02 junho 2006

Avaliação de Professores II

Existe uma certeza: os professores, como todos os outros profissionais, devem ser avaliados. Porém, há uma série de equívocos em toda esta história. Partindo de um pressuposto primário - avaliar significa fazer um juízo - como pode um pai ajuizar com isenção quando constitui uma parte interessada?

Depois, o outro equívoco: avaliar com objectividade. Um exemplo simples de como esta teoria é falível: um professor passa todos os alunos com dezoito. Nas provas nacionais têm a mesma nota. Outro aprova outra turma com doze, e nas provas nacionais também tiram doze. O primeiro professor é melhor que o segundo? E se os alunos de dezoito tivessem sido sempre alunos de dezoito e os da segunda turma sempre foram alunos de dez, mas nesse ano, fruto do ensino do professor, tivessem subido a nota em dois valores?

Finalmente, quem deve avaliar os professores? Como já ficou demonstrado em cima, não penso que os pais constituam bons avaliadores. Quer por serem parte interessada, quer por muitos portugueses não terem a formação necessária para o fazer. Também não penso que o ministério seja boa solução: quanto melhor forem as notas e o aproveitamento, melhores as estatísticas da UE, OCDE, etc, sobre o ensino português. Logo, melhor propaganda para o Governo (seja ele qual for). Por outro lado, os sindicatos atribuem nota vinte em piloto automático a todos os seus associados, excepto àqueles com uma cor política diferente da sua. Uma última hipótese: os professores avaliarem-se a eles mesmos. Mas lá voltaríamos nós ao velho, mas correctíssimo, pressuposto de que ninguém é bom juiz em causa própria.

Não tenho soluções. Mesmo que as tivesse, sei que existe gente muito mais abalizada para as encontrar. Apenas sei que avaliar professores pelos pais, os mesmos pais que cada vez mais utilizam a escola como depósito dos filhos, é um dos princípios do fim da escola que ensina alunos e forma cidadãos.
Carlos Malmoro

3 comentários:

Pitucha disse...

O mote deste século é "avaliai-vos uns aos outros"!
E depois quem avalia o avaliador?
estão lançadas as bases para a criação do deus avaliador...
Beijos

Carlos Malmoro disse...

Lindo comment.Espectacular Se me permites, vai para post.

Leonor disse...

Eu sou professora e, como a todos os meus colegas, esta revisão dos Estatutos não me sai da cabeça. Na verdade, acho que o ensino deve levar uma volta mas o que me entristece é que o que move o governo é apenas apresentar melhores resultados em consequência dos estudos de PISA e, portanto, tudo vale, nomeadamente humilhar os professores, culpando-os do insucesso dos alunos. Por outro lado, não me revejo minimamente no que os sindicatos dizem. Acho por exemplo que esta revisão devia também chegar ao Superior, de onde vieram a Ministra e o Secretário de Estado. Se esses nos vierem avaliar é a desgraça. Fui professora durante seis anos numa universidade, bem vi como era...