20 abril 2006

Escrever

Escrever é uma constante derrota. Tentar traduzir realidades por sinais, tentar expressar emoções por signos, tentar desvendar personagens através de símbolos ou tentar desenhar pensamentos e ideias em letras, são actos falhados. Escrevo com inteira e absoluta consciência disso. Sei que por cada realidade que tento descrever, é um teatro que enceno; sei que por cada emoção que arrisco a expressar, é apenas uma impressão ténue que transmito; sei que por cada personagem que caracterizo, é uma máscara que nasce e sei que cada vez que tento conduzir um pensamento do cérebro até à ponta dos dedos, metade da sua essência fica pelo caminho


Escrever é uma constante derrota. Se eu afirmar uma coisa tão prosaica como «Hoje está a chover.», a miríade de possibilidades, nuances e matizes que se encontram dentro desta singela frase, deixaria os leitores completamente desarmados: muito ou pouco?, onde? em que dia escreveste isso?, ontem não estava?... E dentro dessas nuances, entraria o subjectivo: o que significa para ti muito? E mesmo se eu quantificasse em mililitros por metro quadrado, essa quantificação não passaria de uma média aritmética que generalizava a cidade onde eu vivia e as vinte e quatro horas do dia. Se escrever uma frase tão simples como esta, representa sempre uma derrota, porque nunca a explicaríamos na sua totalidade, é inconcebível tentar expressar a mais simples das emoções humanas.

Escrever é uma constante derrota. Por cada frase que escrevemos, deveríamos escrever uma biblioteca infinita de Borges. Escrevia-se a frase pretendida. A partir daí, explorávamos as possibilidades dessa frase. Dessas possibilidades, explorávamos cada uma individualmente e as bifurcações que elas permitiam. E continuaríamos nesta progressão geométrica até ao limite do infinito. Mas, como é dos livros, o infinito é exactamente a ausência de limites. Derrotado, portanto.

Escrever é uma constante derrota. Sabendo-o, continuo a tentar até a uma utópica vitória momentânea ou até à derrota final. Não por masoquismo. Não por pessimismo. Entro no texto, assim como entraria numa partida de xadrez contra o Kasparov – tendo a total noção de que os meus conhecimentos comparados com os dele se resumem a partículas, mas não deixando de aceitar o desafio. O desafio em que as minhas infinitésimas possibilidades de o vencer são proporcionalmente inversas àquilo que eu aprenderia com ele e, principalmente, comigo próprio. Através dos meus erros e da sua sabedoria.

Escrever é uma constante derrota. Aceito-o. Sei que é numa utopia em que entro quando entro num texto. Sei que haverá distorções. Sei que haverá pessoas transformadas em personagens, realidades travestidas de circo e jamais conseguirei um texto completo. Sei ainda que os meus pensamentos não estarão bem explanados, que as minhas emoções serão metamorfoseadas em ténues impressões, e que a minha voz não passará de um disforme sussurro. Mas prefiro um mau pensamento à acefalia. Prefiro uma impressão à insensibilidade. E, claro, prefiro um sussurro ao silêncio.
Carlos Malmoro

19 abril 2006

Perspectivas XV

Começar a namorar é melhor maneira de acabar com a paixão.

Carlos Malmoro

18 abril 2006

Qual é a utilidade...

de os portugueses suportarem um canal sem publicidade, se as séries como «Sete Palmos de Terra», acabam às duas e meia da manhã de um dia de semana?...
Carlos Malmoro
Sugestão ao programador d' «A Dois»: a próxima série de Sopranos, às três da matina de segunda para terça, parece-me uma boa hipótese de trabalho. Brincadeirinha...atreve-te, ó palhaço!...


17 abril 2006

Perspectivas XIV

«Do rio que tudo arrasta se diz que é violento / Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem.»

«Infeliz do país que precisa de heróis. »

«Primeiro levaram os negros

Mas eu não me importei com isso

Eu não era negro


Em seguida levaram alguns operários

Mas eu não me importei com isso

Eu também não era operário


Depois prenderam os miseráveis

Mas eu não me importei com isso

Porque eu não sou miserável


Depois agarraram uns desempregados

Mas como tenho o meu emprego

Também não me importei


Agora levam-me

Mas já é tarde.

Como eu não me importei com ninguém

Ninguém se importa comigo.»

Bertold Brecht

Amar em círculos

Quando aos dez anos se ama uma criança de um ano, é-se internado num estabelecimento psiquiátrico.

Quando aos vinte se ama uma criança de dez, é-se preso por pedofilia.
Quando aos trinta se ama uma pessoa de vinte, é-se olhado de lado porque ele só quer «aquilo» dela.
Quando aos quarenta se ama uma pessoa de trinta, a de trinta anda atrás do nosso dinheiro.
Quando aos cinquenta se ama uma pessoa de quarenta, já ninguém acredita que é possível haver amor.
Quando aos sessenta se ama uma pessoa de cinquenta, os familiares do de sessenta perguntam se não é melhor mandá-lo para um lar.
Quando aos setenta se ama uma pessoa de sessenta, é-se internado num estabelecimento psiquiátrico.

Carlos Malmoro

A resposta correcta

...para o desafio que lancei neste post, era que tinha sido um homem a escrever o livro que recebera tais críticas: Leonard Cohen, para o romance «Beautiful Losers». Podem conferir desenvolvimentos na caixa de comentários do mesmo.

Carlos Malmoro

16 abril 2006

Beijos originais

Na senda alguns testes feitos na Internet, mas que propositadamente não publiquei, porque a exposição do ridículo também tem limites, deixo-vos com o meu resultado de Como são realmente os seus beijos?, que afirma que os meus beijos são originais. A pergunta que se impõe: isso significa exactamente o quê?

Carlos Malmoro

Perspectivas XIII

O engenho aguça a necessidade.

Carlos Malmoro

14 abril 2006

Van Gogh - Pieta d'apres Delacroix

13 abril 2006

Beckett e o Parlamento português

No dia em que passa um centenário sobre o nascimento de Samuel Beckett, as páginas dos jornais trazem isto:

119 deputados saíram para férias e já ninguém pôde votar: Oito propostas do Governo e um voto de protesto do CDS/PP contra o encerramento das maternidades de Barcelos, Santo Tirso e Bragança ficaram ontem, véspera de férias de Páscoa, por votar no Parlamento por falta de quorum de deputados. Dos 230, estavam no plenário apenas 111 parlamentares, quando são necessários, no mínimo, 116 para se poder proceder a votações.

Percebo agora que aquele «Tentar de novo. Falhar de novo. Falhar melhor.» foi escrito a pensar em Portugal.

Carlos Malmoro


12 abril 2006

Perspectivas XII

A melhor forma de se levar a vida de adulto é agir como uma criança.

Carlos Malmoro

11 abril 2006

Nós de gravata

Diálogo entre uma empregada de uma loja e um cliente:
Ele – Desculpe, como eu não sei fazer nós de gravata, a Srª não se importava de o fazer?
Ela – Com todo gosto. Qual é o tipo de nó que o Sr. deseja?
Ele – Aquele igual ao do Abel Xavier.
Eu (pensamento) – Quando o futebol até já inspira nós de gravata, podemos perder as esperanças de quaisquer laivos de civilização…
Carlos Malmoro
PS: Mentira! O que eu realmente pensei foi: quando estás com a tua mulher, também lhe pedes uma queca à Ronaldo?

O bem amado II

Quando há cerca de mês e meio vi «Capote», apercebi-me que a gabardina do protagonista era em tudo semelhante à que eu levei à sessão. Sendo que a acção decorre no tempo da Maria Cachucha, não devia vir para aqui choramingar de aos 31 não ter ninguém que me acompanhe aos casórios. É que a vestir assim, não se deve ter grandes ilusões.
Carlos Malmoro
PS: E não, não acredito que o Guarda-roupa do filme esteja errado...

