30 Maio 2007

Leaving Las Vegas

É um retrato dostoievskiano de Las Vegas e de duas vidas. O contraste entre a ofuscante miríade de neons que saturam as ruas e o desejo de duas almas perdidas, mas dispostas a atingir os seus objectivos. Uma ambiciona beber até morrer. Outra viver a vida de prostituta. Quando se cruzam, prometem não julgar nem interferir com as escolhas de cada uma. Gozam um pouco da vida para desforrar o que pensam que a vida gozou com elas. No final, ambas conseguem alcançar os seus objectivos.
Um filme sombrio, melancólico e nocturno na incandescente, faustosa e nocturna Las Vegas, de Mike Figgis, com excelentes interpretações de Nicholas Cage e de Elisabeth Shue.


Carlos Malmoro

28 Maio 2007

Uma péssima ideia

E só naquele momento, só quando ele começou a acelerar o passo na minha direcção, é que eu me apercebi que talvez, só talvez, tenha sido uma péssima ideia trazer o carro vermelho para um sítio a mais de dois mil e quinhentos metros de altura, servido por estradas estreitas, ladeado de ravinas de centenas de metros e cheio de animais com fobia a essa cor.

Carlos Malmoro

23 Maio 2007

Clint Eastwood

Hoje, se há realizador capaz de fazer brilhantes filmes em série, ele chama-se Clint Eastwood. Há algo no seu mister que transforma tudo aquilo que realiza em monumentos ao cinema. A fórmula parece simples: tem predilecção por cenas simbólicas, épicas, jogos de sombra/luz, os protagonistas não são heróis que salvam meio mundo, mas apenas pessoas, com algumas forças e imensas fragilidades. Embora não representando o estereótipo de herói, existem quase sempre três qualidades nos actores principais: a dignidade de jogar limpo, a honra de saber perder e a fleuma de saber ganhar.

Um dos aspectos que tem vindo a ganhar importância na indústria do cinema é o argumento do filme. Para se ter uma ideia do que afirmo, basta constatar que há algumas décadas o Óscar para Melhor Argumento era entregue ainda a cerimónia ia a meio, no meio dos chamados Óscares técnicos: sonoplastia, efeitos especiais, guarda-roupa, etc. Actualmente, é o antepenúltimo a ser entregue, imediatamente antes da estatueta para Melhor Filme e Melhor Realizador. Além disso, os bons argumentistas são tão disputados como as grandes estrelas ou os bons realizadores.
Clint Eastwood ancora sempre os seus filmes a memoráveis estórias. Argumentos bem engendrados, simples, com aquela moral de que a vida dói sempre, mesmo aos mais audazes. Filma permanentemente com uma aura de melancolia, de pessoas que já viveram os seus quinze minutos de fama, não da fama vã, mas daquele momento único que acontece quando realizamos um sonho. E é isso que Clint Eastwood essencialmente é: um realizador de sonhos.

22 Maio 2007

Predisposição do dia


«Under a pale of grey sky
We shall arise»
*Max Cavalera

Carlos Malmoro

21 Maio 2007

Carta aberta a dois leitores

Mike, caro,

Obrigado por este elogio. Só passado um mês lhe agradeço, porque verifiquei no technorati a sua citação. Ajudou-me a confirmar que os leitores que por aqui andam são muito generosos. Levanta a questão de meu blogue ter menos tráfego do que outros que supostamente só abordam temas sexuais. Sei que hoje em dia há sempre mais audiências se se falar de sexo, e de namoros interrompidos, e de tampas, e de recomeços, e de one-night-stands... Os últimos lançamentos editoriais de blogues provam-no. Acontece que, nessas questões, eu sou o tipo mais aborrecido do país. Amo-a. Ponto. Não há lamechice nem qualquer tipo de altivez moral nesta afirmação. Apenas constato a verdade, a minha verdade. E faço questão de frisar que é a minha verdade porque se trata de um blogue pessoal. E eu, a breves dias de fazer trinta e três, não vou mudar para ter mais audiências. Aliás, se por um passe de magia me oferecessem 3000 leitores diários, eu ficava todo contente. Tinham era de me garantir que os trinta que tenho se mantinham. É que são esses que me vão dando o ânimo, que por vezes esmorece, para continuar ao fim quase quatro anos de blogue. Espero que não entenda este discurso como um «pobrezinho mas honrado», que abomino, mas como a assumpção de que um blogue «recheado de qualidade» faz-se essencialmente pela qualidade dos seus leitores. Como é o seu caso e dos outros vinte e nove diariamente por aqui passam.

