Avaliação de professores I
«(…)eu tenho adoração pelas crianças. O meu grande sonho desde sempre é ter uma espécie de herdade com um espaço enorme onde pudesse recolher todas as crianças de rua, maltratadas, desprezadas por este ciclo vicioso e por estes adultos que já foram crianças e que, infelizmente, esqueceram o que é ter sonhos e a alma carregada de esperança. Nesse sítio, daria às crianças tudo o que necessitavam: médicos, assistentes sociais, psiquiatras, psicólogos, pedagogos, educadores e eu para lhes dar tudo de mim. Porque sei que até o puto mais rebelde, mais "selvagem" se for bem orientado, no futuro tornar-se-á um exemplo de homem e que contribuirá para o bem da sociedade.(...)
Haverá algo mais mágico do que acordar, abrir a janela para a vida e saber que tudo o que fazemos é o mais correcto, o mais acertado e sem exigir nada em troca? Não há, mesmo quando me dizem que sonho muito ou que sozinha não posso mudar o mundo. Mas sei que se tivesse muito dinheiro ou alguém que depositasse total confiança em mim, que uma diferença começava a partir do momento em que tivesse nos braços uma criança de rua e todas as condições necessárias.
Lembro-me de aos 18 anos, já em P., numa aula, um professor perguntar o que queríamos da vida. Enquanto muitos ou quase todos diziam que queriam casas, carros, marido ou mulher, etc, a tonta da F. disse o que acabei de escrever e de o professor ficar de boca aberta a olhar para mim. É claro que também fui alvo de chacota por parte de alguns colegas:"Estás armada em Madre Teresa? Preocupa-te mas é contigo." Mas não consigo.
Em miúda a minha mãe ia aos arames comigo quando aparecia em casa à hora do almoço com colegas sem avisar, por saber que não tinham quase nada para comer, fora as vezes que gastava dinheiro para lhes dar coisas. Sempre fui assim e também não quero mudar. Daí estar na profissão indicada, por estar em contacto diário com todo o tipo de crianças. E enquanto não puder ter o que mais quero, dedico-me a quem tenho à minha frente.
Antes de ser professora, sou pessoa e não me envergonho de ter feito o que já fiz, de ter levado pequenos-almoços a alunos, de os ter aos fins-de-semana em minha casa, de deixar de dar aulas para os ouvir, de rir e chorar com eles e de saber que deposito muita esperança nos adultos de alguns irão ser. Tenho perfeita noção que ao ter estas atitudes, estou a ir contra as grandes pedagogias educacionais mas não me vejo apenas como alguém que despeja a matéria aos alunos, mesmo sendo olhada de lado por colegas. Mas sinto-me tão preenchida que tudo o que possam dizer, é-me indiferente. »
Isto é um excerto de um mail que me foi enviado pela minha amiga F., professora em Coimbra e Leiria. Ela vai começar a ser avaliada pelos pais dos alunos. Os mesmos pais que permitem que as crianças tenham necessidades básicas, que não a conseguem dialogar com os filhos, (senão a F. não necessitaria de os escutar e de rir e de chorar com eles.) Que avaliação é que F. irá ter por parte destes pais que não olham com um mínimo de dignidade, nem dão a mais elementar atenção aos seus próprios filhos?
Carlos Malmoro
PS: Orgulho-me de ser amigo e da pessoa que F. é. E só desejo que os meus filhos sejam educados por professores como a F.

1 comentário:
Eu acho que esta intenção de pôr os pais a fazerem de nós uma apreciação vai cair pela base e mostrar claramente o abandono a que devotam os seus filhos. É arrepiante como os miúdos são carenciados, como precisam da nossa atenção e "colinho". Se os pais não querem saber dos filhos, como é que vão sequer dar-se ao trabalho de aparecer na escola para fazer uma apreciação dos professores?
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