Pertenço a um género de portugueses / Que depois de estar a Índia descoberta / Ficaram sem trabalho. Opiário - Álvaro de Campos
carlos.malmoro@gmail.com
BMW Welt (Mundo BMW), em Munique, é o nome que tem esta brilhante construção e, simultaneamente todo o conjunto de edifícios (ver foto primeira) da marca bávara. A saber: a torre, que serve de sede mundial da empresa; o museu, que tem aquela forma de círculo cortado a meio junto à torre; a fábrica de Munique, não visível nas fotos, mas uma fábrica como outra qualquer, do lado esquerdo da torre, e este novíssimo BMW Welt, que serve para conferências, reuniões e entregas de automóveis aos clientes. Mas não é uma entrega qualquer: o novo proprietário marca um dia e uma hora. Através de um túnel que atravessa a estrada, o carro sai da fábrica, dirige-se para o BMW Welt e é elevado até ao ponto onde o cliente se encontra. Aí chegado, o elevador abre-se e aparece o carro a rodar numa plataforma, iluminado por vários projectores, como se estivesse em exposição num qualquer salão automóvel. É entregue a chave e o novo proprietário acelera dali para fora. Enfim, é a aplicação do conceito da lota de «peixe fresco, pescado no dia» ao mundo automóvel.
Se não fosse uma voz amiga, não tinha dado por ela. No post com o mesmo nome deste, ali em baixo, referindo-me a este texto do Mike, disse que estava cento e dez por cento de acordo com a terceira parte. Errado; com a segunda parte era o que eu queria dizer. Até considero que o autor se excedeu no retrato das mulheres obesas: chamá-las de boneco da michelin é atroz. Adiante. A moda, era disso que eu queria falar. De facto, considero que há três tipos de pessoas a vestirem-se: as que vestem calças boca de sino porque ainda pensam que está na moda; as que vestem calças boca de sino porque pensam que será a moda da próxima estação e as que vestem calças boca de sino porque se sentem bem com elas. Estas últimas, são as que eu considero que verdadeiramente «estão na moda». [Não vás dormir não, Carlos];
Completei um ano de Geração Rasca. Para além do óbvio agradecimento ao André por me ter convidado e a todo o grupo por me ter aturado durante este ano - eu por vezes sou chatinho/mau feitio -, quero aqui fazer um pequeno balanço. O mais positivo que tiro deste ano é a constatação que é possível escrever num sítio colectivo sem perder a individualidade da escrita. Lógico é que os temas abordados são diferentes. Mas como a liberdade criativa é total, basta apenas um pouco de bom senso para que não se fuja ou se entre em choque com o livro de estilo do blogue. Pensava que na escrita isso não era possível, mas felizmente enganei-me.
Levantar às seis e trinta. Cerca de duzentos quilómetros por dia. Um telemóvel com menos de um ano e com mais de cento e cinquenta horas de conversação. Ter dentro da cabeça uma empresa com dois mil clientes, saber manter um contacto profissional que, a despeito de estarmos no melhor ou no pior dos nossos dias, tem de ser cordial, sóbrio e atenciososo. Gerir a relação de setenta empregados. Sair com os miolos feitos em água e dirigir-me para a universidade. Deu-me a pancada da tese. Entrar em casa às onze e meia da noite. Tentar gerir a casa e os afectos. Antes de ir para cama, escrevo este texto a pergunto-me se tudo isto vale a pena, se não estou a esquecer-me das coisas mais importantes da vida, se vale a pena escrever este texto, se faz sentido um caos deste tipo, para ficar sem tempo para grande parte das minhas devoções e das minhas paixões, se vale a pena esta dor de cabeça que tenho, se vale a pena ter estudado para ter como recompensa um telefone com doze chamadas por responder, se vale a pena. Suponho que a vossa vida seja parecida com isto, mas nunca vos perguntais se vale a pena. Tenho que ir dormir. E tenho que mudar de página.
Versão original de Bob Seger aqui; Versão original do video aqui
A Curva da Estrada sopra duas velas. Excelentes textos que se esperam que continuem por muitos e largos anos. Claro que ainda se tem paciência. Felicidades à autora "colega";
E ao décimo terceiro post da série «É que não posso», discordo da autora. Um post é mais do que «uma agradável conversa de café». Primeiro, porque é escrito e a escrita é sempre um acto solitário - as reacções só virão mais tarde. Depois porque dá para reflectir naquilo que se escreve, apagar, reescrever. Finalmente, porque eu já escrevi aqui textos que nunca levaria para uma conversa de café, por serem demasiado profundos, formais ou por tratarem de temas que só a mim me interessam. Estamos de acordo que os post´s não devem ser teses de doutoramento, mas entre uma tese e uma conversa de café há um enorme hiato que se pode percorrer escrevendo despretensiosos e excelentes textos, como aqueles a que Pitucha já nos habituou;
Cara Maria, essa exposição foi mesmo a brincar, não foi? Só pode. Ou então perdeu-se todo o respeito por quem consome cultura. (Já falei do assunto aqui);
O Mike fez trinta anos, está a escrever melhor que nunca (ver este texto ou este, onde estou cento e dez por cento de acordo com a terceira parte da trilogia ) e ainda tem tempo para «meter na linha» os senhores do Jumbo num texto que é um mimo.
Advertência: este post só será inteiramente entendido pelo grupo etário 30/45
Se há uma característica genérica da música dos anos 80 é que ela tinha sempre algo de muito bom e algo de muito mau. Comecemos pelo mau. O excessivo uso de sintetizadores/electrónica: havia grupos que tinham guitarras eléctricas, normais, mas que faziam questão de pôr os sintetizadores, normalmente com dois ou três pisos, alinhados em L, a fazer os sons da mesma guitarra. E depois, já se sabe, vinha aquele som que parecia que o amplificador da guitarra estava abafado dentro de água aos soluços. Os telediscos eram inundados por um êxtase cromático, berrante, no limiar da alucinação, as mulheres usavam sempre franjinha e dançavam de forma estranha, para não dizer mesmo muito mal, e os homens cantavam em falsete e muito mal dançavam. Ambos vestiam-se como, vamos ser meiguinhos, broncos: homens com jeans apertados a realçarem rabos e genitais (meu deus, que traumas), mulheres com blusões de couro sobre blusas brancas com os necessários botões desapertados para se vislumbrar uma centelha das mamocas (meu deus, que fantasias).
Depois a parte boa. A música, a despeito da electrónica, era sempre baseada numa linha melódica forte, que entrava facilmente no ouvido, e tinha bons beats, que dava para a pista de dança. Aliás, esta característica, a presença de um beat forte que dê para a disco, está a ser recuperada pelas bandas de pop/rock emergentes, de onde destaco os Bloc Party, para tornearem a dificuldade que o instrumento rei do rock, a guitarra, tem em conseguir um bom ritmo. Mas voltemos aos 80's. As letras: gostava, e gosto, de muitas das letras dessa época. Têm um travo agridoce, uma melancolia suave e uma nostalgia assumida que as tornam inesquecíveis. Exemplifico com o "Forever Young" dos Alphaville, o "Hunting High and Low", dos Ah-a, "True Faith", dos New Order (no video abaixo, uma das minhas favoritas).
Se retirarmos algum kitsch, a encenação com demasiado pathos ou o modo como certos arranjos eram feitos, com mais tecnologia do que uma central nuclear, e nos basearmos no essencial da música - a melodia, o ritmo e a letra - os anos oitenta foram excelentes. Basta ter ouvido para escutar para além do sintetizador.
