16 setembro 2003

Os Nus de Spencer Tunick

Spencer Tunick, o nova-iorquino que costuma fotografar centenas (ou mesmo milhares) de pessoas em nu integral, nos centros das mais variadas urbes, decidiu-se, neste passado sábado, fazer uma incursão na cidade de Santa Maria da Feira.

No iní­cio, as sessões fotográficas de Tunick desfrutavam de uma carga revolucionária, naquele sentido em que importavam para a arte a celebração do corpo enquanto massa, enquanto população, enquanto um conjunto de paredes sem pintura que interagiam com as peles cínzeas dos edifí­cios citadinos. Até então, a arte apenas tinha descrito, interpretado e meditado sobre o corpo humano nu, enquanto indiví­duo, enquanto ser único e uno, belo na sua exclusividade e distinto na sua singularidade.

Hoje, as sessões de Tunick apenas se assemelham a uma provocaçãozita, uma vez que já perderam o sentido de novidade e do espí­rito de motim moral da arte, para se transformarem em acontecimentos inconsequentes e com um forte travo a linha de montagem. A melhor prova daquilo que acabo de afirmar é a reacção dos moralistas, nas cidades que Tunick visita: já não se indignam; antes ridicularizam as sessões.

Uma das condições que distingue um artista de um charlatão provocador é que o primeiro sabe reconhecer o esgotamento de um tema e, a partir daí, regressar ao ponto de partida para desenvolver uma nova ideia - ou, utilizando a mesma ideia, alterar o conceito subjacente. Spencer Tunick está a uns breves centímetros de cruzar a linha: um artista estagnado não é um artista; é um empregado.
Carlos Malmoro

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