21 maio 2007

Carta aberta a dois leitores

Mike, caro,

Obrigado por este elogio. Só passado um mês lhe agradeço, porque verifiquei no technorati a sua citação. Ajudou-me a confirmar que os leitores que por aqui andam são muito generosos. Levanta a questão de meu blogue ter menos tráfego do que outros que supostamente só abordam temas sexuais. Sei que hoje em dia há sempre mais audiências se se falar de sexo, e de namoros interrompidos, e de tampas, e de recomeços, e de one-night-stands... Os últimos lançamentos editoriais de blogues provam-no. Acontece que, nessas questões, eu sou o tipo mais aborrecido do país. Amo-a. Ponto. Não há lamechice nem qualquer tipo de altivez moral nesta afirmação. Apenas constato a verdade, a minha verdade. E faço questão de frisar que é a minha verdade porque se trata de um blogue pessoal. E eu, a breves dias de fazer trinta e três, não vou mudar para ter mais audiências. Aliás, se por um passe de magia me oferecessem 3000 leitores diários, eu ficava todo contente. Tinham era de me garantir que os trinta que tenho se mantinham. É que são esses que me vão dando o ânimo, que por vezes esmorece, para continuar ao fim quase quatro anos de blogue. Espero que não entenda este discurso como um «pobrezinho mas honrado», que abomino, mas como a assumpção de que um blogue «recheado de qualidade» faz-se essencialmente pela qualidade dos seus leitores. Como é o seu caso e dos outros vinte e nove diariamente por aqui passam.

Caríssima Papalagui,

Obrigado por esta distinção. Honra-me. Não entrei no jogo porque me pareceu injusto. Primeiro, temos a questão da quantidade, mas essa já foi devidamente abordada nesse teu post. Depois, e o mais importante, porque um bom blogue não é só aquele que me faz pensar, mas também aquele que me diverte, que me emociona, que me distrai, que simplesmente está bem escrito e, por vezes, acho-o um bom blogue porque tem um certo ambiente. Finalmente, porque há uma tendência para se votar em blogues que sejam sérios, do sistema. E nem sempre quem tem audiências de milhares e escreve em jornais é sério ou, por outras palavras, «faz pensar» pelas razões correctas. Desmistifico metaforizando: por altura da polémica sobre Salazar, houve tantos disparates técnicos na abordagem aos assuntos económicos, leviandades de quem não percebe nada do que está a dizer, confusões entre conceitos económicos distintos, mentiras, mesmo, ditos nesses blogues para justificar a «genialidade» económica do homem que fez com que eu deixasse de ler certos opinion-makers. Repara, não se tratava de, perante um copo a meio, afirmar que ele está meio cheio ou meio vazio. Isso é uma questão de perspectiva e nada tem de mal. Era perante um copo vazio, afirmar-se que ele estava cheio. E isso já não é opinião, é desonestidade intelectual.
É certo que no outro blogue onde somos colegas entrei no jogo. Aqueles em que votei foram blogues do «sistema» que eu acho interessantes. Mas também é bom lembrar que estávamos condicionados à partida pelo regulamento interno, caso contrário teria votado, com muito mais propriedade, no teu.
O meu profundo e sincero obrigado aos dois.

Carlos Malmoro

8 comentários:

cristina disse...

«se por um passe de magia me oferecessem 3000 leitores diários, eu ficava todo contente. Tinham era de me garantir que os trinta que tenho se mantinham.»

- Que bonito! :) Tu tens jeito para estas coisas... A gente sente-se importante! ;)

«um bom blogue não é só aquele que me faz pensar, mas também aquele que me diverte, que me emociona, que me distrai, que simplesmente está bem escrito e, por vezes, acho-o um bom blogue porque tem um certo ambiente»

- Mas a ideia não é distinguir bons blogs, é destacar blogs que fazem pensar. O que elimina à partida - sem desmerecer de modo algum!!! - os tais blogs que "apenas" divertem, emocionam, estão bem escritos ou têm bom ambiente. É um bom exercício! Devias tentar :)

Carlota disse...

Neste teu post, bem arrumadinhas no meio de muitas outras, e também boas, estão duas singelas afirmações que me puseram o coração aos saltos. Espero que a ela também.
:)

Mike disse...

Como não tenho capacidade de dizer nada de interessante sobre este post, deixo aqui, mais uma vez, a minha admiração pelo blog ou pelo autor do blog, não sei bem, porque no fundo o blog é aquilo que o autor quer que ele seja. E este autor quer que o seu blog seja bom! Quanto ao texto em si, mesmo mesmo sem comentários.
Obrigado!

Leonor disse...

Estão a ver porque elegi o Carlos? Não pelos elogios, que muito me babam e honram, me deixam sem fala aqui perdida no teclado à procura das palavras certas, mas porque escreve bem, de forma escorreita e me faz sempre pensar.
Beijos

Aliás, há uma coisa que nunca te agradeci, a ti e à Carlota, vocês sabem o que é... Obrigada e beijos aos dois

Carlos Malmoro disse...

Cristina,
Já tentei lá «na outra banda» ;)
Beijocas

Carlota,
Vou perguntar-lhe, mas sei de antemão que sim. Presságios ;)
Beijocas

Mike,
Podes não dizer nada de interessante sobre este post, mas o que tu escreves é bastante interessante. Portanto, a falta de capacidade é uma carta fora do baralho ;)
Abraço

Papalagui,
Espero que não seja o «pensar» na vertente filosófica do termo. Caso contrário, adormecias.:) Mas, um dia, ainda hei-de falar sobre metafísica e sobre a problemática do «Eu» e do «Outro». Ou talvez não;)
Beijocas

'Bigada a tod@s

Leonor disse...

E quantos outros são um Eu? Eu cá sou muit@s ;-)

Anónimo disse...

Eu sou uma dessas 30 que tem o prazer de "te ler". Ainda bem que não és mais um a contar histórinhas e sais com a deixa. "Sou o tipo mais aborrecido do país. Amo-a. Ponto" Meu caro, grande homem, és tudo menos aborrecido.
Não é mais um elogio gratuito.

Ass:PIPA

Carlos Malmoro disse...

Papalagui,
Gémeos são gémeos ;)
Beijocas

PIPA,
agradeço a sua preferência. Este blogue também é feito de e para leitores/as anónim@s que regularmente o visitam.