Carlos Malmoro
PS: Uma confissão: este post foi feito muito "por culpa" de um senhor chamado "Tarzanboy", que mantém um blog, com a bonita idade de quatro anos, onde se dedica a saber por onde andam hoje os heróis musicais dos anos oitenta. É muito bem escrito, actualizado com bastante regularidade, e tem aquela pontinha de humor que cai bem em qualquer texto. Convido-vos a visitá-lo no dear 80's.
Deixemos para trás o que no pretérito jaz. Para Menezes ganhar as eleições legislativas tem duas semanas para estabilizar o PSD e dois anos para conquistar o país. Para tal, tem, a meu ver, de fazer três coisas essenciais:
Estar mais preparado e estudar melhor os dossiers do que Mendes: era confrangedor ver os debates mensais com o PM, onde este era acusado pelo líder da oposição de ser apenas forma sem conteúdo, mas onde Sócrates levava sempre a melhor por um mais profundo conhecimento das matérias. Aliás, nunca percebi porque acusavam Sócrates de populismo, usando como argumento que este passava a semana a preparar os debates semanais com Santana: um bom profissional, se quiser ser promovido, tem de se preparar para os momentos decisivos, assim como um estudante que queira passar tem de estudar para os exames. Sócrates também é populista, mas não o é, certamente, por aplicar o seu tempo a preparar as suas intervenções;
Tomar como suas duas ou três causas, evitando, se possível a educação e a saúde: há corporativismo a mais e são zonas de conflito permanente. Sócrates bate-se pelo ambiente e pela desburocratização (que palavra mais burocrática de se dizer/escrever). Um exemplo: sempre que há uma novidade em matéria de ambiente ou de simplificação processual, o mérito vai direitinho para Sócrates. No meu dia a dia, é enorme a quantidade de loas a Sócrates que ouço por parte de empresários, mesmo com ligações ao PSD e ao PP, que conseguiram aquele licenciamento ou resolveram um assunto jurídico em metade do tempo, gastando metade do dinheiro, ou nenhum, porque os serviços necessários já estavam disponíveis online. E, num país afogado em burocracias, isto conta e muito;
Respeitar o político Sócrates. Mendes passou o tempo a dizer que Sócrates era populista, que prometia mas não cumpria, que não era sério, que não tinha valores. Desculpem, mas esse tipo de discurso é o que eu ouço no café, é aplicado a todos os políticos e tem um nome: conversa de chacha. O melhor que Menezes tem a fazer é ver onde Sócrates é forte e aparecer ao lado dele nesses assuntos e avaliar onde ele é fraco e apresentar alternativas bastante claras, publicitando-as o mais possível.
É simples: estudar as matérias melhor que o adversário, apadrinhar algumas causas, respeitar Sócrates e em 2009 poderá haver uma surpresa. A pior coisa que um político pode fazer é subestimar o adversário. Mendes fê-lo e perdeu. Que sirva de lição a Menezes.
Este é o regresso do ano. Uma música fantástica, uma letra com palavras simples e gestos do quotidiano. Mas que resulta magnificamente. Os críticos musicais, normalmente, tecem-lhe loas sem regatear. É claro que agora lhe vão chamar popularucho. Mas talvez é isso que mais gosto nele: o estar na vida e na música como quer, independentemente do que os outros dizem. Foi assim quando atravessou uma fase mais sombria da vida, que se reflectia na música que compunha, e continua assim quando essa fase parece estar ultrapassada. E o vídeo reforça mais a ideia de estarmos perante um tema perto da perfeição: as habituais guitarras em treble, importadas dos blues, a voz melancólica, a pose urbano-depressiva, a constratar com a alegria e a descompressão que as amizades e cumplicidades de uma vida sempre nos trazem, transformam este clip num excelente fresco e num verdadeiro hino à Amizade e, não tenhamos medo da palavra, ao Amor.
Não tenho medo de andar de avião. Acho até uma grande chatice. Melhor, a palavra correcta é irritação. Como irrequieto que sou, a ideia de estar dentro de um galinheiro pressurizado, sentadinho e sossegadinho, sem me poder mexer mais do que dez centímetros para não invadir o espaço do vizinho, a ouvir uma voz distorcida anunciar os «novos e exclusivos menus Iberia», sendo que "novos" significa colas, sandes e donuts e "exclusivos" significa para todo o maralhal que estiver disposto a dar três euros por uma garrafa de água, não podendo ler ou dizer frases perceptíveis, porque não há concentração que resista a um joelho espetado nas costas, ao ruído de dois motores de centenas de cavalos a menos de uma dezena de metros de mim e aos constantes ataques de tosse que assaltam todos os passageiros - deve ser da altitude -, esta ideia, dizia, deixa-me sem grandes entusiasmos aéreos. Aliás, não consigo perceber como é que há pessoas que entendem que voar dá uma sensação de liberdade. É que tenho para mim que é o mais parecido com uma prisão de alta segurança - uma viagem de avião goza de proporcionalidade directa: um voo pequeno é um desconforto, um voo médio é um desconsolo, um voo grande um martírio.
Há, no entanto, três momentos que considero excelentes: a descolagem, a aterragem e a vigia. A descolagem pela sensação de potência e de velocidade, que nos cola ao banco, seguida daquela fantástica sensação na barriga quando o avião deixa a terra e entra no ar. A aterragem: acho admirável como se consegue parar um gigante de aço, lançado a duzentos ou trezentos quilómetros hora numa pista de dois mil metros. Olhar pela vigia, ver o quanto pequenos somos, de certa forma, relativiza-nos a importância, ajuda-nos a perceber o magnífico planeta que temos e dá para tirar fotos como esta:
Chega a ser revoltante tanta cobardia política junta para não se receber o Dalai Lama. Cavaco e Sócrates no presente, Guterres e Sampaio no passado, se bem que este último ainda teve mui "feliz coincidência" e alguma coragem de o encontrar enquanto visitava um museu, vergam-se ao peso da economia chinesa. Não têm coragem de receber uma pessoa que um regime ditatorial e desrespeitador dos mais elementares direitos humanos considera um perigoso separatista, não porque achem verdadeira aquela acusação, mas porque a China em termos económicos é um gigante emergente. A haver coerência, da próxima vez que uma delegação chinesa visitasse o país, não deveria ser recebida ao mais alto nível até que parassem os atropelos aos direitos humanos. Finalmente, ao darem as desculpas hipócritas de «agendas preenchidas» estão a contribuir para que a China se ache no direito de dar raspanetes e lições de democracia, como os célebres "puxões de orelhas" que Sampaio levou por se encontrar com o Dalai Lama no museu. A situação é o expoente máximo dessa coisa obtusa chamada de politicamente correcto, mas é também uma enorme desconsideração pela nossa democracia. Pensam que por serem obedientes aos ditames asiáticos conseguem num futuro próximo mais uns não sei quantos contratos económicos. Mas, na economia como na vida, ninguém respeita nem pensa por um segundo sequer nos fracos de carácter, porque o primeiro passo para os outros nos respeitarem é respeitarmo-nos a nós mesmos.
