28 janeiro 2007

Os computadores não são máquinas

A partir de segunda-feira passada, o meu computador começou a fazer um ruído estranho. Terça-Feira, além do ruído, uma lentidão de fazer perder a paciência a um monge. Quarta-feira, telefono, logo de manhã a quem percebe mais da poda do que este curioso. Diz-me ele: «O disco, Carlos, o disco está a entregar a alma ao criador.» [não foi com estas palavras, mas, enfim, há que alindar um pouco o texto dando-lhe um certo dramatismo.] Quarta-feira à noite, o computador pura e simplesmente não arranca.

Estou perdido, pensei. Afinal, dezenas de trabalhos, textos, programas, aplicações e, acima de tudo, meia-dúzia de trabalhos não concluídos, daqueles extensos, mas particamente prontos, estavam no disco agonizante. Quinta-feira, visita-me o técnico para dar a extrema-unção ao dito cujo. Ligo e computador, e ele arranca normalmente. Com a mesma rapidez de outrora, o meu disco toshibazinho tinha voltado do Além.
Em quarenta minutos, faço cópias de segurança de tudo o que de mais importante tinha lá guardado. Acabo de fazer as cópias, começa o ruído, a lentidão, e, kaput. Foi-se. Desta vez definitivamente. O técnico ainda brincou com a situação, dizendo que a mesma se assemelhava àqueles filmes que antes do herói morrer, diz não sei quantas frases, ainda tem tempo para matar três vilões e dar um beijo à heroína. Eu não me ri. Afinal, o meu toshibazinho tinha, mais uma vez em três anos, salvo o que de mais importante o meu trabalho produz.
Hoje, domingo à noite, ele está aqui mesmo à minha frente. Dentro do computador, já está um outro irmão dele. Mais novo, mais viçoso, mais rápido e mais potente. Esperemos que igualmente fiel.
Carlos Malmoro

Pedido de calor a uma guitarra eléctrica distorcida

Eu sei que os blues necessitam de chuva para serem escutados. Mas para esta regra ser válida, deverá existir uma excepção. Que assim seja: fica aqui Chris Rea com «Road To Hell». Para que a chuva venha e o frio desapareça.
Carlos Malmoro

22 janeiro 2007

Perseguir até ao fim achar o mar

Estava firmemente decidido a organizar este milhar e meio de livros a que chamo «biblioteca». Quem fez a contagem foi um amigo de nove anos. Perguntei-lhe porque os contava, respondeu-me que quantos mais livros se tem mais esperto se é. Disse-lhe que se não tivesse lido nenhum deles não era esperto; era vaidoso. Ele respondeu-me que se gastava tanto dinheiro em livros, de certeza que os lia. Pensei para comigo: já cá faltava a inexorável e desarmente perspicácia infantil.
Adiante: organização, é isso que se procurava: portugueses para um lado, estrangeiros para outro. Poesia para cima, romances ao centro, ensaio em baixo. Livros escolares, de referência e didácticos noutra estante. Ao melhor espírito burocrata. Se calhar até não ficava mal uma numeração, com uma base de dados e tal...mas eu conheço-me.
Conheço-me o suficiente para saber que ao arrumar um livro vou ler os sublinhados, ver se era naquele livro que estava a tal frase, se era aquele com o pior começo ou com a melhor epígrafe. Enfim, um livro por meia hora.
Exemplificando: ao arrumar o livro «Até ao Fim», de Vergílio Ferreira, recordei-me logo da entrevista que tinha lido dele em que dizia que o título do livro tinha saído de um verso de António Ramos Rosa. Diz em epígrafe (o tal verso): «perseguir até ao fim achar o mar». E pus-me a pensar que ele não tinha necessidade nenhuma de colocar um verso que tem uma expressão 'corriqueira': quantas vezes por dia não se diz: «faz isso até ao fim»; «vai até ao fim da estrada»? Mas ele, um grande escritor, e pelos vistos um grande carácter, colocou-a lá para nos dizer isto: a ideia veio daqui. E este escrúpulo levou-me ao interior do livro onde ainda ando «perdido». E foi também este escrúpulo que me fez firmemente decidir desorganizar o que da biblioteca já havia organizado.
Carlos Malmoro

19 janeiro 2007

Literalmente

Há trinta anos, a minha mãe disse-me: «Agora que já és um homem, passas a dormir sozinho.» Tenho tentado corresponder.

Carlos Malmoro

18 janeiro 2007

Parece-me que o mês de Janeiro já devia ter acabado há 12 dias.

Carlos Malmoro

16 janeiro 2007

Os textos e a sua construção

O processo de construção do texto é tão ou mais cativante do que o próprio texto. Reformulo: a construção de qualquer obra é tão ou mais empolgante do que a obra. Tomando à priori um exemplo de um texto genial, é sempre com assombro que se desvenda, por exemplo, numa versão fac-similada, os processos com que este foi conseguido. Assombro, não pela genialidade do texto; antes pela fragilidade/humanidade com que, exemplifiquemos, um exímio poema foi construído. Aquela sensação de que estamos muito distantes do génio, desaparece no exacto momento em que os processos que foram utilizados para o criar são os mesmíssimos que utilizamos quotidianamente para escrever uma carta de reclamação ao servidor de net: escrever, rasurar, complementar, organizar as ideias, etc.

Ou seja, passa a existir um acontecimento de identificação. E esta identificação entre uma carta profissional e um poema, não tem um efeito banalizador sobre a tal obra de arte, afastando-a por efeito de menosprezo da sua qualidade. Promove uma aproximação entre o leitor e o poeta na medida exacta em que o último deixa de ser uma semi-divindade para o primeiro e passa a ser um homem comum. E, convenhamos, os homens preferem conviver com homens do que com deuses.
Carlos Malmoro.

15 janeiro 2007

Leonard Cohen

«Pergunto-me quanta gente nesta cidade
vive em quartos mobilados.
Tarde na noite quando olho os edifícios
juro que vejo um rosto em cada janela
olhando-me a mim,
e quando me volto
pergunto-me quantos regressam às suas mesas
e escrevem isto.»

14 janeiro 2007

Homem, Dr.

Tem a idade da sabedoria. A fina ironia encontra a máxima expressão nas suas hebdomadárias crónicas.

Crónicas com verve. Uma escrita de fundo. Que precisa de tempo e espaço para viver.

Viver e escrever: a causa e a consequência. É o cronista que escreve com mais classe em Portugal. Escreve-nos de Moledo. Chama-se António Sousa Homem. Diz não ter «email», mas tem blogue. Tem a sabedoria da idade.




«Por mim, tenho resistido à exigência de possuir um telemóvel no bolso. A idade não mo aconselha, vou dizendo. Nos bolsos, uso apenas um lenço, o relógio que pertenceu ao meu avô (que o recebeu de um inglês do Douro a quem administrava as vinhas) e a pequena caixa que contém a dose diária dos comprimidos que cuidam das pobres coronárias. A minha sobrinha Maria Luísa, que tem dois telemóveis, tentou informar-me das vantagens de comprar um; parece que a principal delas é poder falar com quem queremos, onde quisermos, além de podermos ser contactados em qualquer lugar, coisa que não me seduz muito. Bem vistas as coisas, o único estranho que me contacta sempre à mesma hora é um senhor da rádio que, logo de manhã, me esclarece que chove em Lisboa ou anuncia que vai trovejar no Porto ou nas Beiras. Aguardo pacientemente que me informe sobre a queda das folhas da meia dúzia de plátanos ao fundo da rua, ou sobre a hora a que chega o correio ao portão de casa. Ele mantém-se renitente. Teimamos, cada um por seu lado. É isto a vida.» in Revista Notícias Sábado – 2 Dezembro 2006
[imagem retirada daqui]
Carlos Malmoro

13 janeiro 2007

Pensamento da Noite

Ansiedade controlada é desejo.

Carlos Malmoro

12 janeiro 2007

As Sete Maravilhas de Portugal

Mais um concurso. Como é impossível votar nestas maravilhas, aqui ficam as minhas sugestões:






  1. Os Lusíadas: porque ainda hoje é o melhor auto-retrato de Portugal e dos portugueses;
  2. Livro do Desassossego: porque é o melhor blogue que alguma vez foi criado;
  3. Os Maias: porque vale por trinta anos de leituras de crónicas de jornal;
  4. Violino - Amadeo de Souza Cardoso: porque ainda se considera prematura uma obra com quase cem anos;
  5. Auto da Barca do Inferno: porque Woody Allen é um Gil Vicente do séc. XX/XXI;
  6. Verdes Anos - Carlos Paredes: porque o hino português deveria ser o instrumental que dá nome ao EP;
  7. Painéis de S. Vicente de Fora: porque antes de seis excelentes frescos, de seis excelentes representações ou de seis excelentes técnicas, é uma excelente ideia.

