18 outubro 2006

Comunicado da Gerência

A partir de hoje, faço parte da equipa que escreve o «Geração Rasca». O «Caixa Pandora» continua dentro de momentos.

Carlos Malmoro

17 outubro 2006

Perspectiva (um pouco altiva)

No comentário anterior, ao 'cruzar-se' com a Pitucha, André Carvalho disse que «o mundo é pequeno». Em circunstâncias idênticas, eu prefiro pensar que sou eu e a outra pessoa é que somos grandes. Mai' nada.
Carlos Malmoro

16 outubro 2006

Prémio

Não sei qual é a originalidade de Marcelo Rebelo de Sousa fazer um blogue no jornal «Sol». Caso não se recordem, o melhor blogue português foi escrito ainda não existia internet. Aliás, não chegou a ser publicado na net. Os posts dele são, de longe, de muito longe mesmo, superiores a qualquer um que anda por aí. Caixa Pandora, incluída. Como se chama o blogue? O Livro do Desassossego.

Carlos Malmoro

13 outubro 2006

Burocracia Poética

Menino Carlitos, dê um exemplo de linguagem poética e outro, com o mesmo significado, de linguagem não poética.
- Linguagem poética:"Comissão Eventual de Inquérito Parlamentar ao Processamento, Disponibilização e Divulgação de Registos de Chamadas Telefónicas Protegidas Pela Obrigação de Confidencialidade".
Linguagem prosaica: Caso do Envelope Nove.

Carlos Malmoro

12 outubro 2006

Ponto da Situação

They think they know who I am...

Carlos Malmoro

10 outubro 2006



Carlos Malmoro

09 outubro 2006

Há que assumi-lo com frontalidade:

se o meu carro fosse um descapotável, era considerado uma lixeira a céu aberto.

Carlos Malmoro

06 outubro 2006

Inspiração da Grelha da TVI

José Eduardo Moniz à revista NS:

«Tenho um caderninho na casa de banho para apontar ideias.»

Um contra Todos

Numa destas noites, entrei num bar e estava a dar aquele concurso de cultura geral, «Um Contra Todos». A pergunta que se fazia era: “Em que ano Thomas Mann venceu o Prémio Nobel da Literatura?”. Eu não sei. Li quatro livros dele dos quais posso fazer um resumo dos temas tratados e do estilo de escrita, sei minimamente a sua biografia e em que corrente estética se insere o autor, consigo ter uma visão global da Obra e as influências que se notam, mas – oh ignomínia – não sei em que ano o senhor ganhou o prémio Nobel. Portanto, aos olhos desta sociedade que valoriza o decorar do ano em que um autor é premiado à compreensão da sua Obra, sou um inculto sem remissão e um abjecto ignorante.
E curiosamente, sinto-me o derradeiro sábio com esta minha suprema ignorância.
Carlos Malmoro

Quando eu pensava que uma

carta para um/jornal revista poderia mudar algo:

1) MAIS LEITORES:
«Quando a rubrica «Gosto Não Gosto» começou no DNA, houve logo leitores que se apressaram a tomar conta da ideia e transformaram as suas opiniões sobre este suplemento em listas de amores e desamores. Gostámos da «apropriação» e publicámos quase todas que nos chegaram. Depois a secção entrou na rotina do costume, e deixaram de chegar esses manifestos que nos fazem pensar e nos obrigam tantas vezes a mudar. Agora, repentinamente, eis de volta à caixa do correio cartas sob a forma de «Gosto Não Gosto». O editor dispensa a sua carta para mais uma destas formas de estar connosco, mesmo quando se critica e lamenta…Aí está, então, o que vai na alma de Carlos (…), de Ponte de Lima:»


«Gosto da escrita directa (Palavras a Cores) e mágica (As Sombras da Liberdade) da Sónia Morais Santos. Onde estão as Palavras a Cores? Não sei do que se pode não gostar na escrita de SMS. Gosto dos Editoriais melancólicos e chuvosos, que pedem «Murder Ballads», de Pedro Rolo Duarte. Não gosto que PRD se atormente com políticos e políticas – se eles dizem que «a guerra é importante demais para ser deixada nas mãos de militares», então a cultura é demasiadamente vital para ser discutida com e por políticos. Ou seja, por quem faz realmente a guerra. Não gosto nem desgosto dos textos da Camila Coelho por não terem gosto. Gosto das críticas de P. Mexia à «Novíssima» poesia. Não gosto que o PM tenha feito a crítica, no DNA, a um livro de José Mário Silva, por este último ser Editor-Adjunto do DNA, nem gosto quando o PM se perde – e perde-nos – em efabulações conceptualistas, e tem de escrever entre parêntesis se o que está a afirmar é um elogio ou uma crítica ao livro. Gosto do humor nas crónicas de Miguel Esteves Cardoso e de Carlos Quevedo, que escondem aquilo de que não gosto nas suas crónicas: amargura azeda e generalizações simplistas. Gosto das histórias de escritores de Nelson de Matos. Não gosto da litania «Coitadinhos Dos Editores Que Não Recebem Subsídios» de Nelson de Matos. Gosto dos textos de Eduardo Barroso que falam de homens que salvam homens. Não gosto de textos políticos no «Sem Receita». Gosto do ritmo dos textos de José Mário Silva. Não gosto de certos textos de JMS que mostram a insuportável arrogância de uma pretensa superioridade intelectual. Já vos disse que gosto da escrita adulta da Sónia Morais Santos, mas é só para o texto ter estrutura circular. Gosto do gosto do DNA.»

Texto publicado na carta semanal que Pedro Rolo Duarte dirigia aos leitores. A parte a itálico é de sua lavra. Publicado em 10/05/2003, no caderno DNA
2) «O Governador do Banco de Portugal, Vítor Constâncio, disse recentemente que se a economia portuguesa não sofrer um sobressalto estará condenada a um crescimento medíocre nos próximos anos. Eu penso que não é só a Economia. De facto, se analisarmos a situação apenas nos sectores mais relevantes da vida portuguesa, – a Justiça, a Saúde, a Educação, e a Administração Pública - a conclusão é óbvia: o marasmo, a mediocridade, o deixa andar e um tédio que parece endógeno à vida pública portuguesa, existe em todos eles. Os dias são queimados sem se esperar já grande coisa dos políticos, a sociedade civil está dividida entre os afilhados e os remediados, num fosso que se alarga quotidianamente, a Justiça parece fazer questão em demorar séculos para resolver o mais simples dos processos, enquanto as classes que a integram andam mais preocupadas em lutas de poder; a Saúde ainda não tem os serviços de saúde básicos que possam atenuar a afluência às Urgências, os jovens necessitam de ser génios para entrar numa faculdade de medicina e os genéricos só saíram mais baratos ao Estado, uma vez que a factura dos Utentes é maior; um dia, a Educação, conseguirá fazer um concurso de colocação de professores capaz e exigir um mínimo de conhecimentos aos alunos nas passagens de ano e a Administração Pública sofre de proporcionalidade inversa: quanto mais pesa no bolso dos contribuintes, menos eficaz se torna.

Dito isto e para terminar, lembro aqueles dois versos de T.S. Elliot que diziam que o fim do mundo não chegará num big-bang mas num moroso e contínuo desvanecimento (cito de cor). Também em Portugal assim o é: isto não acabará num qualquer sobressalto. Antes num agonizar lento e entediante da vontade de lutar por um país melhor. Basta olhar para as escolhas que temos ao nosso dispor em vinte de Fevereiro.»

