06 abril 2007

Os Idos de Abril

Acabado o almoço expresso, vagueei pelas notícias do Público de três de Abril próximo passado. Não obstante ser minha expressa vontade adquirir o jornal do dia em que publico este arrazoado, e resultante de uma deferência não rara, o ardina fez o obséquio de me regalar com uma antiguidade. Um fragmento de história pelo custo do folhetim do dia – um achado.

A página primeira do pretérito periódico, anunciava que doutos cientistas tinham publicado um estudo mais sobre uma tal Ota, que o hemiciclo tinha antecipado votações por premunir falta de assiduidade dos laicos procuradores da plebe na religiosa quadra pascal e, a toda a altura da página, era publicada uma singular peça sobre um desporto muito em voga nesses imemoriais tempos: o futebol. Três assuntos que nos remetem directamente para a etimologia da palavra «notícia»: novidade.

Firmada a leitura das parangonas dos idos de Abril, embrenhei-me no interior do periódico para descobrir outras estimulantes matérias passíveis de enobrecer a minha erudição. Contudo, e antes de proceder a esta insigne tarefa, deparei-me com a necessidade de apartar uma miríade opúsculos secundários. Consumado este imprescindível mister, não mais que uma vintena de páginas remanesceram. Estas, segundo a terminologia do meio, designam-se por «Caderno Principal».

Munido de uma ávida querença de saber, passeei então o meu analítico olhar por dezenas de artigos do jornal. As novas estavam soberanamente acondicionadas em estanques secções, coadjuvadas por ilustrações que colaboravam para um melhor entendimento das matérias.

Na impossibilidade de me pronunciar sobre a totalidade das notícias, trago-vos à colação uma única. Abordava-se a sempre pertinente e deveras empolgante questão dos eleitores fantasma. Um estudo (os «estudos» eram muito apreciados nos idos de Abril) revelava que existiam cerca de oitocentos mil eleitores fantasma. E que esse número poderia deturpar os resultados alcançados nos actos eleitorais do sistema representativo da democracia parlamentar portuguesa. Confrontado com este, o director geral do STAPE, o superior responsável pela manutenção e actualização dos supracitados cadernos, mostrou estar à altura dos acontecimentos e respondeu racional, educada e irritadamente que «eles que o provem». Passada a educada fúria racional, alertou então para o facto de «ser altamente improvável existirem em Portugal dez mil eleitores com mais de cem anos».

Tenho para mim que, mais do que altamente improvável, é consumadamente impossível evitar uma sonora gargalhada por saber que existe uma pessoa em Portugal que julga que há uma dezena de milhar de eleitores centenários.
Carlos Malmoro

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