E estas maravilhas e não as outras, porque o melhor de Portugal não está no seu património arquitectónico mas no artístico.

[imagens: capas dos livros retiradas da loja online fnac.pt; capa do EP de Carlos Paredes, obtida por scanning; pintura "Violino", scanning meu do livro : Pintores Portugueses (Edições INAPA); Painéis S. Vicente de Fora, via sapo.pt.]

11 janeiro 2007

Contra a TLEBS (ii)

esta petição, promovida pelo José Nunes, já ultrapassou as quatro mil assinaturas. Trocado por miúdos, isto ignifica que já tem legitimidade legal para ser requerido o respectivo debate parlamentar. Ao José Nunes deixo aqui um abraço de agradecimento por ter feito todo o trabalho que permitiu que uma causa em que acredito [a necessidade da suspensão imediata da TLEBS], possa ser tratada em local apropriado. Para confirmar cientificamente a tese, no mail que me enviou, o José remete-me para um artigo do Professor Catedátrico de Linguística João Andrade Peres, que demontra as inúmeras falhas técnicas de que TLEBS padece.
Nunca é demais agradecer, e, portanto, um grande abraço ao Zé pela tarefa gigantesca em que se aventurou.
Carlos Malmoro

08 janeiro 2007

Citações no rodapé da minha agenda

«Não deixes crescer a erva no caminho da amizade» Platão
Variante pessoal:
Por vezes a vida impede-nos de passar no caminho da amizade. A erva cresce. Assim que acabar esse impedimento, o melhor a fazer é convidar imediatamente o amigo para um copo. Como se sabe, tomar um copo/café é o melhor herbicida que se conhece para o caso.
Carlos Malmoro

07 janeiro 2007

Parabéns

à Luna por andar há dois anos a alimentar este inteligente bicharoco.

Carlos Malmoro

05 janeiro 2007

GPS 2007

First we take Frisco, then we take Barcelona and Berlim*


[*adequação do título da canção de L.Cohen, «First we take Manhattan, then we take Berlin»]


Carlos Malmoro

04 janeiro 2007

Citações no rodapé da minha agenda

Quinta Feira, dia 4 de Janeiro de 2006

«O mundo está cheio de pequenas alegrias: a arte da vida consiste em saber distingui-las» (Li Tai Po)

Variante pessoal:

Não há alegria nem tristeza. Há momentos alegres e momentos tristes. A arte da vida está em saborear os primeiros e ultrapassar os segundos.

Carlos Malmoro

02 janeiro 2007

Micro Causa: Anti-Cheque Prenda [ou um sentido agradecimento a quem me presenteou]

Até ao presente dia, nunca me ofereceram um cheque prenda. O que me leva a pensar que quem me presenteia são pessoas que me conhecem demasiadamente bem, ou são pessoas que partilham desta minha aversão a esse conceito, ou são pessoas que partilham da aversão e conhecem-me tão bem quanto eu me conheço.

Sou contra os cheques prendas por eles representarem a lei do menor esforço em dois sentidos: por um lado, a pessoa compra-os e pode ‘riscar-me’ da lista de prendas; depois porque é menos tempo que se gasta – e eu gosto que se gaste tempo comigo.

Por outro lado, sou também contra o cheque-prenda por eles serem sempre exclusivos ou de uma cadeia de lojas ou de um determinado centro comercial. Ou seja, o tempo que não gastaram comigo a procurar uma coisa que se adequasse, teria eu de gastá-lo numa loja que, provavelmente, até nem seria a da minha preferência. Se não compraram com receio de me ‘desapontar’, a escolha da loja poderia desapontar-me.

Finalmente, acho que a prenda tem de ser pessoal. E nisto sou ultra-conservador. E o cheque prenda é a coisinha mais impessoal que conheço. Porque se há uns anos era inconcebível oferecer um cheque prenda, o mesmo tipo de raciocínio leva-me a concluir que daqui a uns anos receberei um envelope com uma notinha de vinte euros lá dentro.
Carlos Malmoro

01 janeiro 2007

Para começar o ano

...com o meu segundo pintor favorito:



William Turner "Rheinfall at Schaffhausen"

Carlos Malmoro

Dez promessas para manter tudo na mesma em 2007

  1. Continuar a comer
  2. Continuar a beber
  3. Continuar a fumar
  4. Continuar a ler
  5. Continuar a escrever/'postar'
  6. Continuar a fazer aquilo que vocês tão bem sabem
  7. Continuar a sair / viajar
  8. Continuar a nadar
  9. Continuar a pastar
  10. Continuar a cuidar dos meus

A lista não está alinhada por ordem de prioridades. Daqui a 364 dias, balanço.

Carlos Malmoro

O melhor de 2006

em filmes:
I'm Your Man (documentário)
Uma História de Violência (como aqui já tinha testemunhado)
Capote (não esquecer nunca Catherine Keener)
Entre Inimigos, de Martin Scorsese
Marie Antoinette, de Sofia Coppola
Match Point, de Woody Allen

Conclusão: sendo que três destes filmes já foram vistos em casa no DVD, resta-me fazer uma nota a mim mesmo a dizer: não esquecer nunca que este ano tenho de ir mais ao cinema.

Carlos Malmoro

30 dezembro 2006

O melhor de 2006 (ii)

em discos:

Vários - Banda Sonora do documentário dedicado a L. Cohen «I'm Your Man» (para quem é visita regular, sei que não é novidade a preferência...)

Bob Dylan - Modern Times
Morrissey – Ringleader of the Tormentors
Moonspell - Memorial
Muse - Black Holes And Revelations
Rodrigo Leão - O Mundo (1993 - 2006)
Placebo - Meds
Alice in Chains - The essencial
Tom Waits - Orphans
Platnev - Tchaikovsky: 18 pieces for piano
Vários - Monsieur Gainsbourg Revisited (o único tipo que eu suportava ouvir na língua francesa, exactamente porque não cantava à francês...e porque tinha atitudes destas: )





Um excelente 2007.

Carlos Malmoro

28 dezembro 2006

A Inveja é um sentimento muito...

Uma pessoa brasileira que ficou de 'entrar' comigo no messenger, mostra-me no seu painel a seguinte mensagem pessoal: 'Carlos, estou na piscina. Entro às 21:45 portuguesas (19:45 brasileiras) conforme combinado.' Não sei o que lhe responder. Ou talvez até não lhe responda nada: o tema da conversa é a edição literária em 2006 no Brasil vs Portugal 2006. E não me parece que alguém fique chateado por receber um mail a dizer: «Falamos noutro dia. Fui para a lareira roer-me de inveja. Carlos». Eu acho que não ficaria chateado. E vocês?
Carlos Malmoro

27 dezembro 2006

O melhor de 2006 (i)

em livros:
Shalimar, o Palhaço - Salman Rushdie

A Ronda da Noite - Agustina Bessa-Luís
Ontem não te vi em Babilónia - António Lobo Antunes
Cemitério de Pianos - José Luís Peixoto
Pequenas Memórias - José Saramago
Os Anéis de Saturno - W. G. Sebald
Correspondência a Três - Rilke, Pasternak, Tsvetsaieva
Um Herói Português: Henrique Paiva Couceiro - Vasco Pulido Valente
O Senhor Walser - Gonçalo M. Tavares

Conclusão: um bom ano de autores portugueses.

