Para T
Estou velho para isto. Para este correr sem saber muito bem para onde. Para este trânsito raivoso. Para esta ditadura da beleza, do ser fixe, do estar sempre ‘feliz’, do rebanho, dos sítios in, da estereotipação dos gostos. Estou velho para sentir a necessidade de mudar de telemóvel de seis meses em seis meses, só para poder dizer que amo via imagem, e estou velho para ver quatro horas de telelixo diário. Estou velho para a literatura light e para a literatura não-emocional, ou, se preferirem, asséptica. Estou velho para ‘ler’ poesia em videopoemas e em infopoemas e para me aperceber que os versos da poesia pós-moderna são meros aforismos. Estou velho para não ter a liberdade de dizer os clássicos sem que me chamem snob e para ser obrigado a dialogar num dialecto qualquer - que eu não conheço - onde existem as palavras 'prontos', 'quaisqueres', 'fostes',... Estou velho para os créditos a cinquenta anos, para os «dinheiro’s já» e envelheço cem anos quando ouço a expressão «produtos financeiros de alta rentabilidade». Estou velho para as promessas do governo, da oposição, para as reivindicações sindicais e patronais, para o «agora é que é», para o endeusamento da economia, para as «reformas estruturais» e para os «temas fracturantes». Estou velho para escutar os críticos de tudo e de nada, para os críticos dos críticos, para seguir as profecias do Prof. Marcelo, Pacheco Pereira, Miguel Sousa Tavares e quejandos, e tomar as suas declarações como verdades iluminadas. Enfim, estou velho para a falta de bom senso. E depois vens tu e dizes «o teu mundo de afectos é muito bonito», rejuvenesço e fazes-me perceber que as pessoas são elixir da eterna juventude. Carlos Malmoro |





























