24 Abril 2007

Sweet

O meu primeiro livro foi «Os Cinco e o Comboio Fantasma». Os lautos lanches são a principal imagem que guardo desse livro inicial. O eco dela acompanha-me, como muito bem diz o autor, pela vida fora. Basta para tanto olhar para baixo, para a doce barriguinha dos trinta e picos.

Carlos Malmoro

23 Abril 2007

Até para o ano

Acontece uma vez por ano. Geralmente, perguntam o que significa escrever, uma definição de literatura ou inquirem sobre o gosto pela leitura. Os escritores, os alvos destes interrogatórios anuais, coitados, lá vão ensaiando uma resposta que os torne diferentes entre os demais. Quase sempre com insucesso. Contudo, relembro aqui uma definição saramaguiana do que é ser escritor que, sem ironias, é a minha preferida. Disse-nos então o nosso Nobel que um escritor é alguém que escreve livros. Perfeito.

Hoje é dia do Livro, a paixão literária renasce em cada lar, as instituições promovem o seu “evento evocativo” de tão ilustre data, e os íncolas deste jardim à beira mar plantado tornam-se, repentinamente, num case-study em matéria de leitura. Não só de leitura, mas também de literacia: abrem o livro que o amigo lhes ofereceu pelo Natal e lêem, sublinham e discutem com o parceiro o arrazoado.
Este desejo de leitura, perpetua-se sensivelmente até à meia noite do presente dia, hora a que a fadiga do espírito e a moinha do corpo levam a melhor sobre o encanto das letras. À falta de melhor, e com sorte, daqui por um ano há mais. Além disso, sempre é uma garantia para responder «com regularidade» à pergunta dos inquéritos de rua: «Costuma ler livros?»

O suplemento “P2” do Público traz, inesperadamente hoje, uma reportagem sobre o que vinte escritores disseram sobre o acto de escrever. Entre elucubrações poéticas, («…o poema falou quando eu me calei e se escreveu quando eu parei de escrever» Sophia), declamações de fatalidade («…escrevo porque não o posso evitar.», Marguerite Duras), necessidades eróticas ( «…o único meio de suportar a existência é mergulhar na literatura como numa orgia perpétua», G. Flaubert) ou preocupações de identidade («Escrevo para me identificar comigo próprio, com o meu país e com a minha língua», José Cardoso Pires), o prémio vai uma vez mais para o habitante de Lanzarote (e novamente sem ironia): «Escrevo porque não tenho nada melhor para fazer».


Também totalmente imprevisto foi o livro que hoje aterrou na secretária mesmo ao lado do computador: «Os escritores e a literatura», de Madeleine Chapsal, editora D. Quixote. É um livrinho antigo, tão antigo que nem sequer faz referência à data em que ocorreu a sua primeira publicação. O seu conteúdo é o resultado de uma série de entrevistas que a autora faz a doze grande escritores da actualidade de então (passe o paradoxo). A pergunta base da entrevista é: o que é um escritor. Este livro já deve ter umas boas décadas, mas parece que ainda não saímos do mesmo.


Porém, e quanto mais não seja como homenagem aos escritores que parecem condenados a ter de responder sempre às mesmas perguntas, deixo aqui um punhado (escrevi este texto só para poder utilizar a palavra «punhado») de observações/definições que os escribas fazem do seu ofício. Simone de Beauvoir diz que «o escritor, enquanto tal, nunca faz um trabalho político (…)», e depois passa a entrevista a dissertar dos ideais que estão por detrás dos seus livros e que dois deles são libelos anti-direita. Antoin Blodin acha que escrever é «um sofrimento danado» e fala do prazer imenso que teve na escrita dos seus livros. Graham Greene afirma que escreve para ele próprio mas que ao escrever «tem no espírito um leitor imaginário, que é o leitor ideal [e que esse leitor é] provavelmente hermafrodita e Sartre diz estar cansado de entrevistas literárias que enveredam, invariavelmente, para o campo da filosofia e termina a definir a literatura como «a imagem crítica de si mesmo (…) um espelho critico». Terminamos a viagem a este livro com Céline: «Sou um maníaco do estilo(…) Pede-se muitíssimo a um homem, quando ele não pode muito. A grosseira ilusão do mundo moderno é pedir a um homem (…) que tudo resolva num golpe. Não pode! Um tipo que encontre qualquer coisinha de novo já fez muito (…) já fez para a vida toda.»