Carlos Malmoro

26 dezembro 2006

Se

«Se és capaz de conservar o teu bom senso e a calma,

Quando os outros os perdem, e te acusam disso,
Se és capaz de confiar em ti, quando te ti duvidam

E, no entanto, perdoares que duvidem,


Se és capaz de esperar, sem perderes a esperança

E não caluniares os que te caluniam,


Se és capaz de sonhar, sem que o sonho te domine,

E pensar, sem reduzir o pensamento a vício,
Se és capaz de enfrentar o Triunfo e o Desastre,

Sem fazer distinção entre estes dois impostores,
Se és capaz de ouvir a verdade que disseste,

Transformada por canalhas em armadilhas aos tolos,
Se és capaz de ver destruído o ideal da vida inteira

E construí-lo outra vez com ferramentas gastas,
Se és capaz de arriscar todos os teus haveres

Num lance corajoso, alheio ao resultado,

E perder e começar de novo o teu caminho,

Sem que ouça um suspiro quem seguir ao teu lado,
Se és capaz de forçar os teus músculos e nervos

E fazê-los servir se já quase não servem,

Sustentando-te a ti, quando nada em ti resta,

A não ser a vontade que diz: Enfrenta!
Se és capaz de falar ao povo e ficar digno

Ou de passear com reis conservando-te o mesmo,
Se não pode abalar-te amigo ou inimigo

E não sofrem decepção os que contam contigo,
Se podes preencher todo minuto que passa

Com sessenta segundos de tarefa acertada,
Se assim fores, meu filho, a Terra será tua,

Será teu tudo que nela existe
E não receies que te o tomem,
Mas (ainda melhor que tudo isto)

Se assim fores, serás um HOMEM.»
Rudyard Kipling

R. Kipling enganou-se: onde está HOMEM, deverá ler-se 'deus'.

Carlos Malmoro

24 dezembro 2006

Um blogue deveria ser um diário

Há dias, começou o Inverno. Nesse dia, os dias começaram a crescer. Daqui a seis meses, dá-se o fenómeno inverso: entra o Verão e os dias começam a diminuir de duração. No tempo como na vida: nunca temos tudo, nunca perdemos tudo. Bom Natal
Carlos Malmoro

21 dezembro 2006

É tempo de entregar o piano às crianças

Andámos o ano todo a tentar que ele funcionasse, a tentar coordenar a música com a voz e com a imagem e continua tudo fora do tempo. O tempo é de entregar o piano e o xilofone e a guitarra e a batuta e a bateria às crianças. Quanto a nós, só nos resta levantar do banco do tal piano, dar uns passitos de dança, observar as crianças a divertirem-se com o dito, traulitar a melodia e desejar boas festas a quem por aqui passa, comenta e 'atura' este mafarricozito.
Boas Festas


20 dezembro 2006

Obrigado, obrigado, obrigado




Onde posso levantar o prémio?

Carlos Malmoro

19 dezembro 2006

Contra a TLEBS

Para a suspensão imediata da experiência da TLEBS, pode ser assinada esta petição, promovida pelo José Nunes, que, no momento em que escrevo isto, já conta com mais de 2000 assinaturas.
Carlos Malmoro

18 dezembro 2006

Tudo o que é bom

acaba depressa. Demais, acrescento.

Carlos Malmoro

17 dezembro 2006

Não resisto

a transcrever o título de uma peça do Inimigo Público:

«Maria Cavaco Silva ao 'Blitz': "Kurto Sepultura"»

Carlos Malmoro

14 dezembro 2006

Árvore

Como se ela própria tivesse consciência do mal que a atacava, começou a debruçar-se sobre si mesma, perfurou a terra e voltou a nascer ao lado.

Assim poderia começar um qualquer romance místico, mas nada disso se trata. Apenas e tão só da figueira cá de casa que, parecendo ciente do mal que a afectava, começou a inclinar um dos ramos mais afastados em direcção ao solo, entrou dentro dele e, quando já toda ela estava fulminada, fez nascer uma nova árvore. Aliás, não uma nova árvore: a mesma, segundo me garantiu quem estuda destas coisas. E que eu pude confirmar através das comparações que ele fez sobre a morfologia dos troncos, inclinação dos ramos, entre outras coisas. Hoje, a segunda vida da mesma vida está maior e mais viçosa do que a primeira. E, perante um certo desencanto pelo quotidiano, esta estória de superação não me deixa menos pessimista mas, sem dúvida nenhuma, mais confortável.
Carlos Malmoro

13 dezembro 2006

500

posts.

Carlos Malmoro

12 dezembro 2006

Imagética

Esta foi a mais deslumbrante noite que alguma vez vi: milhares de luas cadentes e uma estrela cheia no centro do céu.

Carlos Malmoro

11 dezembro 2006

Frases Finais

(...)A frase final é, ainda, a frase inicial desse novo livro que iremos escrever pela vida fora com as memórias daquele que originalmente lemos. (...) Texto completo aqui
Carlos Malmoro

Para quem for um indefectível

...fã de presépios com musgo, pode sempre ir a esta janela e recolher material para uns três ou quatro natais. A ministra agradece.




Carlos Malmoro

10 dezembro 2006

Noite de Gala

Por estes lados, a noite ainda vai uma criança. Como uma criança que é, está a dar uma trabalheira desgraçada, mas que, também como todas as crianças, está-me a dar imenso prazer em ajudar a levá-la a bom porto.
Segundo a votação, os melhores de 2006 são:
Carlos Malmoro

08 dezembro 2006

Felix Natal

Pendurado na árvore de Natal, ao lado da máquina de tabaco, estava este upgrade da língua portuguesa:



Aquele dezeija e aquele obrigados davam um óptimo objecto de estudo sobre o futuro da Língua Portuguesa. Mas a escrever-se assim, penso que não é necessário estudar um futuro que não existirá.
Carlos Malmoro

07 dezembro 2006

A diferença entre o vencedor Schumacher e o campeão Senna

[com um obrigado ao N. pelo mail]



Carlos Malmoro

06 dezembro 2006

Agradecimento

Se já fico coradito por ter votado no meu blogue e no blogue colectivo em que escrevo, então quando o faz mesmo sabendo que esse voto é considerado nulo pelo regulamento, fico sem saber o que dizer. Aliás, sei: obrigado.

Carlos Malmoro

05 dezembro 2006

Prioridades

Vento derruba árvores e iluminações de Natal

Claro que as iluminações de Natal serão repostas amanhã. Quanto às árvores terão de esperar por melhores dias. Afinal, até estavam a estorvar.
Carlos Malmoro

02 dezembro 2006

Apetites

Ainda há pouco, estava com uma incontrolável vontade de escrever um texto minimalisticamente grandioso e superficialmente profundo. Já passou.
Carlos Malmoro

Para W.

A questão não é se eu ainda estou acordado ou se estou acordado. A verdadeira questão é: vale a pena estar acordado?

Carlos Malmoro

As I Sat Sadly by Her Side (act.)

At the window, through the glass / She stroked a kitten in her lap / And we watched the world as it fell past / Softly she spoke these words to me / And with brand new eyes, open wide /We pressed our faces to the glass / As I sat sadly by her side / She said, "Father, mother, sister, brother, / Uncle, aunt, nephew, niece, / Soldier, sailor, physician, labourer, / Actor, scientist, mechanic, priest / Earth and moon and sun and stars / Planets and comets with tails blazing / All are there forever falling / Falling lovely and amazing" / Then she smiled and turned to me / And waited for me to reply / Her hair was falling down her shoulders / As I sat sadly by her side (...) restante aqui

As letras de Nick Cave são menos poemas e mais pequenas histórias. Geniais pequenas histórias. Que pedem uma noite de chuva como esta, para serem escutadas enquanto estou não-tristemente sentado ao teu lado.

Carlos Malmoro

29 novembro 2006

Se não acredito na perfeição,

Como posso eu confiar em seres destros que pintam as unhas com a mão esquerda com tanta perfeição como o fizeram com a mão direita?

Carlos Malmoro

24 novembro 2006

O Meu Fanatismo

Exijo que todas as meias e peúgas de cor não preta sejam eliminadas.

Carlos Malmoro

Uma qualquer coisa

Tenho tido muitas conversas moralizadoras comigo mesmo. Como nunca entendo uma palavra do que a mim mesmo digo, não sei se sou um erudito pregador ou um absoluto crápula.
Carlos Malmoro

15 novembro 2006

Auto Psico Grafia

A minha escrita situa-se algures entre o terceiro andamento do «Requiem» de Mozart e o «Until it sleeps» dos Metallica.

Carlos Malmoro

10 novembro 2006

Para algo completamente diferente

(…) E o peso estranho dos testículos! Que mistério! Como era estranho aquele peso mistério, suave e pesado, que cabia numa mão! Eram as raízes, a raiz de tudo quanto é belo, a raiz primitiva da beleza total. (…)
D. H. Lawrence , «O Amante de Lady Chatterley.»