Não se lê, mas

…se às escutas orwellianas, juntarmos a burguesia queirosiana, a burocracia kafkiana e os incêndios dantescos, temos de conceder que Portugal é um país eminentemente literário.
Carlos Malmoro

10 abril 2006

Um carolo

Comprei um teclado todo XPTO, sem fios, e um rato com as mesmas características. Saio da loja. Ando duzentos metros e entro numa livraria. Compro um romance de Philip Roth. Saíu-me mais caro o livro do que os dois instrumentos. Da próxima vez que alguém me vier dizer que a cultura não é cara, que é tudo uma questão de prioridades, que mais vale um livro do que uma ida à disco, blá blá blá, blá blá blá, coiso e tal, dou-lhe um carolo. A sério que dou. Dasse...
Carlos Malmoro

08 abril 2006

Vida Garfield

Sexta-feira: sair do trabalho pelas dezanove horas. Ter ainda uma agenda cheia de problemas inadiáveis para resolver.Estar-me positivamente cagando para eles. Dar meia volta ao carro. Fazer 150 Km para ir comer arroz de lulas a Sanxenxo. Ir beber um copo cheio de coisas boas a Vigo. Voltar para casa com todos os problemas inadiáveis resolvidos.

Carlos Malmoro

To my sweet oldest brother

We went into town on the tuesday night
Searching all the places that you hang about
We’re looking for you

In the back street cellar dive drinking clubs
In the discotheques and the gaming pubs
We’re looking for you

You will pay the price for my own sweet brother
And what he has become
And a hundred other boys and girls
And all that you have done
We picked up the trail at the seven crowns
One of your cronies - he was doing your rounds
We followed him

Just a silhouette figure up market pass
Where the headlamps shine on the broken glass
We followed him

Over the bridge by the old canal
Where the shadows dance on the lighted wall
He stopped to light up a cigarette
And we dived into a doorway

No police, no summons, no courts of law
No proper procedure, no rules of war
No mitigating circumstance
No lawyers fees, no second chance

There are lasses getting trouble on their own home beat
There are old folk battered in the open street
In this city of ours
There are eyes that see but say nothing at all
There are ears that hear but they don’t recall
In this city of ours
So we followed your man back to your front door
And we’re waiting for you outside’cos not everybody here is scared of you
Not everybody passes on the other side

No police, no summons, no courts of law, no courts of law
No proper procedure, no rules of war
No mitigating circumstance
No lawyers fees, no second chance

And we could spent our whole lives waiting
For some thunderbolt to come
And we could spent our whole lives waiting
For some justice to be done
Unless we make our own

No police, no summons, no courts of law
No proper procedure, no rules of war
No mitigating circumstance
No lawyers fees, no second chance


Carlos Malmoro

The Hunt - Sepultura

06 abril 2006

Homem ou Mulher

A mulher mais traumatizada pelo mau tempo que conheço, lançou um desafio: tratava-se de, através de um excerto do texto, descobrir se tinha sido um homem ou mulher a escrevê-lo. Vinha isto a propósito de saber até que ponto existia uma separação de águas entre escrita feminina e masculina. Pedindo permissão para a utilização da ideia (espero que não seja propriedade industrial como as ideias da Guidinha Rebelo Pinto), lanço o mesmo desafio mas noutros moldes: quem obteve as seguintes críticas a um livro seu – um homem ou uma mulher? (deixo em inglês por impossibilidade de tradução de algumas palavras / expressões)
«This is among other things the most revolting book ever written in (...)»

«I have just read the new novel and I’ve had to wash my mind.»

«Verbal masturbation.»

«We’ve overdrive and overkill and now we have oversex.»
«At it’s best (...) is a sluggish stream of concupiscence exposition of nausea»
Boa Sorte.
Carlos Malmoro

05 abril 2006

iPod - Playlist # 1

Track 1 - It's difficult. It's very tough. I said to the man who'd been sleeping rough / I wondered when this would be over /And at home we are all so guilty-sad / Now, I'm sitting pretty down on the bank /Life shuffles past at a low interest rate / In the money-coloured meadows / And all the interesting shadows / They leap up, then dissipate / Easy Money / Rain it down on the wife and the kids / Rain it down on the house where we live / Rain it down until you got nothing left to give /And rain that ever-loving stuff down on me.

Track 2 - In two more years, my sweetheart, we will see another view / such longing for the past for such completion / What was once golden has now turned a shade of grey / I've become crueler in your presence / They say: 'be brave, there's a right way and a wrong way' / This pain won't last for ever, this pain won't last for ever / Two more years, there's only two more years / Two more years, there's only two more years / Two more years so hold on

Track 3 – Rosemary / Oh heaven restores you in life / I spent a lifespan with no cellmate / The long way back / Sandy, why can't we look the other way? / You're weightless, semi-erotic / You need someone to take you there / Sandy, why can't we look the other way? / Why can't we just play the other game? / Why can't we just look the other way?

Track 4 - It's the only way of getting out of here / This is the modern way / Of faking it everyday / And taking it as we come / And we're not the only ones / Is that what we used to say / This is the modern way / This is the modern way

Track 5 - With one hand you calm me / With one hand I'm still / People are fragile things, you should know by now / Be careful what you put them through / People are fragile things, you should know by now / You'll speak when you're spoken to

Track 6 - The magicians secrets all revealed / And the preachers lies are all concealed / And all our heroes lack any conviction / They shout through the bars of cliche and addiction / So i've got to go / I've got to go, so here i go / I'm going to run the risk of being free // And in this drought of truth and invention / Whoever shouts the loudest gets the most attention / So we pass the mic and they've got nothing to say except: / "Bow down, bow down, bow down to your god" / Then we hit the floor / And make ourselves and idol to bow before, // Well i can't / And i wont / Bow down /Anymore.// No more.

Track 7 - people say that you'll die faster than without water, but we know it's / just a lie, scare your son, scare your daughter / now here's the sun, it's alright! now here's the moon, it's alright! / now here's the sun, it's alright! now here's the moon, it's alright! but everytime you close your eyes, lies!

(…)
Carlos Malmoro

04 abril 2006

Um destes dias vou deitar-me com Couves & Alforrecas.

Perspectivas XI

A humildade é a suprema vaidade.

Carlos Malmoro

Alberto João Jardim - uma pessoa coerente

Porquê tanto berreiro por Alberto João Jardim não querer comemorar o 25 de Abril? Se no 25 de Abril se celebra a liberdade e a democracia, então para quê festejar?

Carlos Malmoro

Perspectivas X

(ou como todas as generalizações são falaciosas):

Na mulher, o amor é a Prova Geral de Acesso ao sexo. No homem, o sexo é Prova Geral de Acesso ao amor.

Carlos Malmoro

O bem amado

O insucesso nas relações revela-se quando, aos 31 anos, olhamos para a agenda e não achamos ninguém indicado para servir de acompanhante a um casamento. E anda um pai a criar um filho para isto.

Carlos Malmoro

Oferta de emprego

Revisor: profissional que através de uma leitura vigilante, revê os manuscritos para encontrar erros ortográficos/gramaticais, contradições do enredo, incongruências das personagens. Também preciso de um revisor. Mas para a minha vida.

Carlos Malmoro

«- Pensam que eu estou zangado por eles dizerem disparates, laborarem em erro? Mentira! Até gosto que eles disparatem, que laborem em erro! Enganarmo-nos é o único privilégio humano frente a todos os outros organismos! Quem erra, chega à verdade! Sou ser humano precisamente porque erro.Ainda ninguém chegou a uma verdade qualquer sem antes se ter enganado catorze vezes, ou talvez cento e catorze, e isso é um mérito, neste sentido. Mas não, nem sequer sabemos errar por nossa nossa própria cabeça! Diz-me um disparate, mas à tua maneira, aí dou-te um beijo. Um disparate nosso, à nossa maneira, é quase melhor que uma verdade alheia: no primeiro caso, somos seres humanos, no segundo somos passáros! Não é a verdade que foge de nós, mas é muito mais fácil dar cabo daquilo que é realmente vida: há exemplos disso. O que somos nós, agora? Todos nós, todos sem exclusão, em termos de ciência, de desenvolvimento, de pensamento, de descobertas, de ideais, de desejos, de liberalismo, de razão, de experiência, de tudo, tudo, tudo, tudo, andamos ainda no primeiro ano do liceu! Tomámos o gosto de nos satisfazermos com as ideias alheias, ganhámos esse hábito! Não é verdade? Não é verdade o que eu estou a dizer? - gritava Razumíkkhin, sacudindo e apertando os braços das duas mulheres. - Não é verdade?»
Fiódor Dostoiévski, Crime e Castigo (ou 'O Grande Livro das Sombras da Alma'), Parte III, Cap. I.
Carlos Malmoro

