Mnemonizável
Entro em tua casa. As cores claras da mobília dão um ar fresco, leve e simples à casa, paradoxalmente à Cidade das Três Colinas, cinzenta, suja. Trágica. Para ti reservas uma imagem mais sóbria:
mais sóbria no cabelo longo, ondulando em voltas, escuro, como os sombreados que te contornam os olhos castanhos, escolhos tamanhos, em confronto com a candura da tua tez;
mais sóbria no vestido preto, com decote pouco profundo, mas que não oculta a rigidez dos teus seios, colinas dessa outra cidade que és tu.
Cumprimentamo-nos,
- Tudo bem? – eu
- Tudo bem; vai-se vivendo, vai-se sofrendo. E tu? – tu
- Igualmente. Vai-se vivendo, vai-se morrendo – eu.
e reparo no teu perfume: aquele que te ofereci, aquele que nos esculpia o olfacto nas noites de luxúria: se não sabias que vinha, porque o usas?, que boas ... te recorda?. Ofereces café e uísque. Enquanto vais à cozinha, reparo nas estantes dos livros: são maiores, são novas e já estão inchadas: sempre procuraste nos livros uma outra alma dentro da tua própria alma. A estante da partitura está vazia: sempre procuraste na música a seiva dessa outra alma. O violino repousa numa cadeira. Voltas da cozinha com as drogas da sociedade. Peço-te para tocares um pouco. Aceitas. Tocas um trecho de Bach. Puro.Único, como todo o amor. O amor que tento recuperar. Pedes-me que experimente. Tomo o derradeiro trago de uísque e acedo. O uísque é dos bons: não faz arder as gustativas. Pego no instrumento e colocas-te por detrás de mim. Envolves-me o tronco no teu amplexo, para me auxiliares na colocação das mãos. Fazes com que incline a cabeça sobre o violino. Ao sentir as tuas mãos a tocarem na minha pele, a tua pele na minha pele, sinto o apelo inexorável que sentia há quatro anos. O instrumento, que nas tuas mãos tinha vida absoluta, nas minhas, metamorfoseou-se em quatro arames que gritam, que relincham, à passagem das crinas de cavalo. Sorris com prazer. Abres as cortinas de par em par, e sentamo-nos lado a lado. Lá fora, na praça, ante o rio, as pessoas caminham frenéticas: não estão certas da sua demanda e, simultaneamente, atribuem grave importância a cada um dos seus passos. No rio uma ave faz voo oblíquo, com uma asa a rasgar a água, a outra a tocar o céu. Faço-te a minha proposta,
- Queres vir viver comigo? – interrogo
- Tenho trabalho, tenho casa, tenho tudo aqui...- tu
- Não tens amor. - ataco.
olhas-me incrédula, com a face enrugada. Faço-te uma carícia , alivias o semblante e tento convencer-te:
convencer-te de que a ilha em que vivo, perdida no meio do Pacífico, com apenas dois mil habitantes – mil vezes menos que esta cidade - , em termos de qualidade de vida é um paraíso perdido;
convencer-te de que não existe maior coragem que abandonar os portos do conforto e navegar nos mares do momento;
convencer-te de que o passado, presente e futuro não existem nos sentimentos e que, exactamente devido a essa condição humana, amo-te hoje como te amava no passado; amar-te-ei amanhã como hoje te amo;
mais sóbria no cabelo longo, ondulando em voltas, escuro, como os sombreados que te contornam os olhos castanhos, escolhos tamanhos, em confronto com a candura da tua tez;
mais sóbria no vestido preto, com decote pouco profundo, mas que não oculta a rigidez dos teus seios, colinas dessa outra cidade que és tu.