Carta publicada na Grande Reportagem, há aproximadamente três anos
3)A emigração portuguesa que hoje existe é mais castradora para o futuro de Portugal do que aquela que existiu nos anos 60 e 70. De facto, enquanto nesses anos o fenómeno recrutava os seus elementos nas franjas da população mais desfavorecidas economicamente, e que assim almejavam a desejada estabilidade económica regressavam a Portugal, actualmente a emigração faz-se a expensas da «nata» dos portugueses.
Sem qualquer juízo de valor para com a necessidade e legitimidade que levou – e leva – uns e outros a tomarem tal opção de vida, é assaz preocupante que numa sociedade tecnológica, do conhecimento científico e da informação, e num país que padece de tantas carências a estes níveis, os melhores cientistas, investigadores e académicos tenham de procurar oportunidades no estrangeiro. Por que razão não o conseguem em Portugal?
Mas temos de compreender quem toma esta decisão, quase sempre com bastante sofrimento a nível pessoal e familiar. Se nos anos 60 e 70 fugia-se da miséria e da fome, hoje, quem emigra, procura evitar a estagnação das suas carreiras, uma vez que as universidades e centros tecnológicos portugueses não conseguem, nem de perto nem de longe, competir com os meios dos congéneres franceses, britânicos ou norte-americanos. (Em tempo: no OE para 2004, as verbas para Ciência e Tecnologia diminuem 3,8%.Para quem prometeu um forte investimento em ID&T, estamos conversados…)
Publicado na rubrica «Cartas dos Leitores», do Diário de Notícias, de 22/10/2003
...pois, estamos conversados: deixei de enviar cartas para o jornal, criei um blogue.
Carlos Malmoro

Dos espelhos

A imagem reflectida no espelho, não é a nossa, mas a simétrica à nossa. E simetria significa, na sua acepção, geométrica/matemática – e é esta que interessa visto estar a escrever sobre distribuição de objectos no espaço –, objectos ou algarismos idênticos com a posição ou valor oposto. E nós, conscientes disso, só saímos de casa quando a reflexão que dá um valor oposto ao da nossa verdadeira imagem está perfeita.
Carlos Malmoro

Pensamento do Dia

Fazer crítica literária à poesia assemelha-se a pedir análises clínicas à alma.
Carlos Malmoro

29 setembro 2006

Canção

Silfos ou gnomos tocam?...
Roçam nos pinheirais
Sombras e bafos leves
De ritmos musicais.

Ondulam como em voltas
De estradas não sei onde
Ou como alguém que entre árvores
Ora se mostra ora se esconde.

Forma longínqua e incerta
Do que eu nunca terei...
Mal ouço e quase choro.
Por que choro não sei.

Tão ténue melodia
Que mal sei se ela existe
Ou se é só o crepúsculo,
Os pinhais e eu estar triste.

Mas cessa, como uma brisa
Esquece a forma aos seus ais;
E agora não há mais música
Do que a dos pinheirais.

Fernando Pessoa

21 setembro 2006

À Vossa Consideração

Hoje, no supermercado, ao lado da «Caixa Rápida - menos de dez artigos», observo a seguinte cena:
Fila sem ninguém; a empregada de «caixa rápida» analisa minunciosamente o estado das unhas. Entra um homem com dois carrinhos cheios de compras. Cumprimentos mútuos de circunstância. Entretanto, chegam mais uma senhora com dois artigos, um homem com três e uma jovem também com coisa pouca. Os três olham para aquela montanha de produtos que vão sendo rapidamente colocados no tapete. Não dizem uma palavra, mas se o olhar matasse...O homem sai apressado porque se esqueceu de algo. Resmunganço entre os três: «- Não há direito. - Isto é para menos de dez artigos. - É uma pouca vergonha. - Assim é que havemos de ir longe. - Este país não tem emenda. - É por estas e por outras...» Chega o homem, pede desculpa e é recebido com silêncio e com três simpáticos sorrisos.
Há três meses, na Feira do Livro do Porto. Debate: «O que é a Poesia?». Convidados: Pedro Mexia, Manuel António Pina e outros dois autores que neste momento não me recordo (confesso: fui lá para ouvir os dois). Falava o Pedro Mexia e uma voz atrás de mim: «Quem é que esse gajo pensa que é para escrever sobre autores consagrados?» Voltava a falar o Pedro Mexia, e «E que poeta é ele para dizer mal dos romances do Saramago?; E as crónicas que ele escreve? Um puto com o nono ano escreve melhor do que ele.» Pedro Mexia é informado pelo moderador para tecer as considerações finais. Nas minhas costas, silêncio. PM diz a última palavra, afasta o microfone e recebe uma salva de palmas, incluindo do senhor que esteve o tempo todo atrás de mim a elogiá-lo.
Carlos Malmoro

Menos dez por cento

Existem dois grupos que todos os anos vendem menos dez por cento. São os comerciantes em época natalícia e os livreiros/editores nas feiras do livro de Lisboa e Porto. O que me faz muita confusão: ouço estas litanias há quase três décadas. Portanto, - como diria o Eng.º Guterres «é só fazer as contas» - e facilmente se deduz que no último Natal se vendeu um par de meias e que este ano houve um livrinho vendido em ambas as feiras do livro. Em relação ao último, ainda falta apurar se foi um livro ou uma revista Nova Gente.
Carlos Malmoro

Dia Mundial da Doença de Alzheimer

Há cem anos, o médico Alois Alzheimer, «deu» o seu nome a uma conjugação desconhecida de sintomas que observou numa mulher. Há dez anos, celebrou-se o primeiro Dia Mundial da Doença. Há quase dois anos (faltam oito horas), uma mulher engrossou a lista de vítimas mortais doença, por consequências directas da maleita. Essa mulher era minha mãe. Sei que ela gostaria que fizessem uma visitinha aqui: Dia Mundial da Doença de Alzheimer. Para que, como a própria me aconselhava, «Não te saia a fava em bolo que não é Rei.».
Carlos Malmoro

Confissão

Eu, adicto, me confesso: estou viciado no Youtube. Um sítio onde se podem encontrar viciozinhos como este:

Carlos Malmoro

19 setembro 2006

Ir para velho

Para além do ridículo pêlo branco que insiste em aparecer no meio da barba e para além da teimosia da barriga que faz questão de mostrar todo o seu lípido potencial sempre que se passa uma semana sem natação ou quando o dono se atira aos profiterolles de anis como se não houvesse amanhã, a melhor forma de notarmos que estamos a ir para velhos, é visitar os sítios onde já vivemos e reparar que as visitas aos cemitérios se tornam cada vez mais frequentes.

Carlos Malmoro

A verdadeira tese

No início existia o Criacionismo que advogava que Deus era o criador do mundo. Depois foi a vez do Evolucionismo, defendido por Darwin no seu tratado «A Evolução das Espécies», um título que só por si já diz tudo, tal e qual o «Snakes on a Plane». Muito se escreveu, debateu e lutou pela apologia quer de uma quer de outra tese. Há porém uma outra teoria, muito pouco divulgada, e pela qual eu desde já me constituo como fiel adepto e defensor: o Simismo, aclarado por Clarice Lispector nessa esplêndida abertura do romance que dá pelo nome de «A Hora da Estrela»:
«Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. (...)»

Carlos Malmoro

18 setembro 2006

Computadores, esses bicharocos estranhos

Na porta da Conservatória, lê-se isto:
«Informamos os nossos utentes que poderão surgir atrasos no atendimento devido a esta Conservatória estar informatizada.»
Carlos Malmoro

Gosto de prosas

Carlos Malmoro

17 setembro 2006

Da fama e do proveito

"My reputation as a ladies man was a joke...it caused me to laugh bitterly at the 10000 nights I spent alone." - Leonard Cohen
Tradução possível: «A minha fama de mulherengo foi uma anedota...da qual me ri amargamente nas 10000 noites que passei sozinho.»
Carlos Malmoro

15 setembro 2006

Por aqui

o que se lê:



o que se ouve:



Susanna & the Magical Orchestra (podem ouvir aí ao lado carregando duas vezes no play)

O que se vê:



O que se pretende ler:



O que se pretende ouvir:



Banda Sonora do Documentário I'm Your Man

O que se pretende ver:




O que se pretende escrever:



Carlos Malmoro

14 setembro 2006

Modos de Vida (ix)

Tomava as opções conforme o sítio para onde estivesse virada a sua sombra. Um dia não teve sombra e decidiu à sorte. Acertou. Noutro, teve de se decidir exactamente quando passava por um candeeiro com quatro lâmpadas. Ao ver quatro sombras, enlouqueceu.

Carlos Malmoro

13 setembro 2006

Decorar

O decorar que aqui se tratará é o sinónimo de memorizar. Não tenham ilusões quanto a ter uma lição de alindamento de interiores em vinte minutos. Existirão blogs e sites com muito mais validade e propriedade para o fazer. Embora algumas das propostas apresentadas nesses sítios, me levem a fazer, a mim, um ateu confesso, um religioso sinal da cruz. Adiante.