02 abril 2006

João Paulo II - Um ano depois

Não creio. Sou a favor da Interrupção Voluntária da Gravidez. Defendo o uso do preservativo. Considero que a vida, se estiver a causar unicamente sofrimento, possa ser interrompida. Estas são as minhas convicções. As convicções do senhor Wojtyla eram diferentes. Ainda bem que as defendeu: uma pessoa que não defende as suas convicções, só porque a maioria possa estar contra elas, é vulgarmente chamado de cobarde, cacique, oportunista, enfim, por aí...
Apenas registo, passado um ano da sua morte, o legado que ele deixou: esteve contra o comunismo e o nacional-socialismo, vulgo, nazismo, estava agora contra o capitalismo neo-liberal; aproximou-se dos jovens, mas não deixou de prescindir de mostrar que a velhice, mesmo sofrida, é uma parte da condição humana,i.e.,resistiu à tirania da juventude que neste mundo assume proporções cada vez mais surrealistas - aos 45 anos, uma pessoa já não é válida para trabalhar...
Praticou o ecumenicismo, abrindo a Igreja ao diálogo com outras religiões, deixou o conforto do Vaticano e viajou pelo mundo inteiro, desde a mais cosmopolita das cidades ao mais inóspito sítio; foi um pregador incansável da paz, nunca renengando que existem certos momentos na vida que a força possa ser usada para libertar o Homem (ele foi o primeiro líder internacional a denunciar que a população muçulmana de Sarajevo estava sob cerco e que todos os meios eram válidos para prevenir o genocídio).
Há um ano, muitos elogios se ouviram. Aquele que eu considerei mais correcto, na altura, foi proferido pelo Presidente da Comunidade Islâmica Portuguesa: «João Paulo II foi o Papa dos crentes e dos não crentes.» Hoje, com a boçalidade da questão dos cartoons na agenda, talvez não fosse permitido a um líder muçulmano tal liberdade.
Agora que passa um ano sobre a sua morte, e uma vez que não sou crente, apenas desejo que descanse em paz e que a forma como percorreu a vida inspire a vida de certos cowboys que andam pelo mundo a provocar a morte.
Infelizmente, sei que este meu último desejo não se realizará...
Carlos Malmoro
PS: É impressão minha ou Karol Wojtyla conseguia ser mais enfático com uma palavra, dita distorcidamente por causa da doença, do que Bento XVI numa encíclica inteira?

Na mesa de cabeceira:

Para T

Estou velho para isto. Para este correr sem saber muito bem para onde. Para este trânsito raivoso. Para esta ditadura da beleza, do ser fixe, do estar sempre ‘feliz’, do rebanho, dos sítios in, da estereotipação dos gostos. Estou velho para sentir a necessidade de mudar de telemóvel de seis meses em seis meses, só para poder dizer que amo via imagem, e estou velho para ver quatro horas de telelixo diário.
Estou velho para a literatura light e para a literatura não-emocional, ou, se preferirem, asséptica. Estou velho para ‘ler’ poesia em videopoemas e em infopoemas e para me aperceber que os versos da poesia pós-moderna são meros aforismos. Estou velho para não ter a liberdade de dizer os clássicos sem que me chamem snob e para ser obrigado a dialogar num dialecto qualquer - que eu não conheço - onde existem as palavras 'prontos', 'quaisqueres', 'fostes',...

Estou velho para os créditos a cinquenta anos, para os «dinheiro’s já» e envelheço cem anos quando ouço a expressão «produtos financeiros de alta rentabilidade». Estou velho para as promessas do governo, da oposição, para as reivindicações sindicais e patronais, para o «agora é que é», para o endeusamento da economia, para as «reformas estruturais» e para os «temas fracturantes».
Estou velho para escutar os críticos de tudo e de nada, para os críticos dos críticos, para seguir as profecias do Prof. Marcelo, Pacheco Pereira, Miguel Sousa Tavares e quejandos, e tomar as suas declarações como verdades iluminadas.
Enfim, estou velho para a falta de bom senso. E depois vens tu e dizes «o teu mundo de afectos é muito bonito», rejuvenesço e fazes-me perceber que as pessoas são elixir da eterna juventude.
Carlos Malmoro

31 março 2006

Na estrada,

...há curvas tão apertadas que, por impulso, me levam a ligar o pisca. Já conheci pessoas assim. Apertadas.
Carlos Malmoro

A traição fatal

Vou fazer um restyling a este blog. Ai vou, vou.

Carlos Malmoro

P.S.: A propósito: ninguém conhece, ou tem ou faz, um template que tenha fundo branco quando é escrito e fundo preto quando se inserem imagens. É que é de um desses que eu ando à procura. Alguém...?!...Não?...Ninguém? Ok.

At the office today: RETRATOS DO TRABALHO EM PORTUGAL

29 março 2006

Cruzamento de dados em 2009

Com um obrigado à S. com Z, por me ter enviado isto, aqui fica:
- Telefonista: Pizza Hot, boa noite!
- Cliente: Boa noite, quero encomendar pizzas...
- Telefonista: Pode-me dar o seu NIN?
- Cliente: Sim, o meu número de identificação nacional é 6102-1993-8456-54632107.
- Telefonista: Obrigada, Sr. Lacerda. Seu endereço é Av. Paes de Barros,1988 ap. 52 B, e o número de seu telefone é 5494-2366, certo? O telefone do seu escritório da Lincoln Seguros é o 5745-2302 e o seu telemóvel é 962662566.
- Cliente: Como é que você conseguiu essas informações todas?
- Telefonista: Nós estamos ligados em rede ao Grande Sistema Central.
- Cliente: Ah, sim, é verdade! Eu queria encomendar duas pizzas, uma quatro queijos e outra calabresa...
- Telefonista: Talvez não seja uma boa ideia...
- Cliente: O quê?
- Telefonista: Consta na sua ficha médica que o Sr. sofre de hipertensão e tem a taxa de colesterol muito alta. Além disso, o seu seguro de vida proíbe categoricamente escolhas perigosas para a sua saúde.
- Cliente: É. Tem razão! O que você sugere?
- Telefonista: Por que é que o Sr. não experimenta a nossa pizza Superlight, com tofu e rabanetes? O Sr. vai adorar!
- Cliente: Como é que você sabe que vou adorar?
- Telefonista: O Sr. consultou o site "Recettes Gourmandes au Soja" da Biblioteca Municipal, dia 15 de janeiro, às 14:27h, onde permaneceu ligado à rede durante 39 minutos. Daí a minha sugestão...
- Cliente: OK, está bem! Mande-me duas pizzas tamanho familiar!
- Telefonista: É a escolha certa para o Sr., sua esposa e seus 4 filhos, pode ter certeza.
- Cliente: Quanto é?
- Telefonista: São 49,99.
- Cliente: Você quer o número do meu cartão de crédito?
- Telefonista: Lamento, mas o Sr. vai ter que pagar em dinheiro.O limite do seu cartão de crédito foi ultrapassado.
- Cliente: Tudo bem, eu posso ir ao Multibanco levantar dinheiro antes que chegue a pizza.
- Telefonista: Duvido que consiga, o Sr. está com o saldo negativo no banco.
- Cliente: Meta-se na sua vida! Mande-me as pizzas que eu arranjo o dinheiro.Quando é que entregam?
- Telefonista: Estamos um pouco atrasados, serão entregues em 45 minutos. Se o Sr. estiver com muita pressa pode vir buscá-las, se bem que transportar duas pizzas na moto não é aconselhável, além de ser perigoso...
- Cliente: Mas que história é essa, como é que você sabe que eu vou de moto?
- Telefonista: Peço desculpas, mas reparei aqui que o Sr. não pagou as últimas prestações do carro e ele foi penhorado. Mas a sua moto está paga, e então pensei que fosse utilizá-la.
- Cliente: @#%/§@&?#§/%#!!!!!!!!!!!!!
- Telefonista: Gostaria de pedir ao Sr. para não me insultar... Não se esqueça de que o Sr. já foi condenado em Julho de 2006 por desacato em público a um Agente Regional.
- Cliente: (Silêncio).
- Telefonista: Mais alguma coisa?
- Cliente: Não, é só isso... Não, espere... Não se esqueça dos 2 litros de Coca-Cola que constam na promoção.
- Telefonista: Senhor, o regulamento da nossa promoção, conforme citado no artigo 095423/12, proíbe a venda de bebidas com açúcar a pessoas diabéticas...
- Cliente: Aaaaaaaahhhhhhhh!!!!!!!!!!! Vou-me atirar pela janela!!!!!
- Telefonista: E torcer um pé? O Sr. mora no rés-do-chão!