Cumprimentamo-nos,
- Tudo bem? – eu
- Tudo bem; vai-se vivendo, vai-se sofrendo. E tu? – tu
- Igualmente. Vai-se vivendo, vai-se morrendo – eu.
e reparo no teu perfume: aquele que te ofereci, aquele que nos esculpia o olfacto nas noites de luxúria: se não sabias que vinha, porque o usas?, que boas ... te recorda?. Ofereces café e uísque. Enquanto vais à cozinha, reparo nas estantes dos livros: são maiores, são novas e já estão inchadas: sempre procuraste nos livros uma outra alma dentro da tua própria alma. A estante da partitura está vazia: sempre procuraste na música a seiva dessa outra alma. O violino repousa numa cadeira. Voltas da cozinha com as drogas da sociedade. Peço-te para tocares um pouco. Aceitas. Tocas um trecho de Bach. Puro.Único, como todo o amor. O amor que tento recuperar. Pedes-me que experimente. Tomo o derradeiro trago de uísque e acedo. O uísque é dos bons: não faz arder as gustativas. Pego no instrumento e colocas-te por detrás de mim. Envolves-me o tronco no teu amplexo, para me auxiliares na colocação das mãos. Fazes com que incline a cabeça sobre o violino. Ao sentir as tuas mãos a tocarem na minha pele, a tua pele na minha pele, sinto o apelo inexorável que sentia há quatro anos. O instrumento, que nas tuas mãos tinha vida absoluta, nas minhas, metamorfoseou-se em quatro arames que gritam, que relincham, à passagem das crinas de cavalo. Sorris com prazer. Abres as cortinas de par em par, e sentamo-nos lado a lado. Lá fora, na praça, ante o rio, as pessoas caminham frenéticas: não estão certas da sua demanda e, simultaneamente, atribuem grave importância a cada um dos seus passos. No rio uma ave faz voo oblíquo, com uma asa a rasgar a água, a outra a tocar o céu. Faço-te a minha proposta,
- Queres vir viver comigo? – interrogo
- Tenho trabalho, tenho casa, tenho tudo aqui...- tu
- Não tens amor. - ataco.
olhas-me incrédula, com a face enrugada. Faço-te uma carícia , alivias o semblante e tento convencer-te:
convencer-te de que a ilha em que vivo, perdida no meio do Pacífico, com apenas dois mil habitantes – mil vezes menos que esta cidade - , em termos de qualidade de vida é um paraíso perdido;
convencer-te de que não existe maior coragem que abandonar os portos do conforto e navegar nos mares do momento;
convencer-te de que o passado, presente e futuro não existem nos sentimentos e que, exactamente devido a essa condição humana, amo-te hoje como te amava no passado; amar-te-ei amanhã como hoje te amo;
convencer-te de que, no amor, o tempo é um mito

7 comentários:
E se ela te quiser provar que no tempo o amor é um mito?
(Lindo texto! Parabéns)
Beijos
Não tenho dúvidas que no amor o tempo é um mito... Mas este naco de sentimento deixou-me sem fôlego. Bendita musa que assim te inspira :-)
Bjs
É por isto que cá venho todos os dias espreitar. Dalguma forma, saio daqui mais enriquecido. Já agora, de onde o tiraste? (caso seja original teu, peço desculpa pela pergunta. E caso não seja peço desculpa a todos pela ignorância). Meus cumprimentos
Simplesmente lindo.
Mike, não me surpreende este texto ter sido escrito pelo Carlos Malmoro. :)
Eu cá fui convencida! ;)
Gostei muito.
Beijola.
Pitucha,
em ficção, pode-se tentar provar o que nós quisermos ;) Beijocas
Papalagui:
sempre gostei da expressão« naco de prosa». se não fosse por mais, mas claro que é por mais, o meu agradecimento (e da musa ;)) às tuas generosas palavras. Beijocas
Mike,
o original é meu. Por isso, essa parte do «de onde o tiraste»? fica para mim como um enorme elogio...Cumprimentos
Maria,
Fiquei, simplesmente, sem jeito. Obrigado e bons olhos a vejam de novo ;) Beijocas
Carlota,
Embora diga que escrevo aquilo que quero, é sempre bom saber que há pessoas que pensam como nós. Ou melhor, como a nossa ficção ;)
Carlota,
as tuas beijocas...ei-las aqui: beijocas ;)
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