Sempre tive muita dificuldade em decorar. Ou os saberes me eram explicados, ou então, primeiro que entrassem nesta cabeça dura, era necessário que a mesma fosse cirurgicamente «aberta» e despejados para dentro os seus conteúdos. Assim, foi-me mais simples perceber que dois mais dois eram quatro, quando me foi demonstrado que duas laranjas mais duas laranjas são quatro laranjas. Ainda se tornou mais simples quando descobri, através de equações, que quatro menos dois resultava em dois.

Porém, se é relativamente fácil em ciências exactas haver uma demonstração, já nas línguas a coisa pia mais fino. Existem regras e, depois, cada regra tinha a sua excepção. Ora eu, com notas globalmente boas nas línguas, tentava fugir das excepções como o diabo da cruz (isto hoje está muito religioso). É que essas tinham de ser decoradas. Porque eram essas, invariavelmente, que surgiam nos exames. Dito de forma a perceberem a injustiça: as regras aplicavam-se em milhares de situações, as excepções em duas ou três, mas essas é que, para aqueles masoquistas, eram imprescindíveis aos alunos dominar.

Assim, e sem outras possibilidades de recurso, comecei por analisar o porquê de apenas a letra «p» e «b» serem antecedidas da letra «m», enquanto as restantes consoantes da letra «n». Cheguei a esta fantástica conclusão: ao dizer as letras «p», «b» e «m» os lábios tocam um no outro. Em nenhuma outra letra isso acontece. Eu sei que isso deve ter um nome em fonética. Não sei qual é, mas também não me importa saber: é que tenho a certeza que teria de o decorar.

Outra situação: por que razão estas formas verbais se escrevem de forma diferente: «decorasse» e «decora-se». Porque são dois tempos distintos do verbo «decorar».Até aí j´´a eu descobrira. Mas o que me ‘atormentava’ era saber quando tinha de escrever uma ou outra. Mais um esquema - malandro, diga-se em abono da verdade - encontrado: colocava a frase no negativo: «não decorasse» e «não se decora». Assim que o «se» saltava para trás do verbo, já sabia que a forma correcta de o escrever era «com tracinho».

Um último exemplo: os acentos. Era prática usual nos testes de português colocar vinte palavras, daquelas que nunca eu tinha ouvido na vida, e pedir «Coloque, de forma correcta, os acentos nas palavras.» Para esse caso, desenvolvi um sistema que me punha muitas vezes a fazer uma figura um pouco ridícula, mesmo de urso, nos dias de teste. Consistia em «chamar a palavra». Assim, e imaginando que a palavra a acentuar era «hermeneutica», e não pensem que a dificuldade do exemplo anda muito longe do que era exigido, dizia para mim mesmo, e como se estivesse a chamar alguém que tivesse o azar dos pais lhe terem dado esse nome «ó hermenêutica». A sílaba que se chama com mais força, é a sílaba a acentuar. Muito rebuscado, mas eficaz.

O mais importante destes esquemas não era, na altura, a sua eficácia comprovada pelas notas. Era conseguir menos marranço e principalmente menos decoranço. E isso resultava em mais tempo a fazer coisas realmente úteis: levantar saias a meninas, jogar ao bem me quer mal me quer, à bola e, para terminar com uma palavra que acabando em «s» não é plural, uma excepção que não foi necessário decorar, jogar ao guelas.
Carlos Malmoro

E um novo Homem nasceu

Neste momento, não sou ninguém. Assim dita o prazo de validade do Bilhete de Identidade. Não pertenço a nenhum país, não nasci em nenhuma cidade, não tenho nome, altura ou idade. Não tenho pais, residência, estado civil ou assinatura. Melhor de tudo: não tenho número identificativo. Sou, portanto, um selvagem. E não é que estou a gostar?

Carlos Malmoro

Um retrato possível de Portugal

Há um mês fechou a maternidade de Barcelos. Há um ano foi inaugurado um novo estádio do Gil Vicente, comparticipado em 35% por dinheiros públicos. Se ambos dão prejuízo, penso que seria de bom senso manter aquela valência que garantia uma saúde pública de proximidade. Assim não decidiram as pessoas inteligentes.

Concedo que se possa chamar ao raciocínio acima descrito de maniqueísta, no limite, de intelectualmente desonesto. A quem tenha veleidades de o fazer, desde já o convido a visitar as infra-estruturas desportivas destinadas ao desporto escolar, onde reina a ferrugem, onde as balizas ainda não foram fixadas ao chão, tornando-as em potenciais assassinas (recordam-se?), e onde os pavilhões multi-usos carecem de tanta atenção como o ego do Presidente do Gil Vicente.

Carlos Malmoro

02 setembro 2006

Pastar II

Neste meu supremo e supimpo pastanço, pergunto-me porque é que a nossa audição consegue ouvir através de paredes e a nossa visão não? Eu sei que era chato ver coisas que não queríamos, mas acho injusto esta desigualdade de tratamento entre sentidos. E, neste momento, é tudo quanto me ocorre dizer sobre o assunto.
Carlos Malmoro

01 setembro 2006

Pastar

Pasto, neste momento estou a pastar. Consiste em estar deitado no sofá de barriga para cima, com umas revistas e uns livros colocados estrategicamente no chão para que o meu braço chegue a eles sem me mexer muito. O raciocínio no mínimo que me permita escrever em português para alinhavar o arrazoado, e, com menos raciocínio ainda, ler e dissertar sobre essa gota de água no deserto editorial português que dá pelo nome de Tvmais.

Abrimos essa miragem e, na página quatro dedicada ao correio dos leitores, a Sandra, em boa hora, dá-nos a saber que o grupo «Aztros» já lançou o seu segundo álbum, que se intitula “Raios de Tempestade». A reter.
Por outro lado, a Rita indigna-se porque a TVI continua com o programa «Fiel ou Infiel». Segundo ela, o programa não tem qualidade. Ritinha, deixa-me dizer-te uma coisa: a mira técnica da TVI tem mais qualidade do que todos os seus programas juntos. Sim, “Morangos” incluídos.
Finalmente, a Carta do Mês, de um conterrâneo homónimo, ganhou um livro e passo-a a transcrever na íntegra (pode ser penoso ler a carta em toda a sua extensão, mas desde cedo aprendi que uma obra-prima não deve ser sintetizada).
«Furacão em Palco – Assistir a um espectáculo da Adelaide Ferreira é ter a confirmação daquilo que é escrito a seu respeito: é um tornado. – Carlos Sousa – Ponte de Lima.»
Viramos a página: publicidade. Viramos de novo. De novo publicidade. Adiante. Encontramos então a Elsa Raposo e umas fotografias em que se desvendam os dolorosos passos que teve de passar para retirar a tatuagem com o nome do antigo namorado. Elsinha não desesperes. Vê as coisas pelo lado positivo. Ele chamava-se Gonçalo. Poderia chamar-se Hermenegildo.

A secção «História de Capa» desvenda-nos que a Beatriz vai ser assassinada. Duas perguntas: então sabe-se e ninguém faz nada?; Beatriz, como é que se sente sabendo que não tem mais do que sete dias de vida? (esta última com o alto patrocínio da escola de jornalismo TVI).
Depois temos um momento alto da revista: a «Crónica do Marco», também conhecido por alcançar a fama como pontapeador de ventres femininos. Há gostos para todos os animais, que se há-de fazer? Pela enorme quantidade de pontos de exclamação em três frases, uma das quais em que o verbo está conjugado no singular e o sujeito no plural, pressente-se que o Marco é um tipo que se indigna – muita indignação tem esta luminosa publicação hebdomadária –, e com razão, com a falta de visibilidade que as modalidades amadoras do desporto têm. Importa é apreender isto: o Marco é um tipo que se indigna e tem razão. Permite-me que te trate por tu, sem qualquer tipo de pontapés, para te dizer, pá, que te indignas com razão e que há razões para a tua indignação.

Finalmente, o momento mais alto da revista. Aquele que tornou este momento no mais frutífero «pastar» que eu alguma vez realizei. Não, não foi Deus quem a descobriu. E não, não foi nenhum filósofo que a alcançou. E não, também não foi nenhum historiador, vidente, cientista ou alienígena que a deslindou. Pois acabo de saber que quem descobriu a Verdade foi a Isilda. Zizi, para os amigos.