Faltam agora breves minutos para o fim do Dia do Livro. Por esses lares portugueses, a cabeça já meneia do esforço de leitura. Chegou a hora de pousar o livro e pensar que amanhã tem de se arranjar mais um bocadinho de tempo, porque, afinal de contas, aquilo nem é tão aborrecido assim. Aborrecido mesmo, são escritores a falar sobre literatura e livros, quando o que sabem fazer melhor é escrevê-los. E é nesta altura, que, depois de levantados do sofá, alguém se lembra que o livro terá de esperar por melhores dias: amanhã é véspera de feriado.
Até para o ano.
Carlos Malmoro

20 Abril 2007

Frua de um Inglês Técnico

de 15 valores nos primeiros dois minutos do vídeo.

18 Abril 2007

A Lulu é amiga

Para aqueles que sempre acharam que o seu texto deveria estar na estante entre Pessoa e Dostoievski, para aqueles que pensam que, comparados à sua escrita, os livros que habitualmente se publicam são nulidades, para os que julgam ter algo a dizer à Humanidade mas ainda não encontraram editora, ou simplesmente para aqueles que querem oferecer uma prenda original aos amigos, falem com a Lulu e em cinco passos têm a sua obra-prima publicada. Nada mais simples.
Carlos Malmoro

17 Abril 2007

Quanto mais sangue será necessário para entender isto?

«Pelo seu lado, a Autoridade Palestiniana deve dirigir-se ao seu próprio povo e dizer por fim, alto e bom som, algo que nunca proferiu com êxito, concretamente que Israel não é um acidente da História, que Israel não é uma intrusão mas a pátria dos Judeus Israelitas - por muito doloroso que isso seja para os palestinianos. Tal como nós, Judeus Israelitas, devemos dizer alto e bom som que a Palestina é a pátria do Povo Palestiniano, por muito inconveniente isto nos pareça.»
Amos Oz, contra o fanatismo, ASA
[livro entregue com o Público de hoje]

15 Abril 2007

8 pensamentos sobre o que toda a gente fala

  1. Ele não é melhor nem pior PM por ter canudo, nem melhor nem pior político por ter, hipoteticamente, mentido. O dinheiro que trago no bolso e que pode se usado em (quase) toda a Europa, é criação de um tal Jacques Delors, uma pessoa que não tem estudos superiores. Quanto a mentir, e embora seja reprovável, todos o fazem, sobre a forma de promessas não cumpridas ou alterações de rumo. Conferir aqui.
  2. Ocupar quarenta e cinco minutos de um debate sobre dois anos de governação com um fait-divers diz muito mais de um país do que qualquer estudo sociológico;
  3. Nesse mesmo dia, o Financial Times (FT) dizia que Portugal está um país bem melhor do que há dois anos. Não me parece que um governo português, ainda para mais socialista, tenha condições para influenciar o que a direcção conservadora da Bíblia da economia publica;
  4. O mesmo jornal não dedica uma linha, uminha que seja, à questão que toda a gente fala;
  5. Já os jornais portugueses não dedicaram uma linha ao que disse o FT: em Portugal, alguma independência jornalística ainda é sinónimo de bota-abaixo. Se dedicaram, remeteram-na para um canto obscuro que eu não consegui ler;
  6. A avaliar pelos critérios de rigor que o «Dr.» Marques Mendes, na sua desastrada intervenção pediu, mais de dois terços dos deputados do parlamento perderiam o título de «Dr.». Inclusivé ele.
  7. A avaliar pelos mesmos critérios de rigor, neste momento não existe ninguém à direita de Sócrates com capacidade para fazer melhor do que ele. À esquerda, é melhor nem falar.
  8. Sócrates é o melhor PM desde Cavaco.

Este é um daqueles textos

que, se a autora mo permitir, assino por baixo. Aqui.

Carlos Malmoro

14 Abril 2007

Da Terrinha II

Enquanto um engenheiro tentava explicar o absurdo dos seus estudos, o outro estudava uma forma de estabelecer o recorde mundial desse mesmo absurdo:
Carlos Malmoro

Entretanto,

no encontro sado-masoquista da cidade, desenrolava-se este diálogo entre dominadora e dominado:
Hoje não há chicotes.
Oh,...
Hoje vou ser bruta a valer.
O quê?
Vou analisar o caso da licenciatura.
Yes!!
Carlos Malmoro

12 Abril 2007

Façam-me um favor

Vão aqui, ali e acolá e espreitem estes excelentes textos. Mesmo que não se concorde com a posição das autoras, inserem-se na categoria daqueles a que eu costuma dedicar uma leve vénia pela brilhante forma como estão alinhavados. Vão ver que a sua leitura contribui em muito para um melhor amanhecer.