Digamos…eu gosto dos romances de Lawrence: centram-se no conflito entre as convenções e o desejo mais primário, abordam a libertação da mulher das opressões que a sociedade inglesa do final do século XIX, ainda muito dada a «vitorianismos», lhe impunha, debruçam-se sobre o direito de cada ser humano à vida e ao amor e são excelentes frescos de denúncia social. Além disso, apreciei a poesia que já tive oportunidade de ler e fiquei agradavelmente surpreendido com a literatura de viagens expressa em «Sea and Sardinia» e «Mornings in Mexico». Agora gostaria que me explicassem onde é que encaixa o misterioso peso dos testículos nisto tudo.

Carlos Malmoro

09 novembro 2006

Um blogue devia ser um diário (ii)

Terça, 06:30 da manhã:
O despertador tocou. Da janela do meu quarto, não avisto a nogueira: o lusco-fusco, a névoa e os meus olhos que ainda estão mais perto do sono do que do acordar não o permitem. O primeiro pensamento do dia: as duas maiores tragédias da minha vida são ter de me levantar agora e estar com as duas mãos fora do abrigo dos edredons para escrever este texto.

Carlos Malmoro

07 novembro 2006

Um blogue devia ser um diário

Domingo, 10 da manhã:

Costumo dizer/avisar que aos domingos de manhã não existo. Mas quando da janela do meu quarto vejo a nogueira iluminada pelo sol outonal, pressinto a fiada de frio que perpassa a atmosfera e bebo o melhor café que já me tocou os lábios, só me resta concluir que o melhor da minha existência é esta minha não existência.
Carlos Malmoro

03 novembro 2006

Ao Cuidado da 'Vizinhança'

Num programa radiofónico sobre blogues, uma ouvinte, entrando em directo por telefone, afirmava que «não sabia qual era a ‘graça’ de se escrever posts em que se diz «eu agora estou com falta de tempo, mas quando puder escrevo uns posts e comento-vos a todos…» Ou seja, não gostava de blogues de ‘vizinhança’. E concluía dizendo meia dúzia de directrizes sobre o que ela achava que os blogues deveriam ser.

Eu, e exceptuando os baby-blogues nos termos em que aqui os critiquei, acho que os blogues devem ser exactamente aquilo que a pessoa quiser. Resta-nos, a quem os lê, escolhê-los. Porque no dia em que um blogue de política tiver de ser formatado à imagem do Abrupto, ou um de humor tiver obrigatoriamente como matriz o Gato Fedorento, eu deixo de escrever em blogues. Porque este é o espaço em que eu, depois de escrever o melhor texto alguma vez feito, posso escrever o pior dos textos. Sem fazer concessões, nem dar satisfações.

Vem isto a propósito da minha parca colocação de comentários em blogues vizinhos, e post’s escritos por aqui nos últimos dias. Avarias técnicas com o meu servidor de Internet [eu já nem lhe devia chamar de servidor, mas enfim, sou bondoso]; falta de tempo por causa do trabalhinho; e duas propostas: uma do André, para escrever no «Geração Rasca», que aceitei; outra de uma editora, que recusei, levaram a que o meu tempo disponível em frente a um computador ligado à rede fosse mais escasso do que a paciência que eu tenho para aturar conselhos de como um blogue deve ou não deve ser. Enfim, o que eu hoje vim aqui essencialmente dizer-vos é que estou com falta de tempo, mas quando puder escrevo uns posts e comento-vos a todos. Bem hajam pela paciência.
Carlos Malmoro

25 outubro 2006

Do optimismo

Dia a dia, vivem num fingimento completo. Ao acordar, fingem que a discussão da noite passada está ultrapassada, quando mais não está do que guardada para servir de arma de arremesso na próxima. Na casa de banho, colocam todas as mistelas necessárias à ocultação da fealdade do odor e do aspecto corporais. Entram no carro com os filhos e, enquanto falam enlevadamente com eles, transformam-se em sicários na estrada. Chegam ao trabalho a sorrir para fingir o contentamento com aquele emprego. Ao almoço, comem uma asséptica pasta com um nome estrangeirado, bebem uma zurrapa de pé, caro, regozijam-se pela sorte de ter meia hora de almoço e por nunca terem comido uma mixórdia tão parecida com um manjar dos deuses. Chegam a casa cansados, derrotados e fingem interessar-se pelos problemas da/o companheira/o e pelas notas dos filhos. Na cama, enquanto fazem amor, ele finge pensar nela, enquanto ela finge um orgasmo. Ambos se apercebem, mas como já houve discussão ontem, fingem que foi o melhor de sexo toda a vida. Dormem, acordam e repetem.
Carlos Malmoro

24 outubro 2006

Atrasadas Felicitações

Parabéns ao blogue que tem no leme uma grande milher.

Carlos Malmoro

21 outubro 2006

Non Sense Bar

- O que vai tomar, Sr. Carlos?
- O costume, para variar...

Carlos Malmoro

19 outubro 2006

Nota Informativa

Hoje, pelo meio-dia, vinha a conduzir e ouvi nas notícias que um grupo artístico iria apresentar uma peça/documentário intitulada vinte e um gramas. Depois, em conversa com um outro locutor, disse: «...vinte e um gramas, um título certamente inspirado no filme com o mesmo nome.»
Eu não penso que saiba mais do que alguém, nem quero ser petulante, mas devo informar a sr.ª locutora que essa expressão já vem um bocadinho (cof cof) mais de trás. Mais exactamente da Grécia Antiga.
Carlos Malmoro

18 outubro 2006

Comunicado da Gerência

A partir de hoje, faço parte da equipa que escreve o «Geração Rasca». O «Caixa Pandora» continua dentro de momentos.

Carlos Malmoro

17 outubro 2006

Perspectiva (um pouco altiva)

No comentário anterior, ao 'cruzar-se' com a Pitucha, André Carvalho disse que «o mundo é pequeno». Em circunstâncias idênticas, eu prefiro pensar que sou eu e a outra pessoa é que somos grandes. Mai' nada.
Carlos Malmoro

16 outubro 2006

Prémio

Não sei qual é a originalidade de Marcelo Rebelo de Sousa fazer um blogue no jornal «Sol». Caso não se recordem, o melhor blogue português foi escrito ainda não existia internet. Aliás, não chegou a ser publicado na net. Os posts dele são, de longe, de muito longe mesmo, superiores a qualquer um que anda por aí. Caixa Pandora, incluída. Como se chama o blogue? O Livro do Desassossego.

Carlos Malmoro

13 outubro 2006

Burocracia Poética

Menino Carlitos, dê um exemplo de linguagem poética e outro, com o mesmo significado, de linguagem não poética.
- Linguagem poética:"Comissão Eventual de Inquérito Parlamentar ao Processamento, Disponibilização e Divulgação de Registos de Chamadas Telefónicas Protegidas Pela Obrigação de Confidencialidade".
Linguagem prosaica: Caso do Envelope Nove.

Carlos Malmoro

12 outubro 2006

Ponto da Situação

They think they know who I am...

Carlos Malmoro

10 outubro 2006



Carlos Malmoro

09 outubro 2006

Há que assumi-lo com frontalidade:

se o meu carro fosse um descapotável, era considerado uma lixeira a céu aberto.

Carlos Malmoro

06 outubro 2006

Inspiração da Grelha da TVI

José Eduardo Moniz à revista NS:

«Tenho um caderninho na casa de banho para apontar ideias.»

Um contra Todos

Numa destas noites, entrei num bar e estava a dar aquele concurso de cultura geral, «Um Contra Todos». A pergunta que se fazia era: “Em que ano Thomas Mann venceu o Prémio Nobel da Literatura?”. Eu não sei. Li quatro livros dele dos quais posso fazer um resumo dos temas tratados e do estilo de escrita, sei minimamente a sua biografia e em que corrente estética se insere o autor, consigo ter uma visão global da Obra e as influências que se notam, mas – oh ignomínia – não sei em que ano o senhor ganhou o prémio Nobel. Portanto, aos olhos desta sociedade que valoriza o decorar do ano em que um autor é premiado à compreensão da sua Obra, sou um inculto sem remissão e um abjecto ignorante.
E curiosamente, sinto-me o derradeiro sábio com esta minha suprema ignorância.
Carlos Malmoro

Quando eu pensava que uma

carta para um/jornal revista poderia mudar algo:

1) MAIS LEITORES:
«Quando a rubrica «Gosto Não Gosto» começou no DNA, houve logo leitores que se apressaram a tomar conta da ideia e transformaram as suas opiniões sobre este suplemento em listas de amores e desamores. Gostámos da «apropriação» e publicámos quase todas que nos chegaram. Depois a secção entrou na rotina do costume, e deixaram de chegar esses manifestos que nos fazem pensar e nos obrigam tantas vezes a mudar. Agora, repentinamente, eis de volta à caixa do correio cartas sob a forma de «Gosto Não Gosto». O editor dispensa a sua carta para mais uma destas formas de estar connosco, mesmo quando se critica e lamenta…Aí está, então, o que vai na alma de Carlos (…), de Ponte de Lima:»


«Gosto da escrita directa (Palavras a Cores) e mágica (As Sombras da Liberdade) da Sónia Morais Santos. Onde estão as Palavras a Cores? Não sei do que se pode não gostar na escrita de SMS. Gosto dos Editoriais melancólicos e chuvosos, que pedem «Murder Ballads», de Pedro Rolo Duarte. Não gosto que PRD se atormente com políticos e políticas – se eles dizem que «a guerra é importante demais para ser deixada nas mãos de militares», então a cultura é demasiadamente vital para ser discutida com e por políticos. Ou seja, por quem faz realmente a guerra. Não gosto nem desgosto dos textos da Camila Coelho por não terem gosto. Gosto das críticas de P. Mexia à «Novíssima» poesia. Não gosto que o PM tenha feito a crítica, no DNA, a um livro de José Mário Silva, por este último ser Editor-Adjunto do DNA, nem gosto quando o PM se perde – e perde-nos – em efabulações conceptualistas, e tem de escrever entre parêntesis se o que está a afirmar é um elogio ou uma crítica ao livro. Gosto do humor nas crónicas de Miguel Esteves Cardoso e de Carlos Quevedo, que escondem aquilo de que não gosto nas suas crónicas: amargura azeda e generalizações simplistas. Gosto das histórias de escritores de Nelson de Matos. Não gosto da litania «Coitadinhos Dos Editores Que Não Recebem Subsídios» de Nelson de Matos. Gosto dos textos de Eduardo Barroso que falam de homens que salvam homens. Não gosto de textos políticos no «Sem Receita». Gosto do ritmo dos textos de José Mário Silva. Não gosto de certos textos de JMS que mostram a insuportável arrogância de uma pretensa superioridade intelectual. Já vos disse que gosto da escrita adulta da Sónia Morais Santos, mas é só para o texto ter estrutura circular. Gosto do gosto do DNA.»

Texto publicado na carta semanal que Pedro Rolo Duarte dirigia aos leitores. A parte a itálico é de sua lavra. Publicado em 10/05/2003, no caderno DNA
2) «O Governador do Banco de Portugal, Vítor Constâncio, disse recentemente que se a economia portuguesa não sofrer um sobressalto estará condenada a um crescimento medíocre nos próximos anos. Eu penso que não é só a Economia. De facto, se analisarmos a situação apenas nos sectores mais relevantes da vida portuguesa, – a Justiça, a Saúde, a Educação, e a Administração Pública - a conclusão é óbvia: o marasmo, a mediocridade, o deixa andar e um tédio que parece endógeno à vida pública portuguesa, existe em todos eles. Os dias são queimados sem se esperar já grande coisa dos políticos, a sociedade civil está dividida entre os afilhados e os remediados, num fosso que se alarga quotidianamente, a Justiça parece fazer questão em demorar séculos para resolver o mais simples dos processos, enquanto as classes que a integram andam mais preocupadas em lutas de poder; a Saúde ainda não tem os serviços de saúde básicos que possam atenuar a afluência às Urgências, os jovens necessitam de ser génios para entrar numa faculdade de medicina e os genéricos só saíram mais baratos ao Estado, uma vez que a factura dos Utentes é maior; um dia, a Educação, conseguirá fazer um concurso de colocação de professores capaz e exigir um mínimo de conhecimentos aos alunos nas passagens de ano e a Administração Pública sofre de proporcionalidade inversa: quanto mais pesa no bolso dos contribuintes, menos eficaz se torna.

Dito isto e para terminar, lembro aqueles dois versos de T.S. Elliot que diziam que o fim do mundo não chegará num big-bang mas num moroso e contínuo desvanecimento (cito de cor). Também em Portugal assim o é: isto não acabará num qualquer sobressalto. Antes num agonizar lento e entediante da vontade de lutar por um país melhor. Basta olhar para as escolhas que temos ao nosso dispor em vinte de Fevereiro.»

Carta publicada na Grande Reportagem, há aproximadamente três anos
3)A emigração portuguesa que hoje existe é mais castradora para o futuro de Portugal do que aquela que existiu nos anos 60 e 70. De facto, enquanto nesses anos o fenómeno recrutava os seus elementos nas franjas da população mais desfavorecidas economicamente, e que assim almejavam a desejada estabilidade económica regressavam a Portugal, actualmente a emigração faz-se a expensas da «nata» dos portugueses.
Sem qualquer juízo de valor para com a necessidade e legitimidade que levou – e leva – uns e outros a tomarem tal opção de vida, é assaz preocupante que numa sociedade tecnológica, do conhecimento científico e da informação, e num país que padece de tantas carências a estes níveis, os melhores cientistas, investigadores e académicos tenham de procurar oportunidades no estrangeiro. Por que razão não o conseguem em Portugal?
Mas temos de compreender quem toma esta decisão, quase sempre com bastante sofrimento a nível pessoal e familiar. Se nos anos 60 e 70 fugia-se da miséria e da fome, hoje, quem emigra, procura evitar a estagnação das suas carreiras, uma vez que as universidades e centros tecnológicos portugueses não conseguem, nem de perto nem de longe, competir com os meios dos congéneres franceses, britânicos ou norte-americanos. (Em tempo: no OE para 2004, as verbas para Ciência e Tecnologia diminuem 3,8%.Para quem prometeu um forte investimento em ID&T, estamos conversados…)
Publicado na rubrica «Cartas dos Leitores», do Diário de Notícias, de 22/10/2003
...pois, estamos conversados: deixei de enviar cartas para o jornal, criei um blogue.
Carlos Malmoro

Dos espelhos

A imagem reflectida no espelho, não é a nossa, mas a simétrica à nossa. E simetria significa, na sua acepção, geométrica/matemática – e é esta que interessa visto estar a escrever sobre distribuição de objectos no espaço –, objectos ou algarismos idênticos com a posição ou valor oposto. E nós, conscientes disso, só saímos de casa quando a reflexão que dá um valor oposto ao da nossa verdadeira imagem está perfeita.
Carlos Malmoro

Pensamento do Dia

Fazer crítica literária à poesia assemelha-se a pedir análises clínicas à alma.
Carlos Malmoro

29 setembro 2006

Canção

Silfos ou gnomos tocam?...
Roçam nos pinheirais
Sombras e bafos leves
De ritmos musicais.

Ondulam como em voltas
De estradas não sei onde
Ou como alguém que entre árvores
Ora se mostra ora se esconde.

Forma longínqua e incerta
Do que eu nunca terei...
Mal ouço e quase choro.
Por que choro não sei.

Tão ténue melodia
Que mal sei se ela existe
Ou se é só o crepúsculo,
Os pinhais e eu estar triste.

Mas cessa, como uma brisa
Esquece a forma aos seus ais;
E agora não há mais música
Do que a dos pinheirais.

Fernando Pessoa

21 setembro 2006

À Vossa Consideração

Hoje, no supermercado, ao lado da «Caixa Rápida - menos de dez artigos», observo a seguinte cena:
Fila sem ninguém; a empregada de «caixa rápida» analisa minunciosamente o estado das unhas. Entra um homem com dois carrinhos cheios de compras. Cumprimentos mútuos de circunstância. Entretanto, chegam mais uma senhora com dois artigos, um homem com três e uma jovem também com coisa pouca. Os três olham para aquela montanha de produtos que vão sendo rapidamente colocados no tapete. Não dizem uma palavra, mas se o olhar matasse...O homem sai apressado porque se esqueceu de algo. Resmunganço entre os três: «- Não há direito. - Isto é para menos de dez artigos. - É uma pouca vergonha. - Assim é que havemos de ir longe. - Este país não tem emenda. - É por estas e por outras...» Chega o homem, pede desculpa e é recebido com silêncio e com três simpáticos sorrisos.
Há três meses, na Feira do Livro do Porto. Debate: «O que é a Poesia?». Convidados: Pedro Mexia, Manuel António Pina e outros dois autores que neste momento não me recordo (confesso: fui lá para ouvir os dois). Falava o Pedro Mexia e uma voz atrás de mim: «Quem é que esse gajo pensa que é para escrever sobre autores consagrados?» Voltava a falar o Pedro Mexia, e «E que poeta é ele para dizer mal dos romances do Saramago?; E as crónicas que ele escreve? Um puto com o nono ano escreve melhor do que ele.» Pedro Mexia é informado pelo moderador para tecer as considerações finais. Nas minhas costas, silêncio. PM diz a última palavra, afasta o microfone e recebe uma salva de palmas, incluindo do senhor que esteve o tempo todo atrás de mim a elogiá-lo.
Carlos Malmoro