Carlos Malmoro

Na piscina

...onde pratico natação, as mulheres são assim discriminadas:


SHAME ON YOU!!!!

Carlos Malmoro

Simplex?!?

Simplex?!?....

27 março 2006

Perspectivas IX

Diz-se que há males que vêm por bem. Mas são infinitamente mais os bens que vêm por mal.

Carlos Malmoro

Perspectivas VIII

- Eu sou assim: digo aquilo que penso.
- Devias ser assado: pensar naquilo que dizes.

Carlos Malmoro

26 março 2006

Por vezes, as «invejas» são boas


«Quando for grande quero ter umas estantes assim altas, com todos os livros lá dentro.» Deve ter sido este o meu primeiro pensamento quando visitei pela primeira vez a casa do geógrafo Orlando Ribeiro, em Vale de Lobos.
O meu pai dava-lhe assistência médica e, um dia, tinha eu sete anos, proporcionou-se que eu o acompanhasse nessa visita. Quando entrei na casa do geógrafo (para quem não sabe quem ele foi, consulte os livros de Geografia do secundário: a maior parte dos textos são dele) e fui para a sala, fiquei completamente fascinado com aquelas estantes, altas, até ao tecto, por todo lado, a forrarem literalmente as paredes com livros e mapas, mais livros do que alguma vez imaginara, planisférios enrolados naquele espaço entre o final das lombadas e o madeira da próxima prateleira e cartografias abertas sobre a mesa de trabalho. Eu também tinha de ter aquilo.
O meu pai e o professor Ribeiro lá iam falando das condições de saúde deste último. Eu continuava de boca aberta. Repararam em mim. O professor, com carinho, perguntou-me se eu queria levar algum emprestado. Não lhe respondi perguntando se já tinha lido aqueles livros todos. Ele replicou que a maior parte sim, mas que outros eram só de consulta. Voltou a perguntar se eu queria levar algum. Eu perguntei se me emprestava todos só por um dia. Os dois sorriram. Eu voltei a pensar: «um dia hei-de ter umas estantes assim. Com todos os livros lá dentro.» E jurei a mim mesmo lê-los de uma ponta a outra. Até os de consulta.



Hoje tenho algumas estantes com livros. Muitos livros. Não dão para forrar as paredes de casa na sua totalidade nem vão até ao tecto. Mas já vão estorvando e tirando rendimento mensal. Não cumpri a minha promessa de lê-los a todos. Alguns porque são de consulta, outros porque, muito honestamente, desiludiram-me. Mas ainda tenho trinta e um anos, e a possibilidade de ler e ter tantos livros como o Professor ainda não se pode dar como perdida. Já não digo o mesmo em relação à sua sabedoria. Mas não podemos ter tudo, não é?

Carlos Malmoro

25 março 2006

turner

23 março 2006

Perspectivas VII

Diz-se que dá deus nozes a quem não tem dentes. Também não é menos verdade dizer que dá deus dentes a quem não tem nozes.

Carlos Malmoro

Um dia hei-de entender. Prometo.

Nesta época de minidisc’s, DVD’s, Pen’s e outros gadget’s modernos de gravação, por que obscura razão o ícone que serve para 'Guardar' no Office (para os puros, «Save») é uma anacrónica e paleolítica disquete?
Carlos Malmoro

22 março 2006

O nome também se gasta

Depois de um dia de trabalho destes, a palavra que mais me irrita ouvir é «Carlos».

«Pessoas com defeito»

"Muitas vezes, as empresas exigem pessoas com menos de 25 anos e outras vezes reclamam porque nós mandamos pessoas com defeitos."

Será que há pessoas que «têm defeito»? As pessoas precisam de ter uma garantia de dois anos como as torradeiras? Ou será que as pessoas precisam de ser «normalizadas» pelas normas CE como as batatas, as bananas ou os espargos? Eu pensava que não… Até Sua Eminência, o Exmo Sr. Director do Centro do IEFP de Fafe, dizer o contrário. E se ela, a Sua Eminência, afirma uma bestialidade dessas, quem sou para a contrariar?
Carlos Malmoro

21 março 2006

Dia Mundial da Poesia III (vertiginoso jogo de palavras)

And the mercy seat is waiting / And I think my head is burning / And in a way I'm yearning / To be done with all this measuring of truth. / An eye for an eye / And a tooth for a tooth / And anyway I told the truth / And I'm not afraid to die. / And the mercy seat is burning / And I think my head is glowing / And in a way I'm hoping / To be done with all this weighing up of truth. / An eye for an eye / And a tooth for a tooth / And I've got nothing left to lose / And I'm not afraid to die. / And the mercy seat is glowing / And I think my head is smoking / And in a way I'm hoping / To be done with all this looks of disbelief. / An eye for an eye / And a tooth for a tooth / And anyway there was no proof / Nor a motive why. / And the mercy seat is smoking / And I think my head is melting / And in a way I'm helping / To be done with all this twisted of the truth. / A lie for a lie / And a truth for a truth / And I've got nothing left to lose / And I'm not afraid to die. And the mercy seat is melting / And I think my blood is boiling / And in a way I'm spoiling / All the fun with all this truth and consequence. / An eye for an eye / And a truth for a truth / And anyway I told the truth / And I'm not afraid to die. / And the mercy seat is waiting / And I think my head is burning / And in a way I'm yearning / To be done with all this measuring of proof. / A life for a life / And a truth for a truth / And anyway there was no proof / But I'm not afraid to tell a lie. And the mercy seat is waiting / And I think my head is burning / And in a way I'm yearning / To be done with all this measuring of truth. An eye for an eye / And a truth for a truth / And anyway I told the truth / But I'm afraid I told a lie.
Nick Cave - The Mercy Seat

Carlos Malmoro

O pior dia da semana

O meu pior dia da semana não é a Segunda-Feira. Considero-a, antes, o início do fim da semana – tem-se sempre de começar por algum lado.
A Terça-feira serve para embalar e, além disso, por motivos pessoais, é um dia especial. Quarta-Feira: chega-se ao fim do dia e sabe-se que mais de metade da semana está cumprida. É um primeiro alívio.
Sexta-feira: tudo está consumado.
Quinta-feira – o empecilho da quinta-feira. É o pior dia da semana. É o estorvo que está entre o meio e o fim-de-semana. É um dia chato. É aquele dia em que o trabalho corre sempre mal. É o dia em que, se somos empregados, o chefe começa por nos dizer: «Bom dia e que bela merda de trabalho você tem aqui.»; e é o dia em que, se somos patrões/chefes os empregados acabam sempre por fazer aquelas merdas que julgávamos impossíveis de serem realizados por humanos com [suposta] inteligência.
As quintas estão enguiçadas, sempre desconfiei, e cada vez tenho mais certezas disso. Nem quando o dia de S. Receber calha numa quinta feira, ela é menos penosa. Por outro lado, os colegas parece que estão mais irritantes do que nunca - mesmo aquela colega simpática do escritório, aquela que quando queremos aliviar um pouco a tensão a convidamos para o café, anda completamente carrancuda e deixou o sorriso colgate guardado dentro da respectiva pasta dentrífica.
Eu sei que tudo isto é uma embirração e uma estúpidez. Mas que outra coisa é a quinta-feira, senão um dia embirrento e estúpido?
Carlos Malmoro

Dia Mundial da Poesia II

«Se a natureza é a arte de Deus, a arte é a natureza do homem. » J. A. Pina

20 março 2006

Dia Mundial da Poesia

«Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.» Ricardo Reis

«Encher o vazio com nada.» e.e. cummings

«Tantos nomes que não há para dizer o silêncio - » Herberto Helder

«Vaza-me os olhos: continuarei a ver-te.
Tapa-me os ouvidos: continuarei a ouvir-te.» Rainer Maria Rilke

«Possam estes sinais permanecer
Quando tudo for ruínas outra vez.» W. B. Yeats

«Pensamento meu,
Quando me levarás onde te envio eu?» Anónimo

«No mundo há só um templo: o corpo humano.
É no céu que tocamos quando tocamos num corpo humano.» Novalis

«Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar» Luís Vaz de Camões

«Quando a pátria que temos não a temos
Perdida por silêncio e por renúncia
Até a voz do mar se torna exílio
E a luz que nos rodeia é como grades» Sophia

«A razão de eu escrever
É fazer algo
Tão belo como tu» Leonard Cohen


Carlos Malmoro

Turner

19 março 2006

Visões ao anoitecer de um domingo chuvoso


Estou na biblioteca infinita de Borges. Joyce propõe-se a escrever trezentas páginas acerca do melhor modo de se fritar e comer um rim ao pequeno-almoço. Franz Kafka ainda está irritado por não lhe terem queimado os escritos como era sua vontade testamental - como bom advogado, vai processar todos aqueles que leram, criticaram ou elogiram a sua Obra.

