A Nossa Guerra Civil
É triste. É mesmo muito triste. Hoje visitei a Galiza. Dentro da Galiza, conduzi cerca de quatrocentos quilómetros. Não houve uma travagem mais puxada, não houve uma acelaração mais brusca. Os carros conduziam na auto-estrada a 100/130, a rolar com a calma e a segurança que um carro normal proporciona neste tipo de vias. Nas estradas nacionais, não vi nenhum espertalhaço a fazer manobras perigosas. Dentro das cidades marítimas, densamente povoadas por íncolas à procura de um banho, vi respeito pelas prioridades e educação na busca do almejado - e raro - lugar de estacionamento.
E depois, começou o descalabro: em Baiona, no parque de estacionamento subterrâneo, dois carros fazem corridas, com travagens bruscas e acelerações com pneus a chiar. Olho para a matrícula: dois carros portugueses. Entro em Portugal, através da ponte de Valença. Uma senhora que estava na faixa de aceleração ao meu lado direito, força a entrada na auto estrada, como se fosse eu a ter que lhe dar a prioridade. Foi uma manobra bastante apertada. Conclusão: eu e ela acabámos com os carros quase parados em plena A3. Passados cinco quilómetros, na mesma A3, mantendo eu a velocidade de 130, ou seja, já para além do limite, sou ultrapassado pela direita por dois carros com cerca de quinze anos a uma velocidade tal que o meu carro parecia estar parado. Ou seja, tive a certeza que estava novamente a conduzir em território português.
Não sei a que se deve esta diferença de comportamentos. Se me dissessem que a Galiza se situava a três mil quilómetros daqui, eu até percebia esta mudança de atitudes ao volante. Mas não: é um povo separado de nós por um rio, que tem um parque automóvel semelhante ao nosso e com estradas em tudo iguais às nossas.
Então, por que razão existe esta abismal diferença entre ordem e selvajaria? Eu não sei responder. Sei apenas que é triste. É demasiadamente triste para ser verdade. E é realmente triste por ser verdade.
Carlos Malmoro
PS: Para não falar só da miséria portuguesa, falemos também da riqueza de um senhor português que se estabeleceu em Baiona, com a sua família, e que administra um conceito interessantíssimo: tapas-libros. Se passarem por lá visitem: come-se bem, pessoas simpáticas, e tem livros, jornais e internet à disposição.

9 comentários:
(Comments testing)
Pois. Que dizer?...
Olha, já fiz um post sobre essa matéria.
Se quiseres dar-te ao trabalho de o (re)ler, resume o que penso sobre o assunto.
:)
Beijola.
Carlota, já li. Está um excelente post. Mas eu continuo a perguntar: como é que é possível esta diferença de condução entre as duas margens do rio minho? Eu relaciono-me diariamente com galegos, faço negócios com eles, tenho alguns amigos lá. Em nada diferem de um português. Excepto nisto: quando vou à porta do escritório despedir-me, 90% dos portugueses arrancam com o carro como se não houvesse amanhã.
Bjokas
É incrivel, não é? A diferença de civismo é abismal. Gostei da sugestão de Baiona - vou lá tantas vezes e não conhecia - da próxima experimentarei. Beijo
Também tive a oportunidade de conhecer o Tapa-livros. Neste estabelecimento, sobre uma mesa encontrei uma revista dedicada ao Prémio Nobel de Literatura 1998, José Saramago, e um livro sobre o Fado. Na parede pude ver um retrato de Fernando Pessoa. E gostei de ser atendida por um senhor Português.
Bjs
Basta ver que a mortalidade nas estradas é um dos pontos em que Portugal não está na causa da Europa.
Continuo a achar que não tem a ver com os carros, as estradas ou qualquer outra coisa que não seja o civísmo e a educação.
O nosso povo é em geral "saloio" e muito pouco civilizado. Morrem na estrada, mas por alguma razão isso parece não ser problema...
ups...onde se lê "causa", deve estar "cauda"...
Não encontro resposta à tua pergunta... :(
Beijola.
Monalisa:
Antes de mais, boas férias, vizinha. E é também por seres vizinha, e visitares frequentemente a Galiza, que deves entender o que pretendo dizer com este post.
Bj
Maria:
Um senhor português muito simpático. E faz umas tapas mais simpáticas ainda ;)
Bjs
Tiago:
O que tu dizes, o que eu digo, o que milhares de pessoas dizem em relação a este assunto é semelhante. Falta-nos saber é quando é que isto dá uma volta de 180º
Abraço
Carlota
Infelizmente, também me parece que ninguém em Portugal a saiba. Ou sabemos todos e não agimos...
Bjoka
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