Pai
Deveria eu ter quatro ou cinco anos quando o meu pai me levou a casa de um amigo. O amigo era advogado, tinha uma biblioteca exemplarmente encadernada e a razão da visita prendia-se com uma oferta de livros. Melhor, o amigo precisava de se ver livre de uns quantos livros. A casa ia encolher, a mulher para um lado, ele para o outro e se não os oferecesse, iriam directamente para o lixo. Enfim, bookcrossing nos anos 70. O meu pai pôs-lhe uma condição: assim como ele nunca lhe oferecera nenhum livro de farmácia, também tu não me vais oferecer nenhum livro de Direito. A condição, uma daquelas tricas que a amizade permite, lá foi aceite.
Entrámos em casa do jurista e eles começaram a falar. Eu já aqui disse que tinha uma predilecção por estantes até ao tecto. Aquelas não chegavam tão alto, mas a encadernação sumptuosa dos livros transformavam aquela pequena sala numa grandiosa biblioteca. A escolha dos livros foi feita e o meu pai e o amigo encheram dois ou três caixotes com livros e levaram-nos até ao carro. Via-se na cara dele que ele estava a fazer aquilo por obrigação: o desconsolo era o seu rosto. Antes de se despedirem, o meu pai teve uma daquelas tiradas meio cinematográficas, mas que ilustram bem o que é a amizade: -Quero que saibas que estes livros serão sempre teus; estarão na minha casa apenas por empréstimo.
Para quebrar este momento solene e extraordinário, entra um puto na sala, eu, com ares de senhorio, a dizer «ó pai, eu também quero um», com a habitual chantagem lacrimal. Riem-se com bonomia e oferecem-me um livro. E já viram algum miúdo de quatro ou cinco anos ficar satisfeito com a primeira coisa que lhe dão? Exacto, «mas eu quero aquele e não este.» «Este ou nenhum» deve o meu pai ter dito. E eu lá fui para casa com “o” livro.
“O” livro está aqui ao meu lado. Foi publicado em 1957, é da «Editora Fundo de Cultura», do Brasil, tem como director editorial Mário de Moura e como autor John M. Keynes e chama-se «Teoria Geral do Emprego, do Juro e do Dinheiro». É, para quem é leigo nestas matérias, a Bíblia da Macroeconomia (Economia dos Estados). Está aqui ao meu lado, porque ainda ontem precisei de o consultar para a tese, assim como o consultei pela primeira vez no nono ano, aquando dos meus primeiros estudos de economia.
Neste dia do Pai, para além dos desejos habituais de saúde e felicidade, tenho um outro pedido: que a prenda que hoje lhe ofereci se revele tão acertada e tão necessária para a vida dele como este livro tem sido para a minha.
Entrámos em casa do jurista e eles começaram a falar. Eu já aqui disse que tinha uma predilecção por estantes até ao tecto. Aquelas não chegavam tão alto, mas a encadernação sumptuosa dos livros transformavam aquela pequena sala numa grandiosa biblioteca. A escolha dos livros foi feita e o meu pai e o amigo encheram dois ou três caixotes com livros e levaram-nos até ao carro. Via-se na cara dele que ele estava a fazer aquilo por obrigação: o desconsolo era o seu rosto. Antes de se despedirem, o meu pai teve uma daquelas tiradas meio cinematográficas, mas que ilustram bem o que é a amizade: -Quero que saibas que estes livros serão sempre teus; estarão na minha casa apenas por empréstimo.
Para quebrar este momento solene e extraordinário, entra um puto na sala, eu, com ares de senhorio, a dizer «ó pai, eu também quero um», com a habitual chantagem lacrimal. Riem-se com bonomia e oferecem-me um livro. E já viram algum miúdo de quatro ou cinco anos ficar satisfeito com a primeira coisa que lhe dão? Exacto, «mas eu quero aquele e não este.» «Este ou nenhum» deve o meu pai ter dito. E eu lá fui para casa com “o” livro.
“O” livro está aqui ao meu lado. Foi publicado em 1957, é da «Editora Fundo de Cultura», do Brasil, tem como director editorial Mário de Moura e como autor John M. Keynes e chama-se «Teoria Geral do Emprego, do Juro e do Dinheiro». É, para quem é leigo nestas matérias, a Bíblia da Macroeconomia (Economia dos Estados). Está aqui ao meu lado, porque ainda ontem precisei de o consultar para a tese, assim como o consultei pela primeira vez no nono ano, aquando dos meus primeiros estudos de economia.
Neste dia do Pai, para além dos desejos habituais de saúde e felicidade, tenho um outro pedido: que a prenda que hoje lhe ofereci se revele tão acertada e tão necessária para a vida dele como este livro tem sido para a minha.
Carlos Malmoro

2 comentários:
Oh Carlos =)
As voltas que a vida dá, é bonito|
"...estantes até ao tecto..." ando em medições há semanas, decididíssima a finalmente ter estantes até ao tecto. :D
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