Carlos Malmoro

11 Abril 2007

Máxima

Ter a certeza que a vida é demasiado grande para nós, mas que nós somos imensamente mais sensatos que o seu absurdo.

Carlos Malmoro

A Cabala

Segundo o Diário Digital, a Universidade Independente denunciou hoje a existência de «interesses» que estão a pressionar fortemente para que seja consumado o seu encerramento. Para além das concorrentes privadas que desejam as propinas de umas centenas de alunos, e a possível ambição de um engenheiro, aliás, licenciado em engenharia, aliás, quase-licenciado em engenharia, aliás, enfim..., que gostaria de a ver com um ferrolho, para além destes interesses, dizia, sei de fonte segura e anuncio aqui em primeira mão que existem outros, que se movem na sombra, que são ditatoriais no método, que são castradores para a autononomia de uma universidade e que estão revestidos por uma exigência delirante. São eles: que os alunos tenham aulas, que os professores tenham capacidade para ensinar e que a secretaria passe diplomas sem ser ao Domingo. Uma verdadeira cabala.
Carlos Malmoro

Da Terrinha

Depois de ver o outro cartaz em Lisboa, Daniel Campelo também quis mandar alguém embora.



Portanto, quem quiser visitar a terrinha, não se esqueça do duche e da roupinha lavada.


[cartaz colocado em todas as entradas de Ponte de Lima e no parque contíguo ao Rio Lima, onde habitualmente param os autocarros de turismo.]


Carlos Malmoro

06 Abril 2007

[cantigo anterior]

nasce-se de dentro para fora
para mais dentro cresce-se
e de fora para dentro morre-se

é assim que esta serra é continuamente morta
dando o seu sangue transparente
os pulmões de Deus e as sílabas do silêncio

é assim também que o mistério cresce
internando-se no coração do tempo

e é assim que eu me vou nascendo
batendo com os dedos pequenas interrogações
à porta do grande silêncio das palavras
intáctil genesiacamente mudo

no tempo em que eu fui um dedo de Deus
(aquele que Miguel Ângelo pintou)
eu vi Ele próprio criar-se
usou muito silêncio e mistério
o que sobrou colocou nesta serra

Pedro Sena Lino, [o ilimite do verde], incluso na colectânea Malcata 7 Geografias, Alma Azul

Os Idos de Abril

Acabado o almoço expresso, vagueei pelas notícias do Público de três de Abril próximo passado. Não obstante ser minha expressa vontade adquirir o jornal do dia em que publico este arrazoado, e resultante de uma deferência não rara, o ardina fez o obséquio de me regalar com uma antiguidade. Um fragmento de história pelo custo do folhetim do dia – um achado.

A página primeira do pretérito periódico, anunciava que doutos cientistas tinham publicado um estudo mais sobre uma tal Ota, que o hemiciclo tinha antecipado votações por premunir falta de assiduidade dos laicos procuradores da plebe na religiosa quadra pascal e, a toda a altura da página, era publicada uma singular peça sobre um desporto muito em voga nesses imemoriais tempos: o futebol. Três assuntos que nos remetem directamente para a etimologia da palavra «notícia»: novidade.

Firmada a leitura das parangonas dos idos de Abril, embrenhei-me no interior do periódico para descobrir outras estimulantes matérias passíveis de enobrecer a minha erudição. Contudo, e antes de proceder a esta insigne tarefa, deparei-me com a necessidade de apartar uma miríade opúsculos secundários. Consumado este imprescindível mister, não mais que uma vintena de páginas remanesceram. Estas, segundo a terminologia do meio, designam-se por «Caderno Principal».

Munido de uma ávida querença de saber, passeei então o meu analítico olhar por dezenas de artigos do jornal. As novas estavam soberanamente acondicionadas em estanques secções, coadjuvadas por ilustrações que colaboravam para um melhor entendimento das matérias.

Na impossibilidade de me pronunciar sobre a totalidade das notícias, trago-vos à colação uma única. Abordava-se a sempre pertinente e deveras empolgante questão dos eleitores fantasma. Um estudo (os «estudos» eram muito apreciados nos idos de Abril) revelava que existiam cerca de oitocentos mil eleitores fantasma. E que esse número poderia deturpar os resultados alcançados nos actos eleitorais do sistema representativo da democracia parlamentar portuguesa. Confrontado com este, o director geral do STAPE, o superior responsável pela manutenção e actualização dos supracitados cadernos, mostrou estar à altura dos acontecimentos e respondeu racional, educada e irritadamente que «eles que o provem». Passada a educada fúria racional, alertou então para o facto de «ser altamente improvável existirem em Portugal dez mil eleitores com mais de cem anos».