A 1 de Fevereiro de 1995, Richey James Edwards desapareceu do Embassy Hotel. Dias mais tarde, o seu carro foi encontrado abandonado junto a uma ponte, ganhando força a tese de suicídio, apoiada no passado de excesso de drogas e de problemas psiquiátricos que ele padecia. Nunca mais se soube do seu paradeiro. Era guitarrista, letrista e responsável pelo design dos Manic Street Preachers. A banda estava determinada a pôr um ponto final na sua breve carreira, mas a pedido da família de Richey continuou. E continuou muito bem: "Everything Must Go", o álbum que se seguiu, é uma homenagem a Edwards, ainda com cinco letras deste, e é talvez um dos melhores álbuns conceptuais do rock. Editou ainda o magnifico "This Is My TruthTell Me Yours", "KnowYour Enemy" e "Lifeblood". A sua vertente mais punk foi ficando para trás e começaram a construir uma excelente colectânea de canções pop-rock. Este ano lançaram "Send Away The Tigers" que tem no single de avanço um dueto com a vocalista dos Cardigans, Nina Persson, que fica aí em baixo para ouvir e apreciar o excelente vídeo/duelo. Uma última curiosidade: a banda continua a depositar um quarto dos direitos de autor na conta de Edwards, segundo eles, «para que um dia que Edwards volte…»
Há coisas que já são típicas do mês de Agosto português. Por mais que os governos mudem, que o tempo pregue partidas ou que a conjuntura seja adversa, o país será sempre invadido por turistas e emigrantes, os jornais publicarão os seus questionários e as fotos dos políticos a banhos em calção - o que era bem dispensável -, as cidades apresentam-se desertas e as praias cheias, as televisões transmitem os seus programas à beira-mar com artistas de gosto duvidoso, a blogosfera publica meio post por dia, os cronistas dizem mal da silly season porque esta não lhes dá temas fracturantes para opinar, há sempre uma banda de um país estranho que lança o hit de Verão e que nunca mais se ouve falar dela, as livrarias começam a preparar o regresso às aulas e, mais certo do que eu me chamar Carlos, em Agosto, o Sporting ganha a Supertaça. Há coisas que nunca mudam.
A paisagem começa a mudar. Continuamos no noroeste da Península, mas este já é o norte das montanhas e não dos montes, este é o Norte de um verde diferente do que se pode admirar pelo Minho e Galiza, este é um norte dos picos cónicos que imitam as formas dos seus cedros, assim como, quinhentos quilómetros atrás, os montes em meia lua retratavam as copas dos pinheiros. A condução começa a fazer mossa. Já não há o mesmo discernimento e as estradas são exigentes. São exigentes e recompensadoras: à nossa direita alta, os “Picos da Europa”, à nossa esquerda baixa, o mar. Ao longo de uma estrada serpenteante esculpida na pedra da montanha, começa-se a sentir o conforto da viagem finalizada, embora ainda faltem cerca de meia centena de quilómetros para o destino. Aproveita-se o cansaço para uma última paragem, descendo até uma arriba. Estacionamos, entramos num café e nem é preciso abrir a boca para notarem que somos estrangeiros. Quando é feito o pedido, as línguas colidem: o meu castelhano não permite uma dicção tão cerrada quanto a dos asturianos. Um pouco de maleabilidade linguística de ambos os lados, o entendimento surge e o pedido é satisfeito. Caminha-se um pouco para se desentorpecer as pernas e a concentração. Abeiramo-nos do fim da falésia para espreitar o mar e ele surpreende-nos: embora esteja lá em baixo, a vinte metros de altura, é com tal violência que as ondas embatem nas rochas, que, ao longo dos séculos abriram fendas nas escarpas, fazendo com que a sua respiração venha desaguar a nossos pés, transformando o chão que pisamos num sem fim de pequenos géisers e nascentes de água – chamam-lhe bufones.
São oito da tarde, quando se chega finalmente a Covadonga com o sentimento de dever cumprido e de prazer anunciado. Algum cansaço que possa existir desvanece-se perante tal paisagem. Não vou chamar para aqui de novo os poetas para dirimirem sobre paisagens e estados de alma. Digo apenas que depois de dez horas de condução tão cansativas quanto deslumbrantes, uma fabada regada com sidra é a única paisagem que reconforta o estado da alma.
Numa época em que o avião é preferido para as viagens, sempre que posso e a distância não é proibitiva, utilizo o automóvel. Com o conforto actual dos ditos, faz-se uma viagem com centenas de quilómetros sem ficar com o corpo todo moído e tem-se a enorme liberdade de ir visitando pequenas vilas, aldeias, gentes e paisagens que de outro modo não poderíamos conhecer.
Uma boa viagem de automóvel inicia-se sempre com três rituais: a constatação de que não houve tempo para fazer uma revisão ao carro; a inspecção das malas, para saber se não nos esquecemos de nada, sabendo nós que ao quilómetro cento e cinquenta da viagem vamos lembrarmo-nos que ficou para trás a única coisa que não podia nos podia faltar; e a quebra da promessa que às nove da manhã, em ponto, engrenaríamos a primeira velocidade: são dez e ainda as malas não estão fechadas.
O percurso até à primeira paragem é sempre feito em auto-estrada. Estamos frescos, suportamos melhor a concentração que uma maior velocidade exige e, de qualquer forma, escapamos mais rapidamente da paisagem que quotidianamente, para mal dos pecados, nos cerca. Quando a fome começa a apertar, decidimos mandar às malvas o que o viamichellin nos sugere, sai-se da auto-estrada e entramos dentro de Santiago de Compostela: onde já se viu comer uma tarte de Santiago numa estação de serviço? Come-se numa esplanada, situada nas labirínticas ruas da cidade velha e aprecia-se uma cena inolvidável: um artista de rua faz equilibrismo com umas bolas transparentes. Uma rodava na cabeça, outra nos braços, passa uma do ombro direito para o ombro esquerdo. E estamos nisto, quando sai disparado do meio da esplanada um cão que provocou o descer do pano do acto com uma praça cheia de bolas transparentes a rolar no chão em todas as direcções e igualmente preenchida pelos sorrisos de quem assistia a tão peculiar cena. E uma esplanada repleta de sorrisos é o melhor sinal de que estamos de férias.
O “mal” está feito e a responsabilidade assumida: sem viamichellin, estamos por nossa conta e risco. Aliás, por conta e risco do melhor GPS do mundo: perguntar às pessoas como se vai para. Mas não pensem que é só em Portugal que quando se pergunta uma direcção recebe-se quatro opiniões diferentes de duas pessoas. Isso é uma epidemia mundial. A partir daí segue-se para Lugo. São cerca de cem quilómetros até mais uma das imensas cidades dentro de muralhas romanas que existem no noroeste ibérico e, também como Santiago, com uma majestosa catedral. No entanto, aquilo que mais me recordo de Lugo é de uma rua que era tão simples e tão, perdoem o regionalismo, castiça, que achei que todas as ruas deveriam ser assim. A um canto um saxofonista arrancava um What a Wonderful World, do outro lado, uma vendedora de recuerdos pescava os olhos dos transeuntes para os caçar, as pessoas caminhavam ao ritmo da música e as cores das lojas pareciam ter sido escolhidas por um pintor, tal o efeito de harmonia que o conjunto proporcionava. Fora das muralhas, o pior de Lugo: o trânsito. Ou melhor, as indicações de trânsito: penso que nunca demorei tanto tempo para sair de uma cidade como nesta. Sai-se de Lugo e entramos na maratona. Vão ser quatro horas de viagem até Gijon. Troca-se de CD, porque, como é sabido, não há uma única estação de rádio em toda a Espanha que não passe a Ágata lá do sítio, e, embora Pessoa tenha contrariado aquilo que Amiel disse, “a paisagem é um estado de alma”, colocando-a nos termos de que um estado de alma é que é uma paisagem, não há poetas nem estados de alma que contestem a percepção de que a paisagem começa a mudar.