Caríssima Papalagui,

Obrigado por esta distinção. Honra-me. Não entrei no jogo porque me pareceu injusto. Primeiro, temos a questão da quantidade, mas essa já foi devidamente abordada nesse teu post. Depois, e o mais importante, porque um bom blogue não é só aquele que me faz pensar, mas também aquele que me diverte, que me emociona, que me distrai, que simplesmente está bem escrito e, por vezes, acho-o um bom blogue porque tem um certo ambiente. Finalmente, porque há uma tendência para se votar em blogues que sejam sérios, do sistema. E nem sempre quem tem audiências de milhares e escreve em jornais é sério ou, por outras palavras, «faz pensar» pelas razões correctas. Desmistifico metaforizando: por altura da polémica sobre Salazar, houve tantos disparates técnicos na abordagem aos assuntos económicos, leviandades de quem não percebe nada do que está a dizer, confusões entre conceitos económicos distintos, mentiras, mesmo, ditos nesses blogues para justificar a «genialidade» económica do homem que fez com que eu deixasse de ler certos opinion-makers. Repara, não se tratava de, perante um copo a meio, afirmar que ele está meio cheio ou meio vazio. Isso é uma questão de perspectiva e nada tem de mal. Era perante um copo vazio, afirmar-se que ele estava cheio. E isso já não é opinião, é desonestidade intelectual.
É certo que no outro blogue onde somos colegas entrei no jogo. Aqueles em que votei foram blogues do «sistema» que eu acho interessantes. Mas também é bom lembrar que estávamos condicionados à partida pelo regulamento interno, caso contrário teria votado, com muito mais propriedade, no teu.
O meu profundo e sincero obrigado aos dois.

Carlos Malmoro

5 Latitudes para 5 estados de espírito (2)











Astúrias - Espanha
Carlos Malmoro

17 Maio 2007

«Pôr uma abaixo»

Há dias, fases, momentos, nadas na vida em que temos de «pôr uma abaixo». Na condução, como muito bem sabemos, «pôr uma abaixo» significa uma redução de caixa, que tem como efeito imediato uma diminuição da velocidade do carro. Continuando a analogia, a vida quotidiana não se compadece com reduções de velocidades. Obriga-nos a andar sempre em quinta a fundo, sem tempo para analisar as curvas, os cruzamentos e todos os sítios de perigo acentuado, a distância ao próximo é reduzida, sempre em risco de colisão com este, e as rectas, aqueles locais onde se poderia desfrutar mais a condução, tentamos ultrapassá-las o mais rapidamente possível.

Mas se a redução de velocidade do veículo como consequência de meter uma abaixo seja o aspecto mais visível, imediato e indesejável desta manobra, ela dá-nos mais segurança, mais força e o carro fica com os pneus mais assentes na estrada. O que se perde em velocidade, ganha-se na segurança para abordar os perigos da vida e da estrada, em mais força para evitar a colisão com o próximo e os pneus colados aos asfalto dão-nos garantias de que podemos usufruir dos momentos prazeirentos da condução e da vida.

