13 março 2007

Mnemonizável

Pensas um minuto em silêncio. Passas as mãos pelos braços, como se sentisses calafrios. Reparo na expressividade das tuas mãos: igual à de todas as palavras jamais ditas. Acendes um cigarro

- Lisonjeada, mas não aceito. – tu
- Posso perguntar porquê? – eu
- Nunca saberia se me fazes essa proposta por ainda me amares, ou por não suportares que, nesta cidade que tanto odeias, viva a pessoa que tu amas. – tu, e reparo no timbre aveludado da tua voz.
- Acabas de te contradizer, mas percebo-te. Adeus – eu
- Adeus – tu

e o fumo começa a vaguear pela sala. Tal como a minha raiva àquela cidade; tal como o desconsolo da minha alma.
Dirijo-me ao aeroporto. Volto a passar por todas as rotundas e todos os semáforos. O semáforo da emigrante arruinada está fechado. Medito

- Quer viver comigo numa ilha cheia de sol? – eu
- Não ser puta! - ela
- Eu sei. Dou-lhe trabalho no escritório e metade da casa para si e para a sua filha.
- Aceitar. - diz ela, com o seu olhar mnemonizável.

e arrisco. Abro a porta e entram as duas. Vou à companhia de rent-a-car entregar o carro: só desejo sair o mais rapidamente possível da Cidade das Três Colinas.
Acordo. Dirijo-me ao aeroporto da Ilha. Na ilha não existem cães que passeiam os donos, não existem rádios que não toquem as cinco mais, não existem aves que rasguem rios e mares em dias de chuva, não existem nuvens hesitantes em céus plúmbeos, não existem paraísos perdidos, não existem emigrantes com um olhar mnemonizável. Talvez exista um sonho, um sonho com cinco sentidos: um sonho mnemonizável. Tal como na Cidade das Três Colinas; tal como na vida.
Regressamos a casa depois de te ir buscar. Entramos em casa em silêncio. Ajudo-te a trazer as malas e a transportar os caixotes de todos os livros, com todas as palavras. Antes de começares a desfazer as malas, abres o estojo do violino. Afinas e preparas o violino. Pela janela, contemplas o azul transparente das águas do Pacífico. Dás arco e começas a tocar uma música melancólica, melancolicamente.
Carlos Malmoro

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