Marcel Proust quer escrever a oitava parte da Recherche: seiscentas páginas a descrever um sorriso numa única frase. Pessoa apoia a ideia e oferece-lhe um Porto para acompanhar as Madalenas: diz-lhe que não há melhor pomada para os acamados.

Camões e Shakespeare já não podem ouvir falar de poesia pós-moderna: um está a escrever uma Lírica a dizer mal da Poesia Minimalista e o outro a escrever uma peça de teatro de duas mil páginas, fora didascálias, em vinte actos, contra a Poesia Concreta. Termina assim: «Quando a poesia é representada por instalações, videopoemas e infopoemas, então há algo de muito podre no reino da Palavra.»

Acordo.

Carlos Malmoro

Perspectivas VI

Uma pessoa foi morta.

Dez pessoas foram mortas.

Cem pessoas foram mortas.

Mil pessoas foram mortas.

Um milhão de pessoas foram mortas.



Carlos Malmoro

Sou um tipo importante....

Fui alvo de uma tentativa de phishing aos dados da minha conta no banco norte-americano Chase Bank.
Só que há aqui um 'pequeníssimo' pormenor que escapou aos artistas que tentaram fazer isto: não tenho lá conta (nem nunca tinha ouvido falar em tal instituição)..Estes piratas informáticos de hoje não valem um cêntimo...
Carlos Malmoro

18 março 2006

Patrick Wolf - The Libertine

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17 março 2006

Arte contemporânea

A maior dificuldade dos empregados de limpeza daquele museu era distinguir o que era arte do que era lixo.

Carlos Malmoro

16 março 2006

Auto-elogio

Serve o presente para esclarecer que o anterior foi a coisinha mais desinspirada, mais insonsa, mais entediante e mais digna de competir com um qualquer valium ou lorenin, no que à indução de sono diz respeito, que alguma vez escrevi.
Podia apagá-lo mas mantenho-o. Para que a memória do que é uma triste figura ao teclado não esmoreça.
Tenho dito.

Carlos Malmoro

15 março 2006

Dia Mundial do Consumidor

Já o sabíamos. Mas é sempre bom confirmarmos com quem de direito: «Fornecedores contornam regras nas garantias dos produtos.»

Carlos Malmoro

14 março 2006

A propósito da morte de Milosevic...

...fica aqui um excerto do romance «A Vida e o Tempo de Michael K.». de J. M. Cotzee:
«Não é vergonha nenhuma ser um simples de espírito. Eles costumavam deter os simples de espírito antes dos outros. Agora têm campos para crianças cujos pais andam fugidos, campos para pessoas que estrebucham e deitam espuma pela boca, campos para pessoas com cabeças grandes e para pessoas com cabeças pequenas, campos para pessoas visivelmente sem recursos, campos para desempregados da agricultura, campos para pessoas que se encontram a viver junto dos canos de esgoto, campos para prostitutas, campos para idiotas, campos para pessoas que se esquecem dos seus cartões em casa, campos para pessoas que vivem nas montanhas e fazem explodir pontes durante a noite. Talvez seja verdade que já é suficiente estar fora dos campos, fora de todos os campos ao mesmo tempo. Quantas pessoas restam que não estão detidas, nem de guarda ao portão?»
Na Jugoslávia, no tempo de Milosevic, eram poucos aqueles que nem estavam detidos nem de guarda ao portão. Nem numa vala comum...
Carlos Malmoro

Se tu o dizes, quem sou eu para...

E aos 14 dias do Mês de Março do ano da Graça de 2006, C. decreta: «Já se vêm alguns decotes: está aberta a caça.»

Carlos Malmoro

Turner

13 março 2006

Profecia

Quando o clamor pela justiça se esbater
Na deriva dos ecos do silêncio, e os sonhos
De liberdade forem agrilhoados à vertigem
Do ter;
Quando a dor, a tristeza, a morte
E a fome se revelarem como destinos últimos
Da poesia, e os regressos quedarem-se como
Delírios por não existir ponto de partida;
Quando
A memória for trocada por um fotograma, a
Imaginação tiver como matriz o bite e a alma
Decifrada em códigos de barra;
Quando o último
Anjo da morte tomar o poder e desaparecer
O derradeiro espírito da estirpe que caminha
Na senda do elemento onírico;

Nesse dia, desesperadamente, entenderemos
Que o silêncio é o mais violento dos discursos.

Carlos Malmoro

Perspectivas V

Ela: Sempre bola, sempre bola…Que graça tem 22 homens a correr atrás de uma bola?
Ele: Que querias? 22 bolas a correr atrás de um homem?
Ela: Sempre era diferente e pelo menos tinha o mérito de o jogador, durante os 90 minutos, saber o que uma mulher sente numa sexta à noite.
Carlos Malmoro

Nem assim...

Numa visita à Palestina e a Israel, Sharon Stone afirmou que não se importava de dar os beijos necessários para que houvesse paz no Médio Oriente. Se nem assim as tréguas são declaradas, não esperem milagres: aqueles lábios valem mais para os homens do que mil acordos de paz.
Carlos Malmoro

12 março 2006

Os «Fundamentais»

«A Direcção-Geral da Saúde fez uma lista das cem mil pessoas "fundamentais para o país" e encomendou medicamentos antivirais para as proteger em caso de uma pandemia de gripe. Pelos cargos que ocupam, estes portugueses serão capazes de "manter as estruturas básicas do país a funcionar". É caso para perguntar: quem são os indispensáveis?» DN, 11/03/2006.
Normalmente, e como relata a notícia, os «fundamentais» seriam os profissionais da Saúde, Justiça, Protecção Civil, Educação, etc. Mas o que, olhando à nossa idiossincrasia enquanto país, vai acontecer é a distribuição segundo a cunha. Assim, terão direito ao Tamiflu, os seguintes «fundamentais»:
  • os construtores civis e empreiteiros (porque é preciso destruir o que resta de ordenamento);
  • a Administração Púbica toda, desde a Central à Local, desde os ministros ao 2º vogal assistente do 2.º secretário de Alfaquiques (porque nenhum país progride sem um bom prato de caos e uma lauta sobremesa de burocracia kafkiana, refeições que estes senhores sempre foram mestres em nos servir);
  • os dirigentes do futebol e os jogadores de futebol (que, respectivamente, vão cuidar que a corrupção continue a grassar e que os pontapés na gramática sejam uma realidade);
  • Finalmente, os responsáveis e empregados de centros comerciais (para evitar que os fins de semana de mais de 90% dos portugueses sejam passados a pensar na pandemia).

No final, a pandemia vai revelar-se um autêntico flop, como foram a Febre Aftosa, a BSE ou a Pneumonia Atípica, que, segundo previsões 'nada alarmistas', iriam causar milhões de mortes, planos de evacuação de cidades e a mudança radical no nosso quotidiano.

O mal destes episódios é que se vêm assemelhando à história do Pedro e do Lobo. E quando for realmente a sério, ninguém acudirá o Pedro.

Carlos Malmoro

Pollard Birches - V. Van Gogh - 1884

11 março 2006

Perspectivas IV

Uma pessoa tem defeitos e virtudes. Como um copo que está a meio.

Na paixão, olhas para o copo e dizes que está meio cheio de virtudes
.
No desprezo, olhas para o copo e dizes que está meio vazio de virtudes.

