Leaving Las Vegas
Carlos Malmoro
Pertenço a um género de portugueses / Que depois de estar a Índia descoberta / Ficaram sem trabalho. Opiário - Álvaro de Campos carlos.malmoro@gmail.com
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Numa indústria/arte de excessos, escândalos, papéis épicos e patéticos, cenas inolvidáveis e menos aconselháveis, representações hilariantes e pejadas de "pathos", sempre vai havendo quem faça do low profile a sua imagem de marca. A actriz Catherine Keener é uma dessas excepções. Representa de uma forma muito objectiva, simples, parece ser fácil fazer aquilo que faz. Vi-a em «Queres ser John Malkovich?», «A Intérprete», «S1mOne» e em «Capote». Em todos eles, mesmo quando o filme era mauzito, vi competência, vi sobriedade, vi excelência sempre em actuações em low-profile. Dá gosto ver e apreciar. Além disso, é uma mulher que não tendo uma beleza transcendental, é simples e pragmaticamente bonita. Que também dá gosto ver e apreciar. Quando lhe perguntaram porque não tinha papéis mais marcantes ou porque não concorria para castings de personagens mais destacados, respondeu, simplesmente, que não tinha nascido para ser estrela. É pena.
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Talvez inspirado em coisas sem sentido retratadas neste post da Leonor, trago hoje à colação David Lynch. Ressalvo que não sou um fanático das obras dele, e não penso, sequer, que qualquer coisa assinada pelo senhor constitua um novo paradigma da sétima arte. Os filmes recentes de Lynch pouco ou nada me dizem. Não que eu ache que são desmerecedores da «marca» Lynch; penso é que ele trilhou caminhos que não me apetece seguir... Vou falar de três obras dele: dois filmes e uma série.
A série, como já terão percebido, é Twin Peaks. Todas as séries de culto que hoje se idolatram começaram em 1990. O terrível homicídio da jovem Laura Palmer leva a Twin Peaks uma equipa do FBI para investigar o caso. À medida que a investigação avança, e os habitantes são confrontados com alguns resultados da mesma, os sentimentos, os laços familiares, as cumplicidades, enfim, tudo o que aproximava as pessoas naquela pequena cidade de 51201 habitantes, convertem-se em desconfianças, inseguranças, acusações. Um excelente exercício que nos prova que uma sociedade pode estar em guerra sem o uso de armas (físicas). E depois aquela banda sonora: mesmo que não víssemos a série, aquelas quatro notas de baixo com orquestração por trás seriam suficientes para explicar o que se estava ali a passar.
«Um Coração Selvagem». É um filme cheio de agressividade, perseguições, de suspense, uma boa panóplia de assassinos contratados, obsessões por Elvis e pelo «Feiticeiro de Oz». Enfim, aquilo que poderia parecer surreal é apenas um «Romeu e Julieta» dos tempos modernos. Laura Dern, uma filha de uma milionária, apaixona-se por Nicholas Cage. A mãe dela não está pelos ajustes, não pelo facto de ele ser um perdido, mas porque também está deslumbrada por ele. Um filme que aconselho.
Finalmente, o melhor filme de Lynch. Acho que nunca ninguém filmou de forma tão intensa. Vi-o pelo primeira com dez anos e lembro-me de ter chorado como um perdido. É extremamente belo e brutal. É o filme da minha vida. Aquele em que aprendi que nada do que aparenta é. Saímos da sala com uma nova visão do mundo: neste filme, é a vida que representa o cinema. Saímos da sala a perguntar o que é um ser humano. A perguntar o que é ser humano. Foi nomeado para oito óscares, não ganhou nenhum. Como as personagens olharam com desprezo para o protagonista, também a academia olhou com desconfiança para uma obra invulgar. Chama-se «O Homem Elefante».
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Serve o presente para informar que a patente do melhor humor aqui produzido é propriedade desta senhora.
Carlos Malmoro
PS: Quanto ao pior, bem, falem comigo...
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«A terra do meu pai era pequena
e os transportes difíceis.
Não havia comboios, nem automóveis, nem aviões, nem mísseis.
Corria branda a noite e a vida era serena.
Segundo informação, concreta e exacta,
dos boletins oficiais,
viviam lá na terra, a essa data,
3023 mulheres, das quais
45 por cento eram de tenra idade,
chamando tenra idade
à que vai desde o berço até à puberdade.
28 por cento das restantes
eram senhoras, daquelas que só havia dantes.
Umas, viúvas, que nunca mais (oh! Nunca mais) tinham sequer sorrido
desde o dia do extremoso marido;
outras, senhoras casadas, mães de filhos...
(de resto, as senhoras casadas,
pelas suas próprias condições,
não têm que ser consideradas
nestas considerações.)
Das outras, 10 por cento,
eram meninas casadoiras, seriíssimas, discretas,
mas que, por temperamento,
ou por outras razões mais ou menos secretas,
não se inclinavam para o casamento.
Além destas meninas
havia, salvo erro, 32,
que à meiga luz das horas vespertinas
se punham a bordar por detrás das cortinas
espreitando, de revés, quem passava nas ruas.
Dessas havia 9 que moravam
em prédios baixos como então havia,
um aqui, outro além, mas que todos ficavam
no troço habitual que o meu pai percorria,
tranquilamente, no maior sossego,
às horas em que entrava e saía do emprego.
Dessas 9 excelentes raparigas
uma fugiu com o criada da lavoura;
5 morreram novas, de bexigas,
outra, que veio a ser a grande senhora,
teve as suas fraquezas mas casou-se
e foi condessa por real mercê;
outra suicidou-se
não se sabe porquê.
A que sobeja
chamava-se Rosinha.
Foi essa que o meu pai levou à igreja.
Foi a minha mãezinha.»
António Gedeão, «Poemas Escolhidos», págs. 69-71, Edições João Sá da Costa, 1996
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....ou o (en)canto de um melancólico crepúsculo:
I told him boy
Don't cry
Something will come up way
And the sunrise
Only God believes in
Dad Dad Dad realize
Love will always find
Is where you lie
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Uma mentira só é desculpável se for honesta.
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no «GR», é o «Mês do Cinema». Convido-vos, portanto, a assistir a esta longa metragem.

Créditos da foto: André Carvalho
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Agora que o André fez as devidas apresentações ao "Mês do Cinema" do «GR», abro as hostilidades com o filme que mais me marcou no ano transacto: “Uma História de Violência”, de David Cronenberg.Aqui mais informação sobre o filme.
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