Exceptuando os casos em que só se conduz o carro e a vida em primeira velocidade (nesses casos é porque não se sabe guiar nem viver sem medo), sou um apologista que se deve realizar amiúde esta acção. Quando o trabalho sufoca, «meter uma abaixo» significa fazer menos trabalho, mas fazê-lo melhor; quando estamos no limiar de uma discussão sem sentido com a “pessoa”, «pôr uma abaixo» significa trocar um pouco da nossa «razão» pela segurança de continuar a tê-la ao nosso lado; e quando estamos a gozar umas férias, reduzir de velocidade significa trocar a ânsia de ver tudo por reparar nalgumas pequenas mas deliciosas coisas que sejam memoráveis. Faz-nos falta pôr uma abaixo mais vezes. Na condução e na vida.

Carlos Malmoro

O livro de reclamações, sff

Na passada semana estiveram uns lindos dias de sol. E no fim-de-semana uns excelentes dias de chuva. Esta semana será diferente: estão uns excelentes dias de sol durante a semana e vão estar uns lindos dias de chuva no fim-de-semana. O que eu pergunto é: onde estão a ASAE e a DECO quando realmente precisamos delas?
Carlos Malmoro
PS: Reclamar do tempo meteorológico num blogue significa o mesmo que numa relação amorosa? Ou seja, que já não há mais nada para se dizer?

15 Maio 2007

Não sei se é o comentário correcto, mas...

Sempre achei curioso que em Portugal existam "mais" professores no Min. da Educação do que a dar aulas, mais funcionários no Min. da Agricultura do que agricultores e mais polícias na secretaria do que a patrulhar as ruas.

Carlos Malmoro

Notas soltas sobre cinema

  • As taglines são expressões que servem de subtítulo ao filme. Estas frases – aqui seria bem mais apropriado o uso da palavra inglesa «sentence» - estas frases, dizia, estão para os filmes como as epígrafes estão para os livros: levantam a ponta do véu, criam ambiente, aguçam a curiosidade. Encontram-se nos anúncios promocionais da estreia do filme ou, já depois de lançados em DVD, nas respectivas capas. Nunca vi um filme que ousasse colocar uma tagline no início do filme, mas penso que isso irá acontecer mais dia, menos dia. Por uma simples razão: imagine-se numa sala escura, pronto para ver o filme, e no ecrã aparecia esta frase: «Tom Stall tinha a vida perfeita… até se tornar um herói.». Diga lá, caro leitor, se não ficava mais empolgado com o início do filme [Uma História de Violência]?
  • Numa indústria/arte de excessos, escândalos, papéis épicos e patéticos, cenas inolvidáveis e menos aconselháveis, representações hilariantes e pejadas de "pathos", sempre vai havendo quem faça do low profile a sua imagem de marca. A actriz Catherine Keener é uma dessas excepções. Representa de uma forma muito objectiva, simples, parece ser fácil fazer aquilo que faz. Vi-a em «Queres ser John Malkovich?», «A Intérprete», «S1mOne» e em «Capote». Em todos eles, mesmo quando o filme era mauzito, vi competência, vi sobriedade, vi excelência sempre em actuações em low-profile. Dá gosto ver e apreciar. Além disso, é uma mulher que não tendo uma beleza transcendental, é simples e pragmaticamente bonita. Que também dá gosto ver e apreciar. Quando lhe perguntaram porque não tinha papéis mais marcantes ou porque não concorria para castings de personagens mais destacados, respondeu, simplesmente, que não tinha nascido para ser estrela. É pena.

foto

14 Maio 2007

5 Latitudes (1)








Terras Altas, Escócia


Carlos Malmoro

Riqueza Linguística

Como é bela a deusa do meu céu
Actriz de ralé
No meu mausoléu de ninfas da maré
Faz dança do véu
Com um sururu de se tirar o chapéu

A feliz garça com o seu girar
Transmuta por dom o meu lupanar
Em casa de bom tom
Angélico altar
Onde o varonil tem gosto em capitular