Não perca o emocionante epílogo desta blogonovela de viagens
Este blogue já teve três ou quatro contadores de visitas. As minhas obras no estaminé fizeram com que uns fossem substituídos por outros. Recomeçando sempre do zero. Isto para já não falar do tempo, cerca de dois anos, em que não havia contadores para ninguém. De qualquer forma, é sempre de assinalar quando se passa a barreira dos cinco mil visitantes. Como acaba de acontecer agora. Mas fica prometido: daqui a uns meses, mais umas obras e um contador novinho em folha a contar do zero. Carlos Malmoro
Leonard Cohen não tem só músicas melancólicas. Aqui fica uma canção para bater o pezinho. Quanto à letra, bem, a letra é um poema na mais alta acepção da palavra.
Ah we're drinking and we're dancing and the band is really happening and the Johnny Walker wisdom running high And my very sweet companion she's the Angel of Compassion she's rubbing half the world against her thigh And every drinker every dancer lifts a happy face to thank her the fiddler fiddles something so sublime all the women tear their blouses off and the men they dance on the polka-dots and it's partner found, it's partner lost and it's hell to pay when the fiddler stops: it's CLOSING TIME Yeah the women tear their blouses off and the men they dance on the polka-dots and it's partner found, it's partner lost and it's hell to pay when the fiddler stops: it's CLOSING TIME
Ah we're lonely, we're romantic and the cider's laced with acid and the Holy Spirit's crying, "Where's the beef?" And the moon is swimming naked and the summer night is fragrant with a mighty expectation of relief So we struggle and we stagger down the snakes and up the ladder to the tower where the blessed hours chime and I swear it happened just like this: a sigh, a cry, a hungry kiss the Gates of Love they budged an inch I can't say much has happened since but CLOSING TIME
I swear it happened just like this: a sigh, a cry, a hungry kiss the Gates of Love they budged an inch I can't say much has happened since CLOSING TIME I loved you for your beauty but that doesn't make a fool of me: you were in it for your beauty too and I loved you for your body there's a voice that sounds like God to me declaring, declaring, declaring that your body's really you And I loved you when our love was blessed and I love you now there's nothing left but sorrow and a sense of overtime and I missed you since the place got wrecked And I just don't care what happens next looks like freedom but it feels like death it's something in between, I guess it's CLOSING TIME Yeah I missed you since the place got wrecked By the winds of change and the weeds of sex looks like freedom but it feels like death it's something in between, I guess it's CLOSING TIME
Yeah we're drinking and we're dancing but there's nothing really happening and the place is dead as Heaven on a Saturday night And my very close companion gets me fumbling gets me laughing she's a hundred but she's wearing something tight and I lift my glass to the Awful Truth which you can't reveal to the Ears of Youth except to say it isn't worth a dime And the whole damn place goes crazy twice and it's once for the devil and once for Christ but the Boss don't like these dizzy heights we're busted in the blinding lights, busted in the blinding lights of CLOSING TIME
The whole damn place goes crazy twice and it's once for the devil and once for Christ but the Boss don't like these dizzy heights we're busted in the blinding lights, busted in the blinding lights of CLOSING TIME
Oh the women tear their blouses off and the men they dance on the polka-dots It's CLOSING TIME And it's partner found, it's partner lost and it's hell to pay when the fiddler stops It's CLOSING TIME I swear it happened just like this: a sigh, a cry, a hungry kiss It's CLOSING TIME The Gates of Love they budged an inch I can't say much has happened since But CLOSING TIME I loved you when our love was blessed I love you now there's nothing left But CLOSING TIME I miss you since the place got wrecked By the winds of change and the weeds of sex
Mais um recorde batido na abstenção. Os analistas afirmam que tal é resultado da [baixa] qualidade dos políticos, dos [fracos] hábitos de democracia dos portugueses, do enorme desfasamento que há entre a quantidade de queixas que os cidadãos fazem e a sua participação efectiva em escrutínios que validem tais reclamações. Embora subscrevendo em parte, tenho para mim que tanta abstenção resulta mais de um sistema que prende o cidadão à sua freguesia se quiser votar. Democracia deve ter como sinónimo liberdade, mas no dia de eleições, o dia maior das democracias, um cidadão tem de ficar «preso» durante dez minutos na sua freguesia. É impensável que em pleno século XXI eu não possa exercer o meu direito de voto no Algarve, em Vila Real ou no estrangeiro.
Um paralelismo interessante de estabelecer é com o meio financeiro: eu posso transferir todo o meu dinheiro, aqui e agora, para quem me aprouver. Mas se fosse dia de eleições e estivesse fora da minha freguesia, seria mais um a engrossar os números da abstenção. Actualmente, há meios electrónicos e informáticos seguríssimos, capazes de asseverar que a máxima «um Homem um voto» é respeitada e até melhor preparados para a detecção de fraudes eleitorais do que pelo tradicional caderninho. Como este é um Governo tão embeiçado pelas novas tecnologias, acho que o que de mais importante poderia fazer pela democracia era dotá-la de uma logística que garantisse que todos os cidadãos que quisessem votar o fariam. Porque uma democracia que exista para servir os cidadãos será sempre mais participada e mais legítima do que uma que se serve deles.
Ontem, sexta-feira, no jornal da tarde de uma qualquer TV, enquanto almoçava, era apresentada uma reportagem acerca das filas enormes que se juntaram para apresentar as candidaturas ao ensino superior. Portanto, pela amostra, os portugueses de amanhã, serão iguais aos de ontem e de hoje: deixam tudo para a última hora. Mas o mais trágico não é isto. O mais desesperante é que perguntaram a alguns alunos porque fizeram o processo de candidatura pelas vias normais e não pela internet e três deles disseram que assim poderiam ter quem os ajudasse a preencher a ficha porque esta "era complicada".
Eu tive acesso à ficha. A mesma era composta por um cabeçalho onde se pedia nome, morada e BI, um corpo para os códigos dos estabelecimentos/curso onde iam concorrer e um rodapé para perguntar se havia pré-requisitos para o curso e para assinarem. Desdobrando isto, no cabeçalho não havia dificuldade nenhuma. Para preencher o corpo bastava consultar os códigos que vinham no livro que acompanhava a ficha de candidatura e no rodapé bastava assinar e dizer se tinham concorrido a cursos que exigissem pré-requisitos, informação que também constava no tal livrinho.
Se um aluno que estudou 12 anos, fosse em que área fosse, não tem capacidade para preencher uma ficha destas, não merece entrar num curso superior. Mesmo com média de vinte, o preenchimento daquela ficha é tão primário que não se percebe como um aluno consegue acabar o secundário com positiva. E não estou a ser elitista em relação ao ensino superior, bem pelo contrário, estou a pedir o mínimo dos mínimos. Para finalizar quero apenas dizer que desta vez a culpa não é da ministra, nem do ministério, nem dos professores, nem dos pais, nem dos alunos. A culpa não é de ninguém e é de todos. Portanto, sendo Portugal o país que mais dinheiro investe na Educação em percentagem do PIB na UE, mais vale desistirem de tentar educar ou formar quem quer que seja e dedicarem-se todos, alegramente, à plantação de beterraba.
Adoro a noite. Não as discotecas, nem os bares, nem grandes programas. Claro que faço isso, mas pontualmente. Adoro estar aqui por casa, ler umas páginas de um livro, ouvir uma música, pensar em coisas vãs, vaguear da sala para o quarto e do quarto para a sala. Adoro este silêncio acompanhado do trabalhar do frigorífico, estes breves momentos antes de me deitar, o teclar compassado, a escrita em folha branca com caneta preta. Sonho poder estar mais tempo por aqui. A esta hora. A escrita flui lisa, o pensamento caminha sereno, as emoções flutuam íntimas. Não há nada que não seja possível à noite. Na minha noite, posso imaginar-me como guarda nocturno ou dizer uma palavra com catorze letras num dialecto estranho. Na minha noite, posso imaginar que «circum-navegar as rosas» daria um excelente verso em qualquer poema. Na minha noite, posso imaginar que as «rosas» são quem simpática e despretensiosamente me diz coisasdestas. Escrever um post à noite, dedicá-lo a quem muito o merece e, por um perpétuo momento, ter a mais inabalável certeza de que o virtual é real. É por isto que adoro a noite.