No amor, vês as duas perspectivas serenamente.

Carlos Malmoro

PS: Ou também podes beber...(lá se foi o romantismo...)

PPS: Todas as palavras foram retiradas do Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Está bem assim, Pitucha?

10 março 2006

Tal pai, ...

Na cerimónia de posse de um novo Presidente, um homem que já foi presidente e foi candidato nas últimas edições, não se dignou a cumprimentar o Presidente empossado.
Esse homem, dizia há cerca de dezoito meses, que o actual Presidente daria um excelente Presidente da República.

Esse homem não aplaudiu o discurso do novo Presidente. Eu também não o faria: adormecia antes.

Esse homem é apelidado de «Pai da Democracia», mas não teve a democracia necessária para cumprimentar o adversário/sucessor.

Esse homem chama-se Mário Soares. É com resignação que coloco este nome num texto sobre um acto tão anti-democrático.

E quando o «Pai da Democracia» não tem a democracia, nem o civismo, nem a educação suficientes para cumprimentar aquele que o povo democraticamente elegeu para Presidente da República, então é bom que não se exija aos filhos da democracia grandes veleidades democráticas, nem se sonhe com uma sociedade civilizada ou educada. Porque, como se costuma dizer, tal pai, tal filho.

Carlos Malmoro

Perspectivas III

- Não te telefonei, mas tenho pensado bastante em ti.
- E eu telefonei.te...Mas para dizer que não penso mais em ti.

Carlos Malmoro

09 março 2006

Perspectivas II

-Uma coisa que gosto de fazer é conduzir sem destino.
-E quando conduzes sem destino para onde vais?
-?!?
-Não te faças de ingénuo: temos sempre um destino.

Carlos Malmoro

08 março 2006

Perspectivas

  • - P. a ligação está com pouca rede: estou a perder-te.
    - Não é só na ligação…
    - Que disseste, P., que não entendi.
    - Nada, S., nada…

  • Quando viam um episódio de novela mexicana, um dizia que a esperança é a última a morrer. O outro dizia que morrer é a última esperança.

  • Um dizia que era de mau carácter ter dois pesos e duas medidas. O outro dizia que o carácter até nem era mau. O chato era de ter de escolher a roupa.

Carlos Malmoro

07 março 2006

Apostas e Catherine Keener

Apostas: Realizador – falhei;

Filme – ao lado;

Actriz Secundária – água;

Actor principal – tiro no porta-aviões.

Mas falemos da água: a actriz Catherine Keener, nomeada para Óscar para Melhor Actriz Secundária (é a senhora que está na foto abaixo). Vi-a em «Queres ser John Malkovich?», «A Intérprete», «S1mOne» e neste «Capote». Em todos eles, mesmo quando o filme era mauzito, vi competência, vi sobriedade, vi excelência em actuações sempre em low-profile. Dá gosto ver e apreciar. Além disso, é uma mulher que não tendo uma beleza transcendental ou um corpo de deusa, é uma mulher misteriosamente bela. Que também dá gosto ver e apreciar.
Quando lhe perguntaram porque não tinha papéis mais marcantes ou porque não concorria para castings de personagens mais destacados, respondeu, simplesmente, que não tinha nascido para ser estrela. É pena.
Carlos Malmoro

Sovay - Andrew Bird

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05 março 2006

Aposto em Capote: Melhor Actriz

Aposto em Capote: Filme, Realizador e Actor

Entre-os-Rios, cinco anos depois.

04 março 2006

As Intermitências da Vida

  • Quando se escuta na rádio: «Um gato alemão morreu com a gripe das aves», perguntamo-nos se o humor non-sense tem alguma hipótese contra a realidade ou se o rádio não estava sintonizado na Monty Python’s Radio.

  • E ao terceiro dia do mês de Março do Ano da Graça do Senhor de 2006, Maya, a astróloga, teve este rasgo: «Lili tem uma nova cara em cima de um pescoço velho.» Soberbo! Letal! Absoluto!

  • Há uns anos, se lesse num jornal que «em 2005, os administradores do Metro do Porto receberam 650 mil euros de prémios de gestão, numa empresa altamente deficitária e cheia de derrapagens financeiras», vociferava neste estaminé que já não havia decência, dizia revoltado ao meus amigos que era por estas e por outras que o país não saía da cepa torta e podia mesmo cometer a loucura de escrever uma carta irada para um periódico de referência dizendo que «este país está perdido! Per-di-do!!!».
    Hoje, e sabendo que algum do dinheiro que custou a ganhar aos meus neurónios foi para aqueles senhores, regresso do estrangeiro, olho para a notícia e penso: «Finalmente, em Portugal». Chama-se a isto crescer. Cres-cer!!!

  • Quando se lê numa revista que Joss Stone quer deixar a música para ser parteira e que Sara Moniz (uma das meninas dos «Morangos com Açúcar») está farta de ser actriz e vai ser cabeleireira, agradeço e fico feliz pelas meninas se irem dedicar àquilo que realmente sabem fazer.

    Carlos Malmoro

Tudo o Que Há Para Saber de Adolph Eichmann

OLHOS:..........Normais
CABELO:..........Normal
PESO:..........Médio
ALTURA:..........Média
SINAIS PARTICULARES:..........Nenhum
NÚMERO DE DEDOS DAS MÃOS:..........Dez
NÚMERO DE DEDOS DOS PÉS:..........Dez
INTELIGÊNCIA:..........Média

Que esperavas?
Garras?
Incisivos enormes?
Saliva Verde?

Loucura?

Leonard Cohen, Flores Para Hitler

Carlos Malmoro

C�sar Cadimo

01 março 2006

Tabuadas

Amigos meus pediram ao filho que fizesse as tabuadas do sete, do oito e do nove. Passados dois minutos, ele aparece com as tabuadas do zero, do um e dois feitas. Justificação do miúdo: «as coisas mais simples são as mais complicadas. E agora, já posso ir brincar?»
Como advogado, o miúdo faz-se.

Carlos Malmoro

Há dez anos...

...morria quem escreveu isto:
«A crença seja no que for é um resíduo de tudo o que falhou.», e isto:«Não te queixes tanto das falhas de memória. Porque se soubesses tudo o que soubeste, não te poderias mexer. E então é que não terias nenhuma», e isto: «Não queiras saber tudo. Deixa um espaço livre para te saberes a ti», ou isto: «O melhor de uma verdade é o que dela nunca se chega a saber» e, finalmente, isto: «A verdade primeiro ama-se, depois demonstra-se».

Vergílio Ferreira, Escrever

Carlos Malmoro

28 fevereiro 2006

Van Gohg

Da Licenciosidade

«Contém Material Sexualmente Explícito». Foi esta a explicação que a NBC deu para não transmitir a canção Start Me Up dos Rolling Stones. A banda tocou dois temas durante o intervalo da final do Super Bowl. Curiosamente, transmitiram a canção «(I can’t get no) Satisfaction», do mesmo grupo. Chama-se a isto licenciosidade relativa.

David Irving, o historiador negacionista do Holocausto, foi condenado por um tribunal austríaco a cumprir uma pena efectiva de prisão. Está mal. Se existem cartoonistas ridículos a quem defendo a sua licenciosidade, também não o poderia deixar de fazer para este «historiador» de estorietas. A licenciosidade tem de ser absoluta.

Dicionário de sinónimos do Word para o verbo «fazer»: defecar, evacuar, obrar, conceber...E para o adjectivo «licencioso»: depravado, devasso, indecoroso, libidinoso, sensual,… A licenciosidade chegou à informática.

Carlos Malmoro

27 fevereiro 2006

Falta de rede

Ao telemóvel, ele pergunta:

- Gostas de mim?
- P+*x_ enzzztz, não. GSM Service your call…


Ele ainda está a matutar nas três hipóteses:
1) Será que ela disse, «Por enquanto, não»? Será que é um problema temporal?
2) Será que ela disse, «Por encanto, não»? Ou seja, não há amor à primeira vista, mas pode haver a possibilidade de uma relação construída.
3) Ou será que ela usou a velha táctica das mulheres do «pronto-amor-toma-lá-uma-festinha-para-preparar-o-sítio-antes-de-te-dar-uma-paulada», dizendo «Puro encanto, não.»