Carlos Malmoro

Arquétipo

Tenho muita pena, mas esse arquétipo já está vendido. É como lhe digo, minha senhora, arquétipos verdadeiros só na nossa loja, mas de momento estão esgotados. Toda a gente quer t(s)er o seu arquetipozinho.

É uma maçada.

Sem dúvida, minha senhora: uma chatice.

Carlos Malmoro

24 agosto 2006

Grass (ii)

Se descobrisse que Fernando Pessoa tinha sido um violento criminoso, não mudava uma vírgula à opinião que tenho dele: o maior poeta do século XX.

Carlos Malmoro

Tudo o que importa saber

...sobre Günter Grass: escreveu 'O Tambor', 'A Ratazana', 'Mau Agoiro' e 'O Meu Século'.

Carlos Malmoro

Procura-se

Escritor, jornalista ou cronista que no Verão não me venha dizer onde se comem os melhores carapaus de escabeche, nem que tipo de vinho é o melhor para acompanhar a carne barrosã, nem que me venha revelar a receita secreta da avozinha para assar a sardinha.
Alvíssaras: compra da obra completa do autor e elogiá-lo como nenhum outro foi elogiado neste estaminé.

Carlos Malmoro

22 agosto 2006

Como Iniciar uma História

A fim de contentar e sossegar um casal de crianças de umas visitas que tive neste fim-de-semana, contei-lhes uma história inventada na hora. A minha condição genética para contar histórias vem do meu avô paterno, que as iniciava com um «antigamente», e foi reforçada pelo meu pai, que as inicia com o tradicional «Era uma vez». Eu faço questão do «Há muito, muito tempo», de preferência reforçado por «numa terra muito, muito distante...».

Pensava eu que isto era alguma novidade e uma forma eficiente de conseguir que as crianças, logo às primeiras palavras, desligassem da realidade e a imaginação entrasse imediatamente em velocidade cruzeiro. Mas aconteceu que quem entrou em velocidade cruzeiro foi a minha memória que foi buscar as raízes – e o plágio descarado, diga-se em verdade – desta expressão.

Há duas décadas atrás, mais ano menos ano, passava uma série televisiva de contos nórdicos que iniciava, invariavelmente, com essa enunciação. Eram episódios de cerca de vinte minutos, em que uma narradora portuguesa contava a história, que se desenrolava no ecrã, sem qualquer tipo de diálogos, e sem a portuguesíssima moral da história no fim de cada conto.

Talvez por esta ausência de moral da história, do aspecto das personagens (todas louras, olho claro, de metro e oitenta para cima), por mulheres esculpidas por deus montarem cavalos belíssimos, em bosques verdejantes trespassados por finos fios de sol, com riachos feitos de prata e de imaginação que eu apreciava mais essas histórias do que as da tradição portuguesa ou as da Disney.

Bem (retornando ao ponto que nos trouxe aqui), no final da história, os miúdos disseram que gostaram muito do conto. Cinco minutos passados, estavam de novo a correr à volta da mesa, a saírem para o jardim, a fazer o diabo a sete, até que começou mais um episódio de Floribella. Aí sim, os pais puderam ter dois dedos de conversa comigo em condições civilizadas.

Moral da história: um conto infantil já não prende a atenção das crianças, nem as sossega mais do que cinco minutos. Isso foi há muito, muito tempo, numa terra muito, muito distante.
Carlos Malmoro

18 agosto 2006

Modos de Vida (viii)

Há muitos modos de vida, mas nenhum em que a vida não doa.
Carlos Malmoro

Raízes

Chove, faz frio e troveja lá fora. Acho que sim. Que me posso considerar um bicho da chuva, do frio, do vento e da trovoada. São muitos pais para uma só carcaça, mas depois de ter sido adoptado pelo sol que quase me derreteu, regresso cabisbaixo ao conforto dos meus criadores, e, envergonhado, peço licença para entrar na minha própria casa. Chove a certeza de que os meus verdadeiros pais são estes.
Carlos Malmoro

O que falta

Um perfume com aroma a terra molhada.

Carlos Malmoro

12 agosto 2006

Obikwelu (2)

Obikwelu nem parece um português. Não é pela sua cor de pele, nem pelo seu físico de 1,95 de altura, nem pela sua pronúncia do português, nem pela ausência de barriguinha que eu afirmo isto.
Obikwelu nem parece um português porque nunca desistiu dos seus sonhos. Porque teve de se sujeitar a todas as contrariedades, porque trabalhou nas obras e continuou a acreditar, porque quando fica em segundo ou terceiro não vem dizer que há um conluio universal contra ele e que o adversário está feito com os árbitros, porque para chegar onde chega tem de trabalhar seis dias por semana, em disciplina rigorosa, para depois tudo se consumar em dez segundos, e porque está agradecido a Portugal pela oportunidade que lhe deu, em vez de andar constantemente nos jornais a declamar litanias sobre os apoios que lhe faltam. E é por não se parecer nada com um atleta português e ter muito pouco do tiques das elites portuguesas , que eu tenho orgulho no atleta excepcional e no cidadão português exemplar que Obikwelu é.
Carlos Malmoro
PS: Contraponto: Maria João Pires e Selecção Nacional de Futebol.

Obikwelu (1)

A diferença entre um Obikwelu e muitos dos famosos portugueses é que o primeiro tem espírito de sacrifício, enquanto os segundos sacrificam o espírito.

Carlos Malmoro

Uma grande,

grande letra:



Fosse ciganos a levantar poeira
A misturar nas patas
Terras de outras terras, ares de outras matas
Eu, bandoleiro, no meu cavalo alado
Na mão direita o fado
Jogando sementes nos campos da mente
E se falasses magia, sonho e fantasia
E se falasses encanto, quebranto e condão
Não te enganarias, não te enganarias
Não te enganarias, não!
Fosse ciganos a levantar poeira
A misturar nas patas
Terras de outras terras, ares de outras matas
Eu, bandoleiro, no meu cavalo alado
Na mão direita o fado
Jogando sementes nos campos da mente
E se falasses magia, sonho e fantasia
E se falasses encanto, quebranto e condão
Feitiço, transe, viagem, alucinação

Bandoleiro
Ney Matogrosso

Carlos Malmoro

08 agosto 2006

À Nova Geração de

...'Músicos', que gostam de compor baladas sentidas, que puxam à lágrima, ao amor profundo e à profundidade do sentimento - sim, que profundidade é convosco-, deixo-vos dois exemplos de como ainda estão longe, muito longe mesmo, de compor uma canção de amor.

Para além do palminho de cara que sei de fonte segura que V/Ex.as têm, e que, embora não acreditem, não interessa muito neste assunto, é preciso ser dono de um vozeirão como o deste senhor, mas num estilo diferente. Caso contrário, perde-se essa coisa estranha para vós que dá pelo nome de originalidade.
Depois, é preciso que as letras não se esgotem em lugares comuns, e que tenham tiradas de génio.
Exemplificando:

O we will know, won't we?
The stars will explode in the sky
O but they don't, do they?
Stars have their moment and then they die


Ou seja, a letra de uma canção de amor será tanto melhor quanto mais se aproximar da majestade da Poesia. Sabendo a dificuladade que V/ Ex.as têm no Português, o melhor é mesmo pedir a alguém que faça o trabalhinho por vós. Mas certifiquem-se da qualidade da coisa. Não quero que comprem gato por lebre.