Menos dez por cento

Existem dois grupos que todos os anos vendem menos dez por cento. São os comerciantes em época natalícia e os livreiros/editores nas feiras do livro de Lisboa e Porto. O que me faz muita confusão: ouço estas litanias há quase três décadas. Portanto, - como diria o Eng.º Guterres «é só fazer as contas» - e facilmente se deduz que no último Natal se vendeu um par de meias e que este ano houve um livrinho vendido em ambas as feiras do livro. Em relação ao último, ainda falta apurar se foi um livro ou uma revista Nova Gente.
Carlos Malmoro

Dia Mundial da Doença de Alzheimer

Há cem anos, o médico Alois Alzheimer, «deu» o seu nome a uma conjugação desconhecida de sintomas que observou numa mulher. Há dez anos, celebrou-se o primeiro Dia Mundial da Doença. Há quase dois anos (faltam oito horas), uma mulher engrossou a lista de vítimas mortais doença, por consequências directas da maleita. Essa mulher era minha mãe. Sei que ela gostaria que fizessem uma visitinha aqui: Dia Mundial da Doença de Alzheimer. Para que, como a própria me aconselhava, «Não te saia a fava em bolo que não é Rei.».
Carlos Malmoro

Confissão

Eu, adicto, me confesso: estou viciado no Youtube. Um sítio onde se podem encontrar viciozinhos como este:

Carlos Malmoro

19 setembro 2006

Ir para velho

Para além do ridículo pêlo branco que insiste em aparecer no meio da barba e para além da teimosia da barriga que faz questão de mostrar todo o seu lípido potencial sempre que se passa uma semana sem natação ou quando o dono se atira aos profiterolles de anis como se não houvesse amanhã, a melhor forma de notarmos que estamos a ir para velhos, é visitar os sítios onde já vivemos e reparar que as visitas aos cemitérios se tornam cada vez mais frequentes.

Carlos Malmoro

A verdadeira tese

No início existia o Criacionismo que advogava que Deus era o criador do mundo. Depois foi a vez do Evolucionismo, defendido por Darwin no seu tratado «A Evolução das Espécies», um título que só por si já diz tudo, tal e qual o «Snakes on a Plane». Muito se escreveu, debateu e lutou pela apologia quer de uma quer de outra tese. Há porém uma outra teoria, muito pouco divulgada, e pela qual eu desde já me constituo como fiel adepto e defensor: o Simismo, aclarado por Clarice Lispector nessa esplêndida abertura do romance que dá pelo nome de «A Hora da Estrela»:
«Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. (...)»

Carlos Malmoro

18 setembro 2006

Computadores, esses bicharocos estranhos

Na porta da Conservatória, lê-se isto:
«Informamos os nossos utentes que poderão surgir atrasos no atendimento devido a esta Conservatória estar informatizada.»
Carlos Malmoro

Gosto de prosas

Carlos Malmoro

17 setembro 2006

Da fama e do proveito

"My reputation as a ladies man was a joke...it caused me to laugh bitterly at the 10000 nights I spent alone." - Leonard Cohen
Tradução possível: «A minha fama de mulherengo foi uma anedota...da qual me ri amargamente nas 10000 noites que passei sozinho.»
Carlos Malmoro

15 setembro 2006

Por aqui

o que se lê:



o que se ouve:



Susanna & the Magical Orchestra (podem ouvir aí ao lado carregando duas vezes no play)

O que se vê:



O que se pretende ler:



O que se pretende ouvir:



Banda Sonora do Documentário I'm Your Man

O que se pretende ver:




O que se pretende escrever:



Carlos Malmoro

14 setembro 2006

Modos de Vida (ix)

Tomava as opções conforme o sítio para onde estivesse virada a sua sombra. Um dia não teve sombra e decidiu à sorte. Acertou. Noutro, teve de se decidir exactamente quando passava por um candeeiro com quatro lâmpadas. Ao ver quatro sombras, enlouqueceu.

Carlos Malmoro

13 setembro 2006

Decorar

O decorar que aqui se tratará é o sinónimo de memorizar. Não tenham ilusões quanto a ter uma lição de alindamento de interiores em vinte minutos. Existirão blogs e sites com muito mais validade e propriedade para o fazer. Embora algumas das propostas apresentadas nesses sítios, me levem a fazer, a mim, um ateu confesso, um religioso sinal da cruz. Adiante.

Sempre tive muita dificuldade em decorar. Ou os saberes me eram explicados, ou então, primeiro que entrassem nesta cabeça dura, era necessário que a mesma fosse cirurgicamente «aberta» e despejados para dentro os seus conteúdos. Assim, foi-me mais simples perceber que dois mais dois eram quatro, quando me foi demonstrado que duas laranjas mais duas laranjas são quatro laranjas. Ainda se tornou mais simples quando descobri, através de equações, que quatro menos dois resultava em dois.

Porém, se é relativamente fácil em ciências exactas haver uma demonstração, já nas línguas a coisa pia mais fino. Existem regras e, depois, cada regra tinha a sua excepção. Ora eu, com notas globalmente boas nas línguas, tentava fugir das excepções como o diabo da cruz (isto hoje está muito religioso). É que essas tinham de ser decoradas. Porque eram essas, invariavelmente, que surgiam nos exames. Dito de forma a perceberem a injustiça: as regras aplicavam-se em milhares de situações, as excepções em duas ou três, mas essas é que, para aqueles masoquistas, eram imprescindíveis aos alunos dominar.

Assim, e sem outras possibilidades de recurso, comecei por analisar o porquê de apenas a letra «p» e «b» serem antecedidas da letra «m», enquanto as restantes consoantes da letra «n». Cheguei a esta fantástica conclusão: ao dizer as letras «p», «b» e «m» os lábios tocam um no outro. Em nenhuma outra letra isso acontece. Eu sei que isso deve ter um nome em fonética. Não sei qual é, mas também não me importa saber: é que tenho a certeza que teria de o decorar.

Outra situação: por que razão estas formas verbais se escrevem de forma diferente: «decorasse» e «decora-se». Porque são dois tempos distintos do verbo «decorar».Até aí j´´a eu descobrira. Mas o que me ‘atormentava’ era saber quando tinha de escrever uma ou outra. Mais um esquema - malandro, diga-se em abono da verdade - encontrado: colocava a frase no negativo: «não decorasse» e «não se decora». Assim que o «se» saltava para trás do verbo, já sabia que a forma correcta de o escrever era «com tracinho».

Um último exemplo: os acentos. Era prática usual nos testes de português colocar vinte palavras, daquelas que nunca eu tinha ouvido na vida, e pedir «Coloque, de forma correcta, os acentos nas palavras.» Para esse caso, desenvolvi um sistema que me punha muitas vezes a fazer uma figura um pouco ridícula, mesmo de urso, nos dias de teste. Consistia em «chamar a palavra». Assim, e imaginando que a palavra a acentuar era «hermeneutica», e não pensem que a dificuldade do exemplo anda muito longe do que era exigido, dizia para mim mesmo, e como se estivesse a chamar alguém que tivesse o azar dos pais lhe terem dado esse nome «ó hermenêutica». A sílaba que se chama com mais força, é a sílaba a acentuar. Muito rebuscado, mas eficaz.

O mais importante destes esquemas não era, na altura, a sua eficácia comprovada pelas notas. Era conseguir menos marranço e principalmente menos decoranço. E isso resultava em mais tempo a fazer coisas realmente úteis: levantar saias a meninas, jogar ao bem me quer mal me quer, à bola e, para terminar com uma palavra que acabando em «s» não é plural, uma excepção que não foi necessário decorar, jogar ao guelas.
Carlos Malmoro

E um novo Homem nasceu

Neste momento, não sou ninguém. Assim dita o prazo de validade do Bilhete de Identidade. Não pertenço a nenhum país, não nasci em nenhuma cidade, não tenho nome, altura ou idade. Não tenho pais, residência, estado civil ou assinatura. Melhor de tudo: não tenho número identificativo. Sou, portanto, um selvagem. E não é que estou a gostar?

