28 julho 2006

O Caminho

Imaginem uma rotunda com seis saídas. Imaginem a rotunda com carros apressados e condutores stressados. Imaginem que uma das saídas dessa rotunda é Viana do Castelo. Imaginem que a placa indicativa dessa saída está deslocada. Imaginem que ela apontava para a terceira saída quando deveria apontar para a quarta. Parem de imaginar e façam uma imagem global com estas imaginações.
Voltem a imaginar um carro a deslocar-se mais lentamente que todos os outros. Imaginem - esta não é difícil de imaginar - que o condutor leva um valente coro de buzinadelas em Dó Maior. Imaginem esse carro a abrir pisca e a encostar. Imaginem que sai de lá um homem com cerca de sessenta anos. Imaginem que, a despeito de toda aquela correria, ele atravessa pausadamente a passadeira. Imaginem que esse mesmo senhor entra na parte central da rotunda relvada. Imaginem o homem a esticar-se. Parem de imaginar. Façam uma nova imagem global com estas imaginações
Voltem às imaginações com um senhor que, no centro da rotunda, se aproxima da tal placa indicativa. Imaginem que esse senhor muda o sentido da placa: da terceira para a quarta saída. Imaginem que ele volta ao carro no mesmo ar compassado e com a certeza que acabou de fazer um grande gesto.
O que vos pedi para imaginar, eu não tenho de o fazer: assisti a esta situação, hoje mesmo, por volta das onze da manhã. Como se chamava ele, não o sei, mas a minha imaginação diz que tem «Esperança» no nome. Porque, o que este senhor realmente fez, foi indicar ao Portugal desleixado o caminho para o Portugal civilizado.
Carlos Malmoro

4 comentários:

desculpeqqc disse...

Esse senhor é o meu idolo.
Eu (pelo contrário) sinto a falta de uma bazuca no carro, para ir 'varrendo' a sinalética que por aí anda.

Leonor disse...

Belíssimo texto!

125_azul disse...

Li primeiro o texto do terceiro aniversário do Caixa e não comentei porque não consegui abrir a caixa de comentários. Tentarei para te dar um beijinho de parabéns.

Mas fica já aqui o agradecimento pelo texto perfeito para o post perfeito. Foi este. Conseguiste!

Não te leio há 3 anos, não te conhecia. Tenho tanta pena, devo ter perdido tantos textos perfeitos!

Beijinhos.

Carlos Malmoro disse...

lfm:

É uma hipótese de trabalho como outra qualquer...abraço.

Papalagui:

Obrigado. Bjokas

125_azul:

Tens aí os arquivos. Os textos estão lá todos. Mas tu nem penses em os ler: 400 e tal post's...nunca mais saías daqui e há coisas bem mais interessantes na vida para fazer ;) Bjokas