Têm também, e eu sei que já estou a pedir muito, de saber tocar e compor num instrumento. De preferência, piano ou guitarra. Agora, têm de coordenar tudo por forma a atingir uma coisa infinitamente parecida com uma genial canção de amor. Que exemplifico:


Finalmente, os concertos. Para além de seguirem os passos acima descritos, para poderem apresentar uma canção de amor ao público tendo presença em palco (que vocês garantem até à exaustão como sendo nata de V/ Ex.as), incube-me informar que existem algumas matérias a rever.
Neste género de canção, quanto mais simples for a performance, mais autêntica ela se torna - e a qualidade de uma canção de amor gravita em torno da sua autenticidade. Para tal efeito, existem comportamentos de riscos a evitar. A saber: pede-se encarecidamente que se abstenham de gritinhos histéricos, coros de cinco vozes todas muito certinhas e no mesmo tom, piscares de olho à primeira fila, cenografias em cores berrantes e coreografias epilépticas em canções que, como muito bem sabemos, têm quase sempre andamentos lentos.
Sei que acabo de vos pedir uma utopia. Mas eu, olhando ao meu sentido de dever patriótico, e o estaminé onde escrevo, fazendo justiça ao seu sentido de serviço público, decidimos por comum acordo apresentar-vos uma lição prática de como se deve tocar uma canção de amor em público. Ei-la:

Recebam esta última dica: não faz mal nenhum dedicar a canção de amor a alguém. Eu, por exemplo, já que estou aqui e que me fizeram suar as estopinhas, dedico estas duas canções a quem de direito.
Carlos Malmoro

Quando a mais genial

composição para piano que conheço (Para Elisa, Beethoven), é-me apresentada num sintetizador rasca, e servida como banda sonora de uma espera telefónica de momentos que se prolonga por horas, os meus índices de agressividade passam de um ténue verde a um esdrúxulo vermelho.
Carlos Malmoro

06 agosto 2006

Hiroshima


Hiroshima: 61 anos depois, ainda se sentem os efeitos da radioactividade. Olhando para o estado da Humanidade, 61 anos depois, ainda se sentem os efeitos da estupidez das guerras.
Carlos Malmoro
PS: Se bem que eu acredite que, como dizia T.S. Elliot, o Mundo não irá acabar num grande e rápido big-bang, mas sim num lento agonizar [Cito de cor].

03 agosto 2006

Modos de Vida (vii)

Vivia em modo de leitura, bloqueado para edição.

Carlos Malmoro

Acerca da hospitalização

da personagem principal de Floribella...
Cabeçalho da notícia:
«Luciana Abreu retoma o trabalho na segunda-feira. A cantora-actriz está em casa a repousar e à folga, já prevista, de hoje, soma-se um dia de descanso concedido pela Teresa Guilherme Produções (TGP).»
Corpo:
«Flor’, que há seis meses contraiu um traumatismo na zona cervical, não necessita de ser medicada, passando as recomendações médicas, exclusivamente, pelo repouso e utilização do colar. Segunda-feira regressa ao trabalho (...) a actriz retirará o aparelho para gravar as suas cenas»
«Detalhes
GINÁSIO A TGP acordou, há dias, um protocolo com um ginásio para utilização dos seus actores. Luciana terá, assim, onde fazer ginástica de manutenção.
SEGURO Luciana, que tem seguro, segundo a assessora da TGP, foi transportada para um hospital público por decisão dos Bombeiros Voluntários de Bucelas.
MENSAGEM:Cristina Cavalinhos, a ‘Helga’ da novela, leu, ontem, após o ‘Jornal da Noite’ uma mensagem de Luciana a tranquilizar os fãs. “Fiquem com Deus”, escreveu.»
Sendo assim, temos uma entidade patronal que é uma mãos largas na atenção que dá à sua principal protagonista, cometendo a loucura de lhe conceder um dia de folga extra depois de hospitalização da mesma; temos uma equipa médica a recomendar repouso e a utilização de um colar cervical e, no mesmo parágrafo, informam-nos que a trabalhadora retomará a sua actividade normal na segunda-feira e irá retirar o colar sempre que gravar; temos uns 'detalhes' a dizer que a trabalhadora está legal, porque tem seguro, e que já tem onde fazer manutenção física; e temos uma 'mensagem' escrita pela própria e lida após o Telejornal, como fazem o Presidente e o Primeiro-Ministro.
A bem do que eu julgo ser o bom senso e o equilíbrio mental, só peço que alguém me garanta que isto é mentira.
Carlos Malmoro

02 agosto 2006

Modos de vida (vi)

O rocker supunha-se genial: achava que as suas actuações ao vivo eram momentos sublimes e épicos. Desejou ter o dom da ubiquidade para assistir como espectador a um concerto seu. Foi-lhe concedido o desejo. Quando se viu a actuar, desistiu da carreira.

Carlos Malmoro

29 julho 2006

Caixa Pandora - Três anos

Já escrevi em português, em inglês e em francês. Já escrevi sobre fundo branco, azul e negro. Já escrevi sem música e com, já escrevi sem colocar imagens e coloco-as agora, já escrevi sem a possibilidade de fazer comentários, porque o blogger ainda não admitia essa opção, e agora deixo sempre o «Caixa» com permissão de comentários. Já escrevi sobre comentários hilariantes, profundos e sobre um completamente estúpido. Já escrevi com links, e sem eles, (não sabia como se inseriam), e já escrevi com contador e sem contador de visitas.

Já escrevi coisas banais e sérias. Já escrevi sobre o tudo e sobre o nada. Já escrevi em prosa, em poesia e em prosa poética. Já escrevi pelo simples prazer de escrever e pelo dever enquanto cidadão. Já escrevi sobre o acto da escrita. Já escrevi calmo, irritado, sonolento, com vontade e sem vontade nenhuma. Já escrevi sobre a sociedade, a cultura, a política, o desporto, sobre a minha pessoa. Já escrevi sobre a paixão, a amizade, a sexualidade e o amor. Já escrevi sobre amigos, colegas, sobre mulheres, sobre pessoas comuns e sobre bloggers.

Já escrevi sobre a guerra, as negociações para a paz e sobre a paz. Já escrevi sobre Portugal, sobre a Europa e sobre o Mundo. Já escrevi sobre o aborto, sobre a religião, sobre a educação e a saúde, sobre a sinistralidade rodoviária e sobre a justiça. Já escrevi sobre a direita, a esquerda e o centro, sobre a vacuidade e a importância da política. Já escrevi sobre a economia, sobre o défice, e sobre a má distribuição da riqueza.

Já escrevi sobre música, músicos e concertos, sobre livros, escritores e congressos literários. Já escrevi sobre pinturas, sobre pintores e exposições, e já escrevi sobre cinema, actores, realizadores, Óscares e sobre as cinematográficas pipocas. Já escrevi sobre viagens, lugares, museus, arquitectura. Já «escrevi» utilizando apenas obras-primas de pintores, de fotógrafos, e outras imagens que povoam o meu universo. E também já «escrevi» utilizando a imagem em movimento e o som dos meus favoritos.

Hoje, passados que estão três anos sobre o começo, escrevo o primeiro post de comemoração de um aniversário do Caixa Pandora. O terceiro. Espero continuar por outros tantos. A razão pela qual vale a pena continuar é a de saber que está ainda tudo por dizer, tudo por escrever e tudo por viver.
Carlos Malmoro




Um sincero agradecimento a todos os que me lêem, comentam e linkam. Gostava de vos prometer que o próximo post seria o texto perfeito. Mas não me comprometo com uma coisa que não consigo cumprir. O único compromisso que vos posso assegurar é a promessa de um novo post. Desculpem se é pouco para quem tanto me dá. Carlos

28 julho 2006

O Caminho

Imaginem uma rotunda com seis saídas. Imaginem a rotunda com carros apressados e condutores stressados. Imaginem que uma das saídas dessa rotunda é Viana do Castelo. Imaginem que a placa indicativa dessa saída está deslocada. Imaginem que ela apontava para a terceira saída quando deveria apontar para a quarta. Parem de imaginar e façam uma imagem global com estas imaginações.
Voltem a imaginar um carro a deslocar-se mais lentamente que todos os outros. Imaginem - esta não é difícil de imaginar - que o condutor leva um valente coro de buzinadelas em Dó Maior. Imaginem esse carro a abrir pisca e a encostar. Imaginem que sai de lá um homem com cerca de sessenta anos. Imaginem que, a despeito de toda aquela correria, ele atravessa pausadamente a passadeira. Imaginem que esse mesmo senhor entra na parte central da rotunda relvada. Imaginem o homem a esticar-se. Parem de imaginar. Façam uma nova imagem global com estas imaginações
Voltem às imaginações com um senhor que, no centro da rotunda, se aproxima da tal placa indicativa. Imaginem que esse senhor muda o sentido da placa: da terceira para a quarta saída. Imaginem que ele volta ao carro no mesmo ar compassado e com a certeza que acabou de fazer um grande gesto.
O que vos pedi para imaginar, eu não tenho de o fazer: assisti a esta situação, hoje mesmo, por volta das onze da manhã. Como se chamava ele, não o sei, mas a minha imaginação diz que tem «Esperança» no nome. Porque, o que este senhor realmente fez, foi indicar ao Portugal desleixado o caminho para o Portugal civilizado.
Carlos Malmoro

Semi-Divindades em Linha Recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?