Bem vindos ao meu bazar
Propõe chás do Sião, pepitas do Brasil, joias da Pérsia
Morfina
Não perdes nada em entrar
Vem ver a actuação,
o exótico pernil,
a doce inércia

A morfina

É tão quente a raça do seu ser
Seu jeito fatal de dar a entrever
O gozo sensual
O mole prazer
Que a carne retêm depois de esmorecer
E sem mais me deixa suspirar
Na maior nudez que venha a rodar
A ter ser minha vez
Os braços no ar
Que me faça vir na graça do seu picar



Adolfo Luxúria Canibal é o autor desta letra e é, igualmente, um dos melhores letristas portugueses, empatado com Carlos Tê (noutro registo).
Carlos Malmoro

13 Maio 2007

França

Há alguns dias, andava eu em deambulações profissionais pelo Porto, quando um casal de turistas franceses abeirou-se de mim para me perguntar onde ficava a estação de metro mais próxima. Eu, como bom português que sou, facilitei-lhe a vida e respondi em francês. Indiquei-lhe o caminho, desejei ao parzinho uma boa estadia (temos de preservar o turismo, mesmo o dos franceses que andam de metro...) e despedi-me. Nisto vejo o homem muito espantado a perguntar se eu sabia falar francês. Um pouco, respondi-lhe eu. Se já tinha sido emigrante foi a pergunta que se seguiu. E eu lá disse que não, que era mesmo francês da escolinha. Agradeceu e desapareceu.

Esta pequena estória serve para legitimar um pouco mais o que eu penso, dos franceses. São um povo que se julga superior, arrogante q.b., que pensa que a Europa é constituída pelas suas Luzes e pelas trevas dos outros, que tentam à saciedade iluminar com a sua cultura infinitamente mais humana, e que entendem que um português é alguém que sabe lavar escadas e nunca alguém capaz de balbuciar onde fica uma estação de metro na melhor língua do mundo: a deles.

Talvez por isso concorde com Vasco Pulido Valente quando diz no Público de sexta-feira que «Apesar da cosmética, ele [Sarko] e Ségolène vivem noutra era e, no fundo, não importa muito qual dos dois se aplicará agora a conservar o “arcaísmo francês”». A França quer criar um directório para a Europa, onde mande ela, claro, pois só ela encarna o espírito europeu; quer criar uma União Mediterrânica, para dominar o Oeste Europeu, quando ainda não se apercebeu que dentro desse Mediterrâneo há um país [Espanha] que já «conta mais» internacionalmente, em alguns aspectos realmente importantes, do que a França, e quer ser amiga dos norte-americanos «porque sim», mas parece esquecer-se que, quer entre homens quer entre países, uma relação de amizade tem por base a confiança e essa não se conquista com palavras doces depois de desconfianças de décadas.

Para a economia, temos a ideia peregrina de um proteccionismo semelhante ao francês (com os resultados brilhantes que se conhecem) aplicado a toda a Europa, e não se fala uma vez que seja dos coitados e miseráveis agricultores gauleses que são os que mais dinheiros recebem desse saco sem fundo chamado PAC.

Não me interpretem mal, sei que a França é um grande país, tenho alguns bons amigos franceses, petulantes para com Portugal, claro, mas bons amigos, gosto de alguma cultura francesa, e há muitos filmes franceses protagonizados pela Mónica Bellucci. Não suporto o som e o gesticular da língua deles, é certo. Mas isso não chega para me considerar francófobo. O problema da França é que não teve ninguém que lhe mostrasse um espelho. Que lhe dissesse que antes de conquistar a admiração do mundo, tem de conquistar a admiração dos franceses e que antes de se tornar um país relevante para os outros, tem de ser o país dos franceses. Enquanto isso não suceder, enquanto não arrumar a casa, será sempre considerada como o vizinho quer administar o prédio sem saber administrar o seu próprio lar.

