28 julho 2006

Semi-Divindades em Linha Recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?

(...)

Álvaro de Campos - Poema em Linha Recta
Basicamente, isto é o que sinto quando me chamam à atenção por um erro de um cêntimo numa folha de cálculo com onze fórmulas e um valor total e 131.734,65€. Arre. Ou, dasse...
Carlos Malmoro

4 comentários:

Pitucha disse...

Um erro de um cêntimo? Não sei se te admire mais por só teres feito um erro de um cêntimo se por teres descoberto um erro de um cêntimo!

Admito, tenho uma relação complicada com os números. Ou eles comigo, sei lá!
Beijos

125_azul disse...

BOLAS tracinho SE!!! Também sinto isso, a desgraça é que os meus erros são sempre maiores que um cêntimo... Beijinhos MUITO solidários e já agora, como se faz uma conta com ONZE fórmulas? Eu nem sabia que isso era possível...existem Onze fórmulas? Diferentes?, nem te dês ao trabalho de tentar explicar, eu jamais compreenderia! Semideusa, eu? Queria...

Leonor disse...

Este texto do Pessoa é dos meus preferidos e concordo plenamente, além de ti, que o confessas agora, e de mim que o penso algumas vezes, poucas são as pessoas que levaram porrada...

Carlos Malmoro disse...

Pitucha:
Quem descobriu o erro foi um colega de trabalho que me chamou a atenção (do género: como é possível tanto desleixo?!?). O mesmo colega de trabalho que utiliza as fórmulas que eu faço para não ter que passar dias inteiros enfiados num computador a fazer contas. Há gente assim: «grata». Bjokas

Papalagui:
eu acho, neste mundo de aparências, que apenas são poucas as pessoas que confessam levar porrada. O que é bastante diferente
Bjokas

125_azul:
Onze fórmulas: é possível, e muitas mais, em contabilidade analítica. Bjokas