O imperscrutável peso da vida
“Húmus”, de Raúl Brandão é, antes de mais, um romance completo. Afirmo-o com a convicção de quem leu um romance de amplitudes incomensuráveis, em que, por exemplo, existe uma personagem com tanta ternura e inocência, Joana, que várias vezes acercou-se do meu pensamento a “Joaninha dos olhos verdes” das “Viagens...”, de Almeida Garrett., mas em concomitância fatídica com as angústias existenciais do Homem - Deus, a Vida, a Morte, o Bem, o Mal - bem como, com toda a incompreensão para com os absurdos endógenos à sua existência.
Um livro que se inicia com esta frase: «Ouço sempre o mesmo ruído de morte que devagar rói e persiste.», e termina com este apelo: «É preciso matar segunda vez os mortos.», nunca seria, por certo, um livro despiciendo . Porém, raras ou nenhumas vezes, no século passado, um livro conseguiu ser tão inovador no conteúdo, tão revolucionário nas formas narrativas e tão inventivo estética, estilística e metaforicamente como este “Húmus” o foi na época em que foi lançado (1917).
Com uma estrutura diarística, o romance tem como espaço uma vila, condensada em meia dúzia de personagens de carácteres esbatidos, que decadentemente aceitam os preceitos estabelecidos, mas que se transfiguram noutras personagens, através da introdução da técnica narrativa do jogo de espelhos. O tempo narrativo é entrecortado por «viagens» pela alma humana, primordialmente nos capítulos apelidados de «Os Papéis do Gabiru» - tendo em linha de conta que “Gabiru” não é mais que um alter-ego do Autor. Não existe linearidade narrativa, mas sim a descontinuidade, sendo este um dos pontos que iria revolucionar estilisticamente o romance moderno, assim como as temáticas de índole existencial que preenchem o romance tornam-no em percursor do Existencialismo (passe o leve anacronismo, pois, segundo as Convenções, o Existencialismo só foi fundado por Sartre, com “A Náusea”, e este livro só foi publicado em 1938).
O ponto forte do livro, se bem que não existam pontos realmente fracos, é a simplicidade genial e mesmo aterradora com que Raúl Brandão desnuda a alma humana: «Pior que sofrer – é não sofrer – para sempre. É nunca mais sentir (...) é o silêncio absoluto». Depois: «Para ele tanto vale um segundo como um século...Que outra coisa fizeste senão esperar a morte?», «Ver para não ver, ouvir para não ouvir, viver para morrer». Mais, e acerca das personagens de fachada da vila: «O que lhes custa mais perder não é a vida, são os hábitos(...), a outra existência falsa acabou por os dominar».
Ao longo de todo o texto, o autor revela-nos, de modo singular, a precariedade da nossa existência: «Se a vida é um momento entre o nada e o nada, o que vale a pena é aproveitá-lo», «O problema capital da vida é a morte», «A vida gera morte – a morte gera vida» ou «Nunca o acaso viu nada tão monstruoso e tão grotesco como a isto que se chama vida». Do mesmo modo, o livro problematiza as temáticas metafísicas nos moldes que penso que elas devem ser colocadas: a existência – ou não existência - de Deus nas nossas consciências tolda-nos os actos: «Se Deus não existe não há força que me detenha. Não há palavras, nem regras, nem leis. Tudo é permitido», «Se Deus existe, eu sou um homem – Se Deus não existe eu sou em homem completamente diferente». Continuando ainda nestas questões intrínsecas da existência, Raúl Brandão sublinha também a dimensão volátil da alma: «A alma (...) é exterior: envolve e impregna o corpo como um fluído envolve a matéria.», para, no seguimento lógico, concluir: «O amor não é senão a impregnação desses fluídos, formando uma só alma, como o ódio é a repulsão dessa névoa sensível.» Ou seja, a alma é uma campo de forças que ora atrai as outras almas, e nesse caso emana amor, ou rejeita essas mesmas almas, e nesse outro caso, desperta ódios.
O livro é todo ele um tratado exemplarmente bem conseguido: a matiz decadente da Vila, que se confunde com a Vida: «A Vila é um simulacro. Melhor: a Vida é um simulacro», «...aqui se enterram os sonhos», o murmúrio perene das personagens fantasmagóricas: «O nada à espera...», «- A Religião sem Inferno está perdida», «O mundo é feito de dor – a Vida é feita de ternura», «O que eu sinto é não haver dor eterna (...) o Inferno em lugar do Nada»; e, principalmente, a inenarrável falibilidade do Indivíduo: «Eu sou um desconhecido para mim mesmo.», «Ninguém quer achar-se frente a frente com o seu próprio fantasma,...», «Não me compreendo nem compreendo os outros...», «Cada vez fujo mais de olhar para dentro de mim mesmo. «É só sonho, é sonho estreme e dor estreme», «Eu sou os mortos...»; mas onde também existe lugar para a esperança, para os matizes oníricos e feéricos: «Mas o Inverno é sonho (...) sob esta casca ressequida está uma Primavera intacta.», Ser só e livre e encontrar-me..., que alegria frenética.», «O único mundo real é o mundo irreal.», «O sonho completo é o Universo realizado», «A vida é muito maior pelo sonho do que pela realidade.»; enfim, todo o livro consubstancia as múltiplas alusões e ilusões que per correm todas as densidades da Existência e do Espírito Humano, num livro que embora escrito em 1917, se mantém actual e actuante, fruto da forma sábia e precoce como foram desenvolvidas as temáticas constantes deste precioso volume.
Em resumo: qualquer romancista existencialista não desdenharia ter chancelado este texto, uma vez que nele, não se utilizam as fórmulas mais folclóricas do Existencialismo – e que acabaram por causticá-lo (do género: «....porque eu existo, existo como todas as coisas do céu e da terra, como os animais e as árvores, etc...), mas vai até ao âmago da Existência Humana, numa viagem inclemente, alucinante e perturbadora, porém reveladora, quer da eviternidade da vida enquanto sonho, quer do imperscrutável peso da vida enquanto morte.
O maior elogio que posso fazer a este livro é que fiquei a conhecer-me um pouco melhor.
Autor: Raúl Brandão
Título: Húmus
Género: Romance
Páginas: 222
Classificação 5 / 5
Carlos Malmoro

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