Tenho para mim que, mais do que altamente improvável, é consumadamente impossível evitar uma sonora gargalhada por saber que existe uma pessoa em Portugal que julga que há uma dezena de milhar de eleitores centenários.
Carlos Malmoro

03 Abril 2007

«Há Homens»

«Há homens
que deveriam ter montanhas
para lhes eternizar os nomes.

As lápides não são suficientemente altas
nem verdes,
e os filhos vão para longe
para se libertarem do punho
que a mão dos seus pais sempre há-de parecer.

Tive um amigo:
viveu e morreu em absoluto silêncio
e com dignidade,
não deixou livro, ou filho, ou amante que o chorasse.

Isto não é uma canção de lamento
mas apenas um nomear
desta montanha por onde caminho,
fragrante, obscura, e delicadamente branca
sob a palidez da névoa.

A esta montanha dou o seu nome.»

Leonard Cohen - Poemas e Canções vol I - Relógio d'Água





Leonard Cohen nasceu em Montreal, Canadá, em 1934. Em 1956 editou «Comparemos Mitologias», o seu primeiro livro [poesia]. O álbum de estreia intitulou-se «As canções de Leonard Cohen». A partir daí foi alternando a sua obra artística entre discos e livros. O reconhecimento a nível musical pode ser aferido como talvez sendo o músico que mais vezes é referido como influência dos novos artistas pop e cantautores. A nível literário, o reconhecimento veio há dois anos com o Canadá a indicá-lo como candidato nacional ao Prémio Nobel da Literatura. Conforme informa hoje o Diário Digital, este ano vai ser lançada uma campanha para repetir a candidatura.
Carlos Malmoro

Modos de Vida (X)

Levava a vida com esta máxima: «desde que não implique abdicar do essencial, se não posso vencê-los, junto-me a eles.» Passou a vida a juntar-se a eles. Quando reparou, tinha abdicado de tudo o que lhe era caro. Nesse dia, não se juntou a eles - eles é que se juntaram a ele.
Carlos Malmoro

02 Abril 2007

Uma banda relativamente recente chamou-me à atenção. Para além de uma sonoridade dissemelhante da que se vai ouvindo a grosso modo nas rádios, notei também que quem escrevia as letras, fazia-o de uma forma séria. Mesmo quando não concordo com a posição que elas reflectem, não deixo de notar ali uma preocupação e um cuidado enormes, para não falar de algumas tiradas de génio, do rapazito de 24 anos que as escreve. Ele chama-se Win Buttler, é o vocalista, letrista e principal compositor dos Arcade Fire.

Na canção que serviu de apresentação ao novo álbum, existem dois versos que desde logo se destacaram: «And no matter what you say / There are some debts you'll never pay». São duas frases simples. E a simplicidade é, de entre muitas outras qualidades que um texto pode ter, e como por aqui já tive oportunidade de referir, aquela que mais tende para o génio. Lembro-me sempre de Sophia para legitimar esta minha pessoalíssima opinião.

«Digas o que disseres, existirão sempre dívidas que nunca conseguirás pagar». E é isso que eu venho hoje aqui dizer: escreva eu aquilo que escrever, existirão sempre dívidas de gratidão para quem por aqui passa. Para quem visita, para quem comenta, para quem linka, para quem perde um segundo do seu valioso tempo a ler o que escrevo, para quem faz, por vezes, elogios que me fazem ficar como uma criança corada depois da miúda mais bonita da escola lhe dar um beijo.

Isto, hoje, é para vós. Hoje é o meu dia de perder - melhor, de ganhar - tempo convosco, com os que estão aí nos links ao lado, com os meus colegas do GR, com os que estão espalhados por essas caixas de comentários, com aqueles que discordam do que eu digo de forma educada, com aqueles que apenas visitam, que dão um espreitadela…

Não conhecendo eu nenhum blogger pessoalmente, sinto-me hoje uma pessoa muito mais rica com o reconhecimento que cada um dos atrás referidos amavelmente me concede. Não só com o reconhecimento que me dão, mas também com a atenção, o humor, os ensinamentos que me proporcionam. E essas características, para mim, já são muito mais do domínio da amizade real do que de simpatia virtual. Numa palavra só, aquilo que me dão, considero-o uma riqueza. Uma riqueza que gera uma dívida. Uma dívida que nada do que eu possa dizer ou escrever pode pagar.
O meu muito, muito obrigado e bem-hajam.
Carlos Malmoro

01 Abril 2007

Não sei...

a que propósito me lembrei da expressão «fazer-te a barba à estalada».



Carlos Malmoro