Os Nus de Spencer Tunick
Spencer Tunick, o nova-iorquino que costuma fotografar centenas (ou mesmo milhares) de pessoas em nu integral, nos centros das mais variadas urbes, decidiu-se, neste passado sábado, fazer uma incursão na cidade de Santa Maria da Feira.
No início, as sessões fotográficas de Tunick desfrutavam de uma carga revolucionária, naquele sentido em que importavam para a arte a celebração do corpo enquanto massa, enquanto população, enquanto um conjunto de paredes sem pintura que interagiam com as peles cínzeas dos edifícios citadinos. Até então, a arte apenas tinha descrito, interpretado e meditado sobre o corpo humano nu, enquanto indivíduo, enquanto ser único e uno, belo na sua exclusividade e distinto na sua singularidade.
Hoje, as sessões de Tunick apenas se assemelham a uma provocaçãozita, uma vez que já perderam o sentido de novidade e do espírito de motim moral da arte, para se transformarem em acontecimentos inconsequentes e com um forte travo a linha de montagem. A melhor prova daquilo que acabo de afirmar é a reacção dos moralistas, nas cidades que Tunick visita: já não se indignam; antes ridicularizam as sessões.
Uma das condições que distingue um artista de um charlatão provocador é que o primeiro sabe reconhecer o esgotamento de um tema e, a partir daí, regressar ao ponto de partida para desenvolver uma nova ideia - ou, utilizando a mesma ideia, alterar o conceito subjacente. Spencer Tunick está a uns breves centímetros de cruzar a linha: um artista estagnado não é um artista; é um empregado.
Carlos Malmoro

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