Carlos Malmoro

Um retrato possível de Portugal

Há um mês fechou a maternidade de Barcelos. Há um ano foi inaugurado um novo estádio do Gil Vicente, comparticipado em 35% por dinheiros públicos. Se ambos dão prejuízo, penso que seria de bom senso manter aquela valência que garantia uma saúde pública de proximidade. Assim não decidiram as pessoas inteligentes.

Concedo que se possa chamar ao raciocínio acima descrito de maniqueísta, no limite, de intelectualmente desonesto. A quem tenha veleidades de o fazer, desde já o convido a visitar as infra-estruturas desportivas destinadas ao desporto escolar, onde reina a ferrugem, onde as balizas ainda não foram fixadas ao chão, tornando-as em potenciais assassinas (recordam-se?), e onde os pavilhões multi-usos carecem de tanta atenção como o ego do Presidente do Gil Vicente.

Carlos Malmoro

02 setembro 2006

Pastar II

Neste meu supremo e supimpo pastanço, pergunto-me porque é que a nossa audição consegue ouvir através de paredes e a nossa visão não? Eu sei que era chato ver coisas que não queríamos, mas acho injusto esta desigualdade de tratamento entre sentidos. E, neste momento, é tudo quanto me ocorre dizer sobre o assunto.
Carlos Malmoro

01 setembro 2006

Pastar

Pasto, neste momento estou a pastar. Consiste em estar deitado no sofá de barriga para cima, com umas revistas e uns livros colocados estrategicamente no chão para que o meu braço chegue a eles sem me mexer muito. O raciocínio no mínimo que me permita escrever em português para alinhavar o arrazoado, e, com menos raciocínio ainda, ler e dissertar sobre essa gota de água no deserto editorial português que dá pelo nome de Tvmais.

Abrimos essa miragem e, na página quatro dedicada ao correio dos leitores, a Sandra, em boa hora, dá-nos a saber que o grupo «Aztros» já lançou o seu segundo álbum, que se intitula “Raios de Tempestade». A reter.
Por outro lado, a Rita indigna-se porque a TVI continua com o programa «Fiel ou Infiel». Segundo ela, o programa não tem qualidade. Ritinha, deixa-me dizer-te uma coisa: a mira técnica da TVI tem mais qualidade do que todos os seus programas juntos. Sim, “Morangos” incluídos.
Finalmente, a Carta do Mês, de um conterrâneo homónimo, ganhou um livro e passo-a a transcrever na íntegra (pode ser penoso ler a carta em toda a sua extensão, mas desde cedo aprendi que uma obra-prima não deve ser sintetizada).
«Furacão em Palco – Assistir a um espectáculo da Adelaide Ferreira é ter a confirmação daquilo que é escrito a seu respeito: é um tornado. – Carlos Sousa – Ponte de Lima.»
Viramos a página: publicidade. Viramos de novo. De novo publicidade. Adiante. Encontramos então a Elsa Raposo e umas fotografias em que se desvendam os dolorosos passos que teve de passar para retirar a tatuagem com o nome do antigo namorado. Elsinha não desesperes. Vê as coisas pelo lado positivo. Ele chamava-se Gonçalo. Poderia chamar-se Hermenegildo.

A secção «História de Capa» desvenda-nos que a Beatriz vai ser assassinada. Duas perguntas: então sabe-se e ninguém faz nada?; Beatriz, como é que se sente sabendo que não tem mais do que sete dias de vida? (esta última com o alto patrocínio da escola de jornalismo TVI).
Depois temos um momento alto da revista: a «Crónica do Marco», também conhecido por alcançar a fama como pontapeador de ventres femininos. Há gostos para todos os animais, que se há-de fazer? Pela enorme quantidade de pontos de exclamação em três frases, uma das quais em que o verbo está conjugado no singular e o sujeito no plural, pressente-se que o Marco é um tipo que se indigna – muita indignação tem esta luminosa publicação hebdomadária –, e com razão, com a falta de visibilidade que as modalidades amadoras do desporto têm. Importa é apreender isto: o Marco é um tipo que se indigna e tem razão. Permite-me que te trate por tu, sem qualquer tipo de pontapés, para te dizer, pá, que te indignas com razão e que há razões para a tua indignação.

Finalmente, o momento mais alto da revista. Aquele que tornou este momento no mais frutífero «pastar» que eu alguma vez realizei. Não, não foi Deus quem a descobriu. E não, não foi nenhum filósofo que a alcançou. E não, também não foi nenhum historiador, vidente, cientista ou alienígena que a deslindou. Pois acabo de saber que quem descobriu a Verdade foi a Isilda. Zizi, para os amigos.

Carlos Malmoro

Arquétipo

Tenho muita pena, mas esse arquétipo já está vendido. É como lhe digo, minha senhora, arquétipos verdadeiros só na nossa loja, mas de momento estão esgotados. Toda a gente quer t(s)er o seu arquetipozinho.

É uma maçada.

Sem dúvida, minha senhora: uma chatice.

Carlos Malmoro

24 agosto 2006

Grass (ii)

Se descobrisse que Fernando Pessoa tinha sido um violento criminoso, não mudava uma vírgula à opinião que tenho dele: o maior poeta do século XX.

Carlos Malmoro

Tudo o que importa saber

...sobre Günter Grass: escreveu 'O Tambor', 'A Ratazana', 'Mau Agoiro' e 'O Meu Século'.

Carlos Malmoro

Procura-se

Escritor, jornalista ou cronista que no Verão não me venha dizer onde se comem os melhores carapaus de escabeche, nem que tipo de vinho é o melhor para acompanhar a carne barrosã, nem que me venha revelar a receita secreta da avozinha para assar a sardinha.
Alvíssaras: compra da obra completa do autor e elogiá-lo como nenhum outro foi elogiado neste estaminé.

Carlos Malmoro

22 agosto 2006

Como Iniciar uma História

A fim de contentar e sossegar um casal de crianças de umas visitas que tive neste fim-de-semana, contei-lhes uma história inventada na hora. A minha condição genética para contar histórias vem do meu avô paterno, que as iniciava com um «antigamente», e foi reforçada pelo meu pai, que as inicia com o tradicional «Era uma vez». Eu faço questão do «Há muito, muito tempo», de preferência reforçado por «numa terra muito, muito distante...».

Pensava eu que isto era alguma novidade e uma forma eficiente de conseguir que as crianças, logo às primeiras palavras, desligassem da realidade e a imaginação entrasse imediatamente em velocidade cruzeiro. Mas aconteceu que quem entrou em velocidade cruzeiro foi a minha memória que foi buscar as raízes – e o plágio descarado, diga-se em verdade – desta expressão.

Há duas décadas atrás, mais ano menos ano, passava uma série televisiva de contos nórdicos que iniciava, invariavelmente, com essa enunciação. Eram episódios de cerca de vinte minutos, em que uma narradora portuguesa contava a história, que se desenrolava no ecrã, sem qualquer tipo de diálogos, e sem a portuguesíssima moral da história no fim de cada conto.

Talvez por esta ausência de moral da história, do aspecto das personagens (todas louras, olho claro, de metro e oitenta para cima), por mulheres esculpidas por deus montarem cavalos belíssimos, em bosques verdejantes trespassados por finos fios de sol, com riachos feitos de prata e de imaginação que eu apreciava mais essas histórias do que as da tradição portuguesa ou as da Disney.

Bem (retornando ao ponto que nos trouxe aqui), no final da história, os miúdos disseram que gostaram muito do conto. Cinco minutos passados, estavam de novo a correr à volta da mesa, a saírem para o jardim, a fazer o diabo a sete, até que começou mais um episódio de Floribella. Aí sim, os pais puderam ter dois dedos de conversa comigo em condições civilizadas.

Moral da história: um conto infantil já não prende a atenção das crianças, nem as sossega mais do que cinco minutos. Isso foi há muito, muito tempo, numa terra muito, muito distante.
Carlos Malmoro

18 agosto 2006

Modos de Vida (viii)

Há muitos modos de vida, mas nenhum em que a vida não doa.
Carlos Malmoro

Raízes

Chove, faz frio e troveja lá fora. Acho que sim. Que me posso considerar um bicho da chuva, do frio, do vento e da trovoada. São muitos pais para uma só carcaça, mas depois de ter sido adoptado pelo sol que quase me derreteu, regresso cabisbaixo ao conforto dos meus criadores, e, envergonhado, peço licença para entrar na minha própria casa. Chove a certeza de que os meus verdadeiros pais são estes.
Carlos Malmoro

O que falta

Um perfume com aroma a terra molhada.

