Escrever
Escrever é uma constante derrota. Se eu afirmar uma coisa tão prosaica como «Hoje está a chover.», a miríade de possibilidades, nuances e matizes que se encontram dentro desta singela frase, deixaria os leitores completamente desarmados: muito ou pouco?, onde? em que dia escreveste isso?, ontem não estava?... E dentro dessas nuances, entraria o subjectivo: o que significa para ti muito? E mesmo se eu quantificasse em mililitros por metro quadrado, essa quantificação não passaria de uma média aritmética que generalizava a cidade onde eu vivia e as vinte e quatro horas do dia. Se escrever uma frase tão simples como esta, representa sempre uma derrota, porque nunca a explicaríamos na sua totalidade, é inconcebível tentar expressar a mais simples das emoções humanas.
Escrever é uma constante derrota. Por cada frase que escrevemos, deveríamos escrever uma biblioteca infinita de Borges. Escrevia-se a frase pretendida. A partir daí, explorávamos as possibilidades dessa frase. Dessas possibilidades, explorávamos cada uma individualmente e as bifurcações que elas permitiam. E continuaríamos nesta progressão geométrica até ao limite do infinito. Mas, como é dos livros, o infinito é exactamente a ausência de limites. Derrotado, portanto.
Escrever é uma constante derrota. Sabendo-o, continuo a tentar até a uma utópica vitória momentânea ou até à derrota final. Não por masoquismo. Não por pessimismo. Entro no texto, assim como entraria numa partida de xadrez contra o Kasparov – tendo a total noção de que os meus conhecimentos comparados com os dele se resumem a partículas, mas não deixando de aceitar o desafio. O desafio em que as minhas infinitésimas possibilidades de o vencer são proporcionalmente inversas àquilo que eu aprenderia com ele e, principalmente, comigo próprio. Através dos meus erros e da sua sabedoria.
Escrever é uma constante derrota. Aceito-o. Sei que é numa utopia em que entro quando entro num texto. Sei que haverá distorções. Sei que haverá pessoas transformadas em personagens, realidades travestidas de circo e jamais conseguirei um texto completo. Sei ainda que os meus pensamentos não estarão bem explanados, que as minhas emoções serão metamorfoseadas em ténues impressões, e que a minha voz não passará de um disforme sussurro. Mas prefiro um mau pensamento à acefalia. Prefiro uma impressão à insensibilidade. E, claro, prefiro um sussurro ao silêncio.

