Passados 20 segundos de profunda reflexão, em que pensou a sério em todas as hipóteses, e em que maldisse a mania das mulheres do não que significa sim e do não que significa não, telefonou a outra.
Afinal, a resposta foi não. E há que ser homenzinho e reconhecer que uma tampa é sempre uma tampa.
Carlos Malmoro

25 fevereiro 2006

Deixar de fumar

Antigamente, fumar era um sinal de afirmação. Hoje, deixar de fumar é um sinal afirmação.

O meu médico, sempre preocupado com a minha afirmação pessoal (e penso que com uma doença que o meu criador padece a que fico mais exposto por fumar, mas isso é o menos), disse que estava na altura de incrementar a minha auto-estima largando o vício.
Depois do choque, analisemos.
Historial:
Começo a fumar cigarros roubados ao criador aos 9 anos. Vou fumá-los para a cave da casa com uma amiga. Um dia, além dos cigarros, fiz-lhe uma cama muito bonita na cave. Olhou-me terna e longamente, sorriu, passou a língua entre os lábios e sussurrou como um regato límpido estas palavras de veludo: «Carlos, vai à fava!». Adiante.
Comecei a fumar «a sério» aos dezassete. A partir daí, e até aos vinte e quatro foi sem parar e em crescendo. No dia dezanove de Novembro de 1999, deixei de fumar. Sem reduções. De um dia para o outro, deu-me para isso. Durante quinze dias, perdi doze amigos e fiz dezoito novos inimigos. E nem foi necessário recorrer ao mau feitio intrínseco: a falta de nicotina realizou a proeza. Deve ser por isso que agora tenho um blogue: falta de amigos.

Recomecei a fumar aos 26 anos. Porquê? Como é que dizia o Einstein? «Só conheço duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. E quanto ao Universo, não tenho a certeza.» Exacto, recomecei a fumar porque o Einstein não tinha a certeza se o Universo é infinito.
Hoje, estou com 31 anos e 30 cigarros por dia.
Possibilidades:
1) Continuar a fumar (é mau para a minha afirmação, segundo o meu médico);
2) Parar de fumar de um dia para o outro, como fiz no passado (esta opção levanta um problema: se perco mais amigos, fico sem contactos…a não ser que crie mais um blogue);
3) Reduzir, força de vontade e pensos de nicotina (não quero adoptar esta opção: sempre pensei que um problema se resolvia com uma solução e não com três. Isso dos sistemas é na matemática);
4) Picada na orelha (é uma escolha que dizem que resulta em mais de 90% dos casos. Porém, (tem de haver sempre um porém, um mas, um contudo, não é?...) é dispendiosa.

Conclusões:
Telefonar à menina que me mandou «à fava» a convidá-la para fumar um cigarro comigo. A meias, como nos bons velhos tempos.
Carlos Malmoro

Acerca de «Munique»

Munique não é um grande filme. É um bom filme.
É um filme poderoso no argumento, imprevisível na narrativa e belo enquanto objecto estético (notável fotografia). É ainda um filme com uma excelente produção e com uma sonoplastia muito bem cuidada. Então o que lhe falta para ser um grande filme? Os pormenores. Erros de palmatória ao nível dos pormenores. A saber:

  • é minimamente plausível que membros de elite da mais reputada e organizada polícia secreta do mundo – a Mossad - possam parecer-se com aquele bandos de rapazolas que, inadvertidamente, dão informações top-secret a um completo desconhecido numa esplanada de Roma, ou que o membro indicado para a construção das bombas seja apenas um curioso, pois o seu verdadeiro trabalho é desmontá-las ou , finalmente, que caiam na mais velha armadilha do mundo da espionagem: uma apetecível senhora no bar de um hotel a implorar que façam amor com ela? A mim não me parece verosímil.

  • Também não me parece lá muito verosímil que exista uma pessoa em Paris que saiba todos os nomes e todas as movimentações dos espiões de todo o mundo.

  • Finalmente, é um filme com uma montagem muito fraquita, com flashbacks constantes e cenas que parecem descontínuas. As interpretações, não sendo fracas, não enchem o olho


Para rematar o filme, está a verdade que ainda hoje constatamos: no fim disto não haverá vencedores nem vencidos. Apenas as mortes não terão fim. De um lado e do outro.
Um bom filme, sem dúvida.

Carlos Malmoro



22 fevereiro 2006

Um cartoon licensioso

Lost In Translation

«Só pra dizer que te amo,
Nem sempre encontro o melhor termo,
Nem sempre escolho o melhor modo.

Devia ser como no cinema,
A língua inglesa fica sempre bem
E nunca atraiçoa ninguém.»

Esta letra de Sérgio Godinho para a canção «Problema de Expressão» dos Clã, só erra num verso: onde está «E nunca atraiçoa ninguém», deveria estar, em meu entender, «E nunca apaixona ninguém» (ou «E não apaixona niguém»). Dizer «I love You» não provoca calafrios, mas dizer «Amo-te», aí sim, é necessária coragem e, mais importante, Amor.
O primeiro termo é uma expressão; o segundo é uma declaração.

Carlos Malmoro

20 fevereiro 2006

Turner: Snowstorm

17 fevereiro 2006

No mail...

N., enviou-me um mail com um pensamento e uma anedota.

«O atraso do nosso país resulta de um problema agrícola: excesso de nabos e falta de tomates.»

«Um homem chega a casa, vira-se para a mulher e diz:
- Querida, recebi uma intimação das finanças a respeito do atraso da entrega da declaração do IRS! Achas que devo comparecer na repartição de jeans ou de fato e gravata?
- Bem, querido... Digo-te a mesma coisa que a minha mãe me disse quando lhe perguntei se, na noite de núpcias, eu devia usar uma cuequinha de rendas ou uma cuequinha de seda!
- E o que foi que a tua mãe te disse?
- Tanto faz. Ele vai foder-te na mesma!»

Deixo aqui o agradecimento ao N. Só falta descobrir qual dos textos é o pensamento e qual é a anedota...

Carlos Malmoro

13 fevereiro 2006

O tino e o desatino

O desatino:
«-Quem têm sido os maiores agressores nos últimos tempos? Somos nós!» (Freitas do Amaral, antes de sugerir que um campeonato euro-árabe de futebol aproximaria os povos…)

O tino:
Em resposta à questão “Como reage às caricaturas a temáticas cristãs?”:
- O facto de estarmos num ambiente de liberdade de expressão significa que eu não me indigno com isso, mas quando acontece magoa-me. A liberdade de expressão tem desses riscos: eu sei que, às vezes, magoo os outros. A grande diferença entre o horizonte ocidental e o horizonte que estamos a assistir nos muçulmanos é que eu manifesto a minha indignação de outra maneira, não vou pôr bombas nas embaixadas, nem bater nas pessoas na rua". E conclui: "tenho visto comentadores a tentar pôr isto no âmbito do diálogo e do respeito inter-religioso, mas penso que, por trás disto há mais estratégias políticas que questões religiosas". (Cardeal Patriarca de Lisboa)

Começa-se a perceber por que razão Freitas do Amaral era um candidato a PR com metade do país com ele e agora é um Ministro dos Negócios Estrangeiros.
Da mesma forma, começa-se a perceber por que razão o Cardeal Patriarca era um dos possíveis sucessores de João Paulo II.
Carlos Malmoro

Um dia...

...vou contar aos meus netos o seguinte
- Bem no final do século XX, houve a crise dos mísseis, a crise do petróleo, várias crises derivadas da fome extrema em muitas partes do mundo, crises provocadas por tempestades e fenómenos naturais, crises políticas, enfim, uma imensidão de crises que se resolveram de forma positiva algumas vezes…
E eles perguntarão:
- E o século XXI, como foi o seu início?
- Bem, algumas das crises que eu vos enumerei há pouco resolveram-se, outras agravaram-se e surgiram outras novas
-Avô, dá-nos um exemplo de uma crise que tenha surgido.
- A crise dos cartoons.
Depois de me abraçarem, os meus netos dirão:
- É por isso que gostamos tanto do avô: consegue sempre pôr humor mesmo nos assuntos mais sérios.
-Mas...deixem - direi eu, com bonomia
Carlos Malmoro

12 fevereiro 2006

Easy Money

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11 fevereiro 2006

Foto do Ano 2005 - World Press Photo


Uma mulher espera, juntamente com o filho, a chegada de
ajuda num centro de emergência alimentar em Tahoua-Níger.
Foto tirada pelo canadiano Finbarr O' Reilly, para a Reuters,
com o fim de retratar a situção de fome extrema no Níger.
Carlos Malmoro

10 fevereiro 2006

À consideração do interessados:

  • Eu também vou lançar uma OPA sobre a PT. Só para não pagar mais telefone;

  • É um abuso de coscuvilhice (linda palavra, esta) dizer-se que aquelas duas mulheres que se querem casar têm o mesmo sexo;

  • Previsibilidade :

«Daqui a cinco minutos, estou aí» - disseste. Passados seis minutos, encontraste um bilhete na mesa que dizia:

«Há um minuto estava aqui.»