Carlos Malmoro

12 agosto 2006

Obikwelu (2)

Obikwelu nem parece um português. Não é pela sua cor de pele, nem pelo seu físico de 1,95 de altura, nem pela sua pronúncia do português, nem pela ausência de barriguinha que eu afirmo isto.
Obikwelu nem parece um português porque nunca desistiu dos seus sonhos. Porque teve de se sujeitar a todas as contrariedades, porque trabalhou nas obras e continuou a acreditar, porque quando fica em segundo ou terceiro não vem dizer que há um conluio universal contra ele e que o adversário está feito com os árbitros, porque para chegar onde chega tem de trabalhar seis dias por semana, em disciplina rigorosa, para depois tudo se consumar em dez segundos, e porque está agradecido a Portugal pela oportunidade que lhe deu, em vez de andar constantemente nos jornais a declamar litanias sobre os apoios que lhe faltam. E é por não se parecer nada com um atleta português e ter muito pouco do tiques das elites portuguesas , que eu tenho orgulho no atleta excepcional e no cidadão português exemplar que Obikwelu é.
Carlos Malmoro
PS: Contraponto: Maria João Pires e Selecção Nacional de Futebol.

Obikwelu (1)

A diferença entre um Obikwelu e muitos dos famosos portugueses é que o primeiro tem espírito de sacrifício, enquanto os segundos sacrificam o espírito.

Carlos Malmoro

Uma grande,

grande letra:



Fosse ciganos a levantar poeira
A misturar nas patas
Terras de outras terras, ares de outras matas
Eu, bandoleiro, no meu cavalo alado
Na mão direita o fado
Jogando sementes nos campos da mente
E se falasses magia, sonho e fantasia
E se falasses encanto, quebranto e condão
Não te enganarias, não te enganarias
Não te enganarias, não!
Fosse ciganos a levantar poeira
A misturar nas patas
Terras de outras terras, ares de outras matas
Eu, bandoleiro, no meu cavalo alado
Na mão direita o fado
Jogando sementes nos campos da mente
E se falasses magia, sonho e fantasia
E se falasses encanto, quebranto e condão
Feitiço, transe, viagem, alucinação

Bandoleiro
Ney Matogrosso

Carlos Malmoro

08 agosto 2006

À Nova Geração de

...'Músicos', que gostam de compor baladas sentidas, que puxam à lágrima, ao amor profundo e à profundidade do sentimento - sim, que profundidade é convosco-, deixo-vos dois exemplos de como ainda estão longe, muito longe mesmo, de compor uma canção de amor.

Para além do palminho de cara que sei de fonte segura que V/Ex.as têm, e que, embora não acreditem, não interessa muito neste assunto, é preciso ser dono de um vozeirão como o deste senhor, mas num estilo diferente. Caso contrário, perde-se essa coisa estranha para vós que dá pelo nome de originalidade.
Depois, é preciso que as letras não se esgotem em lugares comuns, e que tenham tiradas de génio.
Exemplificando:

O we will know, won't we?
The stars will explode in the sky
O but they don't, do they?
Stars have their moment and then they die


Ou seja, a letra de uma canção de amor será tanto melhor quanto mais se aproximar da majestade da Poesia. Sabendo a dificuladade que V/ Ex.as têm no Português, o melhor é mesmo pedir a alguém que faça o trabalhinho por vós. Mas certifiquem-se da qualidade da coisa. Não quero que comprem gato por lebre.

Têm também, e eu sei que já estou a pedir muito, de saber tocar e compor num instrumento. De preferência, piano ou guitarra. Agora, têm de coordenar tudo por forma a atingir uma coisa infinitamente parecida com uma genial canção de amor. Que exemplifico:


Finalmente, os concertos. Para além de seguirem os passos acima descritos, para poderem apresentar uma canção de amor ao público tendo presença em palco (que vocês garantem até à exaustão como sendo nata de V/ Ex.as), incube-me informar que existem algumas matérias a rever.
Neste género de canção, quanto mais simples for a performance, mais autêntica ela se torna - e a qualidade de uma canção de amor gravita em torno da sua autenticidade. Para tal efeito, existem comportamentos de riscos a evitar. A saber: pede-se encarecidamente que se abstenham de gritinhos histéricos, coros de cinco vozes todas muito certinhas e no mesmo tom, piscares de olho à primeira fila, cenografias em cores berrantes e coreografias epilépticas em canções que, como muito bem sabemos, têm quase sempre andamentos lentos.
Sei que acabo de vos pedir uma utopia. Mas eu, olhando ao meu sentido de dever patriótico, e o estaminé onde escrevo, fazendo justiça ao seu sentido de serviço público, decidimos por comum acordo apresentar-vos uma lição prática de como se deve tocar uma canção de amor em público. Ei-la:

Recebam esta última dica: não faz mal nenhum dedicar a canção de amor a alguém. Eu, por exemplo, já que estou aqui e que me fizeram suar as estopinhas, dedico estas duas canções a quem de direito.
Carlos Malmoro

Quando a mais genial

composição para piano que conheço (Para Elisa, Beethoven), é-me apresentada num sintetizador rasca, e servida como banda sonora de uma espera telefónica de momentos que se prolonga por horas, os meus índices de agressividade passam de um ténue verde a um esdrúxulo vermelho.
Carlos Malmoro

06 agosto 2006

Hiroshima


Hiroshima: 61 anos depois, ainda se sentem os efeitos da radioactividade. Olhando para o estado da Humanidade, 61 anos depois, ainda se sentem os efeitos da estupidez das guerras.
Carlos Malmoro
PS: Se bem que eu acredite que, como dizia T.S. Elliot, o Mundo não irá acabar num grande e rápido big-bang, mas sim num lento agonizar [Cito de cor].

03 agosto 2006

Modos de Vida (vii)

Vivia em modo de leitura, bloqueado para edição.

Carlos Malmoro

Acerca da hospitalização

da personagem principal de Floribella...
Cabeçalho da notícia:
«Luciana Abreu retoma o trabalho na segunda-feira. A cantora-actriz está em casa a repousar e à folga, já prevista, de hoje, soma-se um dia de descanso concedido pela Teresa Guilherme Produções (TGP).»
Corpo:
«Flor’, que há seis meses contraiu um traumatismo na zona cervical, não necessita de ser medicada, passando as recomendações médicas, exclusivamente, pelo repouso e utilização do colar. Segunda-feira regressa ao trabalho (...) a actriz retirará o aparelho para gravar as suas cenas»
«Detalhes
GINÁSIO A TGP acordou, há dias, um protocolo com um ginásio para utilização dos seus actores. Luciana terá, assim, onde fazer ginástica de manutenção.
SEGURO Luciana, que tem seguro, segundo a assessora da TGP, foi transportada para um hospital público por decisão dos Bombeiros Voluntários de Bucelas.
MENSAGEM:Cristina Cavalinhos, a ‘Helga’ da novela, leu, ontem, após o ‘Jornal da Noite’ uma mensagem de Luciana a tranquilizar os fãs. “Fiquem com Deus”, escreveu.»
Sendo assim, temos uma entidade patronal que é uma mãos largas na atenção que dá à sua principal protagonista, cometendo a loucura de lhe conceder um dia de folga extra depois de hospitalização da mesma; temos uma equipa médica a recomendar repouso e a utilização de um colar cervical e, no mesmo parágrafo, informam-nos que a trabalhadora retomará a sua actividade normal na segunda-feira e irá retirar o colar sempre que gravar; temos uns 'detalhes' a dizer que a trabalhadora está legal, porque tem seguro, e que já tem onde fazer manutenção física; e temos uma 'mensagem' escrita pela própria e lida após o Telejornal, como fazem o Presidente e o Primeiro-Ministro.
A bem do que eu julgo ser o bom senso e o equilíbrio mental, só peço que alguém me garanta que isto é mentira.
Carlos Malmoro

02 agosto 2006

Modos de vida (vi)

O rocker supunha-se genial: achava que as suas actuações ao vivo eram momentos sublimes e épicos. Desejou ter o dom da ubiquidade para assistir como espectador a um concerto seu. Foi-lhe concedido o desejo. Quando se viu a actuar, desistiu da carreira.

Carlos Malmoro