Escrever sobre um lugar que não se conhece é sempre mais estimulante que escrever acerca de um sítio que já se visitou. Por vezes, o conhecimento coarcta a imaginação. Somos tentados a descrever em vez de escrever, e para isso já existem os guias de viagem. Não conhecendo eu o Neuschwanstein, não tive dificuldade nenhuma em “defendê-lo”. Fiz a pesquisa que achei necessária para não cair em nenhum erro factual, e para melhor sustentar aquilo que já dele sabia. O castelo está implementado na região da Baviera, que visitarei pela primeira vez em Setembro, aquando de uma viagem a Munique.
Estarei por lá numa altura em que se realizará a Oktoberfest, talvez a maior festa de cerveja do mundo, que, como se sabe, é a oitava maravilha da Humanidade. O desejo deste destino e não de outro surgiu na minha infância. Comecei muito cedo a ouvir falar da Baviera, por ser o importador oficial dos BMW’s, passe a publicidade, e de Munique, por causa da equipa de futebol lá do sítio. Um dia, o meu pai já cansado de me ouvir perguntar onde ficava essa região e, mais insistentemente, a pedir-lhe para ver o lugar, lá me ofereceu um livro sobre a Alemanha. Aquilo que, talvez para a paciência de santo do meu pai, foi a forma de acabar com a minha curiosidade, para mim foi o alimento ideal para o bichinho.
No entanto, os anos foram passando, a memória esmorecendo e a oportunidade adiada. Até que, recentemente, dois «eventos» culturais tiraram do sótão da memória a curiosidade esquecida: um filme e uma música. O filme chama-se, naturalmente, Munich, é de Steven Spielberg, e que, talvez por não mostrar grandes planos da cidade me fez imaginar como ela seria. Mas é à música que cabe grande parte da culpa de ter reavivado um sonho de infância: primeiro, porque surgiu antes do filme e, portanto, quem primeiramente reanimou a memória desse tal desejo; depois, porque gosto da banda e da forma como a interpreta, e estas afinidades podem sempre levar a fazer algo mais por uma canção do que simplesmente comprar o disco; finalmente, porque a canção tem dois versos e uma verdade que me fariam ir ao fim do mundo para conhecer o objecto de inspiração deles:
Imagino que não deverá ser fácil pronunciar-se uma palavra com catorze letras sendo que nove delas são consoantes. Se para uma pessoa que não entende alemão, como é o caso, aquela palavra parece ser o insulto mais grave que se pode proferir contra alguém, já para um entendido em germânicas, Neuschwanstein significa «Novo Cisne de Pedra».
Foi construído por um homem, o rei Ludwig II, que tinha o vício de construir castelos. Nesta sua paragem, decidiu arquitectar um castelo que homenageasse as óperas de Wagner, com formas de castelo de cavaleiros, vulgo, conto de fadas, e que fosse uma obra com o máximo conforto, tendo para isso recorrido a algumas inovações para a época onde se incluíam telefone, elevador ou aquecimento central, ressalvando, obviamente, o significado que se podem atribuir a esses conceitos numa construção do século XIX. Porém, como tantos outros vícios em tantos outros homens, também este levou à ruína do adicto. Ludwig II apareceu morto num lago, não se sabendo ainda hoje se foi morto ou se suicidou quando compreendeu que estava arruinado. Deixou uma obra a todos os níveis admirável quer pela sua beleza, é o símbolo máximo do conceito de castelo de fadas, tendo servido de inspiração à Walt Disney para conceber o seu logotipo, quer pela inteligência utilizada para inovar no seu conforto.
O que me leva a terminar este arrazoado com uma pequena observação. Na caixa de comentários do post sobre a lista das minhas sete maravilhas favoritas, um leitor chamava-me à atenção para o facto de o Castelo de Neuschwanstein ser, digamos, pouco representativo para ser considerado uma delas. Permita-me que discorde. Entendo, aliás, que é aí que reside grande parte do meu interesse pela obra: não foi construído para representar nada, não tem nenhum significado escondido, não teve utilidade porque foi edificado, como diz a apresentação no site das sete maravilhas, numa época em que já não se utilizavam os castelos como meio de defesa de uma cidade. Foi feito apenas pelo sonho e imaginação de um homem alienado que quis erigir e deixar como legado algo que ele entendia como belo. E se a capacidade de conceber algo formalmente belo é exclusiva do ser humano, mais humana ainda é a capacidade de o apreciar. E isto também é válido para os mamarrachos.
O irresponsável perdeu. O responsável, adivinhem, ganhou. O adolescente saiu de cabeça baixa, enquanto o adulto, de cabeça bem erguida, falava com um cliente do Canadá durante uma interminável hora. A gravata levou a melhor sobre a T-shirt. A programação ultrapassou a improvisação. E foi assim que a sala onde escrevo este post se substituiu ao Parque Tejo para presenciar a melhor e maior catarse musical colectiva que poderia assistir neste planeta:
Os post's acabaram. Agora escrevemos e publicamos mensagens. Para um indivíduo que anda nisto há quatro anos, a mudança lexical do blogger é sentida como uma traição. Não se faz. Já não postamos, mensajamos. No topo esquerdo do ecrã onde estou a escrever este post, perdão, esta mensagem, aparece-me «Envio de mensagens». A quem?
1 - Poetas Russos - Colectânea - Tradução e Prólogo de Manuel de Seabra; 2 - O Retrato do Sr. W.H. - Oscar Wilde; 3 - Insânia - Hélia Correira; 4 - Peregrinação de Barnabé das Índias - Mário Cláudio; 5 - Em Busca do Tempo Perdido - 6. A Fugitiva - Marcel Proust.
Como é hábito nestas iniciativas, é a minha vez de convidar cinco blogues/bloggers para elaborarem as suas listas:
A minha Ericeira é uma parte da minha adolescência. O mar da minha Ericeira riu-se de mim quando tentava aprender a surfar e aplaudiu, tenho a certeza, a minha decisão de nunca mais o fazer. A minha Ericeira é frequentar o bar de Ribeira d'Ilhas e perceber que um olhar muito "em cima" pode deitar por terra um "trabalho" de sedução começado há horas, por vezes dias, a uma cachopa. A minha Ericeira é o sítio de descanso no meio do treino de ciclista: Sintra, Lourel, Terrugem, S. Julião, Ericeira, pausa para restabelecer, retomava em direcção a Mafra, Cheleiros, Pero Pinheiro, Terrugem, Lourel e Sintra, de novo, mais morto que vivo, depois deste calvário com cerca de cinquenta quilómetros, tão plano quanto uma montanha russa. A minha Ericeira sabe que já tomei banho nu, à meia noite, no seu mar. A minha Ericeira tem a memória vergonhosa, que guardou em absoluto segredo, como boa amiga que não troça dos seus companheiros, do ataque de tosse provocado pelo primeiro cigarro que tentei travar. A minha Ericeira tem uma extraordinária qualidade: não há nenhuma parte dela que eu possa considerar como não sendo a minha Ericeira.
Uma pessoa pode gostar do mesmo que @ companheir@. Ou, por aproximações afectivas, pode passar a simpatizar com aquilo que lhe é agradável. Mas deixar de se apreciar uma música, um escritor ou uma cidade por a outra não gostar, isso já não é amor: é subordinação.
