06 outubro 2007

Os "oitenta"

Advertência: este post só será inteiramente entendido pelo grupo etário 30/45
Se há uma característica genérica da música dos anos 80 é que ela tinha sempre algo de muito bom e algo de muito mau. Comecemos pelo mau. O excessivo uso de sintetizadores/electrónica: havia grupos que tinham guitarras eléctricas, normais, mas que faziam questão de pôr os sintetizadores, normalmente com dois ou três pisos, alinhados em L, a fazer os sons da mesma guitarra. E depois, já se sabe, vinha aquele som que parecia que o amplificador da guitarra estava abafado dentro de água aos soluços. Os telediscos eram inundados por um êxtase cromático, berrante, no limiar da alucinação, as mulheres usavam sempre franjinha e dançavam de forma estranha, para não dizer mesmo muito mal, e os homens cantavam em falsete e muito mal dançavam. Ambos vestiam-se como, vamos ser meiguinhos, broncos: homens com jeans apertados a realçarem rabos e genitais (meu deus, que traumas), mulheres com blusões de couro sobre blusas brancas com os necessários botões desapertados para se vislumbrar uma centelha das mamocas (meu deus, que fantasias).
Depois a parte boa. A música, a despeito da electrónica, era sempre baseada numa linha melódica forte, que entrava facilmente no ouvido, e tinha bons beats, que dava para a pista de dança. Aliás, esta característica, a presença de um beat forte que dê para a disco, está a ser recuperada pelas bandas de pop/rock emergentes, de onde destaco os Bloc Party, para tornearem a dificuldade que o instrumento rei do rock, a guitarra, tem em conseguir um bom ritmo. Mas voltemos aos 80's. As letras: gostava, e gosto, de muitas das letras dessa época. Têm um travo agridoce, uma melancolia suave e uma nostalgia assumida que as tornam inesquecíveis. Exemplifico com o "Forever Young" dos Alphaville, o "Hunting High and Low", dos Ah-a, "True Faith", dos New Order (no video abaixo, uma das minhas favoritas).
Se retirarmos algum kitsch, a encenação com demasiado pathos ou o modo como certos arranjos eram feitos, com mais tecnologia do que uma central nuclear, e nos basearmos no essencial da música - a melodia, o ritmo e a letra - os anos oitenta foram excelentes. Basta ter ouvido para escutar para além do sintetizador.
Carlos Malmoro
PS: Uma confissão: este post foi feito muito "por culpa" de um senhor chamado "Tarzanboy", que mantém um blog, com a bonita idade de quatro anos, onde se dedica a saber por onde andam hoje os heróis musicais dos anos oitenta. É muito bem escrito, actualizado com bastante regularidade, e tem aquela pontinha de humor que cai bem em qualquer texto. Convido-vos a visitá-lo no dear 80's.

6 comentários:

Mike disse...

Carlos Malmoro,

Tenho exactamente 30 anos. Comecei a ouvir música por influência da minha irmã (que é mais velha 7 anos). Obviamente que apanhei com tudo de bom que ela ouvia, como os New Order, e tudo de mau, como Wham.
Salvaguardando as devidas distâncias na qualidade da escrita (que, como sabes, eu não conseguiria manter), este texto poderia ter sido um texto feito por mim. Revejo-me plenamente nesta tua opinião e abordagem à música dos 80's.

Um abraço.

Carlos Malmoro disse...

És um dos "nossos" ;)

Abraço

125_azul disse...

E eu 45... Conheces a rádio M80? Deves conhecer, mas vale a pena, só passa música dos anos 70, 80 e 90. Ou seja, é para nós...
Beijinhos, semana feliz

Carlos Malmoro disse...

Ora, outra das «nossas». Conheço essa rádio, mas não consigo ouvir durante muito tempo. Como acima digo, os anos oitenta podem ser muito bons, mas também podem ser muito maus...;)

Beijocas

Anónimo disse...

Gostei muito do texto. E obrigado pela referência.

Sinapse disse...

Grande texto!! (comentário emitido do alto dos meus 34) ;)