao que aspirar.
Uma boa biblioteca faz-se sempre por subtracção. E quanto à genialidade já dizia o outro: 10% de inspiração; 90% de transpiração. E, na transpiração, somos todos iguais.
Curioso. Tenho andado embrenhada nesta temática. Adorei o conceito de "ostranenia", palavra russa para descrever "estranhamento" ou o processo de criação de um texto que destrua a percepção automática da linguagem e atraia o leitor para a linguagem propriamente dita e não para o seu sentido. Assim, para os formalistas russos a lingua poética é opaca e a lingua de comunicação é transparente. Olha que isto de fazer textos é um trabalho bem árduo!
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