Carlos Malmoro

09 fevereiro 2006

E agora para algo completamente diferente

Amigos, o que se segue não é nenhum texto humorístico, embora os humoristas de todo o mundo sonhem alcançar este patamar de excelência. É um comunicado do SINTAV - Sindicato Nacional dos Trabalhadores das Telecomunicações e Audivisual, acerca da Oferta Pública de Aquisição da Portugal Telecom pela Sonae. Reza assim:
«NOTICIA DE ÚLTIMA HORA:
“POLVO” ATACA AS TELECOMUNICAÇÕES

(...)Segundo a Comunicação Social, Belmiro de Azevedo, o homem mais rico de Portugal, cuja ganância não tem limites, prepara-se para comprar a PT-C através do lançamento de uma OPA(...) Estas afirmações fundamentam-se no conhecimento concreto que a sociedade tem do indivíduo em causa.(...)
Embora ainda não se conheça muito deste macabro processo desencadeado da noite para o dia, o SINTTAV desde já assume uma posição de total contestação, denunciando tudo o que vier a ser digno disso e mobilizando os trabalhadores e a sociedade para lutar e resistir contra as tentações deste poderoso “Polvo”.»

E, para finalizar em beleza, eis a jóia da coroa:

«NÃO AO RETROCESSO SOCIAL.O FUTURO É DOS TRABALHADORES E DOS POVOS E NÃO DOS “POLVOS” NEM DOS IMPÉRIOS.»
(sublinhados meus)

Eu sei que por mais credibilidade que se possa ter, existem certos acontecimentos que excedem o limite do plausível. Não vos levo a mal. Eu faria o mesmo. Convido-vos a virem aqui e confirmarem que estas preciosidades fazem corar de inveja muitas das rábulas dos Monty Python.

Carlos Malmoro

Assunto encerrado:

08 fevereiro 2006

Breves

  • Maya, a astróloga, afirma que a sua imagem de marca é o nariz. Grande feito: a de um actor pornográfico é o seu pénis;

  • O unico contacto que tem direito a número de fax na letra «A» da minha agenda pessoal é o sr. A., o profissional que trata dos funerais da família. Nem na série «Sete Palmos de Terra se dá tanta importância aos coveiros;

  • Freitas do Amaral diz que «Portugal lamenta e discorda da publicação de desenhos e/ou caricaturas que ofendem as crenças ou a sensibilidade religiosa dos povos muçulmanos.» E não disse uma palavra sobre a violência islâmica que surgiu como protesto a estes desenhos. Só há um comentário a fazer: Freitas do Amaral adoraria viver numa sociedade sem liberdade de expressão ou que quando esta se manifestasse fosse reprimida violentamente;

  • A TVI vai alojar o «Circo das Celebridades» em Março, diz o DN de hoje. Este programa, pelo menos, tem o mérito de acertar no nome: 'Circo', com os seus elefantes, burros, camelos, macacos, palhaços e fauna afim (peço desculpa se ofendi algum dos géneros atrás citados aos compará-los com os possíveis concorrentes);

Carlos Malmoro

Esta boa ideia está n' O Espectro

COMUNICADO
COMUNICADO - CONVITE

Na próxima 5ª feira, 9 de Fevereiro, pelas 15 horas, um grupo de cidadãos portugueses irá manifestar a sua solidariedade para com os cidadãos dinamarqueses (cartoonistas e não-cartoonistas), na Embaixada da Dinamarca, na Rua Castilho nº 14, em Lisboa. Convidamos desde já todos os concidadãos a participarem neste acto cívico em nome de uma pedra basilar da nossa existência: a liberdade de expressão. Não nos move ódio ou ressentimento contra nenhuma religião ou causa. Mas não podemos aceitar que o medo domine a agenda do século XXI. Cidadãos livres, de um país livre que integra uma comunidade de Estados livres chamada União Europeia, publicaram num jornal privado desenhos cómicos. Não discutimos o direito de alguém a considerar esses desenhos de mau gosto. Não discutimos o direito de alguém a sentir-se ofendido. Mas consideramos inaceitável que um suposto ofendido se permita ameaçar, agredir e atentar contra a integridade física e o bom nome de quem apenas o ofendeu com palavras e desenhos num meio de comunicação livre. Não esqueçamos que a sátira – os romanos diziam mesmo "Satura quidem tota nostra est" – é um género particularmente querido a mais de dois milénios de cultura europeia, e que todas as ditaduras começam sempre por censurar os livros "de gosto duvidoso", "má moral", "blasfemos", "ofensivos à moral e aos bons costumes". Apelamos ainda ao governo da república portuguesa para que se solidarize com um país europeu que partilha connosco um projecto de união que, a par do progresso económico, pretende assegurar aos seus membros, Estados e Cidadãos, a liberdade de expressão e os valores democráticos a que sentimos ter direito.
Pela liberdade de expressão, nos subscrevemos
Rui Zink (916919331)
Manuel João Ramos (919258585)
Luísa Jacobetty

06 fevereiro 2006

O Amor É Um Fogo

O amor é um fogo

Queima-nos a todos

Desfigura-nos a todos
´
É a desculpa do mundo

Para ser tão feio

Leonard Cohen - A Energia dos Escravos - Relógio d´Água

Carlos Malmoro

05 fevereiro 2006

Temptation

A propósito...

  • Factos:
  • A Agência Internacional de Energia Atómica remeteu para o Conselho de Segurança da ONU a análise do programa nuclear iraniano. Como retaliação, o Irão suspendeu unilateralmente o TNP (Tratado de Não Proliferação). Final da estória: o chefe da AIEA a fazer uma declaração não para explicar o sucedido, mas para justificar-se perante o Irão a opção tomada;

  • Uns cartoonistas dinamarqueses, de um jornal tablóide lá do sítio, publicaram em Setembro umas caricaturas do profeta Maomé. Passados quatro meses, uma onda de protesto assola as virgens ofendidas muçulmanas, com destruição de embaixadas, queima de bandeiras, etc....Final da estória: As autoridades europeias vêm a público defender, não a liberdade de imprensa, mas o direito à indignação dos muçulmanos. (Os mesmos que aquando de Londres e Madrid nos pediram para não confudir o terrorismo islâmico e o islamismo...). Por outro lado, o Grande Ayatollah Ali al-Sistani, o líder do clérigo iraniano, condenou ontem as caricaturas e a «acção horrenda» dos jornais ocidentais. (Nota – este último período foi a concretização de um sonho há muito adiado: ter neste estaminé a presença de um Grande Ayatollah…dá logo outra seriedade à coisa);

  • Conclusões:
  • Ó meus amigos líderes europeus, se quereis ser serventis perante o poder do petróleo, façam muito bom proveito. Agora que eu - e mais uns milhões de gatos e gatas pingados - defendemos que a liberdade de imprensa é um pilar da nossa civilização, e que o Tratado de Não Proliferação Nuclear é uma das (poucas) boas coisas que V.exas se lembraram , é um facto que não podeis negar. Entendido?

  • Ó meus amigos líderes muçulmanos, aprendei de uma vez por todas que eu prefiro – e mais uns milhões de gatos e gatas pingados - que façam uma caricatura do deus que a maioria da Europa segue, do que ter de receber um telefonema a meio de uma manhã qualquer a dizer que um familiar, amigo, colega ou filho ficou esfrangalhado no metro ou no comboio só porque cometeu o pecado capital de ir trabalhar…E nós, também estamos entendidos?

Carlos Malmoro