(...)

Álvaro de Campos - Poema em Linha Recta
Basicamente, isto é o que sinto quando me chamam à atenção por um erro de um cêntimo numa folha de cálculo com onze fórmulas e um valor total e 131.734,65€. Arre. Ou, dasse...
Carlos Malmoro

1

27 julho 2006

Stop

Por estes dias, o que faz mais sentido na blogosfera é 'Post' ter como anagrama 'Stop'.
Carlos Malmoro

2

26 julho 2006

3

25 julho 2006

Pais-Natal de

...todo o Mundo: uni-vos!
Ou a prova acabada de como, nesta época do ano, vale tudo para encher páginas.

Carlos Malmoro

Porque temos todos de contribuir

...para o aumento da produtividade, este estaminé não terá férias.

Carlos Malmoro

24 julho 2006

A tirar pela amostra, vou ser um pai conservador

Nos círculos onde me movo, o meu gosto por música pesada, tipo Metallica, Sepultura, etc, não é muito bem visto. Tenho a plena consciência disso. Trata-se de um gosto muito meu: sei que é um estilo de música que quando se gosta, gosta-se muito; quando não se gosta, pergunta-se como se é capaz de ouvir uma música daquelas (ou até de como se consegue chamar música 'àquilo').
Nunca fiz a mais leve pretensão de o abandonar em prol de quaisquer conveniências de rebanho, nem me sinto particularmente tentado a explicar o prazer que eu retiro dessas sonoridades a quem tem o espírito mais fechado que um museu português ao fim de semana.
Contudo, sei que se trata de uma música eminentemente agressiva, com uma intensíssima carga energética e de rápida execução, resultando num som turbulento e poderoso . Sabendo eu disto - e não é preciso ser génio para o adivinhar - , gostaria de perguntar às mamãs e papás jovens deste país - ou de outros -, que devem ser muito modernos, assim como modernos são os papás e mamãs dos baby blogs, em que sítio concreto perderam a vossa consciência para sujeitar os vossos filhos de 2/3 anos a assistir ao concerto de Xutos/Sepultura, na sexta feira, em Vilar de Mouros?
Carlos Malmoro

23 julho 2006

A Nossa Guerra Civil

É triste. É mesmo muito triste. Hoje visitei a Galiza. Dentro da Galiza, conduzi cerca de quatrocentos quilómetros. Não houve uma travagem mais puxada, não houve uma acelaração mais brusca. Os carros conduziam na auto-estrada a 100/130, a rolar com a calma e a segurança que um carro normal proporciona neste tipo de vias. Nas estradas nacionais, não vi nenhum espertalhaço a fazer manobras perigosas. Dentro das cidades marítimas, densamente povoadas por íncolas à procura de um banho, vi respeito pelas prioridades e educação na busca do almejado - e raro - lugar de estacionamento.
E depois, começou o descalabro: em Baiona, no parque de estacionamento subterrâneo, dois carros fazem corridas, com travagens bruscas e acelerações com pneus a chiar. Olho para a matrícula: dois carros portugueses. Entro em Portugal, através da ponte de Valença. Uma senhora que estava na faixa de aceleração ao meu lado direito, força a entrada na auto estrada, como se fosse eu a ter que lhe dar a prioridade. Foi uma manobra bastante apertada. Conclusão: eu e ela acabámos com os carros quase parados em plena A3. Passados cinco quilómetros, na mesma A3, mantendo eu a velocidade de 130, ou seja, já para além do limite, sou ultrapassado pela direita por dois carros com cerca de quinze anos a uma velocidade tal que o meu carro parecia estar parado. Ou seja, tive a certeza que estava novamente a conduzir em território português.
Não sei a que se deve esta diferença de comportamentos. Se me dissessem que a Galiza se situava a três mil quilómetros daqui, eu até percebia esta mudança de atitudes ao volante. Mas não: é um povo separado de nós por um rio, que tem um parque automóvel semelhante ao nosso e com estradas em tudo iguais às nossas.
Então, por que razão existe esta abismal diferença entre ordem e selvajaria? Eu não sei responder. Sei apenas que é triste. É demasiadamente triste para ser verdade. E é realmente triste por ser verdade.
Carlos Malmoro
PS: Para não falar só da miséria portuguesa, falemos também da riqueza de um senhor português que se estabeleceu em Baiona, com a sua família, e que administra um conceito interessantíssimo: tapas-libros. Se passarem por lá visitem: come-se bem, pessoas simpáticas, e tem livros, jornais e internet à disposição.

O que realmente se passa (ii)

...no Médio Oriente:

Não há guerras justas. Se ainda ninguém disse isto, afirmo-o agora. Se alguém já o disse, resta-me assinar por baixo. Enquanto se continuar acreditar que alguma das partes do conflitos é inocente, não há paz possível.

Olho para Israel, e vejo um país que, temendo a sua comunidade ultra-ortodoxa, e baseando-se na Tora, continua a alienar território a outros países (Líbano incluído), para os colunatos, sem olhar às inúmeras resoluções da Onu em sentido contrário.
Olho para os países islâmicos circundantes e vejo escolas de terroristas, pobreza onde poderia existir bem-estar proporcionado pelo petróleo, homens-bomba e corrupção, muita corrupção a todos os níveis, através dos petrodólares.

Resultado: terrorismo suicida versus terrorismo de estado. E se o resultado é este, não pode mesmo haver virgens ofendidas...
Carlos Malmoro

O que realmente se passa

...no Médio Oriente: conseguiram pôr de novo a senhora da gadanha a ceifar o trigo e a adubar o joio.
Carlos Malmoro

Modos de vida (v)

Foi uma pessoa digna: preferiu sempre a esperança à fé e a bondade à moral.

Carlos Malmoro

22 julho 2006

A piada da semana

...por esse grande entertainer do povo luso que é Alberto João Jardim.

Carlos Malmoro

Modos de Vida (iv)

Traçou como modo de vida ser popular. Tentou praticar o Bem. Foi muito impopular. Tentou praticar o Mal. Foi muito impopular. Não praticou nada. Foi capa de revista.
Carlos Malmoro

A quem de direito II

E não é que aceitaste? E que disseste, misericordiamente, 'compreendo que se goste e penso perceber por que razões se gosta, mas nunca conseguirei gostar'. Gostei tanto do concerto dos Sepultura como dessa tua frase.
Carlos Malmoro

21 julho 2006

A quem de direito

Hoje, Sepultura; amanhã, D. Giovanni. Aceitas?

Carlos Malmoro

20 julho 2006

Dos papéis esquecidos

Na imagem, estão duas cartas minhas - uma de 1995 e outra de 1998 - que nunca enviei, e que me poderiam ter modificado a vida por completo. Uma delas é a resposta a um anúncio de emprego e a outra é uma resposta a um telefonema de uma relação anterior. Apenas três certezas tenho em relação a elas: a caligrafia era (e continua a ser) péssima; tomei a atitude correcta ao não enviá-las, e a certeza de que são demasiadadamente frágeis estas nossas existências que dependem do envio - ou do não envio - de uma carta.
E vocês, também têm cartas por enviar?

Carlos Malmoro

19 julho 2006

Inquietações Permanentes

Quando não há questões mais pertinentes a analisar, perguntamo-nos por que nome seriam conhecidos os bicos de papagaio antes da descoberta do Brasil.