«But I remember us riding in my brother's car Her body tan and wet down at the reservoir At night on them banks I'd lie awake And pull her close just to feel each breath she'd take Now those memories come back to haunt me They haunt me like a curse Is a dream a lie if it don't come true Or is it something worse?»
Através deste blogue, tomei conhecimento que o antigo Presidente Francês que, entre outros cargos, também foi responsável pela condução dos trabalhos com vista à criação de uma Constituição Europeia, abriu um blogue que se debruçará sobre os problemas e os desafios da UE. Três coisas interessantes: a primeira, que um político de tamanho prestígio abra um blogue; segundo, que o faça com a bonita idade 81 anos de idade; terceiro, que o referido blogue tenha uma caixa de comentários aberta, sem qualquer tipo filtros ou de pré-visualização dos mesmos - eu confirmei com a frase que dá título a este post - e que um dos últimos posts seja uma resposta a um desses comentários.
Depois lembrei-me da elite blogosférica portuguesa: raramente tem caixa de comentários, e quando a tem, só depois de pre-visualizados os comentários, à boa maneira da censura, são publicados. Para além disso, mesmo os que não a têm, passam a vida a queixar-se de que as caixas de comentários são um antro de escumalha que vai ali ofender-se mutuamente, sem que nada acrescente ao debate das ideias. Em meu entender, o que verdadeiramente acontece é que essa elite não suporta que alguém pense fora da cartilha, que não lhe faça uma vénia e lhe estenda a passadeira vermelha pelo seu brilhantismo, e para alguns, pensar diferente é ofender.
E é assim que aos 81 anos, Valéry Giscard d'Estaing, o senhor em causa, acaba por dar uma bonita lição de liberdade aos presumidos iluminados de meia idade portugueses: não é livre de espírito quem quer mas quem sempre o foi.
Uma letra estranha, de uma estranha banda que responde pelo estranho nome de Bizarra Locomotiva. E, estranhamente ou não, desde a saída de A. Teixeira para formar os Balla, nunca mais soube não estranhar o ruído.
Talvez o nome «Joelho de Porca» não seja uma designação que augure grande requinte à cozinha de uma cidade. E «Crista de Galo» também não é um nome que proponha uma doçaria atractiva. Porém, a poesia dos menus mostra-se amiúde surpreendente. No bom e no mau sentido. Nestes assuntos, o melhor é seguir o conselho dos comensais para regalo das pupilas gustativas. E nos casos indicados, elas regalam-se bem.
Talvez Vila Real tenha um erro crasso de arquitectura luminosa e um acerto clamoroso da mesma. O primeiro manifesta-se na cobertura do centro comercial Dolce Vita. Imaginem uma grande superfície com uma cobertura trapezoidal que se ilumina massivamente de azul à noite. Exacto, parece que um Ovni aterrou no meio da cidade. Não havia necessidade.
Mais do que a arquitectura do edifício, dos jardins ou da História, quando se fala na Casa de Mateus deve falar-se no clamoroso acerto da sua luz. A que se espraia nas paredes do mesmo, a que reflecte a sua fachada no lago, a que ilumina os seus jardins. Talvez por isso a Casa de Mateus seja, na realidade, um Solar.
Vila Real não tem o Marão. Tem apenas a Serra do Alvão. A Serra do Marão é mais imponente, mais icónica, mais paradigma de paisagem montanhosa. Mas ao caminharmos por lá, não nos apercebemos da sua grandiosidade. É, portanto, necessário subirmos ao Parque Natural do Alvão. E só então, só quando chegamos lá acima ao Pincho, podemos realmente apreciar o Marão na sua magnitude e, de caminho, legitimar Torga quando dizia que as duas únicas coisas realmente grandiosas em Portugal eram o Alentejo e Trás-os-Montes.
Carlos Malmoro
Existe um centro sem trânsito e, à sua volta, existe ainda o centro mas já com trânsito. Depois existe um anel de habitações, escolas, comércio e equipamentos de lazer. As vias-férreas, as circulares que distribuem o trânsito e as entradas/saídas das auto-estradas formam um outro círculo. Finalmente, existe a cintura industrial e estamos de volta à paisagem de montanha, salpicada com pequenas aldeias.
Guimarães é um exemplo de ordenamento do território. Como acima descrevi, as várias componentes da cidade estão organizadas de modo correcto. E a organização de uma cidade influi em muito na qualidade de vida que oferece aos seus cidadãos. E Guimarães prova-o, sendo das cidades portuguesas com mais qualidade de vida. Porque, como é óbvio, não ter uma auto-estrada a atravessar uma zona residencial ou uma fábrica colada a uma escola faz diferença.
Estas observações não foram feitas por nenhum entendido em matéria paisagística. Não o sou. Mas basta subir à Penha – de carro, para os adictos do conforto como eu; a pé ou de bicicleta, para os indefectíveis da Natureza; ou de teleférico, para os aventureiros – mas basta subir à Penha, dizia, para se confirmar, com uma simples olhadela à cidade, que ela prima em se mostrar muito organizada. Se em Guimarães nasceu Portugal, era bom que em Portugal começassem a nascer mais cidades como Guimarães: arrumadas.
Para finalizar, quero esclarecer que não falei na importância cultural do seu centro ou na relevância histórica do seu Castelo por uma razão muito simples: dissertar sobre um Património Cultural da Humanidade ou sobre o Berço de uma Nação não é matéria que se possa explanar num único post. Ficam, por isso, as fotos.
que o ministro compara a margem sul a um deserto, que um juíz decide que uma criança violada por um pedólfilo teve prazer, que a greve geral teve 14% de adesão para o Governo e 80 e muitos para os sindicatos, que Sócrates fechou a Praça Vermelha para o seu jogging diário, que os erros de ortografia são permitidos em provas de português e que volta à agenda a obrigação patética de os pais declararem cada quinhentos euritos que oferecem aos filhos, logo agora, dizia, é que eu tinha de ficar impedido por obrigações académicas, que me levam o tempo todo até à última semana do presente mês, de comentar estas suculentas barbaridades.
Sem desesperos: lá chegados, haverá iguais ou piores.
É um retrato dostoievskiano de Las Vegas e de duas vidas. O contraste entre a ofuscante miríade de neons que saturam as ruas e o desejo de duas almas perdidas, mas dispostas a atingir os seus objectivos. Uma ambiciona beber até morrer. Outra viver a vida de prostituta. Quando se cruzam, prometem não julgar nem interferir com as escolhas de cada uma. Gozam um pouco da vida para desforrar o que pensam que a vida gozou com elas. No final, ambas conseguem alcançar os seus objectivos.
Um filme sombrio, melancólico e nocturno na incandescente, faustosa e nocturna Las Vegas, de Mike Figgis, com excelentes interpretações de Nicholas Cage e de Elisabeth Shue.
E só naquele momento, só quando ele começou a acelerar o passo na minha direcção, é que eu me apercebi que talvez, só talvez, tenha sido uma péssima ideia trazer o carro vermelho para um sítio a mais de dois mil e quinhentos metros de altura, servido por estradas estreitas, ladeado de ravinas de centenas de metros e cheio de animais com fobia a essa cor.
Hoje, se há realizador capaz de fazer brilhantes filmes em série, ele chama-se Clint Eastwood. Há algo no seu mister que transforma tudo aquilo que realiza em monumentos ao cinema. A fórmula parece simples: tem predilecção por cenas simbólicas, épicas, jogos de sombra/luz, os protagonistas não são heróis que salvam meio mundo, mas apenas pessoas, com algumas forças e imensas fragilidades. Embora não representando o estereótipo de herói, existem quase sempre três qualidades nos actores principais: a dignidade de jogar limpo, a honra de saber perder e a fleuma de saber ganhar.
