07 março 2007

Mnemonizável

Melancólico, melancolicamente avisto o ruído da cidade onde nasci. Do alto da colina, contemplo o fluir do trânsito em remoinhos. Os jardins de Outubro despem-se do verde vigoroso e vestem o amarelo dourado. As árvores despem as penas áureas e as ruas vestem-se com passadeiras de desencanto. A terra já emana o perfume supremo: acabara de chover. Os espíritos ensimesmados revelam-se no olhar mortiço das pessoas e o céu plúmbeo absorve a réstia de esperança das almas: até os pássaros fogem para o Sul.
Desço a colina de carro. Procuro uma rádio que não me massacre com as “cinco mais” do top que as editoras mais ricas manipulam. Encontro e festejo com um sorriso. Acompanho os primeiros acordes com um assobio. Escuto a letra e penso:
penso no significado que o poeta quis imprimir àquelas palavras, no recanto íntimo onde as escreveu, no tempo em que as viveu ou imaginou, nas cambiantes que as matizaram;
penso em R., no modo como me irá receber passado tanto, tanto tempo, no modo como estará vestida, penteada, maquilhada, em que sítio estará empregada, no modo com irá reagir ao meu propósito de a levar para a ilha onde vivo e, a partir daí, recuperarmos o nosso tempo;
penso em R. e nesta busca do tempo perdido.
Entro na cidade. O sol irrompe no interstício de duas nuvens hesitantes. A cidade sai à rua. O piso molhado, com o bater do sol, torna-se tão incandescente que não sei se é a estrada que reflecte o sol ou o sol que reflecte a estrada. Paro no semáforo. Uma emigrante, com ar miserável, pede esmola

- Dá uma dinheiro para filha comer. – esvazio o bolso das moedas para a minha mão.
- Tome. Boa sorte. - eu e deixo-lhe todas as moedas que tenho.
- Mil obrigado. - agradece-me.

e exibe a filha como prova da ruína. Agradece outra vez, naquele português miscigenado com a língua pátria. Olho o semáforo que continua vermelho. Observo uma vez mais a emigrante e, pela primeira vez, reparo no seu olhar:
um olhar vívido, safírico, de esperança que, a despeito da miséria, continua a resistir e a viver, ao contrário dos olhares das pessoas que atravessam a passadeira que, tendo todos os motivos para serem felizes, lastimam-se no olhar vazio, de quebranto, entediante, de seres que vivem alienados da sua existência;
um olhar de uma beleza tão imensa, de uma expressão tão intensa, que todas estas palavras são vãs para defini-lo e creio que nenhuma obra de arte conseguirá representar, não os olhos (isso até seria simples), mas a expressão, a luminosidade e vibração daquele olhar;
um olhar mnemonizável.

4 comentários:

Carlota disse...

O talento aplicado é muito bonito de se ler. Excelente texto, Carlos!
Beijola.

Carlos Malmoro disse...

´Bigado ;)
Beijocas

Sinapse disse...

Encontrando-me de momento sem palavras, e não podendo materializar aqui uma vénia representativa de apreciação e admiração (com perdão para essa pouco harmoniosa aliteração em que incorri) ... resta-me ainda a opção de pegar nas palavras da Carlota e repeti-las assim:
O talento aplicado é muito bonito de se ler. Excelente texto, Carlos!

Carlos Malmoro disse...

Sinapse:
Encontro-me de momento sem palavras...;)