Carlos Malmoro

17 julho 2006

Baby Blogs

Artigo 12°
Ninguém sofrerá intromissões arbitrárias na sua vida privada, na sua família, no seu domicílio ou na sua correspondência, nem ataques à sua honra e reputação. Contra tais intromissões ou ataques toda a pessoa tem direito a protecção da lei.
«Declaração Universal dos Direitos do Homem»

Comecei este texto por colocar a citação do art. 12 da Declaração Universal dos Direitos do Homem, como poderia ter iniciado com muitos outros artigos de outros códigos/constituições/declarações, que salvaguardam a privacidade e a imagem de cada Homem. Convém portanto lembrar que, desde que nasce até à sua morte, apenas o indivíduo poderá abdicar destes dois direitos de uma forma consciente e livre.
Vem esta introdução a propósito de uma realidade que recentemente surgiu na blogoesfera: os baby blogs. Acho uma péssima ideia, de um mau gosto tremendo e, como acima se viu, ilegal, a publicação de fotografias, de estórias do quotidiano, de diários de doenças, enfim, uma autêntica biografia não-autorizada de crianças, escritas pelos pais das mesmas, numa ânsia de mostrar o filho como quem mostra o carro novo ou o T3 junto ao mar.
Percebo que se tenha orgulho nos filhos, e que se pretenda partilhar esse gozo supremo que é ver um filho crescer. Mas, se é para isso, o Blogger permite a opção de manter o blog confidencial. Assim, parentes e amigos poderiam aceder e ver as traquinices do pequeno, sem este ficar exposto a milhões de pessoas que acedem à sua privacidade.
Agora, eu, e a miríade de pessoas que utilizam diariamente a Internet, não precisamos de saber - e nem deveríamos ter a possibilidade de o saber, a menos que uma criança de dois ou três anos tivesse capacidades para conscientemente o autorizar - não precisamos nem deveríamos ter conhecimento, dizia, das doenças que a criança padece, dos amigos que tem, do seu historial escolar ou de ver o seu aspecto físico através da reprodução de fotos ou vídeo nesses espaços. É que se é verdade que os pais têm a tutela legal dos filhos, não é menos verdade que não são proprietários dos direitos que estes detêm. Porque uma criança, antes de ser um filho, é uma pessoa.
Carlos Malmoro

Bom, Eficaz e Barato

Há um produto que os responsáveis pela manutenção dos WC's de espaços públicos de lazer/turismo deste país desconhecem. É um produto que faz milagres na limpeza, desinfecta como nenhum outro, evita odores nauseabundos e é baratinho. Uma vez que quem ainda não descobriu este produto deve viver há dois séculos, deixo-lhes com um boneco desse mesmo produto na esperança que menos pessoas passem pela inesquecível - e acreditem que não se esquece mesmo - experiência de entrar num WC destes.


Carlos Malmoro

Aquisições Para a Próxima Temporada

A erudição do Sítio da Saudade, o humor do Gato Fedorento, a lhaneza do 125_Azul, a perspicácia do Espumadamente, as actualidade da Geração Rasca (a que eu pertenço, segundo opinião abalizada de um cineasta que fez uns biscates no jornalismo, ou o contrário), a ironia do Noutra Vida e a imaginação do Arcebispo da Cantuária, passam a fazer parte da lista de links deste blog. Bem vindos sejam.
Carlos Malmoro

15 julho 2006

Para o N. e para o R.

Há quinze anos, três amigos deslocaram-se ao Estádio de Alvalade para ver a banda das suas vidas. Eu, N. e R, começámos por ouvir S.T. com 'War Inside My Head'



e acabámos a ouvir a banda que religiosmaente nos levou lá, Metallica, a tocar 'Creeping Death'



Hoje ouvimos Danças Ocultas, Nocturnos de Chopin, Nick Cave, Leonard Cohen, MPB, Jazz, Clássica, e tantas outros grupos/estilos que parecem não casar com o universo musical destas duas bandas. Mas, no meio destes nossos gostos actuais, existe sempre espaço para colocar um CD com aquele frenesim, aquela totalidade, aquele grandiosidade que representa sempre uma música de Metal. Ou seja, entre Leonard Cohen e Erik Satie, existe sempre lugar a uma boa malha de Sepultura ou Metallica. Por duas simples razões: porque foram estas bandas que nos educaram musicalmente e porque a música é sempre a melhor forma, senão a única, de recordar a juventude.
Carlos Malmoro

Vi um pouco de

televisão e tinha logo que me deparar com a Tourada TVI. Em relação à TVI, já todos sabemos que é uma tourada pegada e que nada mais de relevante há a considerar. Quanto à tourada, espero explanar os meus argumentos em apenas duas ideias muito simples.
Da questão da tradição, (em certos países, também é tradição a excisão do clitoris, apedrejamentos públicos e a lista destas tradições, infelizmente, parece não terminar nunca...), já está tudo dito e o melhor mesmo é fazer um longo silêncio para ver se essas pessoas percebem que há tradições que não valem a 'ponta de um corno'.
Depois, há a questão da religiosidade, que dizem estar inserida na tal tradição, do «espectáculo»: eles benzem-se centenas de vezes durante o mesmo, parece que assistem a uma missa antes, e depois desta, rezam uma hora. Eu, no meu agnosticismo respeitador de quem é crente, apenas gostava de lhes perguntar como é que imaginam que será o estado de espírito d'Ele depois de assistir à tortura de uma Sua Criação durante horas?
Carlos Malmoro
PS: E NÃO, NÃO HÁ NENHUMA DIGNIDADE NA MORTE DE UM ANIMAL QUE SE ESVAI EM SANGUE

14 julho 2006

Porque há dias melhores que outros

Where do I take this pain of mine?
I run, but it stays right by my side

So tear me open, pour me out
There's things inside that scream and shout
And the pain still hates me
So hold me until it sleeps

Just like the curse, just like the stray
You feed it once and now it stays
Now it stays

(...)

So tell me why you've chosen me
Don't want your grip,
don't want your greed
Don't want it

I'll tear me open, make you gone
No more can you hurt anyone
And the fear still shakes me
So hold me until it sleeps

(...)

James Hetfield - Metallica - Until It Sleeps

Código Postal

Este é o novo endereço de mail do blogue e do mafarricozinho que o sustenta:
Ficam a saber: críticas, sugestões, opiniões e comentários aos textos, mandar o autor dar uma volta, chamar-lhe nomes, contar-lhe a vossa vidinha, pedir-lhe dinheiro, pedir que se cale, declarações de amor e de ódio, pedidos de casamento e de divórcio, tudo, mas tudo deve ser encaminhado para o endereço que acima se apresenta. No guichet, prometo ter lá uma daquelas recepcionistas irritantes a atender-vos. Ou então, deixem um comentário que sempre vos poupa tempo.

Carlos Malmoro

Modos de Vida (iii)

A vida dele, de tão des-interessante, dava um blogue.

Carlos Malmoro

A hipocrisia continua.

13 julho 2006

Auto-Elogio na Terceira Pessoa

Sim, sim, ler é excelente. Mas ler um livro de 190 páginas numa noite já não é para a tua idade. Agora, após teres dormido hora e meia de domingo para segunda, resta-te andar de rastos no resto da semana. Grande proeza, Carlos, não haja dúvidas.
Carlos Malmoro

Modos de Vida (ii)


Quando se apercebeu que o tempo era o único desiderato que não conseguia domar, emigrou para Londres e acampou neste jardim perto do Big Ben. Perto do relógio mais exacto do mundo, segundo diziam, enganava-se a ele mesmo julgando que o domesticava. Sentiu-se senhor do mundo. Até à hora certeira da sua morte.

Carlos Malmoro

10 julho 2006

Modos de vida (i)

Levava a vida em busca do post perfeito.

Carlos Malmoro

Brilharetes

No meu primeiro texto de inglês, a professora pediu-me uma composição em que dissesse três coisas que gostaria de ser «quando fosse grande».As minhas respostas foram:

I pretend to be a guitar player;
I pretend to be a football player;
I pretend to be a computer engineer
.

Na altura, eu pensava que «pretend» significava «pretendo», – o menino Carlitos já sabia que toda a turma ia responder «Eu quero…», e ele fazia questão em sair-se com uns brilharetes. Ora, como muito bem sabemos, «To Pretend» significa «Fingir». A professora deu-me um 10, pela composição estar bem escrita, mas que não me podia dar mais nota por causa desse lapso.

Hoje, se a encontrasse, pedia revisão de nota: é que, para mal de quem já me ouviu a tocar guitarra, de quem já me viu jogar futebol ou de quem já colocou os respectivos computadores nas minhas mãos, eu já fui/fingi ser tudo aquilo que escrevi.

Carlos Malmoro

Perspectivas L

«- Que inscrição quer que coloque na sua sepultura?
- Por favor, não pise a relva.»

In Livro do Humor Negro

Carlos Malmoro

PS: Cinquenta post's depois, terminaram as Perspectivas. Começam os «Modos de Vida». Que também são perspectivas, mas mais perenes.