Um dos aspectos que tem vindo a ganhar importância na indústria do cinema é o argumento do filme. Para se ter uma ideia do que afirmo, basta constatar que há algumas décadas o Óscar para Melhor Argumento era entregue ainda a cerimónia ia a meio, no meio dos chamados Óscares técnicos: sonoplastia, efeitos especiais, guarda-roupa, etc. Actualmente, é o antepenúltimo a ser entregue, imediatamente antes da estatueta para Melhor Filme e Melhor Realizador. Além disso, os bons argumentistas são tão disputados como as grandes estrelas ou os bons realizadores.
Clint Eastwood ancora sempre os seus filmes a memoráveis estórias. Argumentos bem engendrados, simples, com aquela moral de que a vida dói sempre, mesmo aos mais audazes. Filma permanentemente com uma aura de melancolia, de pessoas que já viveram os seus quinze minutos de fama, não da fama vã, mas daquele momento único que acontece quando realizamos um sonho. E é isso que Clint Eastwood essencialmente é: um realizador de sonhos.
Obrigado por este elogio. Só passado um mês lhe agradeço, porque verifiquei no technorati a sua citação. Ajudou-me a confirmar que os leitores que por aqui andam são muito generosos. Levanta a questão de meu blogue ter menos tráfego do que outros que supostamente só abordam temas sexuais. Sei que hoje em dia há sempre mais audiências se se falar de sexo, e de namoros interrompidos, e de tampas, e de recomeços, e de one-night-stands... Os últimos lançamentos editoriais de blogues provam-no. Acontece que, nessas questões, eu sou o tipo mais aborrecido do país. Amo-a. Ponto. Não há lamechice nem qualquer tipo de altivez moral nesta afirmação. Apenas constato a verdade, a minha verdade. E faço questão de frisar que é a minha verdade porque se trata de um blogue pessoal. E eu, a breves dias de fazer trinta e três, não vou mudar para ter mais audiências. Aliás, se por um passe de magia me oferecessem 3000 leitores diários, eu ficava todo contente. Tinham era de me garantir que os trinta que tenho se mantinham. É que são esses que me vão dando o ânimo, que por vezes esmorece, para continuar ao fim quase quatro anos de blogue. Espero que não entenda este discurso como um «pobrezinho mas honrado», que abomino, mas como a assumpção de que um blogue «recheado de qualidade» faz-se essencialmente pela qualidade dos seus leitores. Como é o seu caso e dos outros vinte e nove diariamente por aqui passam.
Obrigado por esta distinção. Honra-me. Não entrei no jogo porque me pareceu injusto. Primeiro, temos a questão da quantidade, mas essa já foi devidamente abordada nesse teu post. Depois, e o mais importante, porque um bom blogue não é só aquele que me faz pensar, mas também aquele que me diverte, que me emociona, que me distrai, que simplesmente está bem escrito e, por vezes, acho-o um bom blogue porque tem um certo ambiente. Finalmente, porque há uma tendência para se votar em blogues que sejam sérios, do sistema. E nem sempre quem tem audiências de milhares e escreve em jornais é sério ou, por outras palavras, «faz pensar» pelas razões correctas. Desmistifico metaforizando: por altura da polémica sobre Salazar, houve tantos disparates técnicos na abordagem aos assuntos económicos, leviandades de quem não percebe nada do que está a dizer, confusões entre conceitos económicos distintos, mentiras, mesmo, ditos nesses blogues para justificar a «genialidade» económica do homem que fez com que eu deixasse de ler certos opinion-makers. Repara, não se tratava de, perante um copo a meio, afirmar que ele está meio cheio ou meio vazio. Isso é uma questão de perspectiva e nada tem de mal. Era perante um copo vazio, afirmar-se que ele estava cheio. E isso já não é opinião, é desonestidade intelectual. É certo que no outro blogue onde somos colegas entrei no jogo. Aqueles em que votei foram blogues do «sistema» que eu acho interessantes. Mas também é bom lembrar que estávamos condicionados à partida pelo regulamento interno, caso contrário teria votado, com muito mais propriedade, no teu.
Há dias, fases, momentos, nadas na vida em que temos de «pôr uma abaixo». Na condução, como muito bem sabemos, «pôr uma abaixo» significa uma redução de caixa, que tem como efeito imediato uma diminuição da velocidade do carro. Continuando a analogia, a vida quotidiana não se compadece com reduções de velocidades. Obriga-nos a andar sempre em quinta a fundo, sem tempo para analisar as curvas, os cruzamentos e todos os sítios de perigo acentuado, a distância ao próximo é reduzida, sempre em risco de colisão com este, e as rectas, aqueles locais onde se poderia desfrutar mais a condução, tentamos ultrapassá-las o mais rapidamente possível.
Mas se a redução de velocidade do veículo como consequência de meter uma abaixo seja o aspecto mais visível, imediato e indesejável desta manobra, ela dá-nos mais segurança, mais força e o carro fica com os pneus mais assentes na estrada. O que se perde em velocidade, ganha-se na segurança para abordar os perigos da vida e da estrada, em mais força para evitar a colisão com o próximo e os pneus colados aos asfalto dão-nos garantias de que podemos usufruir dos momentos prazeirentos da condução e da vida.
Exceptuando os casos em que só se conduz o carro e a vida em primeira velocidade (nesses casos é porque não se sabe guiar nem viver sem medo), sou um apologista que se deve realizar amiúde esta acção. Quando o trabalho sufoca, «meter uma abaixo» significa fazer menos trabalho, mas fazê-lo melhor; quando estamos no limiar de uma discussão sem sentido com a “pessoa”, «pôr uma abaixo» significa trocar um pouco da nossa «razão» pela segurança de continuar a tê-la ao nosso lado; e quando estamos a gozar umas férias, reduzir de velocidade significa trocar a ânsia de ver tudo por reparar nalgumas pequenas mas deliciosas coisas que sejam memoráveis. Faz-nos falta pôr uma abaixo mais vezes. Na condução e na vida.
Na passada semana estiveram uns lindos dias de sol. E no fim-de-semana uns excelentes dias de chuva. Esta semana será diferente: estão uns excelentes dias de sol durante a semana e vão estar uns lindos dias de chuva no fim-de-semana. O que eu pergunto é: onde estão a ASAE e a DECO quando realmente precisamos delas?
Carlos Malmoro
PS: Reclamar do tempo meteorológico num blogue significa o mesmo que numa relação amorosa? Ou seja, que já não há mais nada para se dizer?
Sempre achei curioso que em Portugal existam "mais" professores no Min. da Educação do que a dar aulas, mais funcionários no Min. da Agricultura do que agricultores e mais polícias na secretaria do que a patrulhar as ruas.
As taglines são expressões que servem de subtítulo ao filme. Estas frases – aqui seria bem mais apropriado o uso da palavra inglesa «sentence» - estas frases, dizia, estão para os filmes como as epígrafes estão para os livros: levantam a ponta do véu, criam ambiente, aguçam a curiosidade. Encontram-se nos anúncios promocionais da estreia do filme ou, já depois de lançados em DVD, nas respectivas capas. Nunca vi um filme que ousasse colocar uma tagline no início do filme, mas penso que isso irá acontecer mais dia, menos dia. Por uma simples razão: imagine-se numa sala escura, pronto para ver o filme, e no ecrã aparecia esta frase: «Tom Stall tinha a vida perfeita… até se tornar um herói.». Diga lá, caro leitor, se não ficava mais empolgado com o início do filme [Uma História de Violência]?