09 Maio 2007

David Lynch

Talvez inspirado em coisas sem sentido retratadas neste post da Leonor, trago hoje à colação David Lynch. Ressalvo que não sou um fanático das obras dele, e não penso, sequer, que qualquer coisa assinada pelo senhor constitua um novo paradigma da sétima arte. Os filmes recentes de Lynch pouco ou nada me dizem. Não que eu ache que são desmerecedores da «marca» Lynch; penso é que ele trilhou caminhos que não me apetece seguir... Vou falar de três obras dele: dois filmes e uma série.

A série, como já terão percebido, é Twin Peaks. Todas as séries de culto que hoje se idolatram começaram em 1990. O terrível homicídio da jovem Laura Palmer leva a Twin Peaks uma equipa do FBI para investigar o caso. À medida que a investigação avança, e os habitantes são confrontados com alguns resultados da mesma, os sentimentos, os laços familiares, as cumplicidades, enfim, tudo o que aproximava as pessoas naquela pequena cidade de 51201 habitantes, convertem-se em desconfianças, inseguranças, acusações. Um excelente exercício que nos prova que uma sociedade pode estar em guerra sem o uso de armas (físicas). E depois aquela banda sonora: mesmo que não víssemos a série, aquelas quatro notas de baixo com orquestração por trás seriam suficientes para explicar o que se estava ali a passar.

«Um Coração Selvagem». É um filme cheio de agressividade, perseguições, de suspense, uma boa panóplia de assassinos contratados, obsessões por Elvis e pelo «Feiticeiro de Oz». Enfim, aquilo que poderia parecer surreal é apenas um «Romeu e Julieta» dos tempos modernos. Laura Dern, uma filha de uma milionária, apaixona-se por Nicholas Cage. A mãe dela não está pelos ajustes, não pelo facto de ele ser um perdido, mas porque também está deslumbrada por ele. Um filme que aconselho.

Finalmente, o melhor filme de Lynch. Acho que nunca ninguém filmou de forma tão intensa. Vi-o pelo primeira com dez anos e lembro-me de ter chorado como um perdido. É extremamente belo e brutal. É o filme da minha vida. Aquele em que aprendi que nada do que aparenta é. Saímos da sala com uma nova visão do mundo: neste filme, é a vida que representa o cinema. Saímos da sala a perguntar o que é um ser humano. A perguntar o que é ser humano. Foi nomeado para oito óscares, não ganhou nenhum. Como as personagens olharam com desprezo para o protagonista, também a academia olhou com desconfiança para uma obra invulgar. Chama-se «O Homem Elefante».



Carlos Malmoro

07 Maio 2007

Excluindo a hipótese de tirar férias,

alguém me dá uma dica para aguentar as próximas seis semanas sem nenhum feriado pelo meio?

Carlos Malmoro

06 Maio 2007

Propriedade Intelectual

Serve o presente para informar que a patente do melhor humor aqui produzido é propriedade desta senhora.

Carlos Malmoro

PS: Quanto ao pior, bem, falem comigo...

«Mãezinha»

«A terra do meu pai era pequena
e os transportes difíceis.
Não havia comboios, nem automóveis, nem aviões, nem mísseis.
Corria branda a noite e a vida era serena.

Segundo informação, concreta e exacta,
dos boletins oficiais,
viviam lá na terra, a essa data,
3023 mulheres, das quais
45 por cento eram de tenra idade,
chamando tenra idade
à que vai desde o berço até à puberdade.

28 por cento das restantes
eram senhoras, daquelas que só havia dantes.
Umas, viúvas, que nunca mais (oh! Nunca mais) tinham sequer sorrido
desde o dia do extremoso marido;
outras, senhoras casadas, mães de filhos...
(de resto, as senhoras casadas,
pelas suas próprias condições,
não têm que ser consideradas
nestas considerações.)