Perspectivas IL

Há cada vez mais romances a assemelharem-se a extensas notícias de jornal.

Carlos Malmoro

09 julho 2006

Uma questão de perspectiva

Uma vez que não encontrei nenhuma bandeira a dizer que não gosto da França, aqui fica o meu sentimento de hoje:

E porque um país que tem a forma de uma bota a chutar uma bola, tem uma honra a defender.

Carlos Malmoro

Eu sempre soube

...que o meu estaminé nada valia:




É que o gozo que me dá fazê-lo, a simpatia das pessoas que o visitam e a atenção daqueles que deixam nele qualquer coisita escrito não tem preço.

Carlos Malmoro

Gosto de (ii)

absolutas, sem margens para comentários, apenas deixando espaço para uma leve vénia.

Carlos Malmoro

A Feira do Livro

de Viana do Castelo estava muito bem arrumada: ao lado «Couves & Alforrecas - o Segredo da Escrita de Margarida Rebelo Pinto», estava a biografia de Lili Caneças. Um fala da escrita fútil e o outro da vida vã.

Carlos Malmoro

No cantante, a rodar,

...a senhora com a voz mais melancólica, desamparada e envolvente que conheço. Tanto assim é que os «da da da» do final da canção, conseguem dizer mais do que grandes poemas na voz de certos cantores.


Yesterday is gone
There's just today
No tomorrow.
Yesterday is gone
There's just today
No more.

Da da da da da
Da da da da da
Da da da da da.
Da da da da da
Da da da da
Da da.
Carlos Malmoro

08 julho 2006

Todos acabamos por ir, mas não poderia ser de outra forma?

Há um ano, Londres acordava normalmente para mais um dia de trabalho. Passadas umas horas, umas detonações, e o meu televisor a mostrar a morte e o sangue a espalharem-se pela Velha Albion.

Hoje, acordei normalmente para mais um dia de trabalho. Passadas umas horas, na estrada, um estrondo atrás do meu carro, e o meu retrovisor a mostrar a morte sem sangue de mais um rapaz de 18 anos nas estradas de Portugal.
Como foi? Igual, ou parecida, a tantas outras: perdeu o controlo da moto, embateu no carro que estava a ultrapassar e foi projectado contra este. A coluna não resistiu à violência do impacto. O INEM* chegou, mas a médica, depois de ver a causa, limitou-se a chamar alguém para fazer o levantamento do óbito.


Num e noutro caso, a senhora revelou os traços principais do seu carácter: fria, brutal, inesperada, inumana, selvagem e, acima de tudo, estúpida, demasiadamente estúpida para a nossa exígua compreensão.

*Uma palavra para o INEM: foram rapidíssimos a chegar ao local, com um carro apetrechado com o melhor equipamento, com pessoal especializado e demonstrando um profissionalismo que, tratasse-se aquilo de um simulacro e não de uma trágica situação real, diria que deu gosto em ver trabalhar

Carlos Malmoro

Insatisfação Humana

Eu sei e sinto que a família gosta de mim, e que me conforta e que está sempre presente. Eu sei e sinto que P. deseja-me, e que me leva onde nenhuma outra pessoa me consegue levar, e que me bebe as palavras e os sentidos. Eu sei e sinto que os meus amigos me compreendem na minha imperfeição, e que estão completamente disponíveis para aquele desabafo, e que me fazem rir com um simples olhar. Eu sei que sei e sinto tudo isto, e sei que tudo isto é o melhor que tenho na vida. Então, porquê esta vontade de mudar?

Carlos Malmoro

06 julho 2006

Retrato de um falhado quando trintão

O livro não foi publicado. A árvore ardeu num incêndio. O filho foi preterido pelo prazer vão.

Carlos Malmoro

Fair Play

Porque eles têm a mania, porque falam com beicinho, porque é o antro do Existencialismo, porque têm a mania, porque dizem os «u's» de maneira alarilada, porque pensam que são donos da União Europeia, porque têm a mania, porque têm o Jean-Marie Le Pen, porque ainda temos umas invasões atravessadas, porque têm toda aquela cagança cultural, porque dissimulam a arrogância com a fraternidade e solidariedade, porque têm a mania, por todas estas razões e muitas mais que agora não me ocorrem, a França não pode ganhar o Mundial.
Carlos Malmoro
PS: Sim, sim eu sei, tenho mau perder. E depois, qual é o problema?

04 julho 2006

Perspectivas XLVIII

com um obrigado a N. pelo mail

Nunca discutas com um idiota. Ele arrasta-te até ao nível dele e depois ganha-te em experiência.

Carlos Malmoro

Portugal Contemporâneo II

De que vale o esforço de professores, educadores, pais e demais instituições para ensinar correctamente a Língua Portuguesa, quando nos rodapés dos canais com maiores audiências e em prime-time, surgem palavras como «felecidades», «umildes», «lião» e «sêr»* ?
Em segundos destrói-se o trabalho de meses e anos.
*palavras retiradas dos rodapés da SIC e TVI, após vinte minutos de visionamento.
Carlos Malmoro

03 julho 2006

Portugal Contemporâneo I

«Deixem ver o Portugal que não deixam ver!» (Álvaro de Campos)

Começa a faltar a paciência para tanto negativismo e bota-abaixo. Não penso que tenhamos um país exemplar, mas também é leviano afirmar que os portugueses são, na sua maioria, estereótipos de concorrentes de reality-shows, imagens reflectidas dos intervenientes em telenovelas ou protótipos de personagens contidas nos jornais tablóides, como teimam afirmar muitos cronistas da nossa praça, num massacre quotidiano à nossa auto-estima. Se assim fosse, que dizer dos holandeses que inventaram o conceito de reality-show – vulgo, tele-esgoto –, dos norte-americanos que são espectadores do Jerry Springer ou do Howard Stern?, dos ingleses que consomem diariamente três milhões e meio de exemplares do jornalismo de sarjeta do The Sun, enquanto os jornais de referência da Velha Albion raramente superam o milhão de cópias vendidas?

A maioria dos portugueses, por aquilo que deles conheço, apenas deseja viver os seus dias tranquilamente, amar a família e os amigos, realizar as tarefas do dia-a-dia, não perder a esperança, acreditar no sonho, …enfim, viver uma vida com horizontes abertos. Sei que também existem os outros. Porém, penso ser de uma injustiça gritante meter tudo no mesmo saco.

Sonho com o dia em que os cronistas da nossa praça, quando deduzem que algum português famoso actuou de forma menos correcta, não generalizem imediatamente ao resto da população. E muito menos com as já gastas expressões "chapa cinco": «é o típico português», «é o país que temos» ou «é isto que somos». Mas sei que os caracteres disponibilizados pelas redacções são sempre escassos e, convenhamos, no país da 'apagada e vil tristeza' dizer mal ocupa sempre menos espaço do que dizer bem: recorre-se ao Eça ou à supramencionada citação de Camões e está feita a defesa do arrazoado.

Carlos Malmoro

PS: Este post de índole positiva não está em nada relacionado com quaisquer veleidades da equipa portuguesa no Mundial - já estava em «rascunho» há três semanas.

Descubra novamente o prazer

...de navegar na web. Dizem eles. Descubra novos problemas em navegar na web. Digo eu.


Foto retirada daqui. Um outro queixoso.

Carlos Malmoro

Eu não acredito


Carlos Malmoro

01 julho 2006

Portugal visto de fora IV

Quando os comentadores desportivos europeus afirmam que, no futebol, Portugal é o Brasil da Europa, nem sabem a razão que têm. No futebol e para além dele.


Carlos Malmoro

Portugal visto de fora III

Primeiro resultado do Google para "portuguese man":



E aqui, e como a própria fotografia deixa adivinhar, ficamos a saber que se trata de um invertebrado. Coincidência?
Carlos Malmoro

Portugal visto de fora (II)

Primeiro resultado no Google para a busca "portuguese woman":



Carlos Malmoro

Portugal visto de fora



...e traz a seguinte lengenda:
Laundry in Portugal
One thing I loved about Portugal was how people everywhere hang there laundry out regardless of income/class levels.
Carlos Malmoro

Perspectivas XLVII

«O braço que falta ao mendigo é aquele que o sustenta.»

Manuel António Pina