Numa indústria/arte de excessos, escândalos, papéis épicos e patéticos, cenas inolvidáveis e menos aconselháveis, representações hilariantes e pejadas de "pathos", sempre vai havendo quem faça do low profile a sua imagem de marca. A actriz Catherine Keener é uma dessas excepções. Representa de uma forma muito objectiva, simples, parece ser fácil fazer aquilo que faz. Vi-a em «Queres ser John Malkovich?», «A Intérprete», «S1mOne» e em «Capote». Em todos eles, mesmo quando o filme era mauzito, vi competência, vi sobriedade, vi excelência sempre em actuações em low-profile. Dá gosto ver e apreciar. Além disso, é uma mulher que não tendo uma beleza transcendental, é simples e pragmaticamente bonita. Que também dá gosto ver e apreciar. Quando lhe perguntaram porque não tinha papéis mais marcantes ou porque não concorria para castings de personagens mais destacados, respondeu, simplesmente, que não tinha nascido para ser estrela. É pena.
Como é bela a deusa do meu céu Actriz de ralé No meu mausoléu de ninfas da maré Faz dança do véu Com um sururu de se tirar o chapéu
A feliz garça com o seu girar Transmuta por dom o meu lupanar Em casa de bom tom
Angélico altar Onde o varonil tem gosto em capitular
Bem vindos ao meu bazar Propõe chás do Sião, pepitas do Brasil, joias da Pérsia Morfina Não perdes nada em entrar Vem ver a actuação, o exótico pernil, a doce inércia
A morfina
É tão quente a raça do seu ser Seu jeito fatal de dar a entrever O gozo sensual O mole prazer Que a carne retêm depois de esmorecer E sem mais me deixa suspirar Na maior nudez que venha a rodar A ter ser minha vez Os braços no ar Que me faça vir na graça do seu picar
Adolfo Luxúria Canibal é o autor desta letra e é, igualmente, um dos melhores letristas portugueses, empatado com Carlos Tê (noutro registo).
Há alguns dias, andava eu em deambulações profissionais pelo Porto, quando um casal de turistas franceses abeirou-se de mim para me perguntar onde ficava a estação de metro mais próxima. Eu, como bom português que sou, facilitei-lhe a vida e respondi em francês. Indiquei-lhe o caminho, desejei ao parzinho uma boa estadia (temos de preservar o turismo, mesmo o dos franceses que andam de metro...) e despedi-me. Nisto vejo o homem muito espantado a perguntar se eu sabia falar francês. Um pouco, respondi-lhe eu. Se já tinha sido emigrante foi a pergunta que se seguiu. E eu lá disse que não, que era mesmo francês da escolinha. Agradeceu e desapareceu.
Esta pequena estória serve para legitimar um pouco mais o que eu penso, dos franceses. São um povo que se julga superior, arrogante q.b., que pensa que a Europa é constituída pelas suas Luzes e pelas trevas dos outros, que tentam à saciedade iluminar com a sua cultura infinitamente mais humana, e que entendem que um português é alguém que sabe lavar escadas e nunca alguém capaz de balbuciar onde fica uma estação de metro na melhor língua do mundo: a deles.
Talvez por isso concorde com Vasco Pulido Valente quando diz no Público de sexta-feira que «Apesar da cosmética, ele [Sarko] e Ségolène vivem noutra era e, no fundo, não importa muito qual dos dois se aplicará agora a conservar o “arcaísmo francês”». A França quer criar um directório para a Europa, onde mande ela, claro, pois só ela encarna o espírito europeu; quer criar uma União Mediterrânica, para dominar o Oeste Europeu, quando ainda não se apercebeu que dentro desse Mediterrâneo há um país [Espanha] que já «conta mais» internacionalmente, em alguns aspectos realmente importantes, do que a França, e quer ser amiga dos norte-americanos «porque sim», mas parece esquecer-se que, quer entre homens quer entre países, uma relação de amizade tem por base a confiança e essa não se conquista com palavras doces depois de desconfianças de décadas.
Para a economia, temos a ideia peregrina de um proteccionismo semelhante ao francês (com os resultados brilhantes que se conhecem) aplicado a toda a Europa, e não se fala uma vez que seja dos coitados e miseráveis agricultores gauleses que são os que mais dinheiros recebem desse saco sem fundo chamado PAC.
Não me interpretem mal, sei que a França é um grande país, tenho alguns bons amigos franceses, petulantes para com Portugal, claro, mas bons amigos, gosto de alguma cultura francesa, e há muitos filmes franceses protagonizados pela Mónica Bellucci. Não suporto o som e o gesticular da língua deles, é certo. Mas isso não chega para me considerar francófobo. O problema da França é que não teve ninguém que lhe mostrasse um espelho. Que lhe dissesse que antes de conquistar a admiração do mundo, tem de conquistar a admiração dos franceses e que antes de se tornar um país relevante para os outros, tem de ser o país dos franceses. Enquanto isso não suceder, enquanto não arrumar a casa, será sempre considerada como o vizinho quer administar o prédio sem saber administrar o seu próprio lar.
Talvez inspirado em coisas sem sentido retratadas neste post da Leonor, trago hoje à colação David Lynch. Ressalvo que não sou um fanático das obras dele, e não penso, sequer, que qualquer coisa assinada pelo senhor constitua um novo paradigma da sétima arte. Os filmes recentes de Lynch pouco ou nada me dizem. Não que eu ache que são desmerecedores da «marca» Lynch; penso é que ele trilhou caminhos que não me apetece seguir... Vou falar de três obras dele: dois filmes e uma série.
A série, como já terão percebido, é Twin Peaks. Todas as séries de culto que hoje se idolatram começaram em 1990. O terrível homicídio da jovem Laura Palmer leva a Twin Peaks uma equipa do FBI para investigar o caso. À medida que a investigação avança, e os habitantes são confrontados com alguns resultados da mesma, os sentimentos, os laços familiares, as cumplicidades, enfim, tudo o que aproximava as pessoas naquela pequena cidade de 51201 habitantes, convertem-se em desconfianças, inseguranças, acusações. Um excelente exercício que nos prova que uma sociedade pode estar em guerra sem o uso de armas (físicas). E depois aquela banda sonora: mesmo que não víssemos a série, aquelas quatro notas de baixo com orquestração por trás seriam suficientes para explicar o que se estava ali a passar.
«Um Coração Selvagem». É um filme cheio de agressividade, perseguições, de suspense, uma boa panóplia de assassinos contratados, obsessões por Elvis e pelo «Feiticeiro de Oz». Enfim, aquilo que poderia parecer surreal é apenas um «Romeu e Julieta» dos tempos modernos. Laura Dern, uma filha de uma milionária, apaixona-se por Nicholas Cage. A mãe dela não está pelos ajustes, não pelo facto de ele ser um perdido, mas porque também está deslumbrada por ele. Um filme que aconselho.
Finalmente, o melhor filme de Lynch. Acho que nunca ninguém filmou de forma tão intensa. Vi-o pelo primeira com dez anos e lembro-me de ter chorado como um perdido. É extremamente belo e brutal. É o filme da minha vida. Aquele em que aprendi que nada do que aparenta é. Saímos da sala com uma nova visão do mundo: neste filme, é a vida que representa o cinema. Saímos da sala a perguntar o que é um ser humano. A perguntar o que é ser humano. Foi nomeado para oito óscares, não ganhou nenhum. Como as personagens olharam com desprezo para o protagonista, também a academia olhou com desconfiança para uma obra invulgar. Chama-se «O Homem Elefante».