Das outras, 10 por cento,
eram meninas casadoiras, seriíssimas, discretas,
mas que, por temperamento,
ou por outras razões mais ou menos secretas,
não se inclinavam para o casamento.

Além destas meninas
havia, salvo erro, 32,
que à meiga luz das horas vespertinas
se punham a bordar por detrás das cortinas
espreitando, de revés, quem passava nas ruas.

Dessas havia 9 que moravam
em prédios baixos como então havia,
um aqui, outro além, mas que todos ficavam
no troço habitual que o meu pai percorria,
tranquilamente, no maior sossego,
às horas em que entrava e saía do emprego.

Dessas 9 excelentes raparigas
uma fugiu com o criada da lavoura;
5 morreram novas, de bexigas,
outra, que veio a ser a grande senhora,
teve as suas fraquezas mas casou-se
e foi condessa por real mercê;
outra suicidou-se
não se sabe porquê.

A que sobeja
chamava-se Rosinha.
Foi essa que o meu pai levou à igreja.
Foi a minha mãezinha.»

António Gedeão, «Poemas Escolhidos», págs. 69-71, Edições João Sá da Costa, 1996

03 Maio 2007

Continuar a bater na mesma tecla

Quanto mais leio poesia do século XX, mais me certifico que no mundo não houve poeta melhor do que Pessoa. Para além da escrita, há algo nele com que me identifico. Já pensei que fosse o misticismo, o que é pouco provável por causa do meu ateísmo a religiões e misticismos; a atitude anglófila era possível, mas não acho que gostar de uma mesma cultura seja suficiente para gerar uma tão grande aproximação. E ainda cheguei admitir como hipótese o patriotismo, mas o quotidiano rapidamente me fez desistir da ideia. Até que um dia, sem esperar (estas coisas aparecem sempre quando estamos a escolher a marca de azeite que devemos comprar) encontrei aquilo que procurava: identifico-me com Pessoa porque ele era um tipo igual a nós. De manhã atendia uns telefonemas, à tarde fazia a escrita da empresa e, ao fim do dia, depois de passar pela taberna, escrevia. Pessoa não era mais do que um blogger. Isto é, um tipo igual a mim: de dia escritório, à noite escrita. Porém com duas pequenas diferenças: eu não passo pelo café ao fim do dia e Pessoa, à noite, escrevia coisas como esta:
«Tenho pensamentos que, se pudesse revelá-los e fazê-los viver, acrescentariam nova luminosidade às estrelas, nova beleza ao mundo e maior amor ao coração dos homens.»
ao passo que eu escrevo coisas como a que acabaram de ler. Enfim, pormenores.

Carlos Malmoro

02 Maio 2007

Lamento de um entardecer chuvoso

....ou o (en)canto de um melancólico crepúsculo:




I told him boy
Don't cry
Something will come up way
And the sunrise
Only God believes in
Dad Dad Dad realize
Love will always find
Is where you lie

Carlos Malmoro

Paradoxos

Uma mentira só é desculpável se for honesta.

Carlos Malmoro

01 Maio 2007

Em Maio,

no «GR», é o «Mês do Cinema». Convido-vos, portanto, a assistir a esta longa metragem.


Créditos da foto: André Carvalho

Carlos Malmoro

"Uma História de Violência"

Agora que o André fez as devidas apresentações ao "Mês do Cinema" do «GR», abro as hostilidades com o filme que mais me marcou no ano transacto: “Uma História de Violência”, de David Cronenberg.

Reconhecemos a Cronenberg a predilecção por filmes que contem histórias surreais ou que estejam no limiar do irreal. Nesta película, ele desce à realidade e com base num magnífico argumento de John Olson, constrói um filme a todos os níveis admirável. A interpretação é deixada a um Viggo Mortensen em grande forma, a Maria Bello que faz uma representação simples e eficaz e a Ed Harris, o rapaz que é «só» o melhor actor da sua geração.

Um bom argumento, um bom realizador e bons actores: parece simples, e no entanto é tudo o que um filme necessita para ser excelente. O que é o caso.

Portanto, e se me permitem a sugestão, da próxima vez que visitarem o videoclube ou a Fnac, não percam a oportunidade de (re)ver aquele que considero o melhor filme (e o mais injustamente esquecido) do ano que passou.

Aqui mais informação sobre o filme.
Foto

Carlos Malmoro

Intimidades

A leitura é um acto íntimo. Pode ler-se um jornal ou um livro num comboio ou num avião, pode ler-se uma mensagem para quatrocentos participantes de um congresso e pode ler-se uma passagem inteira de um livro numa aula que a leitura, a verdadeira leitura, aquela que fazemos para nos sintonizar com o texto, descodificá-lo é sempre um acto íntimo. E solitário, acrescento. Apenas conseguimos ler «em conjunto» quando, e desculpem-me a expressão muy Nicholas Sparks, dois são um.

Convém frisar, no entanto, que existem formas de representar o texto (teatro, música, declamação, …) que tiram à leitura o cunho predominantemente privado. Por mais paradoxal que possa parecer, isto acontece porque reconhecemos a quem o interpreta a capacidade de o tornar privado. Um actor prepara um texto, representa-o para dezenas de pessoas, mas consegue, pelo menos para grande parte, tocar em cada um dos assistentes. De forma diferente e pessoal.

Posto isto, passemos ao âmago da questão. Tenho lido entrevistas de escritores que afirmam solenemente que gostam mais de ler do que de escrever. Para além disso, os conselhos que costumam dar aos novos escritores é para que leiam muito. De preferência livros deles. Confio que todos eles têm milhares de páginas lidas, analisadas, comentadas. Contudo, desconfio que nenhum deles, perdão, que alguns deles ainda não explicaram a quem promove o lançamento dos seus trabalhos que a leitura de um texto é um acto íntimo, com as excepções aclaradas no parágrafo dois deste arrazoado. As leituras nos lançamentos dos livros. É isso que me traz aqui hoje.

Há cerca de dois meses, fui novamente a um lançamento de um romance. Primeiro, o convidado para a apresentação da novela diz as impressões que a leitura do livro lhe proporcionou. Nestas, estão geralmente incluídas as palavras “ruptura”, “excelência” ou “matiz”. Depois a assistência, por regra meia dúzia de gatos-pingados, no lote dos quais com muito gosto me incluo, faz umas perguntinhas ao autor. O autor cumpre: balbucia umas coisas, tenta responder a perguntas sobre o compadrio na edição e na crítica literárias em Portugal (em lançamento que se preze, são questões sagradas) ou imagina uma forma de disfarçar o olhar atónito quando lhe perguntam se a matriarca do livro, uma senhora de oitenta anos, não é um alter-ego ou, quiçá, um heterónimo dele. Ele, um rapaz de trinta e sete (esta foi verdadeira).

E no final, acontece aquilo que nunca deveria acontecer: o autor lê uma parte do livro. Então, toda a curiosidade que possa ter sido despertada até aqui, é docemente adormecida quando o autor ainda vai a meio do capítulo que se propôs a ler. Em minha opinião, aquilo é – não poupemos nas palavras – uma enorme maçada e um infinito tédio para todos: autor, convidados, assistência. Mas será que ninguém entende, no meio editorial, o enfado que esta parte de um lançamento representa? Além do mais, se um escritor não conseguir ler de uma forma entusiasmante para cada uma das sensibilidades presentes na assistência, o que é uma tarefa hercúlea, sublinhe-se, pode ocultar a qualidade que o texto possa ter.
A sério, não é assim tão difícil: um escritor escreve livros, os leitores lêem livros. E tanto a escrita como a leitura são actos íntimos. Consequentemente, agradece-se que libertem os lançamentos das sessões